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A hipocrisia
A hipocrisia

 

 

 

 

HIPOCRISIA

 

 

 

Esboço:

 

 

 

I.             A Palavra e Suas Definições

 

II.           Referências e Ideias Bíblicas

 

III.         Exemplos Bíblicos de Hipocrisia

 

IV.         Um Emprego Filosófico Útil

 

V.           Todos os Religiosos são Hipócritas

 

 

 

I. A Palavra e Suas Definições

 

 

 

Essa palavra vem do verbo grego que significa «replicar». O substantivo era usado para indicar «aquele que replica» e no uso e desenvolvimento desse vocábulo, veio a assumir o significado de ator, partindo da ideia de que os atores replicam uns aos outros. Finalmente, o termo passou a significar «ator» quanto a coisas sérias, até adquirir o sentido moderno de «hipócrita». Essa palavra é usada por vinte vezes no Novo Testamento (sempre nos evangelhos sinópticos), sempre em mau sentido. Lucas usou a forma verbal por uma vez (Lc 20:20), com o sentido de «fingir». As autoridades religiosas profanavam a prática religiosa, transmutando-a em uma peça de teatro, chegando ao cúmulo de atrair as multidões, que aplaudiam o espetáculo que davam. E a recompensa delas era o aplauso que recebiam. 

 

No Antigo Testamento encontramos o termo hebraico hanep, que significa «poluído», «ímpio». A raiz dessa palavra, hnp, indica aquilo que é antagônico ao que é sagrado. Em algumas ocorrências dessa palavra, a Septuaginta traduz por hipócrita (como em Jó 34:20; 36:13), mas essa é apenas uma das traduções possíveis, não sendo o seu uso básico. Em Isaías 32:6, segundo a nossa versão portuguesa, o vocábulo hebraico khoneph é traduzido por «usar de impiedade». A raiz hebraica, acima mencionada, aparece em trechos como Jó 13:16; 15:34; 17:8; 20:5; 27:8; 34:30; 36:13; Pv 11:9 e Is 9:17. A ideia básica é a de alguém que usa de duplicidade, mostrando-se assim ímpio e insincero, culpado de levar uma vida fingida, hipócrita. 

 

hipocrisia consiste em fingir alguém ser aquilo que ele não é, como se estivesse representando ser melhor do que, na realidade, é. Essa é a base do falso orgulho. Alguém gostaria de ser algo significativo. Não sendo isso, o indivíduo apresenta ao público uma fachada de bondade que é falsa ou exagerada. Os sinônimos são a dissimulação, o farisaísmo, o fingimento e a falsa pretensão. O ludibrio sempre faz parte da vida ou dos atos hipócritas. 

 

«A hipocrisia é o ato de simular qualidades de personalidade, de caráter moral e de convicções religiosas ou outras crenças que, na verdade, não estão presentes no indivíduo, o qual assume uma aparência falsa. Se o termo hipocrisia é aplicado, no uso comum, à dissimulação deliberada ou à insinceridade intencional, não deveria ser limitada somente à ideia de um ludibrio consciente. Pois esse termo pode também aludir de modo coerente, embora nem sempre bem aceito, às distorções inconscientes de algum ideal professado, às discrepâncias ou incoerências não reconhecidas que prevalecem entre aquilo que os homens dizem defender, na teoria, e a qualidade de personalidade que eles demonstram na prática diária». (E)

 

 

 

II. Referências e Ideias Bíblicas

 

 

 

Oferecemos  uma completa  revisão  sobre as referências veterotestamentárias e seu uso, na seção I. No Novo Testamento, o termo grego upókrisis, «hipocrisia», aparece somente por sete vezes: Mt 23:28; Mc 12:15; Lc 12:1; Gl 2:13; I Tm 4:2; Tg 5:12; I Pe 2:1. O adjetivoupokritês, «hipócrita», figura por vinte vezes: Mt 6:2,5,16; 7:5; 15:7; 16:3; 22:18; 23:13-15,23,25,27,29; 24:51; Mc 7:6; Lc 6:42; 11:44; 12:56; e 13:15. Todos esses usos ocorrem nos evangelhos sinópticos, envolvendo, essencialmente, a denúncia de Jesus contra os líderes religiosos cuja espiritualidade não correspondia à ostentação deles em público.

 

 

 

Ideias Bíblicas:

 

 

 

Deus reconhece e detecta os hipócritas (Is 29:15,16); Cristo reconhecia-os e detectava-os (Mt 22:18); Deus não encontra prazer algum na hipocrisia (Is 9:17); um hipócrita não pode apresentar-se diante de Deus, esperando o seu favor (Jó 13:16); os hipócritas são cegos por sua própria vontade (Mt 23:17,19); os hipócritas são justos aos seus próprios olhos (Lc 18:11); e também apreciam a ostentação (Mt 6:2,5); e, além disso, são censuradores, condenando ao próximo (Mt 7:3-5; Lc 13:14,15); promovendo as tradições humanas, em vez da verdade divina (Mt 15:1-3); e requerem muitas práticas religiosas triviais, às quais emprestam um exagerado valor (Mt 23:23,24). Além disso, se exibem uma forma externa de piedade, não possuem a verdadeira espiritualidade (II Tm 3:5); professam a fé religiosa, mas não a praticam (Ez 33:31,32: Mt 23:3; Rm 2:17-23); falam sobre coisas grandiosas, mas seus atos não correspondem àquilo que dizem (Is 29:13; Mt 15:8). "Gloriam-se nas meras aparências (II Co 5:12); insistem em ter privilégios especiais (Jr 7:4; Mt 3:9). Outrossim, oprimem aos incapazes (Mt 23:14); apreciam ocupar lugares proeminentes (Mt 23:6,7); a adoração deles não é aceita por Deus (Is 1:11-15); procuram destruir outras pessoas com as suas calúnias (Pv 11:9). A hipocrisia está ligada à apostasia (I Tm 4:2); impede o crescimento na graça divina (I Pe 2:1). Há um «ai» pronunciado contra os líderes religiosos hipócritas (Mt 23:12); o castigo divino aguarda por esses (Js 25:34; Is 10:6; Mt 24:51).

 

 

 

III. Exemplos Bíblicos de Hipocrisia

 

 

 

Caim (Gn 4:3); Absalão (II Sm 15:7,8): os judeus, em tempos de desvio e apostasia (Jr 3:10); os fariseus (Mt 16:3); Judas Iscariotes (Mt 26:49); os herodianos (Mc 12:13,15); Ananias (At 5:1-8); Simão (At 8:13-23); até mesmo Pedro e Barnabé caíram em pecado de hipocrisia, no tocante ao tratamento que deveria ser dado aos crentes gentílicos, no começo da dispensação do evangelho, conforme nos informa Paulo, em Gl 2:13.

 

 

 

IV. Um Emprego Filosófico Útil

 

 

 

Os filósofos existenciais fornecem-nos um certo discernimento sobre a questão da hipocrisia. Eles se referem à hipocrisia com o nomede existência não autêntica. Quando alguém se amolda à opinião e às expectações públicas, em vez de seguir os ditames de sua própria consciência, então está levando uma existência não autêntica. A busca pela autenticidade é uma das principais preocupações do homem verdadeiramente justo. A Bíblia insiste em que devemos ser autênticos em nossas palavras e em nossas ações.

 

 

 

V. Todos os Religiosos são Hipócritas

 

 

 

É fácil chamarmos outras pessoas de hipócritas; e é ainda mais fácil sermos tão arrogantes que nos consideramos autênticos, enquanto todas as outras pessoas seriam destituídas de autenticidade. A verdade é que todas as pessoas religiosas, incluindo até mesmo as sinceras, e até mesmo aqueles que buscam diligentemente pela autenticidade, em certo grau, são hipócritas. Isso é verdade porque o ideal está sempre acima de nossa capacidade de realização. Além disso, a nossa tendência é tentar apresentar diante dos outros a ideia de que temos atingido melhor os ideais de sinceridade e autenticidade do que na realidade o fizemos. E não somente isso, mas também conseguimos enganar a nós mesmos, pensando que somos melhores do que, na realidade, o somos. Portanto, não somente somos hipócritas diante de nossos semelhantes, mas até mesmo diante de nós. Todavia, isso não anula qualquer genuína espiritualidade. Devemos continuar subindo na direção do ideal. A hipocrisia tem muitos níveis. Parte da inquirição espiritual consiste em ir eliminando a hipocrisia, juntamente com muitos outros defeitos de caráter, debilidades e vícios. A humildade é uma virtude, e nos ajuda a anular a hipocrisia.

 

 

 

Bibliografia J. M. Bentes

 

 

O Pecado da Hipocrisia At 4.32-5.11

 

Os crentes, movidos por amor cristão, vendiam seus imóveis espontaneamente. Faziam isto para distribuírem a importância apurada conforme a necessidade de cada um. Provavelmente, o dinheiro era trazido aos apóstolos num culto especial como ato de consagração. Barnabé, que era decerto um homem de bens e de influência, vendeu um campo e publicamente depositou seu valor em dinheiro aos pés dos apóstolos. Este ato de consagração despertou a admiração dos crentes. Talvez tenha havido durante aquele culto um derramamento poderoso do Espírito Santo. No meio daquele entusiasmo, Ananias e Safira venderam uma propriedade. Ananias entrou em acordo com sua mulher e reteve parte do preço, depositando o restante aos pés dos apóstolos.

 

Até ali, tudo havia sido glorioso na vida da igreja. Suas características típicas eram o amor fraternal, a bondade altruísta, a coragem heroica e a real devoção a Cristo. Não era, no entanto, nenhum Milênio espiritual. Satanás, longe de estar amarrado, trabalhava com vigor! Não conseguiu destruir a Igreja através das perseguições vindas de fora. Procurou, então, estragá-la por dentro, seduzindo alguns dos seus membros. Não conseguindo destruir o trigo, semeou seu joio (Mt 13.24-30). Suas primeiras vítimas, aliásindesculpáveis, foram Ananias e Safira. Daquele tempo para cá, a hipocrisia sempre tem seguido a realidade da religião como uma sombra negra.

 

I - Manifestada a Hipocrisia

 

Provavelmente os elementos principais do pecado de Ananias e Safira eram:

 

1. CobiçaComo no caso de Judas, o amor ao dinheiro foi a raiz do seu pecado, "porque o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males" (1 Tm 6.10). Cobiçavam honra e glória na igreja e ao mesmo tempo o dinheiro. Planejavam um meio termo: dariam parte do dinheiro para obter a glória de terem dado tudo, e ao mesmo tempo, guardariam parte para desfrutar dela em particular.

 

2. Falta de fé. A falta de fé está por detrás de quase todos os pecados do crente. Ananias pensava, decerto, que valia a pena fazer uma boa contribuição para o glorioso reavivamento espiritual, uma obra contínua e sólida. Mas, o que aconteceria se o movimento chegasse ao fim? Já não haveria "fundo de garantia". Precisava evitar o fanatismo e garantir o dia de amanhã.

 

3. Desejo de honraO casal admirava o caráter genero­so de Barnabé. Mas passaram a cobiçar o alto conceito e louvor recebidos por ele, devido seu ato de abnegação. Os dois queriam receber o louvor que se dá aos heróis da fé, porém, sem esforços nem sacrifícios.

 

4. A hipocrisiaO desejo de parecer virtuoso sem pagar o preço de ser - esta é a essência da hipocrisia. Literalmente, a palavra "hipócrita" originalmente queria dizer "ator". O hipócrita está sempre representando um papel que nada tem a ver com sua verdadeira personalidade. Quando Ananias trouxe o dinheiro, estava encenando uma mentira. Fingia estar contribuindo com a renda total da sua venda.

 

II - Detectada a Hipocrisia

 

1. Desmascarado o pecadoO Espírito Santo, habitan­do no meio da Igreja, detecta todo o pecado. Ananias es­colheu um lugar muito perigoso e uma época desfavorável à pratica da hipocrisia. O divino Espírito de pureza, since­ridade e verdade tinha sido derramado em abundância. Portanto, era imediatamente reconhecido o espírito da falsidade e hipocrisia que, em tais circunstâncias, era ainda mais imperdoável. Num ambiente de tanta espiritualidade, havia pessoas dispostas à hipocrisia. O que aconteceria, então, em tempos mais difíceis se não condenassem este pecado? Pedro, mediante o dom do discernimento de espí­ritos, viu o que havia em Ananias. Ele não pertencia àquele ambiente espiritual. Pela inspiração divina, Pedro disse: "Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus". Notamos aqui o seguinte:

 

2. A origem do pecado"Por que encheu Satanás o teu coração?" Como na situação do cobiçoso Judas, Satanás derramava suas pecaminosas sugestões no coração de Ananias (cf. Jo 13.2). O diabo, no entanto, não pode entrar em nossa vida a não ser mediante permissão nossa. Por isso Pedro indagou: "Por quê?" - "Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tg 4.7). Por isso, a responsabilidade do homem permanece: "Por que formaste este desígnio em teu coração?"

 

3. A falta de desculpas para o pecadoNão havia a obrigação de os crentes venderem suas propriedades e tra­zerem aos apóstolos os montantes apurados. Não fora abo­lido o direito da posse individual de bens. Ananias não teria violado nenhum preceito se tivesse conservado sua propri­edade. O ato de vender era da exclusiva responsabilidade do dono, bem como o ato de entregar aos apóstolos o di­nheiro recebido. Os apóstolos não possuíam autoridade sobre o dinheiro, a não ser quando o recebiam para o fundo de assistência. "Guardando-a não ficava para ti? E, vendi­da, não estava em teu poder? Por que formaste este desíg­nio em teu coração?" Ananias não podia alegar a existên­cia de alguma necessidade urgente, forçando-o a enganar, retendo parte da soma dedicada à igreja.

 

4. A natureza do pecado"Não mentiste aos homens, mas a Deus." Provavelmente, imaginava que estivesse lo­grando a Pedro, líder da igreja. Não entendia que o verda­deiro líder da igreja é o Espírito Santo, onisciente, que a tudo perscruta. A Igreja Primitiva se constituía de um gru­po sob a liderança do Espírito Santo (cf. At 8.29,39; 10.19; 13.2; 16.6,7).

 

III - Castigada a Hipocrisia

 

"E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou, e um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram".

 

1. O autor do julgamentoPedro, como porta-voz do Espírito Santo, denunciou o pecado que lhe fora revelado de modo sobrenatural. O Espírito Santo, doador da vida, confirmando as palavras de Pedro, retirou seu apoio do corpo de Ananias, que expirou.

 

2. A natureza do julgamentoPela narrativa, o casti­go parece ter sido apenas a morte física. O que se pode dizer, no entanto, do destino eterno de Ananias e Safira? A Palavra não o declara aqui, mas, outros trechos podem lançar luz sobre o assunto: 1 Co 11.30-32; 5.4,5; 3.15; 1 Jo 5.16,17.

 

3. A severidade do julgamentoEra severo. No entan­to, devemos considerar que o pecado foi cometido no meio de uma grande luz espiritual. Os dois tinham en­trado em contato com as mais extraordinárias manifes­tações do Espírito Santo. Estavam conscientes da pre­sença de um grande poder sobrenatural no seu meio. Embora Deus nem sempre castigue este pecado de uma forma tão imediata, severa e pública, fez deste casal um exemplo. Demonstrava que não seria tolerável a repetição da hipocrisia dos fariseus no meio dos cristãos. O registro deste incidente deveria ser suficiente para todos os séculos da história da Igreja.

 

4. O propósito do julgamento. "E houve um grande temor em toda a igreja e em todos os que ouviram estas Coisas". Na tenra infância do Cristianismo, era necessário que toda a corrupção fosse afastada do seu meio. O terrível castigo sobre Ananias e Safira ensinou a todos ser a Igreja uma instituição sagrada. Não seria tolerada a desonestidade em seu meio. Muitos dos que souberam do acontecimento tinham admiração pelo Cristianismo sem ousar se filiar a ele (v. 13). Ninguém, a não ser mediante conversão e trans­formação, iria se ajuntar a uma organização em que os hipócritas caíam mortos.

 

IV - Ensinamentos Práticos

 

1. Mentiras encenadas"Por que é que entre vós vos Concertastes...?" (v. 9) sugere que o pecado não era fruto de algum súbito impulso. Fora premeditado. Pior ainda, o pecado fora "encenado em palco", como uma peça teatral. Fizeram de conta que estavam dando tudo, quando, na realidade, entregavam apenas uma parte. Planejar e deliberadamente dar uma falsa impressão, por atos ou gestos, representa um mal maior do que a mentira falada.

 

2. Evite que o pecado germineTomás Kempis escre­veu: "Em primeiro lugar, chega à mente um simples pen­samento sobre o mal, então chega à mente uma forte im­pressão do mesmo, e, depois, o deleite no mal com o im­pulso de praticá-lo, e finalmente, o consentimento". Estas palavras descrevem o caráter gradual do pecado. Talvez um impulso generoso tenha levado Ananias e Safira a ven­der a propriedade. Ao verem o dinheiro em mãos, porém, é que o tentador conseguiu fazer seus corações encherem-se de ganância. Fazendo-a depois dominar seus pensamen­tos e atos. Ananias e Safira se deixaram encantar por Satanás. Deixaram seu amor a Deus ceder lugar à concupis­cência pelo ouro.

 

Houve, no entanto, um tempo em que tinham a possibi­lidade de resistir à tentação. E a lição que tiramos é: evite que o pecado germine. O pecado começa com um pensamento. É nesta altura que se trava a batalha decisiva contra o pecado. Devemos nos apegar firmemente à doutrina bí­blica de que o diabo pode ser resistido (Tg 4.7).

 

3. "Filho da exortação(ou "da consolação" - a pala­vra grega tem estes dois sentidos também no nome do Consolador). Em alto mar empregam-se dois tipos de fa­róis: um para advertir dos perigos e outro para mostrar o caminho certo. Ananias é farol de advertência; Barnabé, farol de orientação. Contrastam-se os dois tipos de "pleni­tude" em Atos 5.3 e 11.24.

 

Barnabé, após sua conversão, recebeu o nome de "filho da consolação". Seu novo nome evidenciava seu apoio generoso aos que estavam em dificuldades. Como ficou ilustrado nos casos de Saulo (At 9.26, 27) e de Marcos (At 15.39). Ao entregar seu dinheiro aos apóstolos, dava mais uma prova da sua disposição em dar seu tempo e talentos para ajudar aos irmãos. Utilizando seu dom de pregação, soube expressar em palavras a generosidade do seu cora­ção para exortar e consolar os crentes. Chegando em Antioquia, após o início do despertamento ali, "exortou a todos a que permanecessem no Senhor com propósito do coração. Porque era homem de bem, e cheio do Espírito Santo e de fé" (At 11.23,24).

 

Barnabé deve servir de exemplo para todos nós. Muitas coisas acontecem para levar os outros à derrota e ao desâ­nimo. Precisamos agir e falar em tais circunstâncias para sermos uma consolação e exortação ao nosso próximo.

 

4. Trigo e palhaSempre sobra alguma palha no meio do trigo. Mesmo após a debulha mais severa. Mesmo nas melhores igrejas ainda haverá crentes hipócritas e sem consagração. No Estado de Oklahoma, EUA, criaram uma sociedade secreta a fim de combater os ladrões de cavalos. Queriam proteger os cavalos e levar os ladrões à justiça mediante um esforço conjunto. Fracassou. Em pouco tem­po todo ladrão de cavalos daquela região se filiou à soci­edade!

 

Não se justifica a desculpa dos que não querem ir à igreja dizendo: "Há muitos hipócritas na igreja". A fé cris­tã condena a hipocrisia. Todavia, a presença de crentes espúrios não é motivo para se rejeitar a fé cristã. Como a existência de uma nota falsificada não é motivo para al­guém jogar no lixo todo o dinheiro que recebe.

 

5. A vida cristã tem suas próprias riquezasAnanias e Safira eram seres humanos comuns, como todos nós. E eram crentes em Jesus Cristo. Entendemos seu pecado pois, num período de grande fervor espiritual, é possível alguém co­mover-se profundamente sem, contudo, progredir no cami­nho de verdade, retidão, justiça e pureza. Pode ter certeza quanto àquilo que crê, demonstrar zelo em propagar a fé e ainda fracassar quanto à distinção entre o certo e o errado (cf. Hb 5.11-14; 1 Co 3.1-3). Esta falha, nesse tipo de cren­te, torna-se uma pedra de tropeço para os de fora. A ten­tação que surge em muitos convertidos é permitir que as bênçãos transcendentes e gloriosas sejam procuradas mais do que o viver à altura da Palavra de Deus. Desta maneira sentir-se bem fica sendo sinônimo de praticar o bem.

 

Um membro contava ao seu pastor sobre a viagem marcada para a Terra Santa. Dizia entusiasticamente que, chegando ali, leria os Dez Mandamentos em voz alta, em pé no monte Sinai. "Não, irmão", disse o pregador com sinceridade. "Aceite meu conselho. Não precisa lê-los em voz alta. Fique em casa e guarde-os". O pregador tinha razão. O sentimentalismo não é substituto da justiça. A vida abençoada e santificada formam uma só vida cristã, com grandes riquezas espirituais, "porque esta é a caridade de Deus que guardemos os seus mandamentos..." (1 Jo 5.3).

 

6. O pecado estraga os melhores sistemasNa Igreja Primitiva, havia uma esplêndida vida em conjunto. A co­munhão de bens era a expressão de corações inflamados pela comunhão com Deus. Era a demonstração do amor divino que nutriam uns pelos outros. Hoje, o "comunis­mo", nome dado à falsificação feita pelo diabo, finge ter algo a ver com esta vida em comum. Mas é inspirado pelo ódio e não pelo amor. E este ódio é expressado em toda a sua fúria contra tudo quanto é de Deus.

 

A grande necessidade é a transformação dos corações humanos. Porque é do coração que procedem as coisas que arruínam qualquer sistema de economia. A história bíblica mostra que Israel, pela dureza de coração, não conseguia fazer as leis de Deus atingirem seu alvo.

 

7. A honestidade é a melhor políticaO pecado de Ananias e Safira não é raridade. Dr. W. B. Riley escreveu: "Ouço mais mentiras com respeito às contribuições que as pessoas dão à igreja do que com respeito a qualquer outro assunto de conversação cristã. Comete-se mais fraude com respeito à proporção da renda que está sendo colocada no altar do Senhor do que em qualquer outro assunto na vida da igreja". Pessoas que vivem com duplicidade e falsidade por fim chegam a uma situação impossível. Seria muito maisfácil serem sinceras. Se empreendessem tanto esforço na fidelidade a Deus quanto dedicam a tramar falsidades, seriam exemplos de santidade! A honestidade é a melhor política em todo o nosso relacionamento com Deus e com os homens. 

Bibliografia M. Pearlman,COMENTATARIO DE ATOS DOA APOSTOLOS,2000,ED.VIDA

 

 

 

Semeando e colhendo Gl 6.6-10

 

 

 

Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as cousas boas aquele que o instrui. 7Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. 8Porque o que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eter­na. 9não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. 10Por isso, enquanto tivermos oportunida­de, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.

 

 

 

O apóstolo Paulo está chegando ao final de sua carta. Seus temas principais já foram apresentados. Tudo o que resta são algumas advertên­cias finais. À primeira vista, essas instruções e exortações parecem es­tar muito frouxamente ligadas entre si, quase totalmente desconexas. Um exame mais detalhado, no entanto, revelará o elo de ligação. É o grande princípio da semeadura e da colheita, apresentado de forma epigramática no versículo 7: Aquilo que o homem semear, isso tam­bém ceifará. Este é um princípio de ordem e coerência que se acha ins­crito em toda vida, material e moral.

 

 

 

A agricultura, por exemplo. Depois do dilúvio, Deus prometeu a Noé que, enquanto houvesse terra, haveria "sementeira e ceifa", isto é, a semeadura e a colheita não teriam fim (Gn 8:22). Se um lavrador deseja ter colheita, deve semear a semente no seu campo; caso contrá­rio, não haverá colheita. Além disso, o tipo de colheita que ele vai ob­ter é determinado de antemão pelo tipo de semente que ele semeia. Is­so acontece com a natureza, a qualidade e a quantidade. Se ele semear cevada, vai colher cevada; se semear trigo, colherá trigo. Semelhantemente, uma boa semente produz uma boa colheita, e uma semente ruim produz uma colheita ruim. Além disso, se ele semeia com abundância, pode esperar uma colheita abundante; mas se semeia parcamente, tam­bém vai colher parcamente (cf. 2 Co 9:6). Reunindo tudo, podemos dizer que se um lavrador deseja uma safra abundante de uma determi­nada semente, então, além de semear a semente adequada, esta deve ser boa e tem de ser semeada com abundância. Só assim ele pode espe­rar uma boa colheita.

 

 

 

Exatamente o mesmo princípio opera na esfera moral e na espiri­tual. Aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Quem decide como será a colheita, não são os que colhem, mas os semeadores. Se um homem é fiel e consciencioso em sua semeadura, então pode confiantemente aguardar uma boa colheita. Se ele "semeia ventos", como costumamos dizer, só pode "colher tempestades"! Por outro la­do, "os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam" (Jó 4:8). Ou, como Oséias advertiu os seus contemporâneos (8:7), "porque semeiam ventos, segarão tormentas" (referindo-se ao juízo divino).

 

 

 

Este princípio é uma lei divina imutável. A fim de enfatizá-lo, o apóstolo o prefacia com uma ordem ("Não vos enganeis") e uma de­claração ("de Deus não se zomba").

 

 

 

A possibilidade de se enganar é mencionada diversas vezes no No­vo Testamento. Jesus disse que o diabo é um mentiroso e o pai da mentira, e advertiu os seus discípulos contra a possibilidade de serem enga­nados. João nos adverte, na sua segunda epístola, que "muitos enga­nadores têm saído pelo mundo fora". Paulo nos roga, em sua carta aos Efésios: "Ninguém vos engane com palavras vãs." Já em Gálatas ele pergunta aos seus leitores: "Quem vos fascinou?" (3:1) e fala da pessoa que "a si mesma se engana" (6:3).

 

 

 

Muitos se enganam acerca desta inexorável lei da semeadura e da colheita. Semeiam impensadamente, indiferentemente, cegos ao fato de que as sementes que estão lançando inevitavelmente produzirão uma colheita correspondente. Ou, então, semeiam semente de um tipo e aguardam uma colheita de outro tipo. Imaginam que de alguma for­ma vão se safar. Mas isso é impossível. Então Paulo acrescenta: de Deus não se zomba. A palavra grega aqui (muktērizō) é chocante. Deriva de uma palavra que significa nariz e quer literalmente dizer "torcer o na­riz para" alguém e, portanto, "zombar" ou "tratar com desprezo". A partir daí pode significar "brincar" ou "passar a perna" (Arndt-Gingrich). O que o apóstolo diz aqui é que os homens podem enganar a si mesmos, mas não podem enganar a Deus. Embora pensem que podem escapar desta lei da semeadura e colheita, eles não podem. Po­dem até continuar semeando suas sementes e fechando os olhos às consequências, mas um dia o próprio Deus vai fazer a colheita.

 

 

 

Do princípio passamos para a aplicação. Há três esferas da expe­riência cristã nas quais Paulo vê o princípio operando.

 

 

 

1. Ministério Cristão (v. 6)

 

 

 

Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as cousas boas aquele que o instrui. A palavra grega para "aquele que está sendo instruído na palavra" é ho katēchoumenos, o catecúmeno, alguém que "está aprendendo o Evangelho" (BLH). É assim que Lucas descreve Teófilo no prefácio do seu Evangelho (1:4).

 

 

 

Quer a instrução dada seja em particular, ou numa aula de catequese, na qual os convertidos são preparados para o batismo, ou a to­da uma congregação pelo seu pastor, o princípio é o mesmo: aquele que está sendo instruído na palavra deve ajudar a sustentar o seu mes­tre. Assim um ministro pode esperar ser sustentado pela congregação. Ele semeia a boa semente da Palavra de Deus e colhe o sustento.

 

 

 

Há pessoas que acham isso embaraçoso. Mas o princípio bíblico é enfatizado muitas vezes. O Senhor Jesus disse aos setenta que en­viou: "Digno é o trabalhador do seu salário" (Lc 10:7). E Paulo apli­ca explicitamente a metáfora da semeadura e da colheita para ensinar a mesma verdade: "Se nós vos semeamos as cousas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais?" (1 Co 9:11).

 

 

 

Se o princípio for devidamente aplicado, mantém-se por si só. Ape­sar disso, devemos considerar seus dois possíveis abusos.

 

 

 

a. Abuso por parte do ministro

 

 

 

Lutero viu, no seu tempo, o perigo de obedecer a esta injunção apostólica com excessiva facilidade, pois a Igreja Católica Romana era muito rica devido ao dinheiro do povo, e "por causa dessa excessiva liberalidade dos homens, a avareza do clero aumentou". Semelhantemente, hoje, embora de poucos ministros se possa dizer que são excessivamente bem pagos, a imagem popular do ministro cristão (pelo menos no mun­do ocidental) parece ser que o seu emprego é confortável e seguro. Na linguagem moderna, ele fez "um bom negócio". E há uma certa ver­dade nisso. Alguns ministros cristãos são tentados pela preguiça, e al­guns sucumbem à tentação. Na Inglaterra os ministros são classifica­dos como "autônomos". Ninguém exatamente supervisiona o seu tra­balho. Por isso acontece frequentemente eles se tornarem indolentes. É compreensível, portanto, que Paulo, embora declarasse a ordem do Senhor "aos que pregam o evangelho, que vivam do evangelho" (1 Co 9:14), tenha renunciado o seu próprio direito pregando o evange­lho de graça e ganhando o seu sustento como fabricante de tendas. Quem sabe maior número de ministros devesse tentar fazer o mesmo hoje, a fim de corrigir a impressão de que os ministros entram para o ministério "apenas pelo que podem tirar dele". Mas o princípio bí­blico é claro, que o ministro deve ficar livre do trabalho secular para se dedicar ao estudo e ao ministério da Palavra e para cuidar do reba­nho que lhe foi confiado. Como disse Lutero: "É impossível que um homem trabalhe dia e noite para ganhar o seu sustento e, ao mesmo tempo, se dedique ao estudo das sagradas letras, como exige o ofício do pregador".

 

 

 

Haverá algum jeito de proteger-se desse abuso? Vejamos o que é dito em 1 Timóteo 5:17: "Devem ser considerados merecedores de do­brados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialida­de os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o grão. E ainda: O trabalhador é digno de seu salário." Não é uma coisa particularmente lisonjeira, tal­vez, comparar o pregador a um boi que pisa o grão! Mas ele também é chamado de "trabalhador", ou operário. A palavra grega é forte e indica aquele que "labuta" na Palavra com todas as suas forças e meios, procurando entendê-la e aplicá-la. Talvez a pregação esteja em declí­nio na igreja de hoje porque nós fugimos do trabalho duro que ela en­volve. Mas se o ministro se entrega ao ministério com a energia de um trabalhador, semeando a boa semente nas mentes e nos corações da congregação, então ele pode esperar a sua subsistência material.

 

 

 

b. Abuso por parte da congregação

 

 

 

Se o princípio de a congregação pagar o ministro pode incentivá-lo a se tornar preguiçoso e negligente, da mesma forma a congregação po­de se sentir tentada a controlar o ministro. Algumas congregações exer­cem uma positiva tirania sobre o seu pastor e quase o chantageiam a pregar o que querem ouvir. Ele é pago para isso, dizem; portanto deve dançar de acordo com a música. E, se o ministro tem esposa e família para sustentar, sente-se tentado a ceder. Naturalmente ele não deve ce­der a tais pressões, mas a congregação também não deve colocá-lo em tal situação. Se o ministro semeia com fidelidade a boa semente da Pa­lavra de Deus, por mais desagradável que a congregação possa achá-lo, ele tem o direito de receber o seu sustento. A congregação não tem autoridade de reduzir o seu salário só porque ele se recusa a reduzir suas palavras.

 

 

 

O relacionamento certo entre mestre e discípulo, ou entre ministro e congregação, é o de koinōmia, "comunhão" ou "sociedade". Por issoPaulo descreve: "Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante (koinōneitō) de todas as cousas boas aquele que o instrui." Ele partilha as coisas espirituais com seus discípulos, e estes partilham as coisas materiais com ele. O Bispo Stephen Neill comenta: "Isso não deve ser considerado um pagamento. A palavra 'partilhar' é uma excelente palavra cristã que é usada para a nossacomunhão no Espírito Santo".

 

 

 

2. Santidade Cristã (v. 8)

 

 

 

Porque o que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eter­na. Esta é uma outra esfera na qual opera o princípio da "semeadura e colheita". Paulo passa do particular para o geral, dos ministros cris­tãos e o seu sustento para o povo cristão e o seu comportamento mo­ral. Ele retorna ao tema da carne e do Espírito, o qual examinou em certa extensão em Gálatas 5:16-25. Ali, em Gálatas 5, a vida cristã é comparada a um campo de batalha, e a carne e o Espírito são dois com­batentes em guerra um contra o outro. Mas aqui, em Gálatas 6, a vida cristã é comparada a uma propriedade rural, e a carne e o Espírito são dois campos em que nós semeamos. Além disso, a nossa colheita de­pende de onde e o quê nós semeamos.

 

 

 

É um princípio de santidade vitalmente importante e muito negligenciado. Não somos vítimas indefesas de nossa natureza, tempera­mento e ambiente. Pelo contrário, o que nos tornamos depende prin­cipalmente de como nos comportamos; nosso caráter é formado pela nossa conduta. De acordo com Gálatas 5, o dever do cristão é "andar no Espírito"; de acordo com Gálatas 6, é "semear para o Espírito". Assim o Espírito Santo é comparado ao caminho pelo qual andamos (Gl 5) e ao campo no qual semeamos (Gl 6). Como podemos esperar colher o fruto do Espírito se não semeamos no campo do Espírito? O velho adágio é verdadeiro: "Semeie um pensamento, colha um ato; se­meie um ato, colha um hábito; semeie um hábito, colha um caráter; semeie um caráter, colha um destino." Isso é bom e é bíblico.

 

 

 

Vamos examinar os dois tipos de semeadura possíveis, isto é, "se­mear para a carne" e "semear para o Espírito".

 

 

 

a. Semeando para a carne

 

 

 

Vimos que a nossa "carne" é a nossa natureza caída, "com as suas paixões e concupiscências" (5:24), a qual, se não for controlada, manifesta-se nas "obras da carne" (5:19-21). Essa natureza caída existe em cada um de nós e permanece em nós, mesmo depois da conversão e do batismo. É um dos campos de nossa propriedade rural humana em que podemos semear.

 

 

 

"Semear para a carne" é trabalhar para ela, acariciá-la, aconchegá-la e afagá-la, em vez de crucificá-la. As sementes são principalmente pensamentos e atos. Toda vez que permitimos que a nossa mente abrigue um ressentimento, acalente uma queixa, entretenha uma fantasia impura ou chamafurde na auto piedade, estamos semeando para a car­ne. Toda vez que permanecemos em má companhia a cuja influência insidiosa sabemos que não poderemos resistir, toda vez que permane­cemos na cama quando deveríamos nos levantar para orar, toda vez que lemos literatura pornográfica, toda vez que assumimos um risco que cria dificuldades para o nosso autocontrole, estamos semeando, semeando, semeando para a carne. Há cristãos que semeiam para a carne todos os dias e ficam se perguntando porque não colhem santi­dade. A santidade é uma colheita; colher ou não colher depende quase inteiramente do que e onde semeamos.

 

 

 

b. Semeando para o Espírito

 

 

 

"Semear para o Espírito" é o mesmo que "o pendor do Espírito" (Rm 8:6) e "andar no Espírito" (Gl 5:16,25). Além disso, as sementes são nossos pensamentos e atos. Devemos "buscar" as coisas de Deus e "pensar" nelas, "cousas lá do alto, não nas que são aqui da terra" (Cl 3:1,2; compare com Fp 3:19). Com os livros que lemos, a compa­nhia que desfrutamos e o lazer que buscamos, podemos "semear para o Espírito". Devemos, então, incrementar hábitos disciplinados de de­voção na vida particular e pública, na oração e leitura diária da Bíblia, e no culto junto com o povo do Senhor no dia do Senhor. Tudo isso é "semear para o Espírito"; sem isso não pode haver colheita do Espí­rito, ou "fruto do Espírito".

 

 

 

Paulo traça uma diferença entre as duas colheitas, como também entre as duas semeaduras. Os resultados são apenas lógicos. Se semear­mos para a carne, "da carne colheremos corrupção", isto é, vai haver um processo de decaimento moral. Iremos de mal a pior e finalmente pereceremos. Se, por outro lado, semearmos para o Espírito, vamos "do Espírito colher vida eterna": vai iniciar-se um processo de cresci­mento moral e espiritual. A comunhão com Deus (que é a vida eterna) vai se desenvolver agora até que se aperfeiçoe na eternidade.

 

 

 

Portanto, se desejamos colher santidade, nosso dever é duplo. Pri­meiro, devemos evitar semear para a carne, e, segundo, devemos continuar semeando para o Espírito. Devemos eliminar sem piedade a pri­meira, concentrando nosso tempo e energias no segundo. Éuma outra forma de dizer (como em Gl 5) que devemos "crucificar a carne" e "andar no Espírito". Não há outro meio de crescer em santidade.

 

 

 

3. A Prática do Bem do Cristão (vs. 9, 10)

 

 

 

E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, faça­mos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé. O assunto muda um pouco da santidade pessoal para a prática do bem, a ajuda aos outros, as atividades filantrópicas na igreja ou na comunidade. Mas o apóstolo trata disso também sob a metáfora da semeadura e colheita.

 

 

 

Certamente é preciso algum incentivo para a prática do bem. Paulo reconhece isso, pois ele insiste com os seus leitores em que "não se cansem" nem desanimem (cf. 2 Ts 3:13). O serviço cristão ativo é um tra­balho cansativo e exigente. Somos tentados a desanimar, a relaxar e até mesmo a desistir.

 

 

 

Por isso o apóstolo nos dá este incentivo, ao dizer-nos que fazer o bem é como semear. Se perseverarmos semeando, então "a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos". Se o lavrador se cansar de semear, deixando metade do seu campo sem sementeira, vai colher apenas a me­tade. O mesmo acontece com as boas obras. Se desejamos uma colhei­ta, então temos de concluir a semeadura e temos de ser pacientes, como o lavrador que "aguarda com paciência o precioso fruto da terra,.." (Tg 5:7). Como disse John Brown: "Os cristãos frequentemente agem como crianças com referência a essa colheita. Gostariam de semear e colher no mesmo dia."

 

 

 

Se a semeadura é a prática das obras na comunidade, o que será a colheita? Paulo não nos diz; ele nos deixa adivinhar. Mas a paciente prática do bem na igreja ou na comunidade sempre produz bons resultados. Pode produzir consolo, alívio ou assistência a pessoas necessi­tadas. Pode levar um pecador ao arrependimento e à salvação; o pró­prio Jesus falou dessa obra, chamando-a de semeadura e colheita (Mt 9:37; Jo 4:35-38). Pode ajudar a deter a deterioração moral da socie­dade (esta é a função do "sal da terra") e até mesmo torná-la um lugar mais doce e mais saudável de se viver. Pode aumentar o respeito dos homens pelo que é bonito, bom e verdadeiro, especialmente nos nos­sos dias, quando os padrões estão baixando. Trará igualmente o bem ao que o pratica: não a salvação (pois esta é um dom livre de Deus), mas alguma recompensa no céu pelo seu trabalho fiel, que provavelmente assumirá a forma de serviço de ainda maior responsabilidade.

 

 

 

Por isso, prossegue Paulo (versículo 10), considerando que a se­meadura da boa semente resulta em uma boa colheita, enquanto tiver­mos oportunidade (e a nossa vida na terra está cheia de tais oportuni­dades), façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé. Esta família consiste de nossos companheiros crentes, que compar­tilham conosco a "fé igualmente preciosa" (2 Pe 1:1) e que são nossos irmãos e irmãs na família de Deus. Como diz o velho ditado, "a cari­dade começa em casa", para com os que reivindicam nossa primeira atenção; também a caridade cristã nunca deve parar aí. Devemos amar e servir os nossos inimigos, disse Jesus, não apenas os nossos amigos. Assim, "a perseverança em fazer o bem" é uma característica do ver­dadeiro cristão, uma característica tão indispensável que será conside­rada como evidência de fé salvadora no dia do juízo (veja Rm 2:7).

 

 

 

Conclusão

 

 

 

Consideramos as três esferas da vida cristã às quais Paulo aplica o seu inexorável princípio de que "aquilo que o homem semear, isso tam­bém ceifará". Na primeira, a semente é a Palavra de Deus, semeada pelos mestres nas mentes e corações da congregação. Na segunda, a semente são nossos próprios pensamentos e atos, semeados no campo da carne ou do Espírito. Na terceira, a semente sãoas boas obras, se­meadas nas vidas de outras pessoas na comunidade.

 

 

 

E, em cada caso, embora a semente e o solo sejam diferentes, a semeadura é seguida pela colheita. O mestre que semeia a Palavra de Deus vai colher o seu sustento; é propósito de Deus que seja assim. O pecador que semeia para a carne vai colher corrupção. O crente que semeia para o Espírito vai colher vida eterna, uma comunhão cada vez mais profunda com Deus. O filantropo cristão que semeia boas obras na comunidade vai fazer uma boa colheita nas vidas daqueles a quem serve e terá uma recompensa para si mesmo na eternidade.

 

 

 

Em nenhuma dessas esferas podemos zombar de Deus. Em cada uma delas opera o mesmo princípio, invariavelmente. E, consideran­do que não podemos enganar a Deus, somos tolos se tentarmos nos enganar a nós mesmos! Não devemos ignorar nem resistir a esta lei, mas aceitá-la e cooperar com ela. Devemos ter o bom senso de permi­tir que ela governe as nossas vidas. "Aquilo que o homem semear, isso também ceifará." Devemos esperar colher o que semeamos. Portanto, se queremos ter uma boa colheita, devemos semear e continuar semean­do a boa semente. Então, no devido tempo, a colheita virá.

 

 

 

Bibliografia J. Stott

 

 

 

 

 

                                    Justiça

 

 

 

Esboço:

 

 

 

I.       Definições

 

II.      Na Filosofia e na Ética

 

III.     Na Bíblia

 

IV.     A Justiça Divina

 

V.      A Justiça de Deus 

 

 

 

I. Definições 

 

A palavra portuguesa «justiça» vem do latim, jus, «direito», «lei». A justiça consiste na preocupação exata e escrupulosa pelos direitos alheios e pelo relacionamento do indivíduo com o Juiz Supremo, Deus. A justiça requer atos de retidão, e não meras palavras ou aceitação de certos ideais. O homem justo age corretamente, de forma altruísta. De acordo com a teologia cristã, ninguém pode ser justo por si mesmo. A justiça é um dos atributos comunicáveis de Deus, sendo investida no homem através de Cristo, por meio da conversão, da santificação e do contínuo ministério do Espírito Santo. É assim que o homem vai absorvendo a forma de justiça e da santidade divinas, não sendo mera produção humana, imitação daquela justiça e santidade. A justiça também consiste em conformidade com uma reta conduta. Mas a reta conduta é definida, em última análise, segundo padrões divinos de conduta e de ideais. Envolve qualidades de caráter, como a retidão, a equidade, a santidade, a correção, a razoabilidade. A justiça é uma excelência moral, cujo modelo ou padrão é Deus, e cujo agente é o Logos, o Filho de Deus. Quanto aos vocábulos bíblicos envolvidos, e seus respectivos significados, ver a seção III. 13.

 

 

 

II. Na Filosofia e na Ética 

 

1. Os sofistas definiam a justiça como mera convenção social. Mudando os costumes sociais, muda também a justiça, porque esta seria dependente das condições prevalentes. Trasímaco, membro dessa escola, pensava que «poder é direito». Em outras palavras, quem tem autoridade, determina as normas da sociedade. Isso seria uma forma de voluntarismo, mas no nível humano. 

 

2. Platão objetava à visão relativista e voluntarista dos sofistas, afirmando que há o universal da justiça. Em outras palavras, a justiça é uma realidade dos mundos imateriais, invisíveis; e a justiça que se vê em nosso mundo é apenas uma pobre imitação da verdadeira justiça, que é a divina. Em seu diálogo sobre as Leis, Platão singularizava os universais em Deus, pelo que, para ele, a justiça é um dos atributos de Deus. Deus, pois, é o supremo padrão da conduta correta, e somente em Deus reside a verdadeira justiça. Em sentido secundário, para Platão, a justiça é aquele estado que ocorre quando cada um ocupa a sua devida função, fazendo assim a sua contribuição para o todo, da melhor maneira possível. 

 

3. Sócrates entendia as questões éticas em termos de conceitos da Mente Universal. Esse armazém mental e divino de ideias envolve o conceito da verdadeira justiça. Os homens imitam esse modelo, e aproximam-se do mesmo através da razão, mediante o uso de diálogos. O homem teria, em si mesmo, os conceitos da Mente Universal, podendo descobrir aquilo que já sabe, mediante a disciplina mental apropriada. A filosofia, por sua vez, seria a ciência que sonda a verdadeira teoria ética, procurando conhecê-la e pô-la em prática. 

 

4. Aristóteles opinava que a justiça é o meio termo entre a injustiça que consiste em interferir com aquilo que pertence a outrem, e o sofrer a interferência alheia naquilo que nos pertence. Ele se referia a duas manifestações da justiça: para que se faça justiça, o indivíduo precisa compartilhar dos recursos da coletividade, ou Estado. Em outras palavras, deve ser-lhe conferida uma partilha equitativa. Além disso, as ofensas precisam ser devidamente punidas. Aos homens não deveria ser permitido que fossem injustos e prejudiciais, sem pagarem à altura por causa disso. 

 

5. Tomás de Aquino e Locke concordavam que para poder haver justiça, é necessário que haja uma ordem de coisas natural e racional, e que a razão pode conduzir-nos a essa situação, de uma maneira adequada. Naturalmente, Tomás de Aquino mostra­va-se sensível para com a realidade da justiça divina, como o verdadeiro padrão por detrás da ordem que os homens conseguem estabelecer em sociedade. Locke preferia apelar para a abordagem empírica. Para ele, descobre-se a justiça mediante a experimentação, guiada pela razão. 

 

6. O pragmatismo assevera que aquilo que funciona bem é justo e bom, e que podemos chegar a esse estado mediante a experimentação. Visto que as sociedades diferem umas das outras, por isso mesmo a justiça, como todos os princípios éticos, é algo relativo. Para os pragmáticos, não existe tal coisa como valores éticos fixos, e nem verdade absoluta. A praticalidade ou função é a única prova de que algo é justo e bom, na opinião deles. 

 

7. O positivismo lógico supõe, juntamente com o pragmatismo, que não existem valores fixos; mas enfatiza mais o papel da ciência no estabelecimento de valores relativos e funcionais. Não se apela, ali, para qualquer coisa divina, pertencente ao mundo espiritual. Para os positivistas lógicos, a justiça é algo meramente humano, determinado dentro de um contexto humano. 

 

8. A ética situacional afirma que a justiça, ou seja, aquilo que é bom para ti e para mim, depende das vicissitudes das circunstâncias e das exigências que essas circunstâncias nos impõem. Mudando as circunstâncias, mudam os padrões. Outrossim, o que é bom para mim, neste momento, não é necessaria­mente bom para ti e o que é justo para uma sociedade (dentro do contexto de suas experiências) não é necessariamente bom para outra sociedade (dentro do contexto de experiências diferentes). E até mesmo aquilo que para mim é bom, neste momento, mais tarde poderá não ser bom para mim. Tudo é relativo, dependendo do fluxo permanente das coisas e das circunstâncias.

 

 9. A ética absoluta ou rigorosa supõe que existem padrões éticos absolutos. Os homens não desenvolve­riam o que é certo por meio da experimentação. Antes, eles sempre descobrem o que é direito. Uma forma de ética absoluta é o imperativo categórico de Kant: «Faça somente aquilo que gostaria que se tornasse uma lei universal». As religiões, de modo geral, visto que apelam para uma justiça e uma bondade divinas, dão apoio à ideia da justiça absolutista, embora, usualmente, valham-se das revelações e livros sagrados como padrões autori­tários. O cristianismo ortodoxo representa um sistema ético rigoroso e o Novo Testamento é sua autoridade.

 

 

 

III. Na Bíblia

 

 

 

1. A base do conceito da justiça vem através da revelação. A revelação foi preservada, em forma escrita, nas Sagradas Escrituras. Elas nos foram dadas para nossa instrução, para ensinar-nos quais devem ser os padrões de nossa conduta, conforme se aprende em II Tm3:16,17: «Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra». Isso permite que o homem espiritual seja equipado para poder pôr em prática todas as boas obras, com a mente esclarecida. 

 

2. O teísmo é um importante e constante conceito ensinado na Bíblia. Há um Deus que se faz conhecido dos homens, que determina o que é certo e o torna conhecido, e que impõe a conduta própria, por meio da promessa de galardões ou da ameaça de julgamento. 

 

3. A justiça é um produto das operações do Espírito Santo, que cultiva em nós os vários aspectos de seu fruto (Gl 5:22,23). Dessa forma, os atributos da justiça, que pertencem a Deus, são reproduzidos nos crentes. Ver a quinta seção do presente artigo, que aborda essa questão com detalhes. 

 

4. A justiça, bem como os demais valores éticos, são entravados ou mesmo anulados pela rebeldia e carnalidade dos homens (Gl 5:19-21). Assim como o Espírito de Deus transmite sua bondade aos homens, assim também o espírito do mal, que se deriva de seres infernais, opera nos homens sem Deus (Ef 6:11 ss). Nenhum ser humano peca sozinho; nenhum ser humano é injusto sozinho. Ele age prestando lealdade ao reino espiritual ao qual pertence e sob a influência do qual se encontra, seja o reino da luz, seja o reino das trevas. Ver Gl 1:12,13. 

 

5. Os crentes são derrotados espiritualmente pela carnalidade, podendo tornar-se instrumentos ou agentes da injustiça (I Co 3:1 e Rm 8:5-8). 

 

6. Jesus Cristo é o agente da justiça, porquanto em sua imagem é que estamos sendo gradativamente transformados (Rm 8:29; II Co 3:18), de modo a virmos compartilhar de seus atributos morais e espirituais, porquanto nos estamos tornando partíci­pes de sua natureza metafísica (Cl 2:9,10; II Pe 1:4). É segundo se lê em I Co 1:30: «...Cristo Jesus, que se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção». Outrossim, ele é o justificador dos crentes: «...para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus» (Rm 3:26). 

 

7. Atitudes e Ações Especificas de Justiça: 

 

a. Devemos honrar, reverenciar e respeitar aos nossos superiores, governantes, etc. Essa conduta é justa. Ver Rm 13:1 ss; Ef 6:1,3; I Pe 2:17; I Tm 5:17. 

 

b. Mostrar bondade para com o próximo é um ato de justiça (Pv 17:17). 

 

c. A prática da lei do amor é a base de toda a justiça humana (Gl 4:15; 5:22; I Jo 4:7 ss). 

 

d. No tocante às questões práticas, deveríamos pagar o que é direito ao próximo, tanto na questão do dinheiro (como os impostos), quanto na questão do respeito e da honra. O amor é a maior de todas as obrigações. Ver Rm 13:7,8. Ver também Dt 24:14. 

 

e. Deveríamos ajudar ao próximo em momentos de necessidade (Tg cap. 2). 

 

f. Não basta sermos justos, no sentido de exatos, mas também devemos ser bondosos, isto é, generosos, em nosso trato com o próximo (Rm 5:7). 

 

g. Os caminhos de Deus são verdadeiros e justos, e os homens devem imitá-Lo, como o maior e mais elevado padrão de conduta (Ap 15:3. Ver também Jó 9:2; 37:23; Sf 3:5; Sl 84:14; 36:6). Esses versículos descrevem atos de Deus que estabelecem padrões para a conduta humana. 

 

h. O voluntarismo é um ensino refletido no nono capítulo da epístola aos Romanos. Uma coisa é boa porque assim o determinou a vontade de Deus, sem importar o que pensemos a respeito. Porém, outros trechos bíblicos contrabalançam esse ensino, afirmando que o Juiz de todas as coisas faz somente aquilo que é direito (como Gn 18:25). E podemos pressupor que nossa intuição e nossa razão diz-nos o que realmente é direito, visto que ambas essas funções dependem da comunhão com a presença divina e são sensíveis a ela 

 

8. A justiça de Deus requer a retribuição. Mas o próprio juízo divino também tem um aspecto remedial. Os dois polos da justiça divina são declarados em Rm 1:32, em comparação com I Pe 4:6. 

 

9. Há atos de vindicação, que contrabalançam a injustiça. Esses são atos de justiça (Jz 5:11; II Sm 15:4; Sl 82:3; Is 58:2,3; Ec 7:15 e 8:14). 

 

10. A justiça, embora vindicativa e retributiva, também deve manifestar-se temperada pela miseri­córdia. Não há tal coisa como justiça divina crua, ou seja, retribuição não condicionada pelo amor. O primeiro capítulo de Romanos mostra-nos que Deus não estaria errado se aplicasse uma justiça nua, constituída somente por vingança e retribuição. Porém, a partir do terceiro capítulo de Romanos, Paulo mostra-nos que, de fato, a justiça divina não opera dessa maneira inflexível. A intervenção do evangelho serve de prova desse fato. Àqueles a quem Deus tem de julgar, também procurou salvar, através da elaborada missão de Cristo, uma missão com um aspecto terreno, outro no hades, e outro no céu (I Pe 3:18-4:6). 

 

11. Deus confere a justiça a quem nada merece; mas, então, espera que eles correspondam, buscando a justiça e a bondade (Is 1:17). 

 

12. O justo viverá pela fé (Hc 2:4; Rm 1:17; Gl 3:11). Essa fé, por sua vez, é produto da atuação do Espírito. Ao viverem pela fé, os homens são reputados justos, em todo o seu relacionamento uns com os outros. A fé produz a justificação; e a vida da fé obrigatoriamente envolve a santificação. 

 

 

13. Palavras Bíblicas para Indicar a Justiça:

 

Os termos bíblicos, no hebraico, tsedeq e tsadaqah, como também o vocábulo grego dikaiosune, são traduzidos em português por «justiça» ou «retidão». Essas palavras são usadas no tocante a Deus e aos homens. A justiça aponta para uma conduta reta, um governo justo, o pagamento de dívidas a quem tem direito, a retribuição, a retidão nos atos, a regra da lei e o respeito à lei. Deus é justo quando julga, porque a sua retidão moral não pode permitir que a injustiça permaneça sem a devida resposta. Mas os atos de Deus nunca consistem apenas em retribuição, visto que a ideia inteira dos julgamentos divinos é a de restaurar aos ofensores (I Pe4:6). Além dessas palavras, temos o vocábulo hebraico yoser, que indica a probidade ou retidão moral (Dt 9:5). No contexto físico, essa palavra significa «reto». Tsedaqah também pode envolver a ideia de «conformidade». A conduta do homem precisa amoldar-se a retos padrões (Gn 30:33). A forma adjetivada do termo grego dikaioo é usada em Cl 4:1 (ou seja, dikaios), onde a referência é sobre como os proprietários de escravos deveriam tratar equanimemente os seus escravos. Deus é justo (no hebraico, tsadiq) e Salvador (ver Is 45:21). Essas duas qualidades divinas nunca se manifestam isoladas uma da outra, pois, do contrário, não haveria justiça, segundo o conceitoescriturístico. 

 

O termo grego dikaiosune pode indicar a «probida­de de Caráter», conforme se esperaria, por exemplo, da parte de um juiz (ver I Clemente 13:1; Ap 19:11; Rm 9:28; Is 10:22; na LXX), ou, então, «retidão» da parte de Deus ou dos homens (ver Mt 3:15; 5:6; At 10:35; Fp 1:11; Hb 12:11; Is. 56:1, na LXX; II Clemente 19:2). A retidão outorgada por Deus é um outro uso dessa mesma palavra. Ver a quinta seção deste artigo, onde há uma ampla descrição a respeito; ver também Rm 5:17. Visto que essa palavra constitui uma virtude específica dos regenerados, torna-se um sinônimo virtual do cristianismo (Mt 5.10; I Pe 3.14).

 

 

 

IV. A Justiça Divina 

 

Com «justiça divina» indicamos o fato de que a justiça de Deus deve julgar ao pecado e aos pecadores. Isso deve ser contrastado com a seção V, A Justiça de Deus, que fala sobre como a justiça de Deus é conferida ao indivíduo regenerado. Em outras palavras, o atributo divino da justiça é transmitido aos homens, a fim de que se tornem justos, na qualidade de «filhos de Deus», compartilhando das qualidades morais de Deus. Os remidos chegam a compartilhar das qualidades morais de Deus porque também compartilham de sua natureza metafísica, posto que em um sentido secundário, apesar de perfeitamente real. Temos provido um artigo separa­do, intitulado Julgamento de Deus dos Homens Perdidos, que procura mostrar que os juízos de Deus tanto são retributivos (pois corrigem as injustiças e causam sofrimentos onde esses são merecidos) quanto são remediais. Os próprios sofrimentos têm por finalidade restaurar (ver I Pe 4:6). Deus não faria qualquer injustiça se meramente aplicasse a parte retributiva do juízo, sem qualquer misericórdia, de forma final e sem qualquer esperança. O primeiro capítulo de Romanos mostra-nos isso. Mas, a começar pelo terceiro capítulo de Romanos, o apóstolo mostra-nos que a justiça de Deus nunca é aplicada cruamente, e, sim, sempre revestida de misericórdia e amor. O evangelho tempera o julgamento de Deus com a sua misericórdia e o seu amor. De fato, o julgamento divino é apenas um dedo da sua mão amorosa. A justiça e o julgamento são lados diferentes do mesmo amor. É que Deus pode fazer certas coisas melhor, através do juízo, do que através de qualquer outro meio. A cruz do Calvário foi um julgamento, mas também foi uma medida restauradora.

 

 

 

V. A Justiça de Deus 

 

Rm 1:17: Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé. 

 

1. Essa justiça designaria a natureza intrinsecamente santa de Deus, o seu próprio caráter justo (ver Rm 3:5). 

 

2. Talvez seja usada no sentido de que Deus vindica a sua justiça, ou seja, torna conhecida qual seja essa justiça. 

 

3. Todavia, essa justiça não é meramente a descrição de um atributo divino, mas também subentende uma espécie de natureza que ele injeta nos remidos. Os homens, uma vez transformados segundo a imagem de Cristo, em sentido bem real e literal participam da santidade de Deus (ver Mt 5:48). A passagem de Is 46:13 também contribui para esclarecer esse aspecto, onde lemos: «Faço chegar a minha justiça, e não está longe; a minha salvação não tardará; mas estabelecerei em Sião o livramento e em Israel a minha glória». Isso indica a doação das perfeições morais aos remidos. E é a agência do evangelho que produz essa natureza moral nova nos homens. 

 

A santidade de Deus se desenvolve nos homens por meio da atuação do Espírito Santo, e essa atuação tem prosseguimento até que os remidos atinjam a perfeição absoluta, quando então os crentes serão santos como é santo o seu Pai celestial. Isso pode envolver a eternidade inteira, mas o processo tem inicio quando do primeiro exercício da fé em Cristo e em seu evangelho, continuando nas experiências da conversão, da santificação, da regeneração e da glorificação. Essa modificação moral produz a modificação metafísica. 

 

4. Essa justiça de Deus se manifesta por intermédio da fé, porquanto tem início através do princípio da fé, como também tem continuação e é sustentada pela fé, tudo o que é obra do Espírito Santo, que leva a alma humana a depender de Cristo. Por conseguinte, a justiça de Deus não se torna realidade por meio de alguma disciplina mental, e nem através de qualquer resolução intelectual, e nem mesmo por qualquer cerimônia religiosa. Mas depende exclusivamente da operação do Espírito de Deus. E, quando a alma de um indivíduo é sintonizada com essa operação, passa a exercer fé. Assim, pois, a fé consiste na sintonização da alma com Deus e seu Cristo, uma total entrega da personalidade inteira a Jesus Cristo, a fim de que possa ser operada na alma a elevada obra divina, descrita no presente versículo. 

 

5. A justiça de Deus no homem, pois, não é apenas uma declaração legal, que afirma que um homem está perfeito em Cristo; antes, é a produção real dessa retidão no indivíduo, Pois estar perfeito em Cristo é a mesma coisa de ter sido transformado por ele. É a esse aspecto de nossa salvação que denominamos de «santificação». 

 

6. O adjetivo grego «dikaios» (reto, justo), vem da mesma raiz que deu a palavra «justiça», que aparece no presente versículo; e isso ilustra o sentido dessa palavra.

 

 a. Esse adjetivo é usado com relação a Deus e a Jesus Cristo. Com relação a Deus: I Jo 1:9; Jo 17:25; Ap 16:5 e Rm 3:26. Com relação a Cristo: I Jo 2:1; 3:7; At 3:14; 7:52 e 22:14. No presente versículo esse vocábulo indica a norma eterna da santidade divina. 

 

b. Esse adjetivo, «justo», também é usado com referência aos homens, não meramente para denotar um caráter reto, mas também dando a entender alguma forma de atribuição ou participação na própria santidade essencial de Deus. O termo justiça é utilizado como algo possível para a personalidade humana, na passagem de Rm 6:13,16,18,20. Nesse trecho, o contexto mostra-nos que essa justiça decorre de nossa união espiritual com Cristo, na forma de um batismo espiritual, que é a identificação dos crentes com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, em condições místicas. Em outras palavras, os benefícios da morte de Cristo — morte para o pecado,desvencilhamento completo do poder e efeito do reino das trevas — e os benefícios de sua ressurreição, são produzidos por uma forma de contato real com o Espírito Santo. 

 

7. Portanto, por justiça devemos compreender o que é feito tanto na justificação como na santificação, —os resultados dessas medidas divinas, operados na alma do crente. A forma verbal de «justificar», no grego, é «dikaioo», o que, nas páginas do N.T., pode algumas vezes significar alguma forma de pronun­ciamento judicial acerca dos direitos que um homem tem de ficar diante de Deus, em Cristo Jesus. Todavia, perderemos inteiramente de vista a ideia da justificação se ignorarmos o fato de que isso também significa fazer justo, não se resumindo a uma mera declaração sobre aquela retidão que decorre da posição correta do crente, diante de Deus, em Cristo. 

 

Por meio da justificação, o indivíduo recebe o «dom da justiça». E é a pessoa que recebe esse dom que reina em Cristo, conforme aprendemos em Rm 5:17. Assim sendo, a justificação não consiste em uma simples declaração estéril que reconhece a legitima posição de alguém em Cristo, mas antes, requer que ,tal indivíduo se torne verdadeiramente justo. Essa verdade não tem sido vista com muita clareza pela igreja cristã moderna, ainda que, felizmente, aquilo que aqui é comentado sobre a justificação, é transferido para a doutrina da santificação, segundo a maioria dos sistemas teológicos.

 

 «A retidão absoluta, tal como a graça e a verdade absolutas, revelou-se pela primeira vez no cristianis­mo. Trata-se daquela justiça que não somente instaura a lei da letra, e requer a retidão da parte dos homens e que, em seu caráter de juiz, profere a sentença e mata; mas é igualmente aquilo que finalmente se manifesta na união com o amor, ou seja, a graça divina em forma de retidão, produzindo essa retidão no homem... ou ainda, em suma:«A justiça de Deus é a auto comunicação da retidão que procede da parte de Deus, que se torna justiça na pessoa de Cristo, o qual, em seus sofrimentos, como nossa propiciação, satisfez a justiça da lei (em consonância com as exigências da consciência) e que, mediante o ato da justificação, aplica ao crente, para santificação de sua vida, os méritos da expiação de Cristo». (Lange em Rm 1:17). 

 

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