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Apologética cosmo visão cristã (2)
Apologética cosmo visão cristã (2)

                               A cosmovisão cristã e a supremacia de Cristo

        O ponto sublime da cosmovisão bíblica é a supremacia de Cristo sob

 

Uma forma bem simples e ao mesmo tempo desafiadora para assimilar e viver a dimensão integral da fé cristã é pensar como Jesus. Diante de qualquer situação cotidiana precisamos nos perguntar: “O que Jesus faria em meu lugar?”, e, depois, aplicar a resposta sem fazer quaisquer ajustes em virtude da reação dos outros.

George Barna nos lembra que Jesus foi capaz de modelar uma cosmovisão bíblica porque ele é Deus e, assim, conhece e corporifica a verdade e a justiça. No entanto, diz Barna, o fato de Jesus ser humano, enquanto esteve fisicamente na terra, sugere que ele também devia trabalhar para manter uma visão de tudo o que se deparava. Seu processo não foi acidental nem oculto: sua exortação aos discípulos foi: ‘Aprendei de mim’. O que podemos aprender com sua forma de tomar decisões?[i].

 

A SUPREMACIA DE CRISTO

 

O ponto sublime da cosmovisão bíblica é a supremacia de Cristo sobre qualquer outra pessoa ou ícone religioso. Jesus não é mais um no grande panteão de deuses criados pelo homem. Ele é o Filho Unigênito de Deus (Jo 3.16), o primogênito de toda Criação (Cl 1.15), o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6), o [único] Mediador entre Deus e o homem (1Tm 2.5).

Na epístola aos Hebreus, o escritor também evoca a superioridade de Cristo, começando com essa majestosa declaração:

“Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito para si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas; feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb. 1.1-4).

A supremacia de Cristo é tão evidente que no capítulo dois de Hebreus Ele é apontado como sendo superior aos anjos, no capítulo três é superior a Moisés e no capítulo cinco é superior aos sumos sacerdotes do antigo pacto. Em virtude dessa supremacia é que o nome de Jesus é superior a qualquer outro nome, ante quem todo o joelho se dobrará, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor. (Fp 2.9-11).

O próprio Jesus tinha total convicção de sua autoridade. Ele disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). E depois da sua ressurreição dos mortos afirmou: “É-me dado todo o poder no céu e na terra”. (Mt 28.18). Cristo não se considerava um simples sábio, um mero homem de moral elevada ou somente um profeta. Ele sabia que era o filho unigênito de Deus, enviado com o propósito de proporcionar redenção ao homem.

Essa questão não é trivial. A forma como Jesus se auto identificava  serve como parâmetro fundamental no modo como as pessoas o veem.  C. S. Lewis, um dos maiores escritores cristãos do século XX, dizia que é uma tolice as pessoas afirmarem: “Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus”. Afinal, um homem que fosse um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral, mas sim um lunático ou coisa pior. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco, pois ele nunca nos deixou a opção de considerá-lo como simples mestre humano. Lewis também observa que parece ser óbvio que Jesus não era lunático, muito menos um demônio. Por isso, precisamos reconhecer que ele era, e é Deus. “Deus chegou sobre forma humana no território ocupado pelo inimigo”.[ii]

Permitam-me prosseguir um pouco mais nesse tema.

Ao realizar a pesquisa do seu livro Em defesa de Cristo, Lee Strobel entrevistou Gary R. Collins, Ph.D em psicologia, a fim de investigar se o perfil psicológico de Jesus revelava qualquer indício de que ele tinha problemas mentais, pelo fato de afirmar que era Deus. Collins, com todo o seu conhecimento, lembrou que os psicólogos não prestam atenção e avaliam somente o que as pessoas dizem, mas vão mais fundo, para observar suas emoções  e comportamento.

Jesus nunca demonstrou emoções inadequadas, quadro depressivo ou de angústia completa. Ao contrário, os relatos bíblicos comprovam a lucidez de um individuo emocionalmente saudável. Até mesmo os seus momentos de ira revelam reações ponderadas, contra a injustiça e os maus-tratos evidentes de que o povo era vítima. Jesus não tinha problemas de percepção – comum em pessoas perturbadas psicologicamente, e nunca perdeu o contato com a realidade. As narrativas bíblicas, destacam que ele, ao contrário de pessoas com problemas mentais, mantinha uma conversão lógica e bom relacionamento social com as demais pessoas.

O Dr. Collins ainda diz que “Ele era compassivo, mas nunca deixou que a compaixão o imobilizasse; não tinha um ego inflado, muito embora fosse constantemente rodeado por uma multidão de adoradores; conservou o equilíbrio, a despeito de um estilo de vida que impunha severas obrigações; sempre sabia o que estava fazendo e para onde ia; preocupava-se profundamente com as pessoas, inclusive com as mulheres e as crianças; que na época não eram consideradas importantes; acolhia as pessoas, embora não fizesse vista grossa para seus pecados; conversava com as pessoas onde quer que estivessem e sempre levava conta suas necessidades!”.

Além de afirmar que era o Filho de Deus, Jesus deu provas de seus atributos divinos de Onisciência (Jo 16.30), Onipresença (Mt 28.20), Onipotência (Mt 28.18), Eternidade (Jo 1.1) e Imutabilidade (Hb 13.8).

Jesus também tinha a credencial divina de perdoar pecados (Lc 7.48; Mc 2.5; Mt 9.2).  Enquanto os demais deuses criados pelo homem são apresentados como divindades dignas de adoração, somente Cristo se manifesta como o Salvador que morreu pelos pecados da humanidade, e por isso é capaz de ofertar perdão. Mas, apenas quem não comete pecados tem essa autoridade. Jesus também demonstrou em sua vida. Seu nascimento virginal foi o início de um vida extraordinariamente sem mácula, tanto é assim que nunca houve qualquer testemunho sobre erros cometidos por Jesus. Na verdade, a sua condenação à morte de cruz foi o julgamento mais injusto de toda a história da humanidade, com traição, falsas acusações, testemunhas subornadas, prisão preventiva sem fundamento, interrogatório ilegal e falta de ampla defesa.

Erwin Lutzer nos aconselha a esquadrinhar os horizontes religiosos, lendo a vida dos grandes mestres religiosos de todos os tempos; não apenas o que ensinaram, mas também o que disseram acerca deles mesmos. Ao buscar um Salvador qualificado e sem pecado você descobrirá que Cristo não tem rival: “Se houvesse outro que reivindicasse inculpabilidade, teríamos prazer em checar suas credenciais pra ver como elas se comparam com as de Cristo. Mencione a exigência de inocência e o campo religioso se define; só um homem permanece. Cristo vive de acordo com seu nome!”.[iii]

“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus, que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios; primeiramente, por seu próprios pecados e, depois pelos do povo; porque isso fez, uma vez, oferecendo-se a sim mesmo” (Hb 7.26, 27).

 

A RESSURREIÇÃO DE JESUS 

Vale lembrar também que os evangelhos estão repletos de curas e milagres realizados por Cristo, a exemplo da transformação de água em vinho, multiplicação de pães, curas de aleijados, cegos e outras doenças. O milagre é uma intervenção divina na natureza. Contudo, o milagre mais magnífico em Jesus é a sua ressurreição dos mortos. A vitória dele sobre a morte, diz o apóstolo Paulo, é um dos pilares da fé cristã: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé”.(1 Co 15:14)

A ressurreição de Jesus é um evento histórico, não um mito, e por isso é possível assegurar que temos elementos consistentes para acreditar no túmulo vazio. Algumas pessoas tentaram provar que Jesus nunca ressuscitou, mas no final acabaram se convencendo do contrário. Uma dessas pessoas foi Frank Morison, um jornalista inglês que se lançou a provar que a história do ressurreição de Cristo não passava de um mito. Porém, suas pesquisas o levaram a crer no Jesus ressurreto, resultando no livro Who Moved the Stone? (Quem moveu a pedra?). Ele escreveu:

“Eu desejava apanhar essa última etapa da vida de Jesus, com todo seu drama movimentado e vibrante, com seu contexto bem antigo e claramente definido, e com seu enorme interesse psicológico   e humano – desvencilhá-lo dessas crenças primitivas e suposições dogmáticas que tomaram conta da história, para então poder enxergar essa pessoa supremamente grande tal como era.

Não é preciso descrever aqui como, depois de mais de dez anos, surgiu a oportunidade de estudar a vida de Cristo tal como, havia muito tempo, eu desejava fazer; investigar as origens da literatura que trata dessa história, examinar pessoalmente algumas provas e formar meu próprio juízo sobre o problema que a vida de Cristo apresenta. Apenas direi que esse estudo operou uma revolução em minhas ideias. Daquela história muito antiga surgiram coisas que anteriormente eu julgara impossíveis. Lenta mas bem claramente cresceu dentro de mim a convicção de que o drama daquelas semanas inesquecíveis da história humana era mais estranho e de significado mais profundo do que parecia. Foi a singularidade de muitas coisas notáveis na história que primeiramente atraiu e manteve meu interesse. Somente mais tarde foi que a lógica irresistível do significado dessas coisas veio a aparecer”. (citado por Josh McDowell, Evidências que exigem um veredito)

Gary Habermas afirma que a singularidade da transformação dos discípulos de Jesus é um dos fatores comprobatórios da aparição de Cristo após  sua morte. Se antes da morte do Mestre os seu discípulos o abandonaram e o negaram, com medo de represálias do povo e do poder da época, após a ressurreição do Mestre suas vidas foram radicalmente alteradas, muitos inclusive foram martirizados. A ressurreição, diz Habermas, foi o catalisador e a exaltação dos discípulos. Se eles não tivessem passado por tal experiência, não haveria transformações, pois sem esse evento a vida deles seria vazia.[iv]

Nos dias atuais, se visitarmos o Père-LaChaise, o maior cemitério de Paris e um dos mais famosos do mundo, onde estão enterradas personalidades famosas como Oscar Wilde, Marcel Proust, Auguste Comte, Molière e outros, encontraremos também os restos mortais de Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido por Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita. Se formos à Índia, poderemos encontrar – espalhado em pelo menos oito lugares diferentes – o que sobrou das cinzas e da ossada de Siddartha Gautama, o Buda, fundador do budismo. Na cidade de Medina, Arábia Saudita, está o corpo de Ab? al-Q?sim Mu?ammad ibn ?Abd All?h ibn ?Abd al-Mu??alib ibn H?shim, mais conhecido como Maomé, o profeta do islamismo. Mas, se formos até Jerusalém, no lugar em que enterraram Jesus, não encontraremos nenhum vestígio de seus restos mortais, pois a pedra foi removida e o túmulo está vazio. Ele ressuscitou!

Ao longo da história os antiteístas tem tentado – em vão – colocar “pedras” à entrada do sepulcro para desacreditar na divindade de Cristo e no cristianismo. De acordo com Erwin Lutzer, Karl Marx rolou a pedra da economia, dizendo que a religião era o ópio do povo, mas o marxismo naufragou. Sigmund Freud rolou a pedra da psicoterapia, ao afirmar que Deus era a criação da nossa imaginação, mas hoje a própria psiquiatria está no divâ, com todas as suas contradições teóricas. Voltaire empurrou a pedra da cultura, ao afirmar que Deus estava morto e que em menos de cem anos a Bíblia seria um livro esquecido, mas Deus está vivo como nunca, o evangelho encontra-se em expansão e a Bíblia continua sendo o maior e melhor livro de todos os tempos. Darwin empurrou a pedra da ciência, mas hoje o seu darwinismo está despedaçando como um conto de fadas diante da dura realidade.

Não importa. Todas quantas pedras sejam colocadas diante do sepulcro serão removidas. Como afirmou A. W. Tozer: “A ressurreição demostra de uma vez por todos quem ganhou em quem perdeu”.

Notas 

[i]BARNA, George. Pense como Jesus. São Paulo: Vida Nova. 2007, p.29.

[ii]LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes. 2005, p. 68-71.

[iii]LUTZER, Erwin. Cristo entre outros deuses: uma defesa da fé crista numa era de tolerância. Rio de Janeiro: CPAD. 2000, p. 81. 

[iv]HABERMAS, Gary. In: Ensaios apologéticos: um estudo para uma cosmovisão crista. São Paulo: Hagnos, 2006, 231. 

 

E Agora, Como Viveremos?

O cristianismo vai além de João 3:16?

Os cristãos podem fazer alguma diferença no mundo? A cosmovisão cristã nos dá o mapa que precisamos para viver? Uma cultura pode ser reconstruída de maneira que todo mundo possa ver no seu esplendor e glória o perfil do Reino de Deus? O cristianismo vai além de João 3:16? Ser cristão é mais que ter um fé pessoal em Cristo?

As perguntas acima esposadas são a tônica do livro “E agora, como viveremos?” de Charles Colson & Nancy Pearcey. Li pelo primeira vez esse trabalho ainda nos primeiros passos da minha caminhada cristã, coincidentemente com o meu ingresso no mundo universitário. Nesse contexto, via repetidas vezes os fundamentos da fé cristã serem relegados e a cruz de Cristo maltratada. A mente intelectual e envaidecida de alguns professores e alunos, entupidas que eram pela filosofia humanista e pela sociologia da autonomia e independência, descambavam para a defesa de um pós-modernismo sem precedentes, onde Deus era mais um simples coadjuvante, e as coisas espirituais não passavam de invenção humana.

Nesse cenário acadêmico, e, apesar de estar no fogo do primeiro amor, cujo desejo ardente de apregoar a mensagem do evangelho era mais intenso que em qualquer outro momento da vivência cristã, minha fé foi posta em prova. Eis que até então, acostumado com os ensinos doutrinários da igreja, focados em temas espirituais e estudos bíblicos, vislumbrei um enorme hiato entre aquilo que eu aprendia contraposto ao que acontecia além das portas do templo que freqüentava. Minha visão espiritual, até aquele ponto circunscrita ao limites de João 3.16, deu de cara com um mundo onde o evangelho apresentava-se como um mero compromisso de final de semana.

Sintetizando: passou pela minha cabeça que a religião que professava estava distante muitos anos luz da realidade. Aparentemente minha fé pessoal não possuía todas as repostas possíveis para as questões sociais. Minha espiritualidade fazia parte de um mundo paralelo, fictício, cujos dogmas diziam respeito unicamente à vida espiritual, adoração à Deus, salvação, céu e inferno. E que, portanto, tais dogmas estavam aquém e/ou além da ciência, da sociedade ou do cotidiano. Por um curto período de tempo pontos de interrogação pairavam sobre a minha cabeça, onde o embate entre fé x mundo era constante.

Nesse exato cenário foi que conheci a obra de Charles Colson e Nancy Pearcey. No melhor estilo norte-americano de escrever, Colson despertou minha atenção pela forma como abordava assuntos complexos com imensa facilidade. As teorias filosóficas e as doutrinas bíblicas de queda e redenção do homem foram diluídas em narrações de personagem reais, tornando o processo de leitura e aprendizado agradável e consistente.

O que mais despertou meu interesse foi uma das declarações dos escritores na contra-capa do livro. “O verdadeiro cristianismo vai além de João 3.16”. Uma sentença aparentemente herética e imbecil, afinal o versículo chave da Bíblia Sagrada – porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha vida eterna – era, pra mim, a síntese do Cristianismo, a própria razão de ser da minha conversão. Ali estava demonstrado o imenso e infinito amor do Criador. De forma que o cristianismo não era mais nem menos que o verso de João 3:16. Porém, estava equivocado.

Compreendi pouco depois que Colson não estava com tal declaração anulando o amor de Deus em nossas vidas. Ao contrário, a verdade era – e é – que o amor de Deus pela humanidade era mais amplo do que aquilo que estava acostumado a ouvir e aprender, e que o Cristianismo estava além da rotina igrejista dos finais de semana. O Cristianismo é mais que uma crença particular, mais do que salvação pessoal; é um sistema de vida compreensível que responde às perguntas mais antigas da humanidade: De onde eu vim? Por que estou aqui? Para onde estou indo? A vida tem algum significado e propósito?

A obra deu-me naquela oportunidade combustível suficiente para continuar minha caminhada como cristão e recursos para a defesa da fé, fazendo-me compreender que o Reino de Deus é muito mais do que eu acreditava ser, passando a entender que os princípios cristãos devem nortear não somente nossa forma de adoração à Deus, nosso relacionamento eclesiástico ou a maneira como realizamos campanhas evangelísticas, mais que isso: os valores cristãos devem dirigir nossas condutas ante todas as questões sociais contemporâneas, seja relacionado à política, à cultura, à família, à educação, à ciência e até mesmo ao direito. Pois que, deve ser encarado como um forma de ver o mundo [cosmovisão], que traduz-se numa “lente fictícia” onde a realidade é a partir dela interpretada.

A responsabilidade da igreja, portanto, vai além da mera realização de “eventos espirituais” e agendas festivas, sobretudo, ela é responsável por redimir toda uma cultura em decadência e implantar o padrão bíblico de vivência. Seus princípios devem se inserir em todos os campos de atuação do homem. Seus fundamentos precisam adentrar nos vários extratos sociais e intelectuais da sociedade, numa síntese daquilo que disse Cristo: “Vós sois do sal da terra e a luz do mundo”. O sal para nada serve se for insípido. A luz não tem finalidade alguma se estiver escondida. E se ignorarmos essa responsabilidade de redimir a cultura que nos rodeia, diz Colson – nosso Cristianismo vai permanecer particular e ridicularizado.

Particular e ridicularizado? Será que o nosso cristianismo possui tais “qualidades”? Responda você mesmo após refletir acerca das seguintes indagações: Nosso cristianismo o que tem feito para redimir a cultura que nos cerca? Nosso cristianismo se importa com o destino da educação secular que insere dia após dia conceitos evolucionistas na formação de nossos filhos? Temos alçado a voz contra o relativismo ético? Nossa igreja tem dado o valor devido à propagação das mensagens da nova era? Nossas lideranças têm direcionado ações com o fim de coibir a aprovação de leis anti-cristãs? Nossos políticos evangélicos têm sido luz em meio a tanta corrupção? O que temos feito em respeito à violência? Quais as nossas ações em relação à saúde? Nossas atitudes em relação à prostituição infantil? Nossos cristãos são cidadãos conscientes? Ou melhor, nós, cristãos, somos cidadãos? Nossas igrejas investem em educação e formação de cristão conscientes? E, finalmente, o que você e eu temos feito?

Imagino que sua conclusão não será tão diferente da minha! Baseado em perquirições desse estilo é que Colson utiliza a pergunta “E agora, como viveremos?” como titulo do seu livro. Ao vislumbrar os avanços do naturalismo, as garras do pós-modernismo e as teias do pluralismo invadirem a sociedade ele faz essa pergunta como um grito de desespero: E agora, como, nós cristãos, vamos viver nessa sociedade? E agora, como vamos mudar essa realidade? E agora, como vamos redimir essa cultura? E agora, como implantar um padrão essencialmente cristão no mundo?

Ele responde ao final: “Abraçando a verdade de Deus, entendendo a ordem moral e física que Ele criou, argumentando amavelmente com nosso vizinhos por amor a essa verdade, e então tendo a coragem de vivê-la em todos os aspecto da vida” 

 

O Direito e a cosmovisão cristã

Somente a cosmovisão cristã pode erigir um sistema de justiça, igualdade e dignidade da pessoa humana

Por que é tão importante ter uma cosmovisão cristã? Porque o cristianismo nos dá um mapa para a realidade, um esboço do mundo do jeito que ele realmente é: a ordem moral e física de Deus. E se nós queremos fazer o nosso caminho de forma eficaz através da vida, para viver de acordo com a realidade, temos que seguir o mapa, dizia Charles Colson. Além disso, a cosmovisão cristã nos ajuda a defender a nossa fé, dando-nos a linguagem para explicar por que a ética cristã é bom para a sociedade, ou a visão bíblica da natureza humana é essencial para uma boa política pública.

Muitos imaginam que compreender o cristianismo como uma visão de mundo é algo muito teórico e filosófico, e por isso deveria ser assunto somente para pastores e eruditos. Mas não é. Desenvolver uma cosmovisão bíblica deve ser uma preocupação de todo cristão, seja ele erudito ou não, pastor ou membro da igreja, pois se trata de um conjunto de suposições e crenças que utilizamos para interpretar e formar opiniões acerca da nossa humanidade, propósito de vida, deveres no mundo, responsabilidades para com a família, interpretação da verdade e questões sociais. É como um mapa mental que nos diz como navegar de modo eficaz no mundo.

Acrescento ainda que compreender o cristianismo como uma cosmovisão é importante porque conduz ao entendimento de que a fé não é algo somente privado, mas também público. Influenciados por uma forte tendência de secularização, muitos cristãos estão a aceitar a falsa ideia de que a fé é algo eminentemente privado e que por isso deve ser vivida e expressada somente no âmbito pessoal e religioso, sem a possibilidade de influenciar as questões públicas. Como vaticinou Dinesh D´Souza: “Muitos cristãos renunciaram a essa missão [participação efetiva no mundo], buscando um modus vivendi viável e confortável no qual concordam em deixar o mundo secular em paz se o mundo secular concordar em deixá-los em paz”. 

O entendimento do cristianismo como uma visão de mundo desfaz esse equívoco, ao defender a inexistência de separação entre o sagrado e o secular, e que os princípios cristãos possuem densidade suficiente para abordar todas as áreas da vida humana. O cristianismo genuíno é a interpretação de toda a realidade, o que implica dizer que nenhuma área da vida humana escapa da soberania divina. O Apóstolo Paulo escreveu que em Cristo foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para Ele (Colossenses 1:16). Em outra oportunidade, o apóstolo dos gentios disse que a terra é do Senhor e toda a sua plenitude (I Co 1.26).

Portanto, nada está fora do alcance do poder do evangelho (Rm 1.16). O Direito, a Economia, a Ciência, a Educação, a Filosofia, o Estado e as Artes, por exemplo, precisam ser vistas pelas lentes da Bíblia. E para que isso aconteça precisamos pensar em termos bíblicos. Necessitamos da mente de Cristo (1Co 2.16).
No caso do Direito, especificamente, somente a cosmovisão cristã pode erigir um sistema de justiça, igualdade e dignidade da pessoa humana. Para tanto, basta observamos o primeiro elemento da tríade bíblica criação-queda-redenção, a qual contraria o pensamento dualista (secular-sagrado) e fornece os elementos necessários para a construção da perspectiva cristã.

A ideia da Criação aponta para o propósito da vida humana, por isso ela tem sentido e significado. O homem é fruto de um desígnio perfeito de um Deus amoroso (Jo 3.16) e sábio. Não somos acidentes e muito menos vivemos à deriva, sem rumo e sem direção.

Ao contrário da cosmovisão cristã, a cosmovisão naturalista pressupõe a inexistência de finalidade para a vida humana. A partir dessa concepção é possível perceber trágicas consequências daí advindas. Se a nossa existência não tem nenhum propósito, logo a vida não tem sentido. Se a vida não tem sentido, resta somente um mundo vazio e desprovido de significado, onde impera o caos, a desesperança e a falta de uma base moral objetiva.

Por essa razão Ravi Zacharias escreve: “Quando alguém tenta viver sem Deus, as respostas à moralidade, à esperança e ao sentido da vida o enviam ao seu próprio mundo para moldar para si uma resposta individualizada. Viver sem Deus significa elevar-se com a ajuda de seus próprios instrumentos metafísicos, seja qual for os meios escolhidos.... Pode então o homem viver sem Deus? Claro que pode, no sentido físico. Pode viver sem Deus de maneira racional? A resposta é: Não!; porque tal pessoa é compelida a negar a lei moral, a abandonar a esperança, a privar-se do significado e a arriscar-se a não se recuperar, se estiver errada. A vida já oferece muita evidência do contrário. Fora do Cristo não há lei, não há esperança e não há sentido. Você, e só você, é aquele que vai determinar e definir estes elementos essenciais da vida; e você e só você, é o arquiteto da sua própria lei moral; você e só você, idealiza sentido para a sua vida; você, e só você, arrisca tudo o que tem baseado numa esperança que você imagina” .

A segunda implicação da doutrina cristã da Criação é a dignidade da pessoa humana. A passagem bíblica de Gn 1.26-27 é paradigmática e estabelece o princípio segundo o qual todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade, uma vez que temos a imagem de Deus, as suas “impressões digitais”. A dignidade da pessoa humana não é somente uma ideia cristã, como também um atributo universal próprio do ser humano, de procedência transcendente, que gera uma pretensão universal de reconhecimento, respeito e proteção tendo como destinatários todos os indivíduos e todas as formas de poder político e social.

O jurista português Jónatas Machado lembra que para a visão do mundo judaico-cristã, essa dignidade especial de ser criado à imagem e semelhança de Deus manifesta-se nas peculiares capacidades racionais, morais e emocionais do ser humano, na sua postura física erecta, sua criatividade e na sua capacidade de articulação de pensamento e discurso simbólico, distinta de todos os animais, por mais notáveis que sejam as suas características.

Jónatas destaca ainda que a teologia da imagem de Deus (imago Dei) constitui a base das afirmações de grandes pensadores da história, a exemplo de Francisco de Vitória, Francisco Suareza, Hugo Grócio, Samuel Pufendorf, John Milton, John Lock James Madison e Thomas Jeferson, sobre a dignidade, a liberdade e a igualdade, as quais viriam a frutificar no mundo jurídico, especialmente o direito a liberdade individual e a capacidade de autodeterminação democrática do povo .

Ao contrário da cosmovisão cristã, as demais cosmovisões não possuem uma base firme o suficiente na qual a defesa da dignidade humana possa se apoiar. Qual é a justificativa pela qual as pessoas devem ser tratadas com respeito e justiça se elas são meros acidentes biológicos?

Lembro-me do livro “The Natural History of Rap”, em que os dois professores universitários defendem a ideia de que o estupro não é uma patologia biologicamente falando, mas sim uma adaptação evolucionária, uma estratégia para maximizar o sucesso reprodutivo. Para os autores, o estupro é biológico, “um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana”, como “manchas de leopardo e de pescoço alongado da girafa”. Em outras palavras, alguns homens podem recorrer à coerção para cumprir o imperativo reprodutivo.

Esse exemplo mostra que a adoção da cosmovisão naturalista tem sérias implicações contra a dignidade da pessoa humana, pois ao retirar Deus do cenário, o darwinismo retira também os princípios que deveriam nortear a vida em sociedade, sobrando tão somente o acaso, impulsos biológicos e materialismo, de modo a tornar legítimo até mesmo o estupro, como um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana.

Outro princípio subjacente da Criação é a igualdade. Se todos provém do mesmo Criador, não há razão e muito menos justificativa para um ser humano seja considerado superior ou inferior ao outro, por isso a premissa judaico-cristã que todos merecem ser tratados sem distinção, independentemente da cor, raça, sexo, etnia ou religião.

O fundamento do tratamento igualitário é o próprio Deus que não faz acepção de pessoas (At 10.34). Nesse sentido, o apóstolo Paulo escreve: Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3.28).

Dinesh D´Souza lembra que “o caráter precioso e a igualdade de valor de cada vida humana é um conceito cristão”. Os cristãos sempre acreditaram que Deus atribui a cada vida humana que cria um valor infinito e que ama a cada pessoa de igual modo. No Cristianismo, você não é salvo por meio de sua família, tribo ou cidade. A salvação é uma questão individual. Além disso, Deus tem uma “vocação” ou chamado para cada um de nós, um plano divino para cada um de nós, conclui D´Souza .

Referências:

1. Disponível em: http://www.religiontoday.com/columnists/breakpoint/colson-s-passion-and-legacy.html.
2. D´SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo: por que a religião criada por Jesus é moderna fascinante e inquestionável; [tradução Valéria Lamin Delgado Fernandes]. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, p.14.
3. ZACHARIAS, Ravi. Poder o homem viver sem Deus? – São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 95-96.
4. MACHADO, Jónatas E.M. Estado Constitucional e Neutralidade Religiosa: entre o teísmo e o (neo) ateísmo. – Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2013, p. 37.
5. MACHADO, Jónatas E.M, p. 38.
6. D´SOUZA, Dinesh, p.90.

fonte www.avivamentonosul.com