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apologetica milagras e maravilhas de Deus
apologetica milagras e maravilhas de Deus

                      Milagres: sinais de Deus ou enganação?

 

 Norman Geisler

Se aceitamos Deus, devemos aceitar os milagres? No fundo, no fundo, você não tem certeza disso. Essa é a barganha. C. S. LEWIS

QUEM VENCEU?

Precisamos fazer uma pausa por um instante e reunir as peças do quebra-cabeça que encontramos até agora. Lembre-se: estamos procurando por unidade na diversidade. Estamos tentando juntar as peças da vida aparentemente diferentes em uma imagem coerente. Até aqui, nossa imagem coerente nos mostra que a verdade existe e que pode ser conhecida. Qualquer negação da verdade pressupõe a verdade, de modo que a existência da verdade é inevitável. Embora não possamos saber a maioria das verdades absolutas devido à limitação humana, podemos conhecer muitas verdades com um alto grau de certeza (i.e., “ainda que haja uma dúvida justificável”). Uma dessas verdades é a existência e a natureza de Deus. Com base nas linhas de evidências que revisamos — os argumentos cosmológico, teleológico e moral [1], podemos saber, ainda que haja uma dúvida justificável, que existe um Deus teísta com determinadas características.

 

Com base no argumento cosmo lógico, sabemos que Deus é:

  1. Aura-existente, atemporal, não espacial, imaterial (uma vez que ele I criou o tempo, o espaço e a matéria, então deve estar fora do tempo, do espaço e da matéria). Em outras palavras, ele não tem limites. Ou seja, ele é infinito.
  2. Inimaginavelmente poderoso, uma vez que ele criou todo o Universo do nada.
  3. Pessoal, uma vez que ele optou por converter um estado de nulidade em um Universo tempo-espaço-material (uma força impessoal não tem capacidade de tomar decisões).

 

Com base no argumento teleológico, sabemos que Deus é:

  1. Supremamente inteligente, uma vez que planejou a vida e o Universo com incrível complexidade e precisão.
  2. Determinado, uma vez que planejou as muitas formas de vida para viverem nesse ambiente específico e ordenado.

 

Com base no argumento moral, sabemos que Deus é:

Absolutamente puro no aspecto moral (ele é o padrão imutável de moralidade pelo qual todas as ações são medidas. Esse padrão inclui justiça e amor infinitos).

 

Teísmo é O termo adequado para descrever tal Deus. Aqui está a maravilhosa verdade sobre essas descobertas: o Deus teísta que descobrimos é compatível com o Deus da Bíblia, mas nós o descobrimos sem usar a Bíblia. Mostramos que, por meio de raciocínio, ciência e filosofia adequados, pode-se conhecer muitas coisas sobre o Deus da Bíblia. Na verdade, isso é o que a própria Bíblia diz (e.g. 5119; Rm 1.18-20; 2.14,15). Os teólogos chamam essa revelação de Deus de natural ou revelação geral (que é claramente vista independentemente de qualquer tipo de Escritura). A revelação das Escrituras é chamada de revelação especial.

Assim, sabemos por meio da revelação natural que o teísmo é verdadeiro.

Essa descoberta nos ajuda a ver não apenas como é a verdadeira tampa da caixa, mas o que ela não pode ser. Uma vez que o oposto de verdadeiro é falso (cap. 2), sabemos que qualquer visão de mundo não teísta deve ser falsa. Ou, colocando de outra maneira, entre as maiores religiões mundiais, somente uma das religiões teístas — judaísmo, cristianismo ou islamismo — pode ser verdadeira. Todas as outras principais religiões mundiais não podem ser verdadeiras, porque elas são ateístas.

 

Pode ser verdadeira (teísta)

Não pode ser verdadeira (não teísta)

1. Judaísmo

1. Hinduísmo (panteísta ou politeísta)

2. Cristianismo

2. Budismo (panteísta ou ateísta)

3. Islamismo

3. Nova Era (panteísta)

 

4. Humanismo secular (ateísta)

 

5. Mormonismo (politeísta)

 

6. Wicca (panteísta ou politeísta)

 

7. Taoísmo (panteísta ou ateísta)

 

8. Confucionismo (ateísta)

 

9. Xintoísmo (politeísta)

Tabela 8.1

Isso pode parecer uma declaração muito imponente — negar a verdade de tantas religiões mundiais nesse estágio. Mas, por meio de lógica simples usando a lei da não-contradição — religiões mutuamente excludentes não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Tão certo quanto jogadores de futebol são cortados da escalação de um jogo porque carecem de certas habilidades, certas religiões mundiais são cortadas da escalação como possíveis religiões verdadeiras porque carecem das qualificações necessárias.

Desse modo, por meio da lógica, se o teísmo é verdadeiro, então todos os não teísmos são falsos. Isso não significa que todo o ensinamento de uma religião não teísta é falso ou que não existe nada de bom nessas religiões — certamente existe verdade e bondade na maioria das religiões mundiais. Isso simplesmente quer dizer que, como uma maneira de se olhar para o mundo (i.e., uma visão de mundo), qualquer religião não teísta está construída sobre um fundamento falso. Embora alguns detalhes possam ser verdadeiros, o cerne de qualquer sistema religioso não teísta é falso. Eles são sistemas de erro, embora tenham alguma verdade.

Os hindus, por exemplo, corretamente ensinam a verdade de que você colhe aquilo que planta, embora a visão de mundo do hinduísmo — a de que “você” não existe realmente porque tudo é parte de uma realidade indistinguível chamada brahma — seja falsa. O humanismo secular afirma corretamente a realidade do mal, embora a visão de mundo humanista — que nega um padrão objetivo pelo qual possamos detectar o mal — seja falsa. Os mórmons ensinam corretamente que existem padrões morais aos quais devemos obedecer, embora a visão de mundo mórmon — segundo a qual existem muitos deuses — seja falsa. [2]

Este último ponto sobre o mormonismo levanta uma questão, a saber: por que a existência de um Deus teísta refuta o politeísmo? Ela refuta o politeísmo porque Deus é infinito e não pode haver mais de um Ser infinito. Para distinguir-se um ser de outro, eles devem diferir em algum aspecto. Se diferem de alguma maneira, então um tem falta de uma coisa que o outro possui. Se um ser carece de alguma coisa que o outro possui, então o ser que tem falta não é infinito, porque, por definição, um ser infinito não carece de nada. Desse modo, só é possível existir um único Ser infinito.

Alguém poderia argumentar que existem seres finitos (ou “deuses”) mais poderosos do que os seres humanos. De fato, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo ensinam a existência de anjos e demônios. Mas isso não é politeísmo, que nega que existe um Ser supremo, infinito e eterno a quem todas as criaturas devem sua existência e em relação a quem todas as criaturas são, por fim, responsáveis. Uma vez que o teísmo é verdadeiro, o politeísmo é tão falso quanto o ateísmo, o panteísmo e todas as outras visões de mundo não teístas.

Mas estamos divagando. A questão principal é que a tampa correta da caixa do Universo mostra um Deus teísta. Isso significa que apenas uma das três maiores religiões mundiais vence no padrão da verdade: judaísmo, cristianismo ou islamismo. Logicamente, é fato que todas essas religiões mundiais teístas não podem ser verdadeiras, uma vez que elas fazem declarações mutuamente excludentes. Além do mais, é possível que nenhuma dessas três religiões mundiais seja completamente verdadeira. Talvez possuam o teísmo e pouca coisa mais. Isso é possível. Contudo, uma vez que sabemos, mesmo com uma pequena parcela de dúvida justificável, que Deus existe e que possui as características que enumeramos anteriormente — características que incluem projeto, propósito, justiça e amor -, então deveríamos esperar que ele revelasse mais de si mesmo e de seus propósitos para a nossa vida. Isso exigiria que ele se comunicasse conosco. É provável que uma das três maiores religiões teístas contenha essa comunicação.

 

COMO DEUS SE COMUNICA?

Como vimos, Deus já se comunicou conosco por meio da criação e da consciência (revelação natural ou geral), o que nos dá idéias básicas sobre sua existência, seu poder e suas exigências morais. Mas como Deus poderia revelar a si mesmo de modo que pudéssemos ter uma compreensão mais detalhada de qual seja o seu propósito último para nós?

Por que não poderia ele aparecer a cada um de nós? Ele poderia, mas isso interferiria em nosso livre-arbítrio. C. S. Lewis tem alguns insights maravilhosos sobre esse assunto. Em seu livro The Screwtape Letters, Coisa-ruim, o demônio velho, escreve o seguinte a seu discípulo Pé-de-cabra:

Você deve ter pensado por que o Inimigo [Deus] não faz mais uso de seu poder para ser sensivelmente presente às almas humanas em qualquer grau e em qualquer momento que ele escolha. Mas você vê agora que o Irresistível e o Indiscutível são as duas armas que a própria natureza de seus planos o impede de usá-las. Simplesmente sobrepor-se à vontade humana (o que sua presença certamente faria ainda que em seu grau mais ínfimo seria inútil para ele. Ele não pode arrebatar. Pode apenas cortejar.[3]

Se Deus não escolheu a poderosa opção de interagir face a face com todas as pessoas do planeta, então talvez tenha escolhido um método mais sutil de comunicação (de fato, a Bíblia diz que Deus nem sempre é tão aberto quanto nós gostaríamos que fosse [Is 45.15]). Talvez Deus tenha se manifestado de alguma maneira a algum grupo seleto de pessoas nesses tantos séculos e o tenha inspirado a escrever aquilo que testemunhou e ouviu dele. A linguagem escrita é um meio preciso de comunicação que pode facilmente ser duplicado e passado adiante, às gerações seguintes, mas ele também pode ser facilmente ignorado por aqueles que, por livre decisão, optam por não quererem ser incomodados por Deus.

Desse modo, um livro funcionaria como um meio de comunicação válido, mas não impositivo da parte de Deus. Mas qual livro? Deus se comunicou por meio do livro dos judeus, dos cristãos ou dos muçulmanos? Como podemos dizer qual livro — se é que existe algum — é realmente uma mensagem vinda de Deus?

 

O SELO DO REI

Nos dias anteriores à comunicação em massa — quando todas as mensagens endereçadas a locais distantes eram entregues em mão -, um rei colocaria seu selo sobre essa mensagem. Esse selo era um sinal ao destinatário de que a mensagem era autêntica — ela realmente viera do rei, e não de alguma outra pessoa fazendo-se passar pelo rei. É claro que para fazer esse sistema funcionar, o selo precisava ser incomum ou singular, facilmente reconhecível, e precisava ter alguma coisa que só o rei possuísse.

Deus poderia usar um sistema parecido para autenticar suas mensagens falando de maneira específica, poderia usar os milagres. Os milagres são incomuns e singulares, facilmente reconhecíveis e somente Deus pode realizá-los. Até mesmo os céticos, ao exigirem um sinal de Deus, estão implicitamente admitindo que os milagres provariam sua existência.

O que é um milagre? Um milagre é um ato especial de Deus que interrompe o curso normal dos fatos. O ateu Antony Flew definiu de maneira muito boa: “O milagre é alguma coisa que jamais teria acontecido caso a natureza, como é, fosse deixada por si só”. [4] Desse modo, podemos dizer que as leis naturais descrevem o que acontece regularmente, por meio de causas naturais; os milagres, se é que ocorrem, descrevem o que acontece raramente, por meio de causas sobrenaturais.

Por meio dos milagres, Deus poderia dizer ao mundo qual livro ou qual pessoa fala por ele. Desse modo, se Deus quisesse mandar uma mensagem por meio de Moisés, Elias, Jesus, Paulo, Maomé ou qualquer outro, ele poderia realizar milagres por meio dessa pessoa.

Se Deus realmente trabalha dessa maneira, então um milagre confirma a mensagem, e o sinal confirma o sermão. Ou, colocando-se de outra maneira, um milagre é um ato de Deus para confirmar a palavra de Deus por meio de um mensageiro de Deus.

A pergunta é: Deus trabalha dessa maneira? O Rei do Universo usa tais sinais? Os milagres são até mesmo possíveis? Nosso mundo secular diz que não. Como estamos prestes a ver, o mundo está plenamente enganado.

 

A CAIXA ESTÁ ABERTA OU FECHADA?

Numa recente viagem à Rússia para falar com educadores daquele país, o professor de seminário Ronald Nash teve um grande desafio. Ele queria falar-lhes sobre Deus, mas sabia que não chegaria muito longe com eles a não ser que pudesse vencer a sua antiga oposição ao teísmo. Por mais de 70 anos, os russos foram instruídos numa visão de mundo que excluía Deus logo de início. A religião oficial do Estado era o ateísmo, e a visão de mundo ateísta afirma que existe apenas um mundo natural e material. De acordo com os ateus, os milagres são impossíveis porque não existe um mundo sobrenatural. Acreditar de outra maneira é acreditar em contos de fadas.

Nash começou mostrado-lhes duas pequenas caixas de papelão. Uma estava aberta, e a outra, fechada.

”Aqui está a diferença entre a sua visão de mundo e a minha’ — começou ele.

Apontando para a caixa fechada, disse: “Você acredita que o Universo físico está fechado. Crê que o Universo é tudo o que existe e que não há nada fora dele”, explicou. Voltando-se para a caixa aberta, continuou: “Eu também acredito na existência do Universo físico, mas também acredito que o Universo está aberto, que existe alguma coisa fora do Universo, que chamamos Deus”. Nash fez uma pausa e disse: “E que Deus criou a caixa!”.

Ele colocou a mão dentro da caixa aberta e disse:

— Assim como posso colocar a mão nesta caixa para manipular o seu conteúdo, Deus pode colocar a mão em nosso Universo e executar aquilo que chamamos de milagres. [5]

Por alguma razão, essa foi uma ilustração muito tocante para os russos. Lâmpadas começaram a aparecer na mente dos educadores em toda a sala. Aqueles educadores haviam assumido que sua visão de mundo naturalista era correta e não consideravam alternativa. Nash ajudou-os a pensar que talvez alternativa como o teísmo tivesse melhores evidências.

Como vimos nos capítulos 3 a 7, o teísmo realmente tem as melhores evidências. Sabemos, ainda que com dúvidas justificáveis, que existe um Deus teísta. Uma vez que Deus existe, o Universo representado pela caixa fechada é falso. A caixa está aberta e foi criada por Deus. Assim, é possível para Deus intervir no mundo natural por meio da realização de milagres. De fato, os milagres não são apenas possíveis; os milagres são reais, porque o maior milagre de todos — a criação do Universo do nada — já aconteceu. Assim, com relação à Bíblia, se Gênesis 1.1 é verdadeiro — “No princípio Deus criou os céus e a terra” -, então é fácil acreditar em qualquer outro milagre citado na Bíblia.

O Deus que criou todo o Universo do nada pode abrir o mar Vermelho?

Fazer descer fogo do céu? Manter um homem seguro dentro de um grande peixe por três dias?[6] Prever acontecimentos futuros com precisão? Transformar água em vinho? Curar doenças instantaneamente? Ressuscitar os mortos? Claro que sim. Todos esses fatos miraculosos são tarefa simples para um Ser infinitamente poderoso que criou o Universo em primeiro lugar.

Isso, porém, não significa que Deus executou todos esses milagres bíblicos.

Isso ainda será abordado. Significa simplesmente que ele poderia tê-lo feito que tais milagres são possíveis. À luz do fato de que vivemos em um Universo teísta, excluir os milagres de antemão (como muitos ateus fazem) é claramente ilegítimo. Como disse C. S. Lewis, “se aceitarmos Deus, devemos aceitar os milagres? No fundo, no fundo, você não tem certeza disso. Essa é a barganha’.[7]

Então por que tantas pessoas dizem hoje que os milagres não são possíveis ou que não se deve acreditar neles? Como é possível que os céticos não acreditem em milagres quando todo o Universo parece ser um maravilhoso milagre? Precisamos abordar essas questões antes de começarmos a investigar se Deus confirmou a verdade do judaísmo, do cristianismo ou do islamismo por meio de milagres.

 

OBJEÇÕES AOS MILAGRES

Desde o final do século XVII, duas objeções principais aos milagres têm sido levantadas, as quais precisam ser investigadas. A primeira delas vem de Benedito Spinoza, e a segunda, de David Hume. Começaremos com a objeção de Spinoza.

As leis naturais são imutáveis. O argumento de que as leis naturais são imutáveis foi popularizado primeiramente na década de 1670 por Benedito Spinoza, um judeu panteísta. O argumento de Spinoza contra os milagres é mais ou menos assim:

  1. Os milagres são violações das leis naturais.
  2. As leis naturais são imutáveis.
  3. É impossível violar leis imutáveis.
  4. Portanto, os milagres são impossíveis.

Se Spinoza está certo — se não há maneira de as leis naturais serem vencidas, interrompidas ou sofrerem interferência -, então os milagres são impossíveis.

O problema com essa objeção é que ela é uma petitio principii, uma falácia lógica. Se as leis naturais são definidas como imutáveis, então, naturalmente, os milagres são impossíveis. Mas esta é a questão! Quem disse que as leis naturais são imutáveis?

Seguindo de acordo com sua visão de mundo panteísta, Spinoza excluiu ilegitimamente o Deus teísta e, assim, os milagres, logo de início. Mas, se Deus existe, os milagres são possíveis. Como já vimos, o maior milagre de todos, a criação do Universo do nada, já aconteceu.

A própria criação em si demonstra que as leis naturais não são imutáveis. Uma coisa não surge naturalmente do nada. Mas aqui estamos todos nós.

Também sabemos que as leis naturais não são imutáveis porque elas são descrições do que acontece, e nãoprescrições do que deve acontecer. As leis naturais não provocam realmente alguma coisa; elas apenas descrevem o que acontece regularmente na natureza. Descrevem os efeitos das quatro forças naturais conhecidas: gravidade, magnetismo e as forças nucleares forte e fraca. Quando se introduz seres inteligentes no cenário, as forças naturais podem ser vencidas. Sabemos que essas forças podem ser vencidas porque fazemos isso todos os dias.

Por exemplo, quando um jogador de futebol pega uma bola que está caindo, ele está vencendo a força da gravidade. Fazemos o mesmo todas as vezes que andamos de avião ou voamos rumo ao espaço. Em tais casos, a gravidade não é modificada, mas simplesmente vencida. Se seres finitos como nós podem vencer forças naturais, então certamente o Ser infinito que criou essas forças pode fazer o mesmo.[8]

É difícil acreditar nos milagres. Alguns anos atrás, eu [Norm] fui convidado para falar na Escola de Teologia da Universidade de Harvard, uma das mais liberais escolas de teologia dos Estados Unidos. Meu assunto era “a prematura batalha de Harvard com o evangelicalismo”. Acredite se quiser, mas Harvard, tal qual a maioria das escolas de sua época, foi fundada por cristãos evangélicos com o objetivo de treinar os alunos no conhecimento de Jesus Cristo. A carta de Harvard, de 1646, afirma claramente seu propósito:

Que todo aluno seja plenamente instruído e corretamente levado a considerar bem qual seja o principal propósito de sua vida e de seus estudos: conhecer a Deus e Jesus Cristo, que é a vida eterna ao 17.3) e, portanto, lançar Cristo como o único fundamento de todo o conhecimento sadio e do aprendizado. Como o olhar para o Senhor só nos dá sabedoria, que todos se dediquem seriamente à oração em secreto para buscá-la nele (Pv 2.3).[9]

O que aconteceu para que Harvard se afastasse tanto de sua proposta original? Eles aceitaram um dos mais poderosos argumentos jamais formulados contra os milagres. Não era o argumento de Spinoza. Devido aos avanços da ciência moderna e de nossa melhor compreensão do mundo natural, poucos hoje realmente acreditam que as leis naturais são imuráveis. O argumento contra os milagres aceito hoje — e que foi aceito em Harvard — foi formulado pelo grande cético David Hume (1711-1776), cerca de um século depois de Spinoza.

Você se lembra de que falamos sobre Hume no capítulo 2. Foi ele quem disse que qualquer conversa sobre Deus é sem sentido porque tal conversa não envolve observação empírica ou verdades auto-evidentes. Vimos que sua afirmação derrota a si mesma.

Mas o argumento de Hume contra os milagres é um pouco mais sofisticado e não pode ser tão facilmente derrotado quanto seu argumento contra a conversa sobre Deus. Talvez seja por essa razão que ele é acreditado ainda hoje. De fato, o argumento de Hume contra os milagres é um dos pilares do assim chamado Iluminismo (é aquele no qual supostamente fomos dominados o suficiente para abandonar nossas crenças supersticiosas nos milagres e colocar nossa fé na razão e nas verdades empíricas encontradas pelo método científico). O argumento de Hume ajudou no avanço da visão de mundo naturalista que mais tarde se espalhou como metástase por causa da teoria da evolução de Darwin.

O que vemos a seguir é basicamente o material que apresentei à platéia de Harvard naquele dia. Comecei apresentando o argumento antimilagres de Hume e, depois, criticando-o. Aqui está o argumento de Hume na forma silogística:

  1. A, lei natural é, por definição, uma descrição de uma ocorrência regular.
  2. O milagre é, por definição, uma ocorrência rara.
  3. A evidência em favor do regular é sempre maior do que a evidência em favor do raro.
  4. Quem é sábio sempre baseia sua crença na evidência mais convincente.
  5. Portanto, um sábio não deveria acreditar em milagres.

Se essas quatro premissas forem verdadeiras, então a conclusão necessariamente o é — o sábio não deveria acreditar em milagres. Infelizmente para Hume e para todos aqueles que acreditaram nele com o passar dos anos, o argumento tem uma premissa falsa: a premissa 3 não é necessariamente verdadeira. A evidência em favor do regular nem sempre é maior do que em favor do raro.

Num primeiro olhar, isso pode não parecer ser o caso. Na era do replay automático, a premissa 3 parece fazer sentido. Um juiz de futebol, por exemplo, vê o jogo da perspectiva de um ângulo em plena velocidade, enquanto nós, espectadores, podemos ver da perspectiva de vários ângulos e em câmera lenta. Temos maiores evidências vendo um jogo repetidas vezes (o regular) do que o juiz que o vê apenas uma vez (o raro).

Mas o que pode ser verdadeiro para um jogo de futebol gravado não é necessariamente verdadeiro para todo acontecimento na vida. Para anular a premissa 3, precisamos mostrar apenas um contra-exemplo. Na verdade, temos vários, e eles vêm da própria visão de mundo naturalista de Hume.

  1. A origem do Universo aconteceu apenas uma única vez. Foi um fato raro e não repetível, embora praticamente todo naturalista acredite que a evidência do Big Bang prova que o Universo passou a existir com base em uma explosão.
  2. A origem da vida aconteceu apenas uma única vez. Também foi um fato raro e não repetível, embora todo naturalista acredite que a vida surgiu espontaneamente da não-vida em algum lugar sobre a Terra ou em algum outro lugar do Universo.
  3. A origem das novas formas de vida também aconteceu apenas uma única vez. Esses acontecimentos raros e não repetíveis são, todavia, dogmaticamente reconhecidos pela maioria dos naturalistas, que dizem que tudo aconteceu por meio de um processo macroevolucionário não observado (i.e., raro).
  4. De fato, toda a história do mundo é composta de acontecimentos raros e não repetíveis. O próprio nascimento de David Hume, por exemplo, aconteceu uma única vez, mas ele não teve qualquer dificuldade em acreditar que isso aconteceu!

 

Em cada um desses contra-exemplos, extraídos da própria visão de mundo naturalista de Hume, sua terceira premissa deve ser desconsiderada ou então considerada como falsa. Se Hume realmente acreditava nessa premissa, não deveria ter acreditado em seu próprio nascimento ou em sua própria visão de mundo naturalista!

Assim, descobrimos por alguns desses contra-exemplos que a terceira premissa de Hume e, desse modo, todo o seu argumento não podem ser verdadeiros. Mas quais são os problemas específicos com o modo de pensar naturalista?

Em primeiro lugar, ele confunde credibilidade com possibilidade. Mesmo que a premissa 3 fosse verdadeira, o argumento não excluiria a possibilidade de milagres, mas apenas questionaria sua credibilidade. Desse modo, mesmo que você tivesse testemunhado pessoalmente, digamos, Jesus Cristo ressuscitando dos mortos como ele havia predito — se você tivesse ido até a tumba, verificado que seu corpo estava morto e, depois, o visse em pé e caminhando para fora da tumba -, o argumento de Hume diz que você (uma pessoa “sábia’) não deveria acreditar nisso. Existe algo errado com um argumento que diz que você não deve acreditar naquilo que se verificou ser verdadeiro.

Em <segundo lugar, Hume confunde probabilidade com evidência. Ele não examina a evidência em favor de cada acontecimento raro; em vez disso, acrescenta a evidência em favor de todos os acontecimentos regulares e sugere que isso, de alguma maneira, faz todos os acontecimentos raros não serem dignos de crédito. Mas esse também é um raciocínio errado. Existem muitos fatos improváveis (raros) na vida nos quais acreditamos quando temos boas evidências que os comprovem. Fazer um gol de escanteio é um acontecimento raro, mas, quando testemunhamos um, não temos problema em acreditar nele. Certamente não dizemos isto ao jogador: “Uma vez que a evidência em favor do regular é sempre maior do que em favor do raro, não vou acreditar na sua jogada a não ser que você pegue a bola e faça a mesma coisa cinco vezes em seguida!”. Do mesmo modo, certamente não dizemos a um jogador da loteria que ganhou um prêmio cuja probabilidade era uma em 76 milhões que ele não vai receber seu dinheiro até que possa acertar da mesma maneira cinco vezes em seguida! Não, nesses casos, a ,evidência em favor do raro é maior do que em favor do regular. Testemunhas oculares sóbrias e sadias trazem maior evidência em favor de uma jogada rara independentemente de quantas vezes aquele jogador possa ter errado a jogada no passado. Do mesmo modo, um bilhete ganhador dá maior evidência de que certa pessoa ganhou na loteria independentemente de quão regularmente aquela pessoa deixou de ganhar no passado.[10]

Desse modo, a questão não é se um acontecimento é regular ou raro — a questão é se temos boas evidências em favor do acontecimento. Devemos examinar a evidência de cada fato em questão, não acrescentarevidências a todos acontecimentos anteriores.

Em terceiro lugar, Hume na verdade está argumentando em círculos. Em vez de avaliar a veracidade da evidência para cada milagre declarado, ele exclui a crença nos milagres de início porque acredita que existe uma experiência uniforme contra eles. Como de costume, C. S. Lewis tem um grande insight sobre isso:

Agora, naturalmente, devemos concordar com Hume em que, se existe “experiência absolutamente uniforme” contra os milagres, se, em outras palavras, eles nunca aconteceram, então por que eles nunca aconteceram? Infelizmente, sabemos que a experiência contra eles é uniforme somente se soubermos que todos os relatos sobre eles são falsos. E só podemos saber que todos os relatos são falsos se já soubermos que os milagres nunca aconteceram. De fato, estamos argumentando em círculos. [11]

Desse modo, Hume comete o mesmo erro dos darwinistas: ele esconde sua conclusão na premissa de seu argumento por meio de uma falsa pressuposição filosófica. Sua pressuposição falsa é que todas as experiências humanas têm sido contrárias aos milagres. Como ele pode saber isso? Não pode; ele pressupõe. Como vimos, os milagres são possíveis porque Deus existe. Portanto, seres humanos podem ter experimentado milagres verdadeiros. A única maneira de saber com certeza é investigar a evidência em favor de cada milagre declarado. Pressupor que todo e qualquer milagre declarado é falso, como faz Hume, é algo claramente ilegítimo.

Por último, embora Hume defina corretamente um milagre como um acontecimento raro, ele logo depois o pune por ser um fato raro! É como se Hume estivesse dizendo: “Se os milagres acontecessem com mais freqüência, então alunos que Ravi Zacharias trouxera da Faculdade Nyack. O professor nunca respondeu às minhas tentativas subseqüentes de contatá-lo.

Recebi uma resposta similar de Antony Flew, atualmente um dos mais destacados filósofos ateus. No final da década de 1980, pedi-lhe que comentasse meu livro Miracles and Modern Thought [Milagres e o pensamento moderno], [12] que criticava inúmeros argumentos contrários aos milagres, incluindo o seu próprio (que é bastante similar ao de Hume). Flew concordou em apresentar uma crítica por escrito na próxima edição de um grande jornal humanista. Contudo, naquele artigo, em vez de tentar refutar os argumentos que apresentei, Flew apresentou um elogio um pouco desajeitado ao sugerir que os ateus precisam criar melhores argumentos contra os milagres se desejassem responder aos teístas contemporâneos.

A relutância em lidar diretamente com as falhas do argumento de Hume nos diz que a descrença nos milagres é provavelmente mais uma questão da vontade do que da mente. É como se algumas pessoas se apegassem cegamente aos argumentos de David Hume simplesmente porque não querem admitir que Deus existe. Contudo, uma vez que sabemos que Deus existe, os milagres são possíveis. Qualquer argumento que possa ser levantado contra os milagres, incluindo o de David Hume, é destruído por esse simples fato. Se existe um Deus que pode agir, então é possível que existam atos de Deus (milagres).

Portanto, no final das contas, não é nos milagres que é difícil de acreditar; o difícil é acreditar no argumento de Hume! Podemos dizer que é um “milagre” o fato de tantas pessoas ainda acreditarem nele.

 

NEM TUDO O QUE RELUZ É DEUS — O QUE É E O QUE NÃO É MILAGRE?

Portanto, a caixa está aberta — os milagres podem acontecer. Mas como vamos reconhecer um milagre quando virmos um? Com o objetivo de responder a essa pergunta, é importante definir o que é um milagre e o que não é, de modo que saibamos o que estamos procurando.

Como mostrado na tabela 8.2, existem pelo menos seis diferentes tipos de fatos incomuns, dos quais apenas um deles é milagre.

EXISTEM PELO MENOS SEIS DIFERENTES CATEGORIAS DE

FATOS INCOMUNS:

 

Anomalias

Mágica

Psicossomática

Sinais satânicos

Providência

Milagres

Descrição

Caprichos da natureza

Habilidademanual

Mente sobre a matéria

Poder maligno

Fatos pré-definidos

Atos divinos

Poder

Físico

Humano

Mental

Psíquico

Divino

Sobrenatural

Características

Evento natural com um padrão

Não-natural e controladopelo homem

Exige fé; não funciona em determinadas doenças

Mal, falsidade, ocultismo, limitado

Naturalmente explicável; contexto espiritual

Nunca falha, imediato, duradouro, para a glória de Deus

Exemplo

Abelha(Bombus Apidae)

Coelho na cartola

Curas psicossomáticas

Influência demoníaca

Nevoeiro na Normandia

Ressuscitar os morros

Tabela 8.2

Vamos analisar brevemente cada um desses fatos incomuns. Começaremos com os milagres porque, se soubermos o que eles são, então poderemos compreender melhor por que outros fatos incomuns não são milagres.

Milagre. Para que um ato de Deus seja um sinal inequívoco de Deus, o ato precisa satisfazer certos critérios — critérios que vão distinguir os atos de Deus de qualquer outro fato incomum. Tal como o selo de um rei, o sinal de Deus deve ser singular, facilmente reconhecível e ser alguma coisa que somente Deus pode fazer. Em outras palavras, ele possui características que não podem ser explicadas pelas leis naturais, pelas forças da natureza ou por qualquer outra coisa no universo físico. Quais seriam esses critérios?

Como vimos nos argumentos cosmológico, teleológico e moral, somente Deus tem poder infinito (poder que está além do mundo natural), supremo projeto e propósito e pureza moral completa. Portanto, parece racional presumir que seus atos mostrariam ou conteriam elementos desses atributos. Desse modo, os critérios para os milagres verdadeiros são:

a)    Um início instantâneo de um ato poderoso, conforme comprovado pelo argumento cosmológico (o início do Universo);

b)   Projeto e propósito inteligentes, conforme comprovados pelo argumento teleológico (o projeto preciso do Universo com o propósito de permitir a existência de vida; o projeto específico e complexo da vida em si mesma);

c)    A promoção de comportamento bom ou certo, conforme comprovado pelo argumento moral (a lei moral que se impõe sobre nós).

O componente de poder dos milagres (a) significa que o sinal não poderia ser explicado naturalmente, pois, se uma causa natural fosse possível, então o sinal não poderia ser identificado definitivamente como um milagre. O milagre tem uma causa sobrenatural inequívoca — uma causa que transcende a natureza.

O componente do projeto (b) significa que qualquer sinal feito sem um propósito óbvio — confirmar a verdade ou um mensageiro da verdade, ou glorificar a Deus — provavelmente não é um sinal de Deus. Em outras palavras, não há possibilidade de Deus fazer milagres simplesmente com o propósito de entretenimento. Assim como a maioria dos reis da terra não usaram seu selo para uma coisa qualquer, o Rei do Universo não usaria seu selo por motivos frívolos. Além do mais, se ele usasse os milagres para simples entretenimento, então teríamos menos probabilidade de reconhecer seus propósitos quando estivesse tentando confirmar uma nova verdade ou um novo mensageiro. Desse modo, para não “fazer alarde desnecessariamente”, os milagres devem concentrar-se na promoção de uma declaração de verdade e devem ser relativamente raros para que possam ser eficientes.

O componente moral dos milagres (c) significa que qualquer sinal ligado a um erro ou imoralidade não pode ser um sinal vindo de Deus. O erro e a imoralidade são contrários à natureza de Deus porque ele é o padrão imutável de verdade e moralidade. Ele não pode confirmar o erro ou a imoralidade.

Com esses critérios — poder instantâneo, projeto inteligente e moralidade -, podemos identificar quais fatos incomuns são verdadeiros sinais vindos de Deus. Perceba que extraímos esses critérios daquilo que já aprendemos sobre Deus do mundo natural e aquilo que aprendemos sobre os limites da própria natureza. A Bíblia concorda com a nossa avaliação, chamando os fatos que satisfazem esses mesmos critérios de milagres.[13] Tanto a Bíblia quanto o Alcorão ensinam que os milagres têm sido usados para confirmar uma palavra vinda de Deus.[14]

Desse modo, um fato ligado a uma verdadeira declaração divina que tivesse essas características seria um milagre — um ato de Deus para confirmar uma palavra de Deus. Um milagre teria ocorrido, por exemplo, se Jesus — um homem que predisse que ressuscitaria dos mortos — realmente ressuscitou dos mortos. Tal fato mostraria poder instantâneo além da capacidade natural, um projeto e uma antevisão inteligentes e um propósito moral ao confirmar que Jesus vem de Deus (e nós, portanto, devemos ouvir aquilo que ele tem a dizer!). Não existe força natural ou outra fonte de poder que possa explicar tal fato.

Além disso, se a ressurreição realmente aconteceu, ela não ocorreu “de maneira inesperada”, mas dentro de um contexto. Em outras palavras, a ressurreição foi um acontecimento no contexto de um Universo teísta, no qual um homem afirmando ser de Deus e realizando milagres enquanto viveu predisse que sua ressurreição aconteceria. Tal contexto sugere que é um milagre, e não apenas um fato natural ainda por ser explicado. Em resumo, se a ressurreição realmente aconteceu (e nós vamos investigar esse aspecto mais adiante), ela tem as “impressões digitais” de Deus espalhadas sobre ela.

Providência. As pessoas religiosas, particularmente os cristãos, usam o termo “milagre” de maneira bastante livre. Com muita freqüência, identificam um acontecimento como um milagre quando seria mais correto descrevê-lo como providencial.

Fatos providenciais são aqueles provocados indiretamente por Deus, não diretamente. Ou seja, Deus usa as leis naturais para realizá-los. Uma oração respondida e acontecimentos improváveis mas benéficos podem ser exemplos disso. Eles podem ser bastante notáveis e motivar a fé, mas não são sobrenaturais. O nevoeiro sobre a Normandia, por exemplo, foi providencial porque ajudou a dissimular o ataque aliado contra o maligno regime nazista. Não foi um milagre — porque ele poderia ser explicado pelas leis naturais -, mas é possível que Deus estivesse por trás dele. Por outro lado, um milagre exigiria a ocorrência de alguma coisa como balas ricocheteando no peito dos jovens soldados à medida que invadiam a praia.

Sinais satânicos. Outra causa possível de um fato incomum poderiam ser outros seres espirituais. Uma vez que Deus existe, é possível que outros seres espirituais também existam. Mas, se Satanás e os demônios realmente existem, eles possuem poderes limitados. Por quê? Porque, como já mencionamos neste capítulo, é impossível que existam dois seres infinitos ao mesmo tempo. Uma vez que Deus é infinito, nenhum outro ser pode ser infinito.

Além disso, o dualismo puro — um poder infinito do mal versus um poder infinito do bem — é impossível. Não existe algo como o mal puro. O mal é uma privação de bem ou um parasita que habita no bem: ele não pode existir sozinho. O mal é como a ferrugem em um carro. Se você tirar toda a ferrugem, terá um carro melhor. Se você tirar todo o carro, não terá nada. Assim, Satanás não pode ser o equivalente maligno de Deus. É fato que Satanás tem bons atributos, como poder, livre-arbítrio e pensamento racional, mas ele os usa para propósitos malignos.

O resumo é que Deus não tem um igual. Ele é o Ser infinito que é supremo sobre toda a criação. Como resultado disso, os seres espirituais criados, se é que existem, são limitados por Deus e não podem realizar o tipo de ato sobrenatural que apenas Deus pode fazer.

Assim, apenas por meio da revelação natural — sem a revelação de qualquer livro religioso — sabemos que, se existem outros seres espirituais, eles são limitados em seu poder. Por acaso, é exatamente isso o que a Bíblia ensina.

De acordo com a Bíblia, somente Deus pode criar a vida e dar vida aos mortos (Gn 1.21; Dt 32.39). Os magos do faraó, que haviam imitado as duas primeiras pragas, não puderam imitar a terceira, que criou vida (na forma de piolhos). Os magos reconheceram que a terceira praga tinha o “dedo de Deus” (.h 8.19).

Satanás pode realizar truques melhor que o melhor dos mágicos — e há muitos exemplos disso na Bíblia[15] -, mas esses truques não satisfazem as exigências de um verdadeiro milagre. Como vimos, milagres verdadeiros fazem alguém pensar mais concentradamente em Deus, falam a verdade e promovem o comportamento moral. Sinais falsificados vindos de Satanás não fazem isso. Eles tendem a glorificar ostensivamente a pessoa que realiza o sinal e estão freqüentemente associados ao erro e ao comportamento imoral. Eles também não podem ser imediatos, instantâneos ou permanentes.

Em resumo, somente Deus realiza milagres verdadeiros; Satanás realiza milagres falsos. É exatamente sobre isso que a Bíblia fala em 2Tessalonicenses 2.9, em que Paulo escreve que “a vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras”. Naturalmente, a não ser que haja discernimento, tais sinais podem ser enganadores e serem considerados milagres verdadeiros (Mt 24.24).

A tabela 8.3 resume as diferenças entre um milagre divino e um sinal satânico:[16]

 

Milagre divino

Sinal satânico

Ato realmente sobrenatural

Apenas um ato supranormal

Sob o controle do Criador

Sob o controle da criatura

Nunca associado ao ocultismo

Associado ao ocultismo

Ligado a Deus

Freqüentemente ligado a deuses panteístas ou politeístas

Associado à verdade

Associado ao erro

Associado ao bem

Associado ao mal

Envolve profecias verídicas

Envolve profecias mentirosas

Glorifica o Criador

Glorifica a criatura

 

No livro Anatomy of an Illness [Anato mia de uma doença], Norman Cousins descreve em detalhes de que maneira ele literalmente riu muito de si mesmo por causa do câncer. É fato que o estresse mental pode ter um impacto negativo na saúde física, enquanto ter uma atitude mental positiva, fé ou felicidade podem provocar um efeito positivo e terapêutico (cf. Pv 17.22).

Contudo, existem algumas condições patológicas — como ferimentos na espinha dorsal ou membros amputados — que não podem ser curados pela força da mente sobre a matéria, porque não são doenças psicossomáticas. Seria preciso acontecer um verdadeiro milagre para que estas lições fossem curadas.

O resumo é que as curas psicossomáticas são por sua natureza, psicológicas, e não sobrenaturais. Elas são provas de que a mente pode ter um impacto limitado mas significativo sobre o corpo. Não devem ser confundidas com milagres.

Mágica. Talvez o tipo mais familiar de fatos incomuns seja a mágica. A mágica está baseada na destreza das mãos ou na distração da mente. Um bom mágico pode fazer você pensar que ele cortou uma mulher ao meio, que tirou um coelho de uma cartola ou que fez um elefante desaparecer. Mas tudo é uma ilusão, um truque muito inteligente. Uma vez que se descobre como o truque é feito, você diz: “Puxa, por que não pensei nisso?”. Sendo um truque executado pelo controle humano, a mágica não é um milagre. Só Deus pode realizar um milagre.

Anomalias. Uma anomalia é um capricho não explicado da natureza. Houve um tempo, por exemplo, em que os cientistas não podiam explicar de que maneira uma abelha do tipo Bombus Apidae podia voar. Suas asas eram pequenas demais para o tamanho do seu corpo. Os cientistas consideraram o vôo da abelha uma anomalia até que descobriram um tipo de “pacote de força” que compensava as asas pequenas. Eles sabiam que não era um milagre por causa do padrão observável: todas as abelhas voavam. Assim, continuaram procurando uma explicação natural e, por fim, a encontraram.

O cético poderia perguntar: “Então por que a ressurreição de Jesus Cristo não poderia ser considerada uma anomalia?”. Porque ela foi predita. Havia um projeto inteligente por trás dela — as impressões digitais de Deus estavam em todo lugar. As anomalias não estão conectadas a afirmações verdadeiras e inteligentes e carecem de dimensões morais e teológicas. Se a ressurreição de Cristo realmente aconteceu, ela não foi uma anomalia.

 

POR QUE NÃO VEMOS MILAGRES BÍBLICOS NOS DIAS DE HOJE?

Atualmente muitas pessoas possuem uma visão provinciana da história e da experiência humana. “Se eu não vir certos fatos acontecendo hoje”, pensam elas, “é porque eles provavelmente nunca aconteceram”. É óbvia a implicação disso para os milagres, a saber: “Se não existem milagres públicos e da mesma qualidade dos milagres bíblicos acontecendo hoje (e que, se estivessem acontecendo, seriam mostrados no Jornal Nacional), então por que eu deveria acreditar que aconteceram no passado?”. É um questionamento bastante justo.

Contudo, existe um conceito errado muito comum por trás dessa questão. É a crença de que a Bíblia está cheia de milagres que aconteceram continuamente por toda a história bíblica. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. É verdade que a Bíblia está cheia de milagres, acontecidos em cerca de 250 ocasiões diferentes.[17] Mas a maioria desses milagres aconteceu em janelas históricas muito pequenas, durante três períodos distintos: durante a vida de Moisés, Elias e Eliseu, de Jesus e dos apóstolos. Por quê? Porque aqueles foram momentos quando Deus estava confirmando uma nova verdade (revelação) e novos mensageiros que portavam aquela verdade. [18]

Se a maioria dos milagres está concentrado ali, o que está acontecendo em termos de milagres durante os outros períodos que a Bíblia abrange? Nada. De fato, existem grandes espaços do período bíblico (até mesmo centenas de anos) em que não há registro de milagres vindos de Deus. Por quê? Porque não havia nenhuma palavra nova vinda de Deus, e a maioria dos milagres confirmava alguma nova palavra vinda de Deus.

Sendo assim, por que não vemos milagres bíblicos hoje? Porque se a Bíblia é verdadeira e completa, Deus não está confirmando nenhuma nova revelação e, assim, não tem o propósito principal de executar milagres hoje. Não há uma nova palavra vinda de Deus que precise ser confirmada por Deus.

Agora, não nos interprete mal aqui. Nós não estamos dizendo que Deus não pode realizar milagres hoje ou que ele nunca possa fazê-la. Como soberano Criador e sustentador do Universo, ele pode realizar um milagre em qualquer momento que desejar. A questão é que simplesmente pode não ter uma razão para mostrar publicamente o seu poder como fazia durante os tempos bíblicos porque todas as verdades que ele queria revelar já foram reveladas e confirmadas. Tal como uma casa, a fundação só precisa ser construída uma única vez. Os milagres bíblicos foram atos especiais de Deus que lançaram o fundamento de sua revelação permanente para a humanidade.

 

RESUMO E CONCLUSÃO

  1. As características essenciais do Deus bíblico podem ser descobertas sem a Bíblia, por meio da revelação natural — conforme manifestada nos argumentos cosmológico, teleológico e moral. Esses argumentos, que são apoiados por evidências bastante fortes, mostram que este é um Universo teísta. Uma vez que este é um Universo teísta, apenas as religiões teístas — judaísmo, cristianismo e islamismo — passaram “na prova’ da verdade até este momento. Todos os não teísmos são construídos sobre um fundamento falso porque estão errados quanto à existência e à natureza de Deus.
  2. Uma vez que Deus existe, os milagres são possíveis. De fato, o maior milagre de todos — a criação do Universo do nada — já aconteceu, o que significa dizer que Gênesis 1.1 e todos os outros milagres na Bíblia são dignos de crédito. Argumentos contra os milagres fracassam porque estão baseados em pressuposições filosóficas falsas, em vez de basear-se na evidência da observação. O resultado é que eles fracassam na desaprovação dos milagres. Deus pode intervir no Universo que criou a despeito do que David Hume diz.
  3. Um milagre verdadeiro seria um ato que somente Deus poderia realizar, significando que ele incluiria características divinas como poder sobrenatural, projeto inteligente e a promoção do comportamento moral. Por meio dessas características, os milagres podem ser diferenciados de outros tipos de fatos incomuns como providência, sinais satânicos, curas psicossomáticas, mágica e anomalias.
  4. Devido à sua natureza moral, é de esperar que Deus comunique seus propósitos específicos a nós em mais detalhes (i.e., além da revelação natural, indo para a revelação especial). Deus poderia usar milagres como seu sinal para confirmar essa revelação especial feita a nós. Usado dessa maneira, um milagre é um ato de Deus para confirmar uma mensagem de Deus.

Nossa única pergunta neste momento é: “Deus usou milagres para confirmar o judaísmo, o cristianismo ou o islamismo?”. Essa é a pergunta que vamos começar a responder no capítulo seguinte.

 

 

[1] Esse Ser é ele, não algo; é uma pessoa, não uma coisa. Sabemos que esse Ser possui personalidade porque fez algo que apenas as pessoas podem fazer: ele fez uma escolha, a saber: optou por criar.

[2] V. Francis BECKWITH et ai. The Counterftit Cospel 01 Mormonism. Eugene, Ore.: Harvest, 1998, capo 2.

[3] The Screwtape Letters. Wesrwood, N.].: Barbour, 1961, p. 46 [a publicação pela Edições Loyola faz uso da designação aqui indicada: As cartas do coisa-ruim (N. do E.)].

[4] “Miracles”, in: The Encyclopedia of Philosophy, Paul Edwards, ed., vol. 5. New York: Macrnillan & Free Press, 1967, p. 346.

[5] Extraído da fita de áudio intitulada “Worldviews in Conflict”, da Conferência de Apologética de 2002 do Sourhem Evangelical Seminary. Fita AC0213. Disponível on-line em http://www. impactapologetics.com.

[6] É comum ouvirmos cristãos tentando explicar a história miraculosa de Jonas apelando para relatos supostamente verdadeiros de pescadores que sobreviveram dentro de baleias durante algum tempo. Mesmo se os eventos forem verdadeiros, eles são completamente irrelevantes. A história de Jonas tem o propósito de ser miraculosa, a saber: alguma coisa que somente Deus poderia fazer. Certamente um homem não sobreviveria dentro de um grande peixe durante três dias e seria vomitado numa determinada praia a não ser por um ato de Deus. Se isso parece incrível porque o mundo não funciona regularmente dessa maneira, então tudo foi feitopara ter essa aparência! Um milagre não é um milagre se puder ser explicado por meios naturais. O resumo é que o Deus que realizou o maior milagre de todos — a criação do Universo, grandes peixes e seres humanos — não teria tido nenhum problema em orquestrar o milagre de Jonas.

[7] Miracles. New York: Macmillan, 1947, p. 106 [no prelo pela Editora Vida].

[8] Diferentemente das leis morais, as leis naturais não estão baseadas na natureza de Deus e, sendo assim, são mutáveis. Embora Deus não possa violar leis morais — porque ele é o padrão imutável de moral idade -, pode mudar ou interromper leis naturais como quiser. De fato, Deus poderia ter criado a realidade física, incluindo as leis naturais, o ambiente natural e os seres vivos, com características completamente diferentes das que temos hoje.

[9] Disponível on-line em http://hcs.harvard.edu/~gsascf/shield.html. Acesso em 1° de junho de 2003.

[10] A maioria das pessoas acredita falsamente que, quanto mais vezes tenham jogado na loteria no passado, maiores são suas chances de ganhar desta vez. Não importa quantas vezes uma pessoa tenha jogado na loteria no passado, cada sorteio é um evento único que não é afetado pelas apostas anteriores. A probabilidade de acerto é uma em 76 milhões (ou quaisquer que sejam as probabilidades de um jogo em especial) a cada vez. Hume sugeriria que a repetida experiência passada de perder deveria fazer você não acreditar caso realmente ganhasse. Mas se um dia você ganhar, então realmente ganhou, a despeito do fato de que possa ter perdido milhares de vezes no passado. Do mesmo modo, um milagre pode acontecer independentemente de quantas vezes não tenha acontecido no passado.

[11] Miracles, p. 105.

[12] Revisado e publicado com o novo título Miracles and the Modern Mind. Grand Rapids, Mich.:

Baker, 1992.

[13] Você poderá encontrar uma discussão detalhada em Norman GEISLER, Signs and Wonders.

Wheaton, Ill.: Tyndale, 1988, capo 8. V. tb. Norman GEISLER, Enciclopédia de apologética. São Paulo:

Vida, 2002.

[14] Na Bíblia: Êx 4.1-5; Nm 16.5s; 1Rs 18.21,22; Mt 12.38,39; Lc 7.20-22; Jo 3.1,2; At 2.22; Hb 2.3,4; 2Co 12.12. No Alcorão: surata 3.184, 17.102; cf. surata 23.45.

[15] Você poderá encontrar uma discussão detalhada em GEISLER, Signs andWonders, caps. 7 e 8. V. a lista nas p. 107-8 (esgotado).

[16] Você poderá encontrar mais detalhes sobre este assunto lendo o artigo de onde este quadro foi extraído: “Milagres Falsos”, in: Norman GEISLER. Enciclopédia de apologética. São Paulo: Vida, 2002, p.574-8.

[17] Em algumas dessas ocasiões, foram realizados múltiplos milagres. Lê-se, por exemplo, que Jesus curou “muitos” diversas vezes, normalmente pessoas da cidade que estavam à volta (e.g., Mc 1.34; 3.10; 6.56; Lc 5.15; 6.18; 9.11). Os apóstolos realizaram vários milagres em uma única ocasião também (At 5.16; 8.7; 19.11,12).

[18] Teologicamente, os três grandes períodos de milagres tiveram certas coisas em comum. Moisés precisou de milagres para libertar Israel e sustentar um grande número de pessoas no deserto (Êx 4.8). Elias e Eliseu realizaram milagres para libertar Israel da idolatria (v. 1Rs 18). Jesus e os apóstolos fizeram milagres para confirmar o estabelecimento da nova aliança e sua oferta de libertação do pecado (Hb 2.3,4).

Extraído do livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu” – Norman Geisler & Frank Turek

www.avivamentonosul.blogspot.com

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