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Apologética nos primeiros séculos
Apologética nos primeiros séculos

                                      APOLOGÉTICA CRISTÃ PRIMEIROS  

                                                SECULOS E LIDERES.

                                                400 ANOS DE HISTORIA

                                             Sobre Inácio e suas cartas

 

Brilhava por este tempo na Ásia Policarpo, discípulo dos apóstolos, a quem as testemunhas oculares e os ministros do Senhor tinham confiado o episcopado da igreja de Esmirna.

Ao mesmo tempo adquiriram notoriedade Papias, bispo da igreja de Hierápolis, e Inácio, o homem mais célebre para muitos ainda hoje, segundo a obter a sucessão de Pedro no episcopado de Antioquia.

Uma tradição refere que este foi trasladado da Síria à cidade de Roma para ser alimento das feras, em testemunho de Cristo.

Ao ser conduzido através da Ásia, sob a vigilância cuidadosa dos guardiães, dava ânimo com suas falas e exortações às igrejas de cada cidade onde faziam parada. Primeiramente exortava-os a que sobretudo se guardassem das heresias, que precisamente então começavam a pulular, e estimulava-os a segurar-se solidamente à tradição dos apóstolos, que, por estar ele já a ponto de sofrer o martírio, achava necessário pôr por escrito para fins de segurança.

E foi assim que, achando-se em Esmirna, onde estava Policarpo, escreveu uma carta à igreja de Éfeso, mencionando Onésimo, seu pastor; outra à de Magnesia, a que está sobre Meandro, mencionando igualmente o bispo Damas, e outra à de Trales, cujo chefe era então Políbio, segundo diz.

Além destas, escreveu também à igreja de Roma uma carta em que expõe sua súplica para que não intercedam por ele, para não privá-lo do martírio, sua sonhada esperança. Em apoio ao que dissemos, será bom citar algumas passagens das citadas cartas, ainda que brevíssimas:

Escreve pois, textualmente:

"Desde a Síria até Roma venho lutando com feras por terra e por mar, de noite e de dia, atado a dez leopardos, isto é, um grupo de soldados que ficam piores com o bem que se lhes faz. Mas com seus maus-tratos torno-me mais e mais discípulo. Mesmo assim, nem por isso estou justificado.

"Oxalá pudesse eu usufruir das feras que me estão preparadas! Espero encontrá-las bem ligeiras para comigo. Chegarei até a adulá-las para que me devorem rapidamente e não me façam o que fizeram a alguns, que por temor não tocaram, e se fazem de preguiçosas e não querem, eu mesmo as forçarei.

Perdoai-me. Eu sei o que me convém. Agora estou começando a ser discí­pulo. Que nenhuma coisa visível ou invisível tenha ciúme de que eu alcance a Jesus Cristo. Fogo, cruz e manadas de feras, dispersão de ossos, destroçamento de membros, trituração do corpo todo e tormentos do diabo venham sobre mim, contanto somente que eu alcance a Jesus Cristo."

Isto escrevia da cidade mencionada às igrejas que enumeramos. Mas achando-se já longe de Esmirna, desde Troasse põe-se a conversar, por escrito mesmo, com os de Filadélfia e com a igreja de Esmirna, e em par­ticular com Policarpo, que a presidia. Reconhecendo este como homem verdadeiramente apostólico e porque ele mesmo era pastor legítimo e bom, confia-lhe seu próprio rebanho de Antioquia e pede-lhe que se ocupe dele com solicitude.

Ele mesmo, escrevendo aos de Esmirna e citando passagens não sei de onde, discorre sobre Cristo com estas palavras:

"Quanto a mim, sei e creio que mesmo depois da ressurreição permanece em sua carne, e quando se aproximou dos que rodeavam Pedro disse-lhes: 'Tomai e apalpai-me, e vede que não sou um espírito incorpóreo.' Na mesma hora eles o tocaram e creram."

  1. Também Irineuconhece seu martírio e faz menção de suas cartas quando diz assim:

"Como disse um dos nossos, condenado às feras por seu testemunho em favor de Deus, 'sou trigo de Deus e pelos dentes das feras sou moído para ser encontrado como pão puro.'

  1. E Policarpo também faz menção disto na carta que se diz ser dele, dirigida
    aos Filipenses, quando diz textualmente:

"Exorto-vos pois todos a obedecer e exercitar toda a paciência, a que vistes com vossos olhos não somente nos bem-aventurados Inácio, Rufo e Zózimo, mas também em outros dos vossos, e no próprio Paulo e nos demais após­tolos, persuadidos de que não correram em vão, mas na fé e na justiça, e de que já estão no lugar que lhes é devido, junto ao Senhor, com o qual padeceram. Porque não amaram este século, mas aquele que morreu por nós e por nós também ressuscitou, por obra de Deus." E acrescenta logo:

"Vós e Inácio escrevestes-me para que, se alguém fosse à Síria, levasse também vossas cartas. Isto farei quando encontrar ocasião favorável, eu mes­mo ou alguém que eu envie e que será também embaixador de vossa parte.

As cartas de Inácio que ele enviou e todas as outras que tínhamos conosco, vo-las envio, como haveis pedido; seguem anexas à presente carta. Delas podereis tirar grande proveito, já que estão cheias de fé, de paciência e de toda edificação concernente a nosso Senhor."

Isto é o que se refere a Inácio. Depois dele Heros recebeu a sucessão do episcopado de Antioquia.

 

Dos evangelistas que ainda então se distinguiam 

  1. Entre os que eram famosos neste tempo, achava-se também Codratos, sobre o qual uma tradição refere que sobressaía em carisma profético, junta­mente com as filhas de Felipe. Também eram célebres então, além des­tes, muitos outros que tiveram o primeiro lugar na sucessão dos apóstolos. Estes magníficos discípulos de tão grandes homens edificavam sobre os fundamentos das igrejas deixados anteriormente em cada lugar pelos apóstolos. Aumentavam mais e mais a pregação e semeavam por toda a extensão da terra habitada a semente salvadora do reino dos céus.

Efetivamente, muitos dos discípulos de então, tocados na alma pela palavra divina com um amor muito forte à filosofia, primeiramente cumpriam o mandamento salvador repartindo seus bens entre os indigentes, e depois empreendiam viagem e realizavam trabalho de evangelistas, empenhando sua honra em pregar aos que ainda não haviam ouvido a palavra da fé e em transmitir por escrito os divinos evangelhos.

Estes homens nada mais faziam que deitar os fundamentos da fé em alguns lugares estrangeiros e estabelecer outros como pastores, encarregando-os do cultivo dos recém-admitidos, e em seguida mudavam-se para outras regiões e outros povos com a graça e a cooperação de Deus, já que por meio deles continuavam realizando-se ainda então muitos e maravilhosos poderes do Espírito divino, de forma que, desde a primeira vez que os ouviam, multidões inteiras de pessoas recebiam em massa com ardor em suas almas a religião do Criador do universo.

Sendo-nos impossível enumerar pelo nome todos os que na primeira geração de apóstolos foram pastores e inclusive evangelistas nas igrejas de todo o mundo, é natural que mencionemos por seus nomes e por escrito apenas aqueles dos quais se conserva a tradição até hoje graças a suas memórias da doutrina apostólica.

 

Da carta de Clemente e os escritos que falsamente lhe atribuem

 

Não cabe dúvida, portanto, de que tais são Inácio, em suas cartas cuja lista fornecemos, e Clemente na carta por todos admitida, que escreveu em nome da igreja de Roma à de Corinto. Nela Clemente expõe muitos pensamentos da Carta aos Hebreus, e inclusive utiliza textualmente algumas passagens da mesma, mostrando assim com toda claridade que este escrito não é recente.

Por isso pareceu natural catalogá-lo entre os demais escritos do apóstolo. Porque Paulo praticou por escrito com os hebreus valendo-se de sua língua pátria, e alguns dizem que a carta foi traduzida pelo evangelista Lucas, mas outros afirmam que foi o próprio Clemente,

o que talvez seja mais verdadeiro pelo fato de ambas, a Carta de Clemente e a Carta aos Hebreus, conservarem um caráter estilístico semelhante, além de não se diferenciar muito o pensamento de um e outro escrito.

Deve-se saber ainda que há uma segunda carta que se diz de Clemente, mas não sabemos que seja conhecida como a primeira, já que nem os antigos a utilizaram, tanto quanto sabemos.

E muito recentemente alguns trouxeram à luz, dizendo que são dele, outros escritos, verbosos e longos, que contêm os diálogos de Pedro e Apion. Destes escritos não se encontra a menor menção entre os antigos, nem mesmo conservam puro o caráter da ortodoxia apostólica. Conseqüentemente fica claro qual é o escrito aceito de Clemente. Também se falou dos de Inácio e de Policarpo.

 

Dos escritos de Papias 

  1.  Diz-se que são cinco os escritos de Papias, sob o título de Explicações das palavras do Senhor. Irineu os menciona como os únicos escritos de Papias; assim diz:

"Isto também atesta por escrito Papias, que foi ouvinte de João, companheiro de Policarpo e varão dos antigos, no quarto livro dos que escreveu, porque efetivamente tem cinco livros escritos."

Isto é o que diz Irineu. O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram, estas são suas palavras:

"Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com as interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade. Porque eu não me comprazia como outros com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; nem tampouco com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que trazem na memória os (mandamentos) que receberam pela fé da parte do Senhor e nascem da própria verdade.

E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíte­ros, eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qual­quer outro dos discípulos do Senhor, porque eu pensava que não aprovei­taria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."

  1. Aqui seria bom fazer notar também que ele enumera duas vezes o nome de João. O primeiro coloca na lista com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, sendo evidente que se refere ao evangelista; já ao outro João, depois de cortar o discurso, coloca-o com outros, fora do número dos apóstolos, antepondo Aristion e chamando-o claramente de presbítero.

De forma que também isto demonstra que é verdade a história dos que dizem que na Ásia houve dois com este mesmo nome, e em Éfeso dois sepulcros, dos quais ainda hoje se afirma que são, um e outro, de João. É necessário prestar atenção a estes fatos, porque é provável que fosse o segundo - se não se prefere o primeiro - o que viu a Revelação (= Apocalipse) que corre sob o nome de João.

Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos de discípulos destes, enquanto que de Aristion e de João o Presbítero ele diz ter sido ouvinte direto. Efetivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições.

E não se diga que por nossa parte é inútil o dito. Mas é justo adicionar às palavras de Papias já citadas outros ditos seus com os quais se refere a algumas coisas estranhas e outros detalhes que, segundo ele, chegaram-lhe pela tradição.

Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse mesmo tempo, faz menção de haver recebido um relato mara­vilhoso da boca das filhas de Felipe. Narra efetivamente a ressurreição de um morto ocorrida em seu tempo e, como se fosse pouco, outro fato porten­toso referente a Justo, apelidado Barsabás, pois aconteceu que este bebeu uma poção mortal sem que, pela graça do Senhor, sofresse qualquer dano.

Depois da ascensão do Salvador, os sagrados apóstolos puseram este Justo junto com Matias e oraram sobre eles para que a sorte completasse seu número em lugar do traidor Judas; conta-o o livro dos Atos da seguinte maneira: E puseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E orando sobre eles disseram.

O próprio Papias conta também outras coisas como tendo chegado a ele por tradição não escrita, algumas estranhas parábolas do Salvador e de sua doutrina, e algumas outras coisas ainda mais fabulosas.

Entre elas diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milênio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico.

E aparece como homem de muito escassa inteligência, segundo se pode supor por seus livros. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escrito­res eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antigüidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qual­quer outro que manifeste professar idéias parecidas.

Em sua própria obra Papias transmite ainda outras interpretações das pala­vras do Senhor recebidas de Aristion, mencionado acima, assim como também outras tradições de João o Presbítero. A elas remetemos a quan­tos queiram instruir-se. Agora nos vemos obrigados a acrescentar às suas palavras anteriormente citadas uma tradição acerca de Marcos, o que escreveu o Evangelho, que vem exposta nos termos seguintes:

"E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas, como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitia seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como as recordava. E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo."

Isto é o que conta Papias sobre Marcos. Referente a Mateus, diz o seguinte: "Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia."

O mesmo escritor utiliza testemunhos tomados da primeira carta de João, e igualmente da de Pedro, e expõe também outro relato de uma mulher acusada de muitos pecados ante o Senhor, que está contido no Evangelho dos hebreus. Que conste também isto, além do que já havia exposto.




                                        70 – TITO DESTRÓI JERUSALÉM


Segundo Curtis:“Em um de seus primeiros atos impe¬riais, Vespasiano nomeou seu filho, Tito, para conduzir a guerra contra os judeus.
A situação se voltou contra Jeru¬salém, agora cercada e isolada do res¬tante do país. Facções internas da cidade se desentendiam com relação às estratégias de defesa. Conforme o cerco se prolongava, as pessoas mor¬riam de fome e de doen<;as. A esposa do sumo sacerdote, outrora cercada de luxo, revirava as lixeiras da cidade em busca de alimento. Enquanto isso, os romanos empre¬gavam novas maquinas de guerra para arremessar pedras contra os muros da cidade. Arietes forçavam as muralhas das fortificações.
 Os defensores judeus lutavam durante todo o dia e tenta¬yam reconstruir as muralhas durante a noite. Por fim, os romanos irrom¬peram pelo muro exterior, depois pelo segundo muro, chegando final mente ao terceiro muro. Os judeus, no entanto, continuaram lutando, pois cor¬reram para o Templo - sua ultima linha de defesa. Esse foi o fim para os bravos guer¬reiros judeus - e tambem para o Templo. Josefo, historiador judeu, dis¬se que Tito queria preservar Tem¬plo, mas os soldados estavam tão ira¬dos com a resistencia dos oponentes que terminaram por queima-Io. A queda de Jerusalem, essenciaI¬mente, pôs fim a revolta.
 Os judeus foram dizimados ou capturados e vendidos como escravos. O grupo dos zelotes que havia tomado Massada permaneceu na fortaleza por três anos. Quando os romanos finalmente construíram a rampa para cercar e invadir local, encontraram todos os rebeldes mortos. Eles cometeram suicídio para que não fossem captu¬rados pelos invasores. A revolta dos judeus marcou o fim do Estado judeu, pelo menos ate os tempos modernos. - A destruição do Templo de Herodes significou mudança no culto judaico. Quando os babilônios des¬truíram o Templo de Salomão, em 586 a.c., os judeus estabeleceram as sinagogas, onde podiam estudar a Lei de Deus. A destruição do Templo de Herodes pôs fim ao sistema sacrifical judeu e os forçou a contar apenas com as sinagogas, que cresceram muito em importância.” 

MARTÍRIO DE TIAGO

Segundo Anglin: “Hegésipo, um escritor do II século, faz algumas referências interessantes sobre o apóstolo Tiago, que acabou a sua carreira durante esse período, e fornece um detalhado relatório do seu martírio, que podemos inserir aqui. ‘Consta que o apóstolo tinha o nome de Oblias, que significava justiça e proteção, devido a sua grande piedade e dedicação pelo povo. Também se refere aos seus costu¬mes austeros, que sem duvida contribuíram para aumen¬tar a sua fama entre o povo. Ele não bebia bebidas alcoóli¬cas de qualidade alguma, nem tampouco comia carne.’”



 97 – MARTÍRIO DE TIMÓTEO


Pregação à Idólatras; Atacado à pedras e paus; Morte alguns dias depois; A Igreja do Século I: Segundo de Durant: “REUNIAM-SE em recintos privados ou pequenas capelas e organizavam-se segundo o modelo da sinagoga. A congregação recebia o nome de ekklesia - ¬palavra grega para significar as reuniões do governo municipal. Os escravos eram bem-vindos, como nos cultos de Isis e de Mitras; nenhuma tentativa se fazia para libertá-los, mas reconfortavam-nos com a promessa de um Reino em que seriam li¬vres. Entre os primeiros convertidos predominavam os proletários, com alguns ele¬mentos das classes medias e um ou outro da classe alta. Não obstante, longe esta¬vam de ser a "escória da sociedade" como disse Celso; em sua maioria viviam indus¬triosamente, financiavam as missões, levantavam fundos para as comunidades mais pobres. 

Pouco esforço se fazia para conquistar a gente dos campos; a população rural veio por ultimo, e dai o nome de pagani (aldeões, camponeses) que começou a ser aplicado aos habitantes dos Estados mediterrâneos anteriores aos cristãos. As congregações admitiam as mulheres, que eram encarregadas de pequenos pa¬peis; mas a Igreja exigia que elas envergonhassem os pagãos com 0 exemplo de suas vidas de modesta submissão e recolhimento.”  NOTAS hist-igreja.blogspot.com


Cronologia. GERAL

6 ou 4 a.C. - Nascimento de Jesus Cristo
2 a.C. - Nascimento de Paulo, conhecido como o Apóstolo dos Gentios
26 - Início do Ministério de João Batista (primo de Jesus)
26 a 30 - Ministério de Jesus Cristo30 - Herodes Antipas manda decapitar João Batista
30 - Morte e Ressurreição de Jesus Cristo
30 - Dia de Pentecostes (ler Atos 2)
36 - Martírio de Estevão37 - Conversão de Paulo
41 - Em Antioquia pela 1ª vez utiliza-se o termo "cristãos"
44 - Martírio em Jerusalém do apóstolo Tiago, o maior
45 a 48 - 1ª Viagem Missionária de Paulo
45 a 50 - Tiago, irmão de Jesus, escreve a Epístola de Tiago49 - Concílio de Jerusalém: a salvação é pela fé e não pela Lei49 a 52 - 2ª Viagem Missionária de Paulo
49 ou 52 - Paulo escreve a Epístola aos Gálatas
50 - Mateus escreve o primeiro dos 4 Evangelhos (Evangelho de Mateus)
51 - Paulo escreve a Epístola aos Tessalonicenses 
51 - Paulo escreve a 2ª Epístola aos Tessalonicenses
53 a 58 - 3ª Viagem Missionária de Paulo
56 - Paulo escreve a Epístola aos Romanos
56 - Paulo escreve a Epístola aos Coríntios
57 - Paulo escreve a 2ª Epístola aos Coríntios
58 - Prisão de Paulo: de Jerusalém é transferido para Roma
60 - Lucas escreve o Evangelho (Evangelho de Lucas)
60 - Lucas escreve o livro Atos dos Apóstolos
60 - Na prisão, Paulo escreve: Epístola aos Efésios, Epístolas aos Filipenses, Epístola aos Colossenses e Epístola a Filemom
63 - Tiago, irmão de Jesus, morre apedrejado em Jerusalém
64 - Paulo escreve a 1ª Epístola a Timóteo
64 - 1ª perseguição geral aos cristãos: Nero ateia fogo em Roma e culpa cristãos
65 - Pedro escreve a 1ª Epístola de Pedro
65 - Paulo escreve a Epístola a Tito
66 - Pedro escreve a 2ª Epístola de Pedro
67 - Paulo escreve a 2ª Epístola a Timóteo
68 - João Marcos escreve o Evangelho de Marcos
68 - Judas, irmão de Jesus, escreve a Epístola de Judas
68 - É escrita a Epístola aos Hebreus
85 a 90 - O Apóstolo João escreve a 1ª Epístola de João
85 a 90 - O Apóstolo João escreve a 2ª Epístola de João
85 a 90 - O Apóstolo João escreve a 3ª Epístola de João
85 a 90 - O Apóstolo João escreve o Evangelho de João
95 - Em Patmos João tem uma visão e escreve o Livro do Apocalipse (ou o Livro da Revelação)  

 

                                             OS PAIS DA IGREJA            

 

O título “Pai”, aplicado historicamente a alguns líderes cristãos, surgiu devido à reverência que muitos nutriam pelos bispos dos primeiros séculos. A estes chamavam carinhosamente de “Pais” devido ao amor e zelo que tinham pela Igreja, mais tarde, porém, este termo foi sacralizado pelos escritores eclesiásticos, por volta de 1073 Gregório VII reivindica com exclusividade o termo “PAPA”, ou seja, “Pai dos pais”.

Ele tem sua originalidade na Igreja do Ocidente, do século II. Os “Pais Apostólicos” foram homens que tiveram contato direto com os apóstolos, ou que foi citado por alguns deles. Para três indivíduos – Clemente de Roma, Inácio e Policarpo – esta titulação é regularmente aplicada. Principalmente Policarpo, para o qual existem evidências de contato direto com os apóstolos.

No final do século I morre em Éfeso o último dos apóstolos, João, após ter servido ao seu mestre fielmente durante toda sua vida é agora recolhido ao seu lado no lar celestial. Terminava assim a era apostólica. Mas Deus já havia preparado homens capazes para cuidar do seu rebanho. Começa um período novo para a igreja, a obra que os apóstolos receberam de seu Salvador e a desenvolveram tão arduamente acha-se agora nas mãos de novos líderes que tinham a incumbência de desenvolver a vida litúrgica da igreja como fizeram aqueles. O período que comumente é chamado de pós-apostólico é de intenso desenvolvimento do pensamento cristão. Por isso é de suma importância analisar a doutrina dos chamados “Pais da igreja”, pois eles foram os responsáveis pelo povo de Deus daquela época e pela teologia que construíram, sendo que até hoje serve de base para a Igreja. Do século II até o século IV, nomes como o de Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino o mártir, Irineu de Lião, Origines, Tertuliano e outros, que foram os responsáveis por transmitir os ensinamentos bíblicos, merecem não pouco reconhecimento por sua fé, virtude e zelo que nutriam pelo corpo de Cristo na terra – a Igreja. Entretanto, devemos lembrar que mesmo homens como esses não ficaram isentos de erros e até mesmo foram considerados como heréticos por seus resvalos teológicos. Esse foi o caso de Orígenes, por exemplo, que teve muitos de seus ensinos condenados pelo II concílio de Constantinopla em 553.

A maior parte dessas obras foram escritas em grego e latim, embora haja também muitos escritos doutrinários em aramaico e outras línguas orientais.
Patrística é o corpo doutrinário que se constituiu com a colaboração dos primeiros pais da igreja, veiculado em toda a literatura cristã produzida entre os séculos II e VIII, exceto o Novo Testamento.

Histórico

O conteúdo do Evangelho, no qual se apoiava a fé cristã nos primórdios do cristianismo, era um saber de salvação, revelado, não sustentado por uma filosofia. Na luta contra o paganismo greco-romano e contra as heresias surgidas entre os próprios cristãos, no entanto, os pais da igreja se viram compelidos a recorrer ao instrumento de seus adversários, ou seja, o pensamento racional, nos moldes da filosofia grega clássica, e por meio dele procuraram dar consistência lógica à doutrina cristã.

O cristianismo romano atribuía importância maior à fé; mas entre os pais da igreja oriental, cujo centro era a Grécia, o papel desempenhado pela razão filosófica era muito mais amplo e profundo. Os primeiros escritos patrísticos falavam de martírios.

Em meados do século II, os cristãos passaram a escrever para justificar sua obediência ao Império Romano e combater as idéias gnósticas, que consideravam heréticas. Os principais autores desse período foram Justino – o mártir, professor cristão condenado à morte em Roma por volta do ano 165; Taciano, inimigo da filosofia; Atenágoras; e Teófilo de Antioquia. Entre os gnósticos, destacaram-se Marcião, que rejeitava o judaísmo e considerava antitéticos o Antigo e o Novo Testamento.

No século III floresceram Orígenes, que elaborou o primeiro tratado coerente sobre as principais doutrinas da teologia cristã e escreveu Contra Celsum e Sobre os princípios; Clemente de Alexandria, que em sua Stromata expôs a tese segundo a qual a filosofia era boa porque consentida por Deus; e Tertuliano de Cartago. A partir do Concílio de Nicéia, realizado no ano 325, o cristianismo deixou de ser a crença de uma minoria perseguida para se transformar em religião oficial do Império Romano. Nesse período, o principal autor foi Eusébio de Cesaréia. Dentre os últimos gregos destacaram-se, no século IV, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa e João Damasceno.

Os maiores nomes da patrística latina foram Ambrósio, Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim) e Agostinho, este considerado o mais importante filósofo em toda a patrística. Além de sistematizar as doutrinas fundamentais do cristianismo, desenvolveu as teses que constituíram a base da filosofia cristã durante muitos séculos. Os principais temas que abordou foram: as relações entre a fé e a razão, a natureza do conhecimento, o conceito de Deus e da criação do mundo, a questão do mal e a filosofia da história.

DIVISÃO

Podemos dividir os Pais da Igreja em três grandes grupos, a saber: Pais apostólicos, Apologistas e Polemistas.

Todavia devemos levar em conta que muitos deles pode se enquadrar em mais de um desses grupos devido à vasta literatura que produziram para a edificação e defesa do Cristianismo, e também de acordo com o que as circunstancias exigiam, como é o caso de Tertuliano, considerado o pai da teologia latina. Sendo assim então temos:

Pais apostólicos:
 Foram aqueles que tiveram relação mais ou menos direta com os apóstolos e escreveram para a edificação da Igreja, geralmente entre o primeiro e segundo séculos. Os mais importantes destes foram: Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Papias e Policarpo.


Apologistas:
 Foram aqueles que empregaram todas suas habilidades literárias em defesa do Cristianismo perante a perseguição do Estado. Geralmente este grupo se situa no segundo século e os mais proeminentes entre eles foram: Tertuliano, Justino – o mártir, Teófilo e Aristides.


Polemistas:
 Os pais desse grupo não mediram esforços para defender a fé cristã das falsas doutrinas surgidas fora e dentro da Igreja. Geralmente estão situados no terceiro século. Os mais destacados entre eles foram: Irineu, Tertuliano, Cipriano e Orígenes.
 

 

150 – JUSTINO MÁRTIR ESCREVE ‘APOLOGIA’


Era filósofo (Pitágoras, Aristóteles);Ao encontrar-se com um velho cristão em uma praia, converte-se;“Toda a verdade é verdade de Deus”, dizia em um de seus discursos no qual apresentava relações entre a filosofia e a fé.Teve sua vida como que um paralelo coma vida de Paulo: Conversão, Grego, gentios, martírio em Roma;Segundo Curtis:“A vida de Justino apresenta mui¬tos paralelos com a vida de Paulo. O apóstolo era um judeu nascido em área gentia (Tarso); Justino era um gentio nascido em aráa judaica (a an¬tiga Siquém). Eles tinham boa for¬mação e usavam o dom da argumen¬tação para convencer judeus e gentios da verdade de Cristo. Os dois foram martirizados em Roma em razão de sua fé.

A maior obra de Justino, a Apologia foi endereçada ao imperador Antonino Pio (a palavra grega apologia refere-se à lógica na qual as crenças de uma pessoa são baseadas). En¬quanto Justino explicava e defendia sua fé, ele discutia com as autorida¬des romanas por que considerava er¬rado perseguir os cristaos. De acordo com seu pensamento, as autoridades deveriam unir forças com os cristãos na exposição da falsidade dos siste¬mas pagãos”Foi decapitado em Roma em 165. “Vocês podem nos matar, mas não podem nos causar dano verdadeiro.”



156 – POLICARPO É MARTIRIZADO


Foi discípulo de João, o último elo com o primeiro apostolado;Negava-se a PRESTAR CULTO AO GÊNIO DE CESAR;Segundo Curtis:“Então, Policarpo entrou em uma arena cheia de pessoas enfurecidas, o proconsul romano parecia respei¬tar a idade do bispo. Como Pilatos, queria evitar uma cena horrível, se fosse possível. Se Policarpo apenas oferecesse um sacrifício, todos pode¬riam ir para casa ..- Respeito sua idade, velho ho¬mem - implorou o proconsul. ¬Jure pela felicidade de César. Mude de idéia. Diga "Fora com os ateus!".O proconsul obviarnente queria que Policarpo salvasse a vida ao se¬parar-se daqueles "ateus", os cristãos. Ele, porém, simplesmente olhou para a multidão zombadora, levantou a mão na direção deles e disse:- Fora com os ateus!
O proconsul tentou outra vez:- Faça o juramento e eu o liber¬tarei. Amaldiçõe Cristo!O bispo se manteve firme.- Por 86 anos servi a Cristo, e ele nunca me fez qualquer mal. Como poderia blasfemar contra meu Rei, que me salvou?”Antes de ser levado para ser queimado disse: “Seu fogo poderá queimar por uma hora, mas depois se extinguirá, mas o fogo do julgamento por vir é eterno.”
Algumas testemunhas afirmaram que o fogo não o queima, que estava como um pão no forno ou como ouro sendo refinado.

 

A LUTA CONTRA O GNOSTICISMO NA IGREJA


Segundo Anglin:“O gnosticismo era um desses males, e foi talvez a primeira heresia que depois dos tempos dos apóstolos se de¬senvolveu mais. Era um amontoado de erros que tinham a sua origem na cabala dos judeus, uma ciência misteriosa dos rabinos, baseada na filosofia de Platão, e no misticis¬mo dos orientais. Um judeu chamado Cerinto, mestre de filosofia em Alexandria, introduziu parte do Evangelho nesta nessa heterogênea da ciência (falsamente assim chamada) e sob esta nova forma foram enganados muitos crentes verdadeiros, e se originou muita amargura e dis¬sensão,”Gnosticismo é a crença de que existem uma série de conhecimentos secretos, que podem permitir que o homem salve a si mesmo;Os Gnósticos daqueles dias usavam roupagem (aparência, terminologias) cristã;Apóstolo João já combatia estas idéias na sua primeira epístola;“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. Nisto conheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.” I João 4.1-2



177 – IRINEU TORNA-SE BISPO DE LIÃO E COMBATE O GNOSTICISMO


Estudou por anos todas as formas de gnosticismos existentes;Segundo Curtis:“Quando o bispo de Lião final¬mente tomou conhecimento dessa heresia, escreveu a obra denominada Contra as heresias, um enorme tra¬balho no qual buscava revelar a tolice do "falso conhecimento". Va¬lendo-se tanto do Antigo Testamen¬to quanto do Novo, Ireneu mostrou que o Deus amoroso criou o mun¬do, que se corrompeu por causa do pecado humano. (...) Ireneu compreendia que o gnosticismo se valia do desejo humano de conhecer algo que os outros nao co¬nheciam. Com relação aos gnosticos, escreveu: "Tao logo um homem é convencido a aceitar a forma da sal¬vação deles [dos gnósticos], se torna tao orgulhoso com o conceito e a im¬portância de si mesmo, que passa a andar como se Fosse um pavao". Po¬rem, os cristãos deveriam humilde¬mente aceitar a graça de Deus, e não se envolver em exercícios intelectuais que levavam a vaidade.”Foi degolado no alto de um monte por recusar-se a oferecer sacrifícios aos deuses romanos (202 d.C.);Notas,Historia do cristianismo,A.Knight e W.Anglin,2009,cpad) , hist-igreja.blogspot.com 



                                                  ORIGENS 185-254

“O grande mestre da Igreja depois dos apóstolos.” Foi assim que Jerônimo, tradutor da Bíblia Vulgata latina, se referiu a Orígenes, um teólogo do terceiro século. Mas nem todos estimavam tanto a Orígenes. Alguns o consideravam uma raiz do mal de onde se originavam as heresias. Conforme disse um escritor do século 17, os críticos de Orígenes afirmavam: “Sua doutrina é de modo geral absurda e perniciosa, um veneno serpentino mortífero que ele vomitou no mundo.” Cerca de três séculos depois de sua morte, Orígenes foi oficialmente declarado herege.

Por que Orígenes despertou tanto admiração quanto rivalidade? Que influência ele teve no desenvolvimento das doutrinas da Igreja?

Zelo pela Igreja: Orígenes nasceu por volta de 185 EC, em Alexandria, no Egito. Obteve amplo conhecimento da literatura grega, mas seu pai, Leonides, o obrigou a dedicar-se igualmente ao estudo das Escrituras. Quando Orígenes tinha 17 anos, o imperador romano baixou um decreto transformando a mudança de religião em crime. O pai de Orígenes foi preso porque havia se tornado cristão. Jovem e cheio de zelo, Orígenes estava determinado a juntar-se ao pai na prisão e no martírio. Ao perceber isso, a mãe dele escondeu suas roupas para impedir que fosse embora de casa. Por carta, ele implorou a seu pai: “Cuidado! Não mude de idéias por nossa causa.” Leonides continuou firme e foi executado, deixando a família na pobreza. Mas Orígenes já estava bem adiantado nos estudos, o suficiente para poder sustentar a mãe e seis irmãos mais novos dando aulas de literatura grega.

O objetivo do imperador era impedir o avanço do cristianismo. Visto que o decreto não afetava apenas alunos, mas também instrutores, todos os instrutores religiosos cristãos fugiram de Alexandria. Quando alguns não-cristãos apelaram para o jovem Orígenes em busca de orientação bíblica, ele assumiu essa obra como comissão divina. Muitos de seus alunos foram martirizados, alguns mesmo antes de completar os estudos. Correndo grande risco, Orígenes incentivava abertamente seus alunos, quer estivessem diante de um juiz quer na prisão, ou prestes a ser executados. Eusébio, historiador do quarto século, relata que quando eles estavam sendo conduzidos à execução, Orígenes “os cumprimentava corajosamente com um beijo”.

Muitos que não eram cristãos ficaram irados com Orígenes por considerá-lo responsável pela conversão e morte de seus amigos. Por diversas vezes ele escapou por um triz de turbas e de uma morte violenta. Embora fosse obrigado a mudar-se constantemente para escapar dos seus perseguidores, ele não diminuiu suas atividades de ensino. Sua coragem e dedicação impressionaram Demétrio, bispo de Alexandria. Por isso, Demétrio nomeou Orígenes, de apenas 18 anos de idade, diretor da escola de instrução religiosa em Alexandria.

Com o tempo, Orígenes tornou-se erudito notável e escritor prolífero. Alguns disseram que ele escreveu 6.000 livros, embora é provável que isso seja um exagero. Sua obra mais conhecida é a Hexapla, uma gigantesca versão de 50 volumes do Antigo Testamento. Ele dispôs a Hexapla em seis colunas paralelas, contendo: (1) o texto hebraico e aramaico, (2) uma transliteração desse texto para o grego, (3) a versão grega de Áquila, (4) a versão grega de Símaco, (5) a Septuaginta grega, que ele revisou para corresponder mais exatamente ao texto hebraico, e (6) a versão grega de Teodocião. “Com essa combinação de textos”, escreveu o erudito bíblico John Hort, “Orígenes esperava elucidar o significado de muitas passagens nas quais o leitor grego ficaria confuso ou seria enganado caso tivesse diante de si apenas a Septuaginta”.

Ir além das coisas escritas: Contudo, a confusão religiosa no terceiro século afetou profundamente os ensinos de Orígenes sobre as Escrituras. Embora a cristandade estivesse apenas engatinhando, já havia se poluído com crenças antibíblicas, e suas igrejas espalhadas ensinavam diversas doutrinas.

Orígenes aceitou algumas dessas doutrinas antibíblicas, chamando-as de ensinos dos apóstolos. Mas ele se sentiu à vontade para especular sobre outros assuntos. Muitos de seus alunos se debatiam com questões filosóficas da época. Com o objetivo de ajudá-los, Orígenes fez um estudo profundo sobre as diversas escolas filosóficas que estavam formando a opinião de seus jovens alunos. Ele se empenhou em dar a eles respostas satisfatórias às suas questões filosóficas.

Na tentativa de conciliar a Bíblia com a filosofia, Orígenes se valeu do método alegórico de interpretar as Escrituras. Ele presumiu que as Escrituras sempre tinham um significado espiritual, mas não necessariamente literal. Como disse um erudito, isso deu a Orígenes “os meios de extrair da Bíblia quaisquer conceitos antibíblicos que se harmonizassem com seu próprio sistema teológico, apesar de ele professar ser (e sem dúvida acreditava sinceramente nisso) um intérprete especialmente entusiasta e fiel do pensamento bíblico”.

Uma carta de Orígenes a um de seus alunos nos ajuda a entender sua maneira de pensar. Ele disse que os israelitas usaram ouro egípcio para fazer utensílios para o templo de Yehowah, e entendia que isso fornecia apoio alegórico ao uso da filosofia grega para ensinar o cristianismo. Ele escreveu: “Quão úteis para os filhos de Israel foram as coisas levadas do Egito, as quais os egípcios não haviam usado de maneira correta, mas que os hebreus, orientados pela sabedoria divina, empregaram no serviço a Deus!” Dessa maneira, Orígenes incentivou seu aluno a “extrair da filosofia dos gregos o que pudesse servir como assunto de estudo ou preparação para o cristianismo”.

Essa abordagem irrestrita à interpretação bíblica anuviou os limites entre a doutrina cristã e a filosofia grega. Por exemplo, em seu livro intitulado De Principiis (Primeiros Princípios), Orígenes descreveu Jesus como ‘Filho unigênito, que nasceu, mas que não teve princípio’. E acrescentou: ‘Sua geração é eterna e infinita. Ele se torna Filho não pelo recebimento do fôlego de vida, por algum ato externo, mas pela própria natureza de Deus.’

Orígenes não encontrou essa idéia na Bíblia, porque as Escrituras ensinam que o Filho unigênito de Deus é “o primogênito de toda a criação” e “o princípio da criação de Deus”. (Colossenses 1:15; Apocalipse 3:14) De acordo com o historiador religioso Augustus Neander, Orígenes chegou ao conceito de “geração eterna” por meio de sua “educação filosófica na escola platônica”. Dessa maneira, Orígenes violou o princípio bíblico básico: “Não vades além das coisas que estão escritas.” — 1 Coríntios 4:6.

Condenado por heresia: Havia passado pouco tempo desde que Orígenes tinha se tornado instrutor quando um sínodo alexandrino o destituiu do sacerdócio. Isso provavelmente ocorreu porque o bispo Demétrio ficou com ciúme de sua crescente fama. Orígenes mudou-se para a Palestina, onde ainda tinha a fama de defensor da doutrina cristã e continuou a servir como sacerdote ali. De fato, quando surgiram “heresias” no Oriente, ele foi procurado para convencer os bispos errantes a retornar à ortodoxia. Depois de sua morte em 254 EC, a reputação de Orígenes sofreu um abalo. Por quê?

Depois de o cristianismo nominal tornar-se uma religião importante, a Igreja passou a definir de maneira mais restritiva o que era aceito como ensino ortodoxo. Assim, gerações posteriores de teólogos não aceitaram muitos conceitos filosóficos especulativos e, às vezes, imprecisos de Orígenes. Por isso, os ensinamentos dele provocaram amargas controvérsias dentro da Igreja. Na tentativa de resolver essas controvérsias e preservar sua unidade, a Igreja condenou Orígenes formalmente por heresia.

Ele não foi o único a cometer erros. Na verdade, a Bíblia havia predito um desvio geral dos ensinos genuínos de Cristo. Essa apostasia começou a se desenvolver no fim do primeiro século, depois da morte dos apóstolos de Jesus. (2 Tessalonicenses 2:6, 7) Com o tempo, certos professos cristãos assumiram a posição de “ortodoxos”, afirmando que todos os outros eram “hereges”. Mas na realidade a cristandade desviou-se muito do verdadeiro cristianismo.

O falsamente chamado "conhecimento". Apesar das muitas especulações de Orígenes, suas obras contêm elementos benéficos. Por exemplo, a Hexapla conservou a forma original do nome de Deus em quatro letras hebraicas, chamadas de Tetragrama. Isso é uma prova importante de que os primitivos cristãos conheciam e usavam o nome pessoal de Deus, Yehowah. Contudo, Teófilo, patriarca da Igreja que viveu no quinto século, advertiu: “As obras de Orígenes são como uma campina com flores de todo tipo. Se encontro uma flor bonita, eu a apanho; mas se alguma coisa me parece espinhosa eu a evito como faria com um espinho.”

Por misturar ensinos bíblicos com filosofia grega, a teologia de Orígenes ficou repleta de erros, e as consequências foram desastrosas para a cristandade. O livro The Church of the First Three Centuries (A Igreja dos Primeiros Três Séculos) observa: “O gosto pela filosofia [introduzido por Orígenes] estava destinado a não ser logo extinto.” Com que resultado? “A simplicidade da fé cristã foi corrompida, e uma infinidade de erros foi introduzida na Igreja.”

Orígenes podia ter seguido o conselho do apóstolo Paulo e evitado contribuir para essa apostasia ‘desviando-se dos falatórios vãos, que violam o que é santo, e das contradições do falsamente chamado “conhecimento”’. Por basear tantos de seus ensinos em tal “conhecimento”, Orígenes ‘se desviou da fé’. — 1 Timóteo 6:20, 21; Colossenses 2:8 .(NOTAS FONTE BIBLIOTECA BIBLICA) 

 

 

             A DIVINA TRÍADE: IRINEU DE LIÃO E A DOUTRINA DE DEUS


Irineu, o bispo de Lião, ocupa um lugar de destaque tanto na história da Igreja em geral quanto na história do pensamento cristão em particular.  A sua vida e obra são especialmente significativas porque ele viveu em um período importante da Igreja Primitiva sobre o qual temos relativamente poucas informações.  O segundo século foi uma época em que os apóstolos, os sucessores imediatos de Jesus, já não viviam, e a Igreja Cristã ainda não havia alcançado a força e estabilidade que iria obter nos séculos seguintes.  Foi uma época de incertezas para o movimento cristão ainda recente, constantemente ameaçado por perseguições e heresias; uma época em que a Igreja, pressionada pelos desafios lançados tanto por seus críticos pagãos como por seus dissidentes cristãos e pseudocristãos, sentiu-se mais e mais compelida a explicitar a sua fé em termos claros e convincentes.
 Irineu de Lião tem sido chamado merecidamente “O Pai da Ortodoxia Cristã”, “O Pai da Dogmática Católica” e “O Primeiro Grande Teólogo sistemático da Igreja”.  Ele também foi caracterizado como o mais importante teólogo do segundo século, o teólogo que sintetizou o pensamento daquele século e dominou a ortodoxia cristã antes de Orígenes.  Curiosamente, Irineu não foi primariamente um teólogo no modelo escolástico, mas um pastor e mestre da igreja, um homem preocupado com a integridade da mensagem cristã e com a unidade, paz e prosperidade do corpo de Cristo.  Os seus escritos são uma resposta direta, motivada por considerações pastorais e práticas, ao sério desafio e ameaça representado pelo gnosticismo.  Portanto, ele se dirige a outros líderes cristãos para ajudá-los a protegerem os seus rebanhos de ensinamentos que pervertiam seriamente o evangelho.
A sua luta decisiva e eficaz contra o gnosticismo coloca Irineu entre os chamados Pais Anti-Gnósticos.  Como tal, Irineu se insere numa longa tradição de defesa corajosa da fé cristã, contra as heresias, que foi iniciada pelos autores do Novo Testamento e teve prosseguimento com os Pais Apostólicos e os Apologistas.  Nos seus esforços intelectuais, ele foi imediatamente seguido pelos grandes pensadores do terceiro século, mui especialmente Tertuliano (c.155-222) e Orígenes (c.185-254).
Ainda que não tenha sido fundamentalmente um teólogo, muito menos um teólogo sistemático, Irineu certamente produziu uma teologia profunda, sólida e influente.  No entanto, ao contrário dos Apologistas, particularmente Justino Mártir (c.100-165), ele nutria grandes suspeitas em relação às especulações filosóficas, e isto por duas razões—elas não levavam a conclusões certas e confiáveis e eram, a seu ver, uma das fontes do gnosticismo.  O traço peculiar dos escritos de Irineu é a sua natureza explicitamente bíblica.  Ele é acima de tudo um teólogo bíblico, no sentido de que para ele a tradição bíblica era a única fonte da fé e o verdadeiro fundamento da teologia.  Tendo rejeitado a noção de que o conteúdo da revelação era simplesmente uma nova e melhor filosofia, Irineu, mais do que qualquer dos seus predecessores, esforçou-se para fornecer uma síntese de toda a Escritura, cobrindo todas as principais áreas da teologia cristã.


Ao mesmo tempo, é evidente que Irineu recebeu muitas influências e fez uso de diferentes fontes, tanto bíblicas como extrabíblicas, que faziam parte do seu contexto intelectual secular e religioso.  Ele não reivindica ser um autor original, mas vê a si mesmo como um expositor da doutrina que havia recebido da Igreja.  Embora os seus escritos sejam circunstanciais, condicionados pelas necessidades imediatas da Igreja, eles nos dão uma boa perspectiva de como era o pensamento e o ensino bíblico e doutrinário ao final do segundo século.
Devido à sua contribuição, “não é de surpreender”, diz Hardy, “que os teólogos modernos convidem Irineu a dar-lhes apoio em nossas atuais discussões”.  González vai além, afirmando que “a sua teologia, fundamentada na Bíblia e na doutrina da Igreja antes que em suas opiniões pessoais, tem sido continuamente uma fonte de renovação teológica”. Provavelmente, a principal área em que Irineu deu uma contribuição permanente à Igreja de todos os tempos foi a teologia propriamente dita, ou seja, a doutrina de Deus.  Era precisamente nesta área que o ensino gnóstico se mostrava mais prejudicial à doutrina cristã, através de sua incisiva negação da unidade de Deus e a sua conseqüente tendência divisionista na cristologia, na antropologia e na eclesiologia.
O propósito deste estudo é rever e avaliar esta contribuição de Irineu ao pensamento cristão a partir de uma perspectiva histórica e teológica.  As próximas seções irão tratar resumidamente da vida e obra desse pensador, de alguns aspectos do sistema gnóstico por ele combatido e dos argumentos utilizados nesta confrontação, e de uma exposição e análise da sua doutrina de Deus, que antecipou vários temas das célebres discussões trinitárias dos séculos seguintes.


  1. A vida de Irineu


      Muito pouco se conhece sobre a vida de Irineu.  Ele aparece pela primeira vez nos documentos antigos como o portador de uma carta dos confessores de Lião para a Igreja de Roma (bispo Eleutério, c.174-189), na época da perseguição do ano 177.  Esta carta pedia tolerância para os montanistas da Ásia Menor.  Em uma carta pessoal preservada por Eusébio de Cesaréia (Hist. eccl. 5,20,4-8), Irineu conta que tinha vívidas lembranças de Policarpo, o bispo de Esmirna, que fora discípulo do apóstolo João.  Isto era altamente significativo para Irineu, uma vez que Policarpo o colocava em contato com a era apostólica.  Irineu nasceu entre os anos 120 e 140 na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna, onde ainda menino conheceu Policarpo, que foi martirizado aos 86 anos de idade no ano 155.


Possivelmente por volta do ano 170, motivos familiares, pessoais ou missionários o levaram a Roma e depois para Lião (Lugdunum), no sul da Gália, atual França, onde ele se tornou um presbítero.  Hardy comenta que a Lião do segundo século era uma pequena Roma.  Uma cidade comercial às margens do Ródano e o centro do sistema romano de estradas da Gália, Lião era a sede de uma guarnição romana e a capital das três províncias gaulesas, sendo também o centro do culto imperial naquelas províncias.  Como Roma, Lião tinha uma grande população de língua grega entre a qual o cristianismo estava firmemente estabelecido.  A igreja de Lião tinha outros imigrantes de língua grega procedentes da Ásia Menor como Irineu.
   Após a sua missão em Roma no ano 177, Irineu retornou para Lião e descobriu que o bispo Potino havia sido martirizado, sendo então escolhido para ser o seu sucessor.  Como bispo de Lião, Irineu liderou a igreja daquela cidade, defendeu o seu rebanho contra as heresias e lutou pela paz e unidade da Igreja Cristã como um todo.  Esta última preocupação o levou a intervir na controvérsia pascal (c.190), quando Vítor, o bispo de Roma (189-198), ameaçou excomungar as igrejas da Ásia Menor por causa de um desentendimento referente à data da celebração da Páscoa.  Por esta razão, Eusébio declara que Irineu portou-se à altura do seu nome, porque provou ser um verdadeiro pacificador ou eurenopoios (Hist. eccl. 5,24,18).  Após este incidente, Irineu desapareceu completamente dos registros históricos e até mesmo o ano da sua morte é desconhecido.


  1. Escritos


Irineu escreveu uma longa série de obras, das quais somente duas sobrevivem: seu grande tratado A Detecção e Refutação da Falsamente Chamada Gnose (c. 185), geralmente conhecido como Contra as Heresias (Adversus Haereses), e uma obra de menor tamanho, Epideixis ou Demonstração da Pregação Apostólica, um tratado apologético descoberto em uma versão armênia em 1904 e publicado pela primeira vez em 1907.  Dos outros escritos de Irineu—vários tratados e cartas—temos apenas uns poucos fragmentos ou somente os títulos, os quais foram preservados por Eusébio de Cesaréia.
A gigantesca Contras as Heresias consiste de cinco livros que no seu conjunto são maiores do que todo o corpo de literatura cristã existente naquela época.  O original grego perdeu-se quase inteiramente, mas existe uma tradução latina muito literal que foi publicada pela primeira vez por Erasmo de Roterdã em 1526, e também uma versão armênia dos dois últimos livros publicada em 1913.


  Como indica o título original, a obra é composta de duas partes.  A primeira parte (Livro I) trata da detecção ou descrição das doutrinas dos gnósticos, especialmente dos discípulos de Ptolomeu, que era discípulo de Valentino.  O autor conclui triunfantemente: “Meramente descrever tais doutrinas é o mesmo que refutá-las” (Adv. haer. 1,31,3-4).  A segunda parte, a “refutação”, compreende os quatro livros restantes.  No Livro II, Irineu refuta a gnose dos valentinianos e dos marcionitas com base na razão.  Ele ataca as doutrinas do pleroma e dos eons com uma lógica implacável, mas não procura elaborar uma alternativa especulativa.  Na realidade, o Livro II desenvolve o que havia ficado incompleto no primeiro livro.
Os últimos três livros são devotados à refutação do gnosticismo com base nas Escrituras.  Aqui Irineu trata de muito temas mais amplos e elabora os princípios basilares da teologia cristã.  O Livro III coloca o fundamento da doutrina cristã nas Escrituras e na tradição e elabora com detalhes os seus pontos essenciais—a unidade de Deus e a redenção por meio de Cristo.  O Livro IV defende contra Márcion a unidade das duas alianças e o Livro V continua a discussão acerca da redenção e daí passa para as últimas coisas e a esperança do mundo por vir.  Neste livro, Irineu discorre longamente sobre a ressurreição do corpo, que era negada por todos os gnósticos.
Contra as Heresias é a primeira grande obra cristã no segundo nível da teologia, a primeira tentativa abrangente de declarar o que é realmente o cristianismo.  Embora muito menor, a Epideixis ou Demonstração também é significativa, uma vez que parece representar o ensino de Irineu aos catecúmenos.  Ela segue a ordem da fórmula batismal, aduzindo provas escriturísticas para a crença no Pai, Filho e Espírito Santo.


  1. Os gnósticos


Bengt Hägglund observa com propriedade que “foi o idealismo gnóstico, com a sua negação da criação, que compeliu os pais da Igreja a abordarem com tantos detalhes as doutrinas de Deus e da criação, juntamente com o problema do homem, a encarnação e a ressurreição do corpo”.  É bem sabido que aquilo que chamado de gnosticismo era um fenômeno muito complexo que assumiu uma grande variedade de configurações.  De um lado do espectro havia manifestações de uma gnose cristã, das quais a mais destacada foi o marcionismo.  Por outro lado, os gnósticos do tipo valentiniano dificilmente poderiam ser considerados como cristãos.  Eles eram perigosamente enganosos uma vez que utilizavam as mesmas Escrituras e a mesma linguagem que os cristãos, mas com um sentido radicalmente diferente.  Irineu chama atenção para este fato através da interessante analogia da imagem de um rei e de sua transformação na imagem de um animal (Adv. haer. 1,8,1).
      Todos os sistemas gnósticos tinham em comum a opinião de que o cristianismo ortodoxo, com o seu “credo” claro e objetivo, era demasiado simples.  Eles professavam no mínimo ter uma resposta mais complexa para o enigma do universo.  Filosoficamente, as diferentes correntes do gnosticismo também tinham em comum a negação da unidade de Deus conforme apresentada nas Escrituras e ensinada pela Igreja Primitiva.  Na sua forma mais simples, eles negavam a identificação do Deus do Velho Testamento, Iavé, com o Deus de Jesus Cristo.
Norris pondera que o contexto da “gnose” ou “verdade mais profunda” do gnosticismo “tinha a ver com a questão religiosa fundamental da origem, natureza e destino da alma”.  Esta preocupação levava a um entendimento do Ser Divino e da sua relação com o mundo que distorcia por completo o ensino cristão tradicional acerca de Deus.  Deste erro fundamental, decorriam todas as outras idéias gnósticas errôneas nas diferentes áreas da teologia cristã.
Na concepção de Irineu, a gnose era pura e simplesmente uma contradição do cristianismo, uma negação das suas doutrinas capitais.  Como sabemos, Irineu não estava interessado no gnosticismo como um fenômeno geral, mas em um tipo particular de ensino que ele havia encontrado em Lião — a doutrina de Ptolomeu, “um rebento da doutrina de Valentino” (Adv. haer. 1, prefácio, 2).  Como tal, a gnose ptolomaica era “um sistema de complexidade fantasmagórica, cujo propósito era expor a verdade acerca da identidade do gnóstico em sua natureza mais íntima”.
Conforme a descrição de Irineu, o traço essencial da gnose ptolomaica era um dualismo consistente.  Os gnósticos não reconheciam um, e sim dois mundos.  Havia o Pleroma ou Plenitude, uma sociedade de seres divinos ou Eons, em cujo ápice ficava a realidade última desconhecida e incognoscível, o Abismo.  Fora e abaixo do Pleroma estava o corrupto mundo material, o produto indesejado de uma desordem temporária na vida do Pleroma.  O mundo foi produzido através de um processo complexo que gerou os seus três elementos constitutivos: matéria corpórea, alma e espírito.  Os espíritos dos gnósticos estavam destinados a retornarem finalmente para o seu lar no Pleroma.
O artífice do mundo visível é uma entidade angélica, o Demiurgo, uma simples alma que ignora qualquer vida superior à sua própria.  Este é o Deus dos judeus e o Jesus humano e terreno é o seu Messias.  No entanto, existe uma dimensão oculta da verdade nos ensinos de Jesus que revela o próprio Pleroma.  Isto acontece porque um eon divino, o Salvador, veio sobre Jesus no seu batismo e permaneceu com ele até o momento do seu sofrimento e morte.  Todo aquele que lê as palavras de Cristo em sintonia com o seu significado interior, e não com o seu sentido literal, encontra nas mesmas não as palavras do Messias judeu, mas o ensino do próprio Salvador, que traz o conhecimento da vida divina do Pleroma.
Obviamente, a conseqüência deste sistema era o abandono completo do entendimento cristão tradicional acerca do Ser Divino e do seu relacionamento com o mundo.  Conforme Norris observa: “Na sua ansiedade de segregar a matéria do espírito, o mal do bem, os gnósticos dissolveram ao mesmo tempo a unidade do mundo e a unidade de Deus”. Por sua vez, este dualismo gnóstico destruía a integridade da teologia da história que estava no âmago da pregação cristã.  A oposição entre o Velho e o Novo Testamento, entre Iavé e o Salvador manifestado em Jesus, levava a uma dissolução da unidade da história da salvação, a história da relação de Deus com a humanidade apresentada nos escritos sagrados da Igreja.


  1. O argumento de Irineu


   A argumentação de Irineu contra a heresia gnóstica foi tríplice: filosófica, histórica e exegética.  Primeiramente, ele chamou a atenção para o absurdo lógico do sistema gnóstico, especialmente na sua idéia de Deus.  Particularmente, no segundo livro deAdversus Haereses, ele procura expor “as inconsistências de uma concepção que proclama a infinidade e a supremacia do Deus absoluto e ao mesmo tempo nega a sua responsabilidade pelo mundo material.  A forma racional e abstrata deste argumento parece contradizer a afirmação anterior de que Irineu nutria suspeitas com relação às especulações filosóficas.  Sabemos que em vários pontos de suas obras a sua hostilidade para com a filosofia é bastante explícita (Adv. haer. 2,26,1).  Todavia, o fato é que Irineu não poderia deixar de fazer especulações e de utilizar idéias religiosas e filosóficas que estavam profundamente incrustadas no seu contexto cultural (judaísmo helenístico, platonismo, etc.).
 Em segundo lugar, Irineu refutou a alegação dos gnósticos de que eles ensinavam a verdadeira doutrina de Cristo e dos apóstolos.  Nesta tarefa, Irineu teve de estabelecer as credenciais históricas da sua própria posição, ou seja, a harmonia existente entre aquela doutrina e o seu cristianismo anti-gnóstico.  Ele apelou para os escritos sagrados que constituíam o fundamento dos ensinos da Igreja (o Velho Testamento na versão da Septuaginta e os livros que mais tarde seriam conhecidos como o Novo Testamento) e insistiu em que estas fontes escritas eram o único padrão final do autêntico ensinamento cristão.  Além disso, ele apelou ao princípio da tradição: o critério para o entendimento das Escrituras é encontrado na doutrina abertamente proclamada (“a regra da verdade”) por aquelas igrejas cujos líderes sucederam numa ordem publicamente reconhecida o ofício docente dos apóstolos.  A “verdade” que, de acordo com Irineu, era a “regra” (kanon), consistia da ordem da salvação revelada na Bíblia, proclamada pela Igreja e sintetizada na confissão batismal.
O terceiro nível do argumento de Irineu foi exegético.  Ele tomou os ensinos dos profetas, de Cristo e dos apóstolos e mostrou que eles se opunham frontalmente à doutrina dos adversários gnósticos.  No decurso da sua análise exegética Irineu desenvolveu o que considerava a alternativa ortodoxa ao gnosticismo.  Este empreendimento o levou a utilizar idéias exegéticas e teológicas que havia herdado de escritores cristãos anteriores, especialmente dos apologistas.  Desse modo, a elaboração feita por Irineu de uma alternativa ao gnosticismo o levou a dialogar com a cosmologia teológica grega, cujo início consciente pode ser visto nas apologias de Justino.  Além disso, à medida que procurava mostrar a continuidade entre os eventos do Velho Testamento e os do Novo Testamento, Irineu utilizou e desenvolveu a chamada exegese tipológica (Adv. haer. 4,20,7 - 25,3).


  1. A doutrina de Deus


Por volta de meados do segundo século começou a surgir nos círculos cristãos uma crescente elaboração de formulações confessionais, catequéticas e batismais, bem como o esforço de falar sobre as implicações mais amplas das mesmas, em nível intelectual.  Estas elaborações marcam a transição de uma teologia primária para uma teologia secundária ou de segundo nível, em resposta à necessidade de explicar o que acontecia quando alguém era batizado, ou seja, qual o significado do novo relacionamento estabelecido com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.  Mais especificamente, a necessidade de interpretar as fórmulas catequéticas, confessionais e batismais em face dos escritos heréticos foi o contexto no qual começou a surgir a busca intelectual da doutrina da trindade.  Em Irineu, encontramos a primeira elaboração extensa das fórmulas batismais triádicas, juntamente com as suas implicações, como uma resposta direta ao desafio lançado pelo gnosticismo à concepção cristã de Deus.
Irineu inicia com a regra da verdade, a “tradição” ou ensino transmitido pelos apóstolos e fielmente preservado pela igreja.  A partir daí ele desenvolve o seu entendimento acerca da unidade de Deus e da realidade da tríade divina: Pai, Filho e Espírito Santo.  Não havia um credo em Lião, mas uma linguagem triádica sobre o que significava ser um cristão.  Evidentemente, ainda não havia uma doutrina da trindade.  Apesar das suas afirmações ao contrário, Irineu demonstrou ter uma mente altamente criativa ao deduzir as implicações das fórmulas tradicionais para muitas áreas do pensamento cristão, particularmente para a idéia de Deus.


5.1 A Regra da Verdade


 Como foi visto acima, para Irineu a “regra da verdade” era o sistema de fé derivado dos apóstolos e dos seus discípulos e compartilhado pela Igreja universal.  Com isto, ele não estava se referindo a um único credo universalmente aceito ou a qualquer tipo de fórmula como tal, mas ao conteúdo doutrinário da fé cristã transmitida na Igreja “católica”.  Em várias passagens, Irineu faz alusões a esta regra da verdade e até mesmo reproduz sínteses da mesma, quase invariavelmente em termos triádicos e em conexão com o batismo.
 Existem vários exemplos na Epideixis, como este encontrado no capítulo 3: “Antes de tudo, precisamos ter em mente que recebemos o batismo para a remissão dos pecados em nome de Deus o Pai, e em nome de Jesus Cristo o Filho de Deus, que se encarnou, morreu e ressuscitou, e no Espírito Santo de Deus”.  Existem outras referências nos capítulos 7 e 100.  A partir desta linguagem, Kelly conclui que Irineu conhecia uma série de perguntas batismais que seriam mais ou menos assim: “Você crê em Deus Pai?  Você crê em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que se encarnou, morreu e ressurgiu?  Você crê no Espírito Santo de Deus?”.  A Epideixis tem, no seu capítulo 6, uma exposição detalhada dos três pontos, novamente em um contexto relacionado com o batismo, o que dá uma boa idéia da instrução catequética pré-batismal fornecida naquela época.
Os sumários “credais” mais importantes encontrados em Contra as Heresias são também confissões com três cláusulas.  A passagem mais notável é aquela encontrada em 1,10,1:      A Igreja, embora dispersa por todo o mundo, até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos esta fé: [Ela crê] em um Deus, o Pai Todo-poderoso, Criador dos céus, da terra, do mar e de todas as coisas que neles estão; e em um Cristo Jesus, o Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou através dos profetas as dispensações de Deus. . .
Outra referência importante é aquela encontrada em 4,33,7, que parece ter sido deliberadamente baseada em 1 Cor 8:6:
Ele [o verdadeiro discípulo espiritual] tem plena fé em um Deus Todo-poderoso, de quem são todas as coisas; e no Filho de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor, por quem são todas as coisas, e nas dispensações referentes a Ele, por meio das quais o Filho de Deus se fez homem; e uma fé firme no Espírito de Deus, que nos proporciona o conhecimento da verdade, e tem apresentado as dispensações do Pai e do Filho, em virtude das quais Ele habita com cada geração dos homens, de acordo com a vontade do Pai.      Também existem vários exemplos de fórmulas com dois artigos (Adv. haer. 3,1,2; 3,42; 3,16,6; etc.).Kelly pondera que, surpreendentemente, é tênue a influência de motivos anti-heréticos nestas várias declarações.  Talvez isto seja verdade quanto às declarações em si mesmas, mas certamente os seus contextos não deixam dúvida quanto à sua intenção polêmica.  É precisamente a partir dessas afirmações da regra da verdade que Irineu deriva os seus principais argumentos contra as noções gnósticas acerca de Deus e do seu relacionamento com a ordem criada.


5.2 Deus, Uno e Criador


  Com Irineu, a afirmação de Deus como uno e criador assumiu importância especial, uma vez que a sua tarefa era refutar a teoria gnóstica de uma hierarquia de eons que desciam de um Deus Supremo incognoscível e o seu corolário de uma grande distância entre ele e o criador ou Demiurgo.  Um texto torna clara esta posição: “O primeiro artigo de nossa fé”, explica Irineu, “é Deus o Pai, incriado, não-gerado, invisível, Divindade una e única, criador do universo” (Dem. 6; ver também Adv. haer. 2,1,1; 2,9,1; 2,16,3).  Deus exerce a Sua atividade criadora através da Sua Palavra e da Sua Sabedoria ou Espírito (2,30,9).  Ele criou ex nihilo (2,10,4), sendo esta provavelmente a primeira declaração cristã explícita da criação de todas as coisas a partir do nada.  Para fundamentar estes princípios Irineu apela, além das Escrituras, à razão natural (Dem. 4).
Deus relaciona-se com o mundo não somente através da criação, mas também através da redenção.  O Deus da salvação é o mesmo Deus da criação (Adv. haer. 4,6,2; 4,20,2), ou seja, não há senão um só Deus, que tanto cria como redime.  O ensino gnóstico acerca de dois deuses era uma blasfêmia contra o Criador.  Ele também implicava na impossibilidade da salvação, porque se Deus não criou, a criação também não poderia ser redimida.  Se Deus não foi o criador, ele não iria salvar a criação.  Todavia, este é o alvo de toda a ordem da criação.  Para os gnósticos, a salvação consistia em serem libertos da criação, do mundo material; para Irineu, no entanto, a salvação significava que a própria criação seria restaurada ao seu estado original e alcançaria o seu destino conferido por Deus.
   A visão gnóstica de Deus não somente punha em dúvida o princípio bíblico essencial do monoteísmo, mas impunha uma limitação seja ao poder ou à bondade de Deus.  Contra estas concepções, Irineu afirma que Deus é um e único em sua majestade e bondade, e supremo no seu poder.  Os termos que ele emprega são tomados, curiosamente, do judaísmo helenístico e da teologia do médio platonismo.  Ele escreve que Deus é incriado, incompreensível, sem figura ou forma, impassível e incapaz de erro (Adv. haer. 4,38,2-3).  Ele é estático, imutável (2,34,2), auto-contido e auto-suficiente (2,1,5; 4,16,4).  Deus é, como Platão observou corretamente, incapaz de ser declarado e, portanto, como Irineu conclui de maneira não platônica, ele é conhecido somente na medida em que se dá a conhecer a si mesmo.  Ele é simples, não-composto e totalmente diferente das coisas criadas (2,13,3).
      Irineu também repete constantemente que Deus é sem limites.  O verdadeiro Deus é ele mesmo o Pleroma, a “Plenitude” de todas as coisas.  Como tal, ele não é contido por nada e todavia contém tudo o que existe (2,30,9; 2,1,1).  Ele é ilimitado tanto no seu poder como na sua presença: não existe nada à parte dele e nada que não esteja sujeito a ele.  Na sua simplicidade e eternidade não-originadas, Deus é o contexto imensurável de todo o ser, bem como a sua fonte—diferente de todas as criaturas, porém não separado de nenhuma delas.
  Norris vê aqui uma diferença significativa entre Irineu e Justino. Enquanto que Justino tende a acentuar a transcendência radical do Criador sobre a sua criação, a agenda de Irineu requer uma maneira de afirmar a majestade transcendente de Deus que não pareça excluí-lo do mundo.  A noção do caráter ilimitado de Deus não significa meramente que Deus não pode ser medido, mas também que nada impõe um limite ao seu poder e à sua presença.  Assim, o que torna Deus diferente de toda criatura—a sua simplicidade eterna e não-gerada—é precisamente o que lhe assegura um relacionamento direto e íntimo com toda criatura.


5.3 A Divina Tríade


      Da mesma maneira que os ensinos gnósticos levam Irineu a enfatizar a unidade de Deus, a regra da verdade ligada ao batismo o faz refletir sobre as distinções do Ser Divino: Pai, Filho e Espírito Santo.  Irineu mostra a dificuldade de se reconciliar uma só realidade divina com tais distinções, isto é, como afirmar a unidade de Deus e ao mesmo tempo preservar a Tríade.  No seu pensamento, as próprias relações das “pessoas” da Tríade permanecem obscuras.  Ele trata das implicações da fórmula, mas se recusa a ir além disso; esta tarefa seria deixada para teólogos posteriores.
  Como foi visto anteriormente, Irineu começa a sua exposição do Ser Divino a partir dos três artigos fundamentais do símbolo batismal.  Uma passagem essencial éDemonstração .  Lebreton observa apropriadamente que “a fim de julgar as heresias [Irineu] leva-as a esta regra fundamental e demonstra a oposição das mesmas aos três artigos do símbolo”.  Por sua vez, Kelly argumenta que Irineu vai além dos apologistas em dois aspectos, a saber, na sua compreensão mais firme e afirmação mais explícita da noção de “economia” e no seu reconhecimento muito mais pleno do lugar do Espírito no esquema triádico.
  A divina Tríade é invocada para mostrar com mais detalhes como Deus se relaciona com o mundo não somente na criação, mas na redenção.  Irineu se acerca de Deus a partir de duas direções, vendo-o tanto como ele existe no seu ser intrínseco e também como ele se manifesta na economia, o processo ordenado da sua automanifestação.  Do primeiro ponto de vista, Deus é o Pai de todas as coisas, inefavelmente um, e todavia contendo em si mesmo desde toda a eternidade a sua Palavra e a sua Sabedoria.  Porém, ao dar-se a conhecer ou pôr-se em atividade na criação e na redenção, Deus manifesta esta Palavra e esta Sabedoria; como o Filho e o Espírito, elas são as suas “mãos”, os veículos ou formas da sua auto-revelação.
 Norris pondera que a nota característica do ensino de Irineu acerca de Deus pode ser vista na sua luta com a doutrina do Logos herdada dos apologistas.  Ele a utiliza, mas um tanto a contra-gosto e com cuidadosas qualificações.  A Palavra ou o Verbo é visto como o Mediador.  O Pai está “acima de tudo”, enquanto que a Palavra é “através de todas as coisas”.  O Pai está de algum modo “fora” do mundo e a Palavra parece um poder intermediário através de quem Deus se relaciona com o mundo e atua nele.  A Palavra é o Mediador da revelação: o Deus invisível e incompreensível não é dado a conhecer diretamente, mas através da sua Palavra.
  Irineu não fica inteiramente satisfeito com esta linguagem.  A sua oposição ao gnosticismo o torna avesso a qualquer sugestão de que existe mais de uma substância divina ou de que Deus está de algum modo separado do seu mundo.  Assim, ele repudia todas as tentativas de se explorar o processo pelo qual o Logos/Verbo foi gerado (2,28,4-6; 2,13,8).  Tal linguagem parece sugerir que o Logos é um estado intermediário entre Deus e a criação e parece implicar em distinções de grau dentro da Divindade.  Ao mesmo tempo, o Verbo ou Filho é corretamente chamado “Deus” (Dem. 47); ele é distinto de tudo o que é gerado e coexiste com o Pai desde toda a eternidade (2,30,9; 3,18,1; 4,20,1).
 Com o Filho Irineu associou intimamente o Espírito, argumentando que, se Deus era racional e portanto tinha o seu Logos, ele também era espiritual e assim tinha o seu Espírito (Dem. 5).  Nisto, Irineu demonstrou ser um seguidor de Teófilo de Antioquia e não de Justino, identificando o Espírito, não o Verbo, com a Sabedoria divina, e assim fortalecendo a sua doutrina do Espírito Santo com uma base bíblica segura (Sl 33.6; Pv 3.19; 8.22-36; etc.).  O Espírito é plenamente divino, ainda que em nenhum lugar Irineu o designe expressamente como Deus, pois ele é o Espírito de Deus, continuamente brotando do seu ser (5,12,2).
Irineu também é bastante peculiar e criativo no seu ensino acerca do Verbo e da Sabedoria, o Filho e o Espírito, como “as duas mãos de Deus” (4,20,1), uma imagem que faz lembrar Jó 10:8a e Salmo 119:73.  Esta é outra maneira pela qual ele acentua a doutrina de um Deus imediatamente presente e ativo.  É o próprio Deus Supremo que está empenhado numa atividade criadora neste mundo.  Lawson observa que este ensino denota uma “ação direta”, em contraste com os anjos intermediários dos sistemas gnósticos (Adv. haer. 4,7,4).  Irineu também fala do “Pai que planeja tudo bem e dá as suas ordens, o Filho que as executa e realiza a obra de criação, e o Espírito que nutre e faz crescer. . .” (4,38,3).  Vê-se aqui um esforço de preservar a igualdade do status divino entre o Filho e o Espírito exigida pela fórmula triádica.  Assim, “as duas mãos de Deus” é uma expressão do caráter imediato da criação, não do seu caráter mediato.
O Verbo e o Espírito colaboram na obra de criação e direção (4,20,2; Dem. 5) e também nas atividades de inspiração e revelação.  O Verbo revela o Pai (4,6,3; 4,6,6).  Na encarnação o Verbo, até então invisível aos olhos humanos, tornou-se visível e manifestou pela primeira vez aquela imagem de Deus a cuja semelhança o ser humano foi originalmente criado (5,16,2).  O Espírito atuou nos profetas e nos crentes da antigüidade; somente ele capacita as pessoas a conhecerem o Filho (Dem. 6,7).  A santificação é inteiramente obra do Espírito.
 Lawson acredita que o tratamento mais profundo e consistente da natureza de Deus feito por Irineu está em Adv. haer. 4,20,1-12, um capítulo que inicia com a celebração do amor de Deus.  No centro da religião de Irineu, está o conceito do amor auto-comunicativo de Deus.  Porque ele ama, Deus livremente dá de si mesmo na criação, nos profetas e no Filho do seu amor. A visão de Irineu acerca da Divindade é a mais completa e também a mais explicitamente “trinitária” que se pode encontrar antes de Tertuliano. Seus característicos do segundo século destacam-se claramente, particularmente em sua apresentação da Tríade através da imagem, não de três pessoas co-iguais (conceito pós-niceno), mas de um único personagem, o Pai, que é a própria Deidade, com a sua mente ou racionalidade e a sua sabedoria.
      Confrontado com as extravagâncias gnósticas, Irineu permaneceu extremamente avesso à investigação das profundezas ontológicas da Tríade e das relações entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.  O fato importante destacado pela fórmula batismal e acentuado por Irineu é que existem distinções reais no ser imanente do Pai único e indivisível e que, embora somente tenham sido plenamente manifestas na “economia”, elas realmente estavam presentes desde toda a eternidade.
      A  teologia de Irineu é um tributo à sua fé no Deus triúno, à sua capacidade intelectual e ao seu compromisso com a Igreja.  É também uma evidência eloqüente da força interior e da crescente influência do cristianismo primitivo, que teve no bispo de Lião um dos seus mais notáveis e dignos representantes.  Nos dias atuais, em que diversos sistemas neo-gnósticos e pseudocristãos continuam a questionar a fé cristã histórica, o exemplo de Irineu nos incentiva a aprofundar a nossa reflexão teológica à luz das Escrituras e da experiência da Igreja.(notasFontes Portal Makenze) 

fonte www.avivamentonosul.com