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as confissões de fé reformada
as confissões de fé reformada

                             AS CONFISSÕES DE FÉ REFORMADAS

 

                                            Introdução: Conhecendo os Termos. 

O termo “confissão de fé”, em seu uso mais comum, “designa as declarações formais da fé cristã escritas pelos protestantes desde os primeiros dias da Reforma”(2), assim como o termo “credo” é comumente relacionado às declarações de fé da Igreja Primitiva (Ex.: Credo de Nicéia etc). As principais distinções entre ambos têm a ver com o tamanho (as confissões são bem maiores) e sua época de composição (Reforma e Período Patrístico)(3). 

Associados às confissões de fé ainda existem os “catecismos”, elaborados na forma de perguntas e respostas, que via de regra, têm o mesmo propósito das confissões. 

Ainda há o uso do termo técnico “símbolo de fé”, que abarca de forma geral qualquer declaração formal de fé (credo, confissão ou catecismo), “que distingue a comunidade que a professa daqueles que não a professam”(4). 

O termo “Cânones” é aplicado às “decisões oficiais de concílios que estabelecem a posição da Igreja ou de um de seus ramos, movimentos ou denominações, quanto a doutrinas específicas”(5) (Ex. Cânones de Dort). 

 

I. A Reforma e as Confissões:

 As publicações de Lutero, Zuínglio e Calvino, e outros reformadores, trouxeram à tona questões teológicas sérias e que careciam de definições mais simples e claras para que o povo pudesse compreender e acatar. As confissões escritas por eles e seus colaboradores tinham por objetivo atingir o povo comum, mais do que as lideranças intelectuais e políticas da época.

Além disso, os reformadores precisavam mostrar coerentemente e convincentemente o que seria colocado no lugar das doutrinas católicas que combatiam. Eles propunham:

 A autoridade das Escrituras em contraste com a tradição católica aceita.Ø

 Sacerdócio dos crentes e o testemunho interno do Espírito em contraste com as declarações do infalível magisterium de Roma.Ø

 Uma nova visão do relacionamento entre Igreja/Estado em função da influência católica sobre os reinos existentes no século XVI.Ø

 Uma nova interpretação da história para impulsionar e apoiar a Reforma.Ø

 A restauração da pureza da Igreja neotestamentária quanto à fé e ética cristãs.Ø

Assim sendo, Mark Noll nos lembra que para cada ataque contra uma 

crença estabelecida ou prática tradicional, era exigido dos reformadores “uma base lógica, uma declaração concisa das razões para a mudança”(6). 

Por outro lado, argumenta Noll, não eram apenas os reformadores se levantavam contra a Igreja católica no século XVI. Toda uma geração de pensadores, filósofos, governantes e artistas plásticos vinham fazendo o mesmo noutras áreas que não na teologia, tornando necessárias a composição de novas declarações de fé cristãs; “não para meramente reorientar a vida cristã, mas também para reposicionar o próprio cristianismo dentro das forças da Europa moderna que nascia”(7) com a Renascença.

Noll Enumera pelos três funções das Confissões de Fé para os protestantes(8): 

Eram declarações autorizadas da fé cristã que entesouravam as novas idéias dos reformadores, sem abandonar formas que também pudessem fornecer instrução regular para os fiéis mais humildes.

Erguer um estandarte em redor do qual uma comunidade local podia cerrar fileiras, tornando claras as diferenças com os oponentes.

Tornar possível uma reunificação da fé e da prática, visando a unidade e, ao mesmo tempo, estabelecer uma norma para disciplinar os desregrados. Paulo Anglada afirma que essa prática propicia um compromisso moral com o sistema de fé proposto na confissão.

 II. As Confissões dos Protestantes: 

As confissões de fé surgiram cedo na reforma protestante. Zuínglio, por exemplo, somente na primeira década da reforma de Zurique supervisionou a composição de não menos que quatro documentos confessionais.

 Os 67 Artigos, para levar o seu cantão suíço a romper com Roma (1523).Ø

As 10 Teses de Berna, para consolidar a Reforma nessa cidade (1528).

A Confissão de Fé diante de Carlos V, para informar o imperador sobre as convicções protestantes (1530).

 A Exposição da Fé diante de Francisco I, rei da França, para convence-lo a adotar atitudes mais igualitárias diante dos protestantes (1531).Ø

Lutero, ao mesmo tempo publicara o Catecismo Menor (1529) ao perceber a ignorância que havia na Saxônia com respeito aos rudimentos da Reforma e da própria Bíblia. Em 1530, Philip Melanchton escreveu a Confissão de Augsburgo, que se tornou o padrão da fé luterana.

Além disso, quando os magistrados ou o povo comum aceitavam a Reforma, eram convocados a escrever uma declaração definitiva da fé(9) . Foi assim em Basiléia, Genebra e Zurique, na França, Alemanha, Escandinávia, escócia, Holanda, Boêmia, Polônia e Inglaterra. Os próprios cânones do Concílio de Trento (1545-1563) demonstram que o catolicismo recapitulou a sua fé numa declaração breve e autorizada.

Segundo Noll foi a diversidade política do protestantismo em sua formação que impediu a formulação de uma única confissão(10) , contudo na segunda geração da Reforma já houve uma grande consolidação. Os luteranos atribuíram autoridade ao Livro da Concórdia (1580), que determinava seus símbolos de fé:

Os Credos: dos Apóstolos; de Nicéia e de Atanásio.

Os Artigos de Smalcald (1537).

A Fórmula da Concórdia (1577).

Os Catecismos Menor e Maior de Lutero (1527).

A Confissão de Augsburgo (1530).

 Entre os reformados foram aceitos:

A Segunda Confissão Helvética, escrita por Bullinger para uso pessoal (Zurique - 1566).

O Catecismo de Heidelberg (Alemanha - 1563).

Os 39 Artigos (Inglaterra – 1563).

A Confissão e os Catecismos de Westminster (1640).

As confissões de fé nunca deixaram de ser escritas, especialmente nos 

EUA, porém os documentos mais antigos atingiram uma posição de predominância, mantida até hoje. Noll menciona três documentos mais modernos que merecem atenção:

A Chamada à União, da Conferência de Fé e Ordem, de Lausanne (1927).

A Declaração de Barmen, composta pela Igreja Confessante alemã, diante do crescimento do Nazismo (1934).

O Pacto de Lausanne, sobre questões teológicas e sociais (1974).

 III. O Lugar das Confissões nas Igrejas.

 As confissões de fé refletem a etapa de desenvolvimento do grupo para o qual foram escritas. 

O Catecismo Menor de Lutero (1529) tinha em vista a simplicidade da fé, pois foi publicado para uso familiar. A Confissão de Augsburgo (1530) foi preparada para ser apresentada ao imperador Carlos V. A Fórmula da Concórdia (1577), foi escrita para apaziguar uma longa série de controvérsias dentro do luteranismo.

 Refletem as questões teológicas envolvidas na sua formação. 

O Catecismo de Heidelberg foi escrito com propósitos pastorais e didáticos. Os Cânones de Dort são uma resposta a um conjunto de questões teológicas limitadas.

 Refletem o apoio de uma comunidade inteira ou o clamor de uma minoria pressionada. 

A Confissão de Westminster foi composta com o apoio do Parlamento inglês, com o tempo necessário para a sua composição, tornando-se uma “declaração abrangente e equilibrada”(11). Os Artigos de Schleitheim (1527) foram escritos por Michael Sattler debaixo de muita pressão, sendo executado três meses depois da apresentação dos mesmos.

 Refletem as atitudes com respeito da autoridade ou da Igreja. 

Cada denominação tem apresentado posturas internas variadas diante das confissões de fé.

No passado, as denominações de maior concentração (episcopais ou presbiterianos) tendiam a dar mais valor às confissões do que as de menor concentração (congregacionais). Agora, porém, alguns grupos historicamente confessionais estão menos apegados a declarações de fé, em comparação com igrejas e organizações independentes(12). 

 Havia na época da Reforma dos tipos de Confissão de Fé: as que enfatizavam o drama da redenção, destacando a pessoa de Deus e Sua bondade misericordiosa para com os pecadores e as que enfatizavam a verdade da fé, que sempre eram iniciadas com a definição da revelação nas Escrituras, para somente então passar às atividades de Deus.

No primeiro grupo figuram: Confissão de Augsburgo, Catecismo Menor de Lutero, 67 Artigos de Zuínglio, 10 Teses de Berna de Zuínglio, Catecismo de Heidelberg, Confissão Escocesa (1560), 39 Artigos.

No segundo grupo encontramos: 1ª Confissão Helvética (1536), 2ª Confissão Helvética, Confissão Francesa de Calvino (1559), Confissão Belga (1561), Artigos Irlandeses de James Ussher (1615) e a Confissão de Fé de Westminster.

Muitos desses documentos eram sustentados juntos nas igrejas. A igreja holandesa, por exemplo, fazia uso tanto do Catecismo de Heidelberg, quanto da Confissão Belga. “Mas, por terem sido estruturadas segundo linhas diferentes, estes documentos testemunharam o modo pelo qual a visão teológica formula a ênfase confessional”(13). 

 

IV. O Valor das Confissões de Fé.

 Mark Noll afirma de forma muito precisa que as confissões de fé têm servido aos protestantes “como pontes entre a revelação bíblica e culturas específicas”(14) . Elas responderam a necessidades específicas e concretas de sua época. Algumas perderam influência rapidamente, outras, no entanto, devido à sua sensatez e equilíbrio vem permanecendo como fonte de inspiração e alimento para a fé.

A autoridade das confissões de fé é relativa e limitada, submetendo-se à autoridade das Escrituras, visto que somente a Bíblia pode figurar como única regra de fé e prática para os cristãos. Cremos, contudo, que por essa razão não se deve desprezar seu papel histórico e doutrinário para as igrejas. Muitos que têm desprezado as confissões têm enveredado por caminhos que envergonham o Evangelho de Cristo e vão se desarticulando como grupos cristãos confiáveis.

Os grupos que mantêm fidelidade às confissões de fé apresentam comumente duas razões para isso(15): 

Os documentos confessionais estimulam a clareza da crença e a franqueza no debate teológico, enquanto que os padrões não escritos são suscetíveis de manipulação dos detentores do poder denominacional.

Existem muitos textos nas Escrituras que se utilizam resumos formais da fé como auxílios à fé e à prática.

O que pregamos – I Co 1.21.

A verdade – II Ts 2.13.

O Evangelho – I Co 15.1-8.

A Palavra – Gl 6.6.

A doutrina de Cristo – II Jo 9,10.

A palavra certa – Tt 1.9.

O padrão de doutrina – Rm 6.17.

As tradições – I Co 11.2 e II ts 3.6.

Aquilo que confessamos – I Tm 3.16.

“Os confessionalistas protestantes reconhecem a obra do Espírito Santo no desdobramento da doutrina no decurso da história e na composição de confissões, mas consideram que tal obra é sempre uma iluminação ou uma extensão dos padrões absolutos da Escritura”(16), em contraste com o Catolicismo que supervaloriza suas promulgações doutrinárias, dando-lhes peso igual ao das Escrituras através do Magisterium.

Resumindo, o valor permanente das confissões de fé, está em sua funcionalidade como:

Introduções valiosas à fé cristã.

Resumos úteis das Escrituras.

Diretrizes fidedignas para a vida cristã.

Defender a Igreja das heresias. 

 V. Documentos Confessionais Reformados:

 1537 = Catecismo e Confissão de Fé de Genebra.

1557 = Confissão de Fé da Guanabara.

1559 = Confissão Galicana.

1560 = Confissão Escocesa.

1561 = Confissão Belga.

1563 = Catecismo de Heidelberg.

1566 = 2ª Confissão Helvética.

1571 = 39 Artigos da Igreja Anglicana (1562 – 42 Artigos).

1619 = Cânones de Dort.

1647 = Confissão de Fé + Catecismos de Westminster (Maior e Breve).

 fonte www.helio.blogspot.com

 

                                                      E NA IGREJA PRIMITIVA? 

                                                    CONTEXTO HISTORICO 

                                       Literatura Patrística = Os Pais Apostólicos.

  

Os Pais Apostólicos foram escritores cristãos do fim do primeiro e início do segundo século (cerca de 95 a 150) e que podem ser considerados com justiça o primeiro eco do ensino dos apóstolos. Afinal, tiveram contato pessoal com os apóstolos ou com algum de seus discípulos. O termo foi empregado pela primeira vez em 1672 por J. B. Cotelier em sua obra de dois volumes Patres aevi apostolici (2). 

 Inicialmente o termo era aplicado a somente cinco obras: Epístola de Barnabé, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna e o Pastor de Hermas. Posteriormente, Papias de Hierápolis e a Epístola a Diogneto foram incluídos. Recentemente foi incluída também a Didaquê. 

 Fica evidente que essa classificação não denota um grupo homogêneo de escritos. O Pastor de Hermas e a Epístola de Barnabé se assemelham na forma e conteúdo aos apócrifos do Novo Testamento. A Epístola a Diogneto, em função de seu propósito, pode ser colocada entre os escritos dos apologistas gregos. Enquanto que a Didaquê é um manual de regulamentações comunitárias, as cartas de Inácio refletem a solidariedade entre as Igrejas e co-responsabilidade do bispo local frente o cisma e as heresias (3). I Clemente é uma intervenção da igreja de Roma nos problemas locais da igreja de Corinto.

 O caráter dos Pais Apostólicos é pastoral, seu conteúdo e estilo estão mais relacionados aos escritos do Novo Testamento, especialmente as epístolas (4). Para Quasten “eles podem ser considerados como a conexão entre o tempo da revelação e o tempo da tradição, e como as mais importantes testemunhas da fé cristã”(5) daquele período.

 Seus autores viveram em partes diferentes do Império Romano como Ásia Menor, Síria e Roma, tendo escrito para suprirem necessidades específicas das igrejas em ocasiões especiais. O que é típico nesses escritos, Segundo Quasten, é seu caráter escatológico, apresentando a Segunda Vinda de Cristo como iminente (6). Por outro lado. A pessoa de Cristo recebe atenção especial lembrando-nos de sua relação íntima com os apóstolos. Eles não procuram ser uma exposição científica da doutrina cristã, ainda que seu relato cristológico seja uniforme e até mesmo apaixonado, como no caso de Inácio de Antioquia. Para eles Cristo é o Filho de Deus, preexistente, divino-humano e que participou da obra da criação do mundo.

 

Os Pais Apostólicos, portanto, marcam um período de transição e edificação da Igreja cristã.

 Breve Análise Descritiva:

 

  • Clemente de Roma: I Epístola aos Coríntios (95-96). 

Temas: Submissão aos presbíteros locais.

 É o primeiro documento patrístico cujo autor e data aproximada de composição estão bem confirmados. Durante algum tempo esteve integrado ao cânon do NT em igrejas do Egito e Síria.

Irineu (Adv. Haer. III.3,3) e Eusébio (HE III.15,34) colocam Clemente como o terceiro sucessor de Pedro no bispado de Roma. A carta é uma intervenção da igreja de Roma na Igreja de Corinto buscando a conciliação interna da mesma (57.1). O problema fora deposição de presbíteros (44.6) devido a rebelião de alguns jovens (3.3) à sua autoridade. Clemente defende vigorosamente a estrutura hierárquica tradicional (1.1; 44.3-4; 47.4-7) utilizando-se do princípio da sucessão apostólica (44.1-3). Essa hierarquia é formada por presbíteros e diáconos (42.1-3; 44.5; 57.1). Um detalhe interessante é que a carta tem mais citações do AT do que qualquer outro livro do NT.

Além disso tem o seu valor histórico ao mencionar a estadia de Pedro em Roma, a ida de Paulo à Espanha (cap.1) e a perseguição de Nero (cap. 6). Tem lugar na história do dogma ao estabelecer, segundo Quasten “o manifesto da jurisdição eclesiástica” (42.1-3; 44.1-3)(7), a primeira defesa da sucessão apostólica e do primado de Roma, defendido pelos católicos. Demonstra a influência do estoicismo na filosofia cristã (cap. 20). No campo da liturgia pontua uma clara distinção entre clero e laicato (40.5; 41.1). contrasta episcopos com presbíteros (44.5 e 57.1 com 44.4). legou-nos uma belíssima oração litúrgica (59.4-61.3).

  Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios (c.150).Ø 

Temas: Sermão ou homilia não escrita por Clemente.

 Essa carta contém um testemunho a favor da penitência “paenitentia secunda”, duas cartas às Virgens e as chamadas pseudoclementinas, todas datadas do terceiro século.

  Inácio de Antioquia: Sete (7) cartas escritas às Igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales (Trália), Roma, Filadélfia, Esmirna e a Policarpo (c. 107 a 113).Ø 

Temas dominantes: Combate a heresias (Docetismo e judaizantes), unidade da Igreja e martírio iminente do autor.

 Eusébio ( História Eclesiástica - HE III.36) situa Inácio nos tempos de Trajano (98-117) como César romano, datando o seu martírio no décimo ano desse governo, ou seja, em 107. A tradição diz que ele foi levado da Síria (Antioquia) para Roma a fim de ser lançado às feras como mártir cristão. Irineu recorda seu martírio em (Adv. Haer. V.28,4). Suas cartas são exortações à unidade dentro da Igreja e a submissão ao bispo como referencial doutrinário das igrejas locais. Defende vigorosamente a fé cristã diante dos docetistas e judaizantes. Anseia pelo martírio como sinal de conformação a Cristo e testemunho cristão.

Inácio desconhece o papel dos profetas nas igrejas (presente na Didaquê) e defende o bispado monárquico como sinal da unidade da igreja. Inácio fala da eucaristia como “remédio de imortalidade” (Efésios 20.1,2) e como um veículo da nossa união real (Esmirna 7.1) com Cristo através de seu sangue (Filadélfia 4). Ela só podia ser celebrada pelo bispo ou por quem este designasse para fazê-lo, bem como o batismo (Esmirna 8.1). Para Inácio, “a unidade de Cristo com o Pai fundamenta a unidade do cristão com Cristo” (8), que é unido a Ele pela fé. O martírio é a perfeita imitação de Cristo (Romanos 4.1). É ele quem usa pela primeira vez os termos “eucaristia” para designar a ceia; e “igreja católica”, referindo-se à amplitude do alcance da Igreja no Império Romano e á sua unidade.

Segundo Quasten, o valor dessas cartas é a demonstração da vida interna nas igrejas do início do segundo século (9) e para a história do dogma na sua vigorosa defesa da divindade-humanidade de Cristo.

  Policarpo: Epístola aos Filipenses (c. 110).Ø 

Temas: Exortações práticas.

 Foi discípulo direto de João e quem discipulou a Irineu de Lião. 

Participou do debate de 155 em Roma com respeito à data da comemoração da páscoa. Enfrentou pessoalmente a Márcion (Irineu = Adv. Haer. 3.3,4), proponente de uma espécie de gnosticismo cristão, chamando-o de “o primeiro nascido de Satan” (10). A epístola data provavelmente de 110 a 130 (11). 

A Cristologia da carta de Policarpo é muito próxima à de I João, combatendo tanto o Gnosticismo como o Docetismo. Quanto ao governo da igreja testemunha que na Igreja de Filipos há um governo formado por um conjunto de presbíteros. 

O objetivo da carta é dar informações sobre a estadia de Inácio com Policarpo e repassar as cartas de Inácio em poder de Policarpo à Igreja de Antioquia.

  Martírio de Policarpo (c. 155): Enviado pela Igreja de Esmirna à igreja de Filomélio.Ø 

 O texto nos transmite uma notável impressão da nobreza de caráter de Policarpo e como ele perseverou até o fim em sua fé. 

  Papias, Bispo de Hierápolis, na Frígia (+c. 130).Ø 

Temas: “Interpretações dos ditos do Senhor” (vida e palavras de Cristo, fragmentos em Eusébio e Irineu; trata da origem dos Evangelhos).

 Segundo Irineu (Adv. Haer. V.33), ele foi amigo de Policarpo de Esmirna, 

tendo chegado a ouvir a pregação do apóstolo João. Sua obra é uma Explicação dos Ditos do Senhor. Pouco se sabe de sua teologia, embora é evidente que manteve uma escatologia favorável ao milenarismo (12). Eusébio descreve-o como “um homem com pouca inteligência, como fica claro em seus livros” (HE III.39.3). Quasten acentua seu valor em preservar o ensino oral dos discípulos dos apóstolos (13). 

 

 Didaquê ou Ensino dos Doze Apóstolos (início do II século).Ø 

Temas: Manual de Instrução para a Igreja; ensino ético, problemas litúrgicos, profetas, oficiais e questões disciplinares.

 O texto chegou até nós pelo códice Hierosolymitanus (H 54), copiado em 

1056 e descoberto em Jerusalém e publicado pelo metropolita grego de Nicomédia Filoteo Bryennios em 1833. Segundo César Mazanares, há disputa quanto a datação. Entre 50-70 (Audet); 70-90 (Adam); 100-150 (Quasten) (14). Alguns chegaram a considerá-lo um escrito canônico.

A obra é dividida em 16 capítulos. 1-10 = Conteúdo litúrgico; 11-15 = disciplina eclesial. O cap. 16 trata da Segunda vinda de Cristo.

Descreve o batismo como sendo praticado por imersão, embora traga a primeira referência ao batismo por efusão, praticado em caso de necessidade. O batismo era limitado aos adultos e somente os batizados podiam participar da ceia.

A eucaristia (ceia), celebrada aos domingos e após a confissão de pecados era coletiva e litúrgica. Era considerada o sacrifício (Thysia) de Malaquias 1.10, se bem que essa afirmação não implicava um conteúdo sacrificial da celebração senão a crença de que o louvor e a oração substituíram todo tipo de sacrifício.

Não há qualquer menção a um episcopado monárquico, como em Inácio; os líderes são simplesmente chamados de bispos (supervisores) e diáconos (como em Fp 1.1). Há abundantes referências a profetas itinerantes. Daí a importância da escatologia, que acentua a aparição dos falsos profetas e do anticristo como sinais antecessores da segunda vinda de Cristo (parusia).

  Epístola de Barnabé (c. 130).Ø 

Temas: O autor era um cristão de Alexandria. Trata da suficiência de Cristo X a Lei de Moisés. Contém muita tipologia e alegoria.

 

Essa obra gozou de enorme fama, ao ponto de Orígenes considerá-la canônica. É possível que tenha sido escrita por um judeu-cristão, talvez de Alexandria, sendo carregada de helenismos. É um tratado teológico anti-judaico apresentado artificialmente na forma de carta (1.1; 21.9).

Divide-se em duas seções claras, dedicadas a aspectos teológicos (1-17 = o valor e sentido da revelação no AT) e práticos (18-21). Defende a preexistência de Cristo face à heresia dos ebionitas (15). Liga a adoção como filhos de Deus ao batismo. Os cristãos devem guardar o Domingo e não o Sábado (XV.8,9). Sua escatologia é milenarista (XV.1-9).Contém o primeiro texto cristão contra o aborto (XIX.5).

Segundo o Dr. Ronaldo Cavalcante, a Epístola a Barnabé “é uma tentativa de superação das instituições de Israel na nova economia salvífica. Faz parte de uma corrente ideológica cristã que não sabe o que fazer com o AT e que culminou, em meados do séc. II, com a ruptura herética de Márcion” (16).  

 Pastor, de Hermas (c. 150).Ø 

Temas: Baseado no Apocalipse. Seu objetivo é moral e prático. Ênfases: Arrependimento e vida de santidade.

 Quasten prefere considerá-lo como um apocalipse apócrifo, mais que um 

Pai Apostólico (17). O autor era provavelmente um judeu convertido ao cristianismo e de uma vida familiar desajustada. O conteúdo da obra são várias visões experimentadas por Hermas em Roma. Irineu (Adv. Haer. IV.20), Tertuliano, Orígenes e Eusébio (HE V.8) consideravam-no inspirado (18). 

A obra é divida em três partes: 5 visões; os 12 preceitos e as 10 parábolas, que tratam de problemas práticos da vida da Igreja, mais do que de sutilezas doutrinárias. É mais didático que profético. Hermas crê que o batismo é indispensável para a salvação. Crê na trindade, embora identifica o Espírito Santo com Cristo. Crê na Igreja como “a primeira das criaturas já que por ela foi criado o mundo”. A igreja é tanto um ideal a ser alcançado quanto composta de pecadores. Sua principal doutrina é a do arrependimento penitencial (20). 

  Epístola a DiognetoØ (c. 200). 

Temas: Autor anônimo; destinada ao tutor de Marco Aurélio (?). Possui caráter apologético (uma defesa racional do Cristianismo).

 Seu estilo é marcantemente o de uma apologia. O autor e os destinatários 

são-nos igualmente desconhecidos. Provavelmente foi escrita de Alexandria (21). O texto que temos da epístola é de Justino. A obra descreve o cristianismo como superior ao paganismo e ao judaísmo, aponta a origem divina do cristianismo e convida Diogneto à conversão.

 Uma Avaliação Crítica dos Pais Apostólicos:

 Não é difícil perceber a mudança quando estudamos os escritos do NT em comparação com os Pais Apostólicos; não há o mesmo frescor de originalidade, profundidade e clareza. Berkhof(22) concorda com Quasten que este tempo é um tempo de transição da época da revelação e inspiração infalíveis para um tempo de pioneiros, porém falíveis. Eles escoram pesadamente sobre as Escrituras, sem contudo, ultrapassarem os aspectos elementares da fé cristã.

Berkhof alista duas características desses escritos para a elaboração de sua crítica(23): 

(1) Pobreza de estilo e conteúdo.

(2) Falta de precisão. 

Isso porque para os primeiros pais, o cristianismo não era uma doutrina a aprender e adquirir, mas um princípio de uma nova obediência ao Senhor por meio de Cristo.

Apesar disso, é preciso reconhecer a dimensão dos problemas que eles enfrentavam, antes de avaliarmos suas fraquezas e desvios doutrinários.

 

1. O Cânon não estava ainda plenamente organizado, sendo inclusive difícil ter o conjunto de todas as cópias dos manuscritos bíblicos. Ainda no tempo de João Crisóstomo (final do Séc. IV) era complicado adquirir textos bíblicos para a leitura doméstica, quanto mais no início do segundo século! Inácio é pobre de citações diretas, ao passo que Clemente cita as escrituras mais do que qualquer livro do Novo Testamento.

 2. O perigo das heresias que se difundiam rapidamente por meio de falsos irmãos e pregadores itinerantes despreparados. A Didaquê se dedica a instruções sobre o tratamento desses obreiros itinerantes, alertando para o perigo de aproveitadores.

 3. A falta de estrutura definida nas Igrejas. A unidade era sustentada na figura do bispo monárquico, que nem sempre estava livre das influências da filosofia grega pagã, como é o caso de Clemente de Roma, onde se percebe a influência do Estoicismo.

 4. As perseguições que não permitiam o desenvolvimento teológico, que só foi possível nos séculos IV e V, com o fim das mesmas. A igreja lutava para sobreviver e se defender. Inácio, Justino e Irineu, além de tantos outros, tiveram suas vidas ceifadas pelo martírio provindo das perseguições.

Mesmo assim, é possível observar a origem, o desenvolvimento e a interpretação deles das práticas doutrinárias, litúrgicas e eclesiásticas comuns na vida da Igreja pós apostólica. Eles nos ajudam a entender a transição da Igreja apostólica do primeiro século para a Igreja católica antiga do final do segundo século(24).