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ciencia e fé criacionismo big bang ?
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     Assuntos relevantes em discussões infrutíferas

 

Pode não parecer, mas assuntos relevantes apequenam-se em discussões infrutíferas. Se a proposição aparecer nos termos colocados na indagação acima, eles não somente apequenar-se-ão, mas algo bem pior acontecerá: eles se tornarão instrumentos de dominação, discórdia e podem motivar até mesmo uma guerra! Jurando estar com a verdade ou de estar defendendo-a, Paulo (sim o apóstolo!), perseguiu, surrou e, se não matou com suas próprias mãos, ao menos mandou que fizessem ou condescendeu com o assassinato de inocentes (At 8.1-3; 9.1,2). A tragédia é pensar que o “doutor dos gentios” fez todas as maldades, inspirado pelo zelo mais religioso, sincero e, acima de tudo, absolutamente convicto de que estava certo. Ser sinceramente equivocado não é algo incomum. C. S. Lewis, disse certa vez que “De todas as tiranias, aquelas exercidas sinceramente para ‘o bem’ de suas vítimas podem ser as mais opressivas. Seria melhor viver sob barões ladrões do que sob ‘onipotentes’ metidos à moralidade. A crueldade do barão pode, por vezes, adormecer, e a sua cobiça pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que atormentam-nos para ‘o nosso próprio bem’ vão nos atormentar sem fim, pois fazem isso com a aprovação da própria consciência”. Jesus disse certa vez que alguns matariam aqueles que nEle cressem acreditando estar prestando um “serviço a Deus” (Jo 16.2). Seria melhor que esses agissem conscientes de seus erros do que instruídos por zelo religioso ou convicção ideológica. Consciente do erro é possível haver arrependimento, mas se o verdugo estiver convicto e certo, quanto mais mal fizer, mais verá a si mesmo como alguém cumpridor de seus deveres!

Tempos atrás, ao ler o texto “Os Darwinistas estavam errados”, do blog Teoria de Tudo, assinado pelo jornalista de ciência, Rafael Garcia, e hospedado no sítio da Folha Online, tive a impressão de que ali estava um típico texto da “tirania do bem”. As expressões utilizadas pelo colunista para referir-se ao que ele classificou como “praga criacionista”, “tática de guerrilha dos grupos criacionistas” e “turba criacionista”, não combinam com a defesa do saber erudito e com a civilidade que ele parece querer instilar. Idiotizar e/ou tornar medíocre não é privilégio da religião. Qualquer ideologia, ponto de vista, teoria (inclusive científica) que não se permita ser questionada, estanca o desenvolvimento e a evolução do saber, além de tornar-se um instrumento de dominação que visa avaliar o outro pela ética-umbilical-individualista. Ai de quem não pensar igual, ler na mesma cartilha ou não aplaudir a argumentação do establishment. Contudo, para ser fiel ao próprio espírito científico é preciso não dobrar-se, mas questionar. Quanto ao Evangelho — o novo tempo trazido por Jesus Cristo e a sua mensagem do Reino de Deus — é algo que não é propriedade de nenhuma denominação. Não está a serviço da dominação, da opressão e da aniquilação do outro. A virulência do jornalista deve-se talvez ao comportamento separatista de muitos que erroneamente pensam estar seguindo o Evangelho. É preciso reconhecer, a postura do jornalista iguala-se a de muitos apologistas cristãos que, alegando uma defesa de Deus (como se Ele precisasse e eles pudessem!), são igualmente belicosos, indelicados, donos da verdade, tendo um comportamento que em nada se parece com o de Jesus Cristo, não tendo nenhuma correlação com o espírito do Evangelho.

Extremamente comum nos Estados Unidos, parece que o embate entre criacionistas e evolucionistas finalmente está chegando ao Brasil. Além do texto do jornalista Rafael Garcia, na edição de novembro da versão brasileira da Scientific American, deparei-me com uma matéria sob o título “O conflito criacionista e evolucionista no Brasil” (Ano 11, Edição n° 126, pp.78-79). Assinado por quatro pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina, o texto tem como subtítulo: “Formação científica insuficiente explica aceitação de ambas as interpretações entre estudantes e professores do ensino fundamental no país” (p.78). Na introdução os autores dão o tom que orientará as linhas que seguem. De forma retórica, questionam: “O avanço obtido pelo conhecimento científico é capaz de modificar as concepções de origem e evolução da vida na sociedade?”, e respondem: “A resposta a essa pergunta parece estar longe da que os homens de ciência gostariam” (p.78). A imagem que a resposta evoca, faz com que imaginemos a discussão polarizada tendo apenas dois lados: de um, homens de ciência e, do outro, homens de religião; de um, homens inteligentes e, do outro, homens ignorantes; de um, homens de saber e, do outro, homens de obscurantismo e assim por diante. E isso não é interpretação minha, o que vem na sequência demonstra que, infelizmente, não entendi errado: “Geralmente, a rejeição ao evolucionismo está relacionada a facções fundamentalistas existentes em diferentes religiões” (p.78).

Se não fosse pela ressalva do “geralmente”, seria possível dizer que eles generalizaram. Como o texto está classificado na seção “filosofia da ciência”, passa despercebida ao leitor menos avisado que a discussão é mais ideológica que científica, mais uma afirmação de poder e influência que de saber e evidência. Alinho-me a Alister e Joana McGrath que, de forma honesta, admitem que “a natureza pode ser interpretada de modo teísta ou ateísta — mas ela não impõe nenhum deles” (O delírio de Dawkins, p.48). Mais à frente, os mesmos autores arrematam: “A questão é simples: a natureza está aberta a muitas interpretações legítimas. Ela pode ser interpretada, entre outras, de forma ateísta, deísta e teísta, mas não exige ser interpretada por nenhuma delas. Um ‘verdadeiro’ cientista não precisa comprometer-se com nenhuma visão religiosa, espiritual ou anti-religiosa específica do mundo” (p.63). Para esse tipo de discussão, os que me leem sabem que, invariavelmente, utilizo referências produzidas por não cristãos. Já o faço para que não haja uma desconfiança em relação a honestidade teórica ou intelectual. Nesse caso, entretanto, acho interessante a forma como o casal aborda o tema (recorrentemente tratado por Richard Dawkins e outros), dizendo que a diferença, em termos de evidência científica, entre religião e visão de mundo é algo muito tênue e impreciso, pois a visão de mundo “consiste num modo abrangente de ver a realidade, na tentativa de compreender seus vários elementos sob uma ótica única e ampla” (p.81). Em outro momento, eles afirmam que “toda visão de mundo — secular ou religiosa — acaba caindo na categoria de ‘sistemas de crenças’”, ou seja, isso acontece “precisamente porque” nenhuma delas “pode ser provada” (p.97). O já citado C. S. Lewis, disse décadas antes, em sua obra Milagres, que a questão sobre como o universo funciona e veio a existir — se de forma naturalística ou miraculosamente falando — depende da “Metafísica que defendemos” (p.162). Lewis diz isso porque há diferentes tipos de metafísica, e esta, nas palavras de Vattimo, nada mais é que “qualquer tipo de crença em uma ‘verdadeira’ essência da realidade” (Diálogo com Nietzsche, p.138). 

Não nos enganemos: Em qualquer consideração, nossos preconceitos e opiniões chegam primeiro. A maior parte do que se discute, não é porque não se tem a resposta. É justamente o oposto! Discute-se para se autodefender. Considerando a questão do ponto de vista do próprio conhecimento, a opinião mais sensata é que não vale a pena discutir com quem já possui todas as respostas. Acontece, porém, que o assunto discutido não fica no nível do debate privado e da escolha pessoal, mas ganha as salas de aula com ares de fato. E nessa questão, em particular, sou da opinião de Nietzsche: “[...] não há fatos, só interpretações” (A vontade de poder, p.260). O fato inegável é que há o tudo em vez do nada (uma variação da pergunta pré-socrática e fundamental da metafísica: “Por que existe o Ser em vez de Nada?” ou ainda como questionou Heidegger em 1929 no texto Que é Metafísica?: “Por que existe afinal ente e não antes Nada?”, Conferências e Escritos Filosóficos, p.63). Existimos e estamos nesse exato momento indagando acerca de um assunto que, seja para quem for, depende de sua crença e não de evidência. Já disse em outros textos, o fato é que existe o tudo, já as interpretações a tal realidade podem ser de várias vertentes. As explicações que são oferecidas para responder o problema do tudo são de origem ideológica e filosófica. “Isso”, afirmam Alister e Joana McGrath, “não impede ninguém de defender uma visão de mundo e”, completam, “de fazê-lo com total integridade intelectual” (p.97).

Isso deve ser assim seja para quem for, não obstante, os autores da matéria sobre o antagonismo entre criacionistas e evolucionistas, acusam que nas “últimas décadas, em alguns países, grupos criacionistas vêm modificando suas estratégias a fim de conquistar novos adeptos ou simplesmente burlar questões legais relacionadas ao ensino do criacionismo em sala de aula” (p.78). Como exemplo eles citam “o aparecimento do intelligent design (ID) (desenho inteligente)”, surgido nos “Estados Unidos, no início da década de 90” (Ibid.). O que me causa estranheza é o fato de os pesquisadores desconhecerem que o ID não é criacionismo. Algo que escrevi há mais de seis anos quando ainda atuava baseado em uma noção racionalista que pretendia provar cientificamente a existência de Deus e afirmei, à época, que o ID era, inclusive, um perigo para o criacionismo (revista Reposta Fiel, Ano 5, n°20, Junho a Agosto de 2006, pp.30-32), pois ele era, no mínimo, uma forma de evolucionismo teísta e, no máximo, panteísmo. Ainda naquele tempo disse que o “criacionismo não é uma teoria” (p.32), ao passo que (nos termos que utilizei) “o evolucionismo — tanto o darwinista quanto o teísta — bem como o Intelligent Design são apenas teorias” (Ibid.).

Após a crítica ao ID, como exemplo, os autores enumeram alguns países em que a teoria da evolução é o pensamento quase majoritário e outros onde os números apontam a sociedade dividida entre esta e uma visão parcial ou completamente criacionista. Eles dizem então que no “Brasil a situação não é muito diferente”, ou seja, dos países em que a teoria da evolução não possui total credibilidade. Os autores citam uma “pesquisa encomendada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) [que] mostrou que 33% dos brasileiros creem que o ser humano foi criado por Deus há cerca de 10 mil anos, enquanto 54% aceitam que os humanos surgiram há milhões de anos, mas por um processo dirigido por Deus” (p.78). Os pesquisadores da UEL (Universidade Estadual de Londrina), afirmam que 89% dos entrevistados “concordam que o criacionismo deva ser ensinado nas escolas e 75% acham que essa concepção deve substituir o evolucionismo em sala de aula” (Ibidem). A fim de demonstrar o que eles veem como o perigo de um retrocesso na educação, os autores falam acerca dos grupos criacionistas que existem no país (Sociedade Criacionista Brasileira, desde 1972; Associação Brasileira de Pesquisa da Criação, desde 1979 e o mais recente, o Núcleo Brasileiro de Design Inteligente) e concluem: “Apesar de o movimento criacionista brasileiro não ser tão forte como o americano, não pode ser subestimado” (p.79). 

É preciso sublinhar o “não pode ser subestimado”, pois isso significa que há um sinal de alerta, uma ameaça que está surgindo e precisa ser contida. O grupo de pesquisadores revela que nos últimos anos tem recolhido “a opinião de estudantes universitários e de professores do ensino fundamental e médio sobre questões ligadas à origem do Universo, à vida e à evolução das espécies”. O resultado, segundo eles, entre os estudantes “indicaram que a aceitação e/ou rejeição das teorias pertinentes à origem do Universo e da vida e sobre a evolução biológica estão relacionadas a fatores como grau de instrução dos pais, renda familiar e/ou a orientação religiosa”. Os pesquisadores observaram ainda “que, ao menos em parte, a aceitação dessas teorias científicas depende da compreensão que os estudantes têm da metodologia científica”, ou seja, “ela não é completamente compreendida por uma parte significativa deles”. A pesquisa ainda revelou através de “dados preliminares obtidos junto a professores de ciências e biologia do ensino fundamental e médio [...] que 66% deles concordam que o criacionismo também deva ser abordado em sala de aula como uma teoria alternativa ao darwinismo”. A conclusão do grupo da UEL é que esses “resultados sugerem que, apesar de todo avanço na divulgação da ciência, estudantes universitários e professores parecem não compreender o que diferencia uma teoria científica de uma concepção religiosa” (p.79). Nessa discussão, entre teoria científica e concepção religiosa, é preciso atentar para a verdade de que há pouco fato e muita crença e, como dizem Alister e Joana McGrath, nossas “crenças podem se mostrar justificáveis, sem que isso demonstre que estejam comprovadas” (p.36).

O casal McGrath pertence à universidade de Oxford, mesma instituição de Dawkins e, apesar de cristãos, não se trata de dois fanáticos ou fundamentalistas religiosos. Acerca desse tema, o casal afirma não considerar essa “uma questão particularmente difícil ou obscura”, pois os “filósofos da ciência já perceberam que muitas teorias científicas tidas hoje como verdadeiras podem ser rejeitadas no futuro, à medida que surgirem outras provas ou se desenvolverem novas interpretações teóricas” (p.37). Em outros termos, completa o casal, não “há problema, por exemplo, em crer na teoria da evolução de Darwin como a melhor explicação das evidências disponíveis no momento, mas isso não significa que esteja correta” (Ibidem). A essa argumentação eles citam o próprio Dawkins, quando este disse “em O capelão do Diabo, p.148: ‘Temos de reconhecer a possibilidade de que novos fatos venham à luz, forçando nossos sucessores do século XXI a abandonar o darwinismo ou a modificá-lo até que ele se torne irreconhecível’” (Ibidem). 

Foi exatamente o que escrevi ainda em 2005 em O Mundo de Rebeca. Falando acerca do abandono do darwinismo por parte de alguns cientistas, citei a entrevista do historiador franco-americano, Jacques Barzun (falecido recentemente — 25 de outubro de 2012 — aos 104 anos) nas “páginas amarelas” da revista Veja (Edição 1.746, de 10 de abril de 2002), ao ser interrogado sobre o evolucionismo ele disse: “A idéia da evolução das espécies já circulava 100 anos antes dele [Darwin]. O que Darwin fez foi propor um mecanismo para a evolução, a célebre idéia da seleção natural. Ora, se esse mecanismo realmente funciona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, disse-me que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem posto em questão vários postulados da cartilha darwinista, algo que passa despercebido por quem não está enfronhado nas discussões” (p.129).

 

 

Assuntos relevantes em discussões infrutíferas — Parte 2

Ter, 08/01/2013 por

A despeito da informação de Jacques Barzun, como já é de se esperar, assim como o fluxo da história evidencia o atraso dos países emergentes em relação aos de primeiro mundo, se há por parte de alguns cientistas dúvidas legítimas e epistêmicas em relação à teoria de Darwin (ainda que, obviamente, isso não signifique um retorno a uma visão religiosa da existência da vida), é fato que em terras tupiniquins, mesmo com a onipresença proporcionada pela rede mundial de computadores, antes de os pensadores aventarem as lacunas que há na teoria da evolução, seguindo a tradicional e desprezível tendência de ser uma cópia dos Estados Unidos, primeiramente se experimentará o infrutífero embate entre criacionistas e evolucionistas. Eu nem havia terminado a consideração acerca da matéria que versa sobre o conflito criacionista e evolucionista no Brasil, quando adquiri a edição de dezembro da versão brasileira da Scientific American, e fui surpreendido com uma nova matéria sobre o assunto, intitulada “O problema com a ciência americana. Os Estados Unidos fizeram frente a governos autoritários de esquerda e direita. Agora podem estar enfrentando um desafio interno ainda maior” (Ano 11, Edição n° 127, pp.58-67). Em sua coluna-editorial “Ponto de vista”, o editor-chefe daScientific American Brasil, Ulisses Capozzoli, destaca a referida matéria e, pelo título de seu texto, presume-se o tom do debate: “A Ciência sob Ameaça” (p.5). Nos dois últimos parágrafos do editorial, o autor afirma: “No Brasil, o obscurantismo criacionista ocupa espaço crescente em programas de rádio e televisão. Aqui, no entanto, com base no que relatam Otto (Shawn Lawrence Otto, autor do artigo acima citado) e os registros históricos americanos, não podemos embarcar em retrocessos que ameaçam seriamente comprometer o presente e o futuro de gerações inteiras”, e conclui: “Liberdade religiosa é uma coisa. Manipulação anticientífica, outra. Ou seja, são questões completamente diferentes” (p.5). Algo com que, se a questão for mesmo essa, concordo plenamente e posiciono-me ao lado de Capozzoli no combate a tal postura.

Na intrincada teia da existência humana que diferentemente das outras formas de vida que são, sobretudo, instintivas, precisa ser produzida com o auxílio não apenas da ciência, mas também da axiologia e muitas outras dimensões, o recente capítulo da quase centenária guerra ideológica estadunidense entre criacionismo e evolucionismo, foi ensejado pela eleição presidencial daquele país que, naquele momento era disputada pelo agora já reeleito presidente Barack Obama e o ex-governador do estado de Massachusetts, Mitt Romney. O primeiro, representante dos democratas e o segundo, dos republicanos, lados que, de acordo com o texto de Shawn Lawrence Otto, são responsáveis pelo que ele classifica de “negacionismo científico”, sendo que a “versão republicana” é considerada mais nociva “porque ataca a validade da própria ciência como uma base para as políticas públicas quando a ciência contradiz sua ideologia” (p.61). Segundo Lawrence Otto, alarmados com o domínio obscurantista estadunidense, no fim de 2007 ele, o “físico Lawrence M. Krauss, o escritor e diretor de filmes de ciência Matthew Chapman (que é trineto de Charles Darwin), o filósofo de ciência Austin Dacey, o escritor de ciência Chris Mooney, a bióloga marinha Sheril Kirshenbaum” decidiram “estimular um debate presidencial sobre a ciência” (p.60). Eles criaram o site sciencedebate.org que, seguindo o seu intento de sabatinar candidatos a cargos públicos em relação às demandas científicas, no ano passado, durante a eleição presidencial, demonstrou os perfis de Obama e Romney nesse quesito através das respostas dos respectivos candidatos a 14 questões científicas. 

Ouvir os que pleiteiam cargos públicos acerca de assuntos que incidem diretamente sobre as pessoas que serão lideradas é algo muito importante, pois como oportunamente defende Otto: “Numa época em que a ciência influencia cada aspecto da vida e em que a democracia se tornou a forma dominante de governo no planeta, é importante que eleitores pressionem autoridades eleitas e candidatos a explicitar suas visões sobre as grandes questões da ciência. Ao levarem esses temas ao diálogo público, os cidadãos poderão julgar se as lideranças têm a educação, sabedoria e coragem necessárias para governar num século orientado pela ciência e preservar a democracia para a próxima geração” (p.67). E tal deve ser assim principalmente pelo fato de que, uma vez mais, alinho-me ao autor na verdade de que “aqueles em posições de autoridade não têm o direito de impor suas crenças aos outros” (p.60). Eu acrescentaria apenas que aqueles que exercem liderança não podem, igualmente, impor a sua descrença (em algo específico, é claro, pois eles “creem” em outras coisas). A pesquisa com Obama e Romney foi motivada pelo saldo do negacionismo científico que, segundo Otto, em termos partidários demonstrou que entre os democratas “inclui a falsa crença de que vacinas provocam autismo”. Já o “negacionismo científico da ciência republicano nega falsamente a mudança do clima e a biologia evolutiva” (p.61).

Mas qual é a raiz do negacionismo científico norte-americano? É justamente nesse ponto que se encontra o interesse da publicação do texto de Otto na edição de dezembro da versão brasileira daScientific American. O que os editores tupiniquins querem exemplificar é que assim como o “movimento anticiência americano não passou das margens para o centro da sociedade do dia para a noite” (p.66), tendo ao longo de um século adquirido força no discurso político através de evangélicos que ocuparam posição de liderança pública, algo semelhante pode acontecer em nosso país. Aliado ao fenômeno da ascensão de religiosos à política estadunidense, segundo Otto, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, “a ciência voltou a brilhar” e, após a guerra, com o “contínuo investimento federal em ciência” houve então um efeito colateral: “Cientistas não precisavam mais chegar ao público ou participar da conversação cívica para obter recursos para pesquisa. Eles consequentemente começaram a se retirar do diálogo público nacional para se concentrar mais intensamente no trabalho e na vida privada. Cresceram os sistemas de titular de cátedra nas universidades, que desestimulavam fortemente a abertura pública, e os cientistas passaram a ver o envolvimento político e cívico como um risco profissional” (p.66). Como as “persistentes campanhas contra a evolução levaram muitos cientistas para o Partido Republicano” (obviamente temendo pelo “emprego”), o resultado, de acordo com Otto, não poderia ser outro: “Enquanto a voz da ciência se calava, a voz do fundamentalismo religioso ressurgia. A inquietude moral em relação à bomba atômica levou muitos a prever que o mundo logo acabaria e surgiu uma nova onda de evangélicos fundamentalistas. ‘Por toda a Europa, as pessoas sabem que o tempo está acabando’, disse um jovem pregador carismático chamado Billy Graham em 1949” (p.66).

Ao historiar o que chama de negacionismo científico, Otto afirma que como os “revesses da ciência cresceram junto ao público mais amplo”, ou seja, tornaram-se conhecidos pelo povo com um viés religioso (questões relacionadas, sobretudo, ao controle do processo reprodutivo), e os “percalços industriais deram origem a uma nova ciência regulatória para a saúde e o ambiente” (p.66-67), originaram-se então restrições e tais “restrições cada vez maiores”, diz Otto, “levaram as indústrias mais antigas nas áreas de química, petróleo e farmacêutica a proteger seus interesses, opondo-se a novas regulamentações” (p.67). Essa atitude formou uma “aliança natural com os grupos emergentes de fundamentalistas religiosos que resistiam ao ensino da evolução” (p.67). Tal “aliança anticiência”, conforme Otto, “define amplamente os partidos políticos hoje e ajuda a explicar por que, de acordo com uma pesquisa de 2009, nove em cada dez cientistas que se identificaram com um grande partido político disseram que são democratas” (p.67). O mesmo autor diz então que o “casamento do dinheiro industrial com valores fundamentalistas renovou o poder do fundamentalismo no debate público, e as iniciativas contra o ensino da evolução nas escolas públicas reapareceram em vários estados” (p.67). Otto afirma que tais ações são levadas a efeito por legisladores estaduais evangélicos e cita que a “plataforma do Partido Republicano do Texas se opõe ‘ao ensino de... pensamento crítico e programas semelhantes que... têm o propósito”, segundo eles, “de desafiar as crenças fixas dos estudantes e minar a autoridade dos pais” (p.67). À parte o fato inegável de Otto ser claramente pró-Obama, é preciso considerar o absurdo pronunciado, por exemplo, pelo republicano Todd Akin, político que “integra o Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara, responsável por boa parte do empreendimento federal em ciência nos Estados Unidos”, e que, segundo Otto, disse ter ouvido de médicos que “a gravidez por estupro é extremamente rara porque ‘se é um estupro legítimo, o corpo feminino tem formas de bloquear toda aquela coisa’” (p.66).

 

A versão brasileira do recrudescimento do antagonismo entre criacionistas e evolucionistas 

Esse, sem dúvida, é um dos maiores entraves encontrados nas discussões. No afã de defender um valor, seja ele moral ou religioso, muita gente conservadora diz impropérios e corrobora com o lugar-comum alimentando a visão popular de que ser tosco é uma exclusividade de religiosos. Para muitos pensadores tupiniquins, o caso brasileiro assemelha-se em vários aspectos ao negacionismo científico norte-americano, pois, como já referido por Ulisses Capozzoli, em nosso país o “obscurantismo criacionista ocupa espaço crescente em programas de rádio e televisão”. Quem é que fala sobre criacionismo em rádio e televisão? Após as declarações do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, no Fórum Social de Porto Alegre (RS), realizado em 27 de janeiro de 2012, que, entre outras coisas, teria dito que os evangélicos são “conservadores que têm uma visão de mundo controlada por pastores de televisão”, não fica difícil imaginar quem seja. Na realidade, a postura crítica de Ulisses Capozzoli acerca das ingerências de religiosos em uma educação que, devido o trabalho dos jesuítas através do Ratio Studiorum no período de nossa colonização já é suficientemente influenciada pela religião cristã e nada tem de secular, vem sendo expressa há algum tempo. No texto “Sobre pastores e astrólogos”, publicado na edição 611 do Observatório da Imprensaem 15 de agosto de 2011, por exemplo, em um seminário de divulgação científica, Capozzoli demonstrou a sua indignação ao ouvir de um dos palestrantes que, por frequentarem “determinado espaço dedicado à ciência — influenciadas pelo criacionismo e interpretações fundamentalistas religiosas do mundo —”, crianças desdenhem da “científica idade do cosmos”.

Analisando por ângulos diferentes, é possível dizer que o editor-chefe da Scientific American Brasil, está certo e errado. Assim, sobre o desdém das crianças acerca “de o universo ter a idade aproximada de 14 bilhões de anos” e de essa ser uma “informação que os jornais divulgam quase diariamente”, é justificável a preocupação de Capozzoli, pois “antes de estarem criticamente maduras para uma apreciação sensível, inteligente e promissora da natureza, estão mentalmente dominadas pelo dogmatismo de fundo religioso que ameaça retroceder o pensamento a uma repugnante idade das trevas”. Se por um lado há evidências razoáveis acerca da “idade científica do universo”, por outro não há nenhum livro sagrado que forneça esse dado e mesmo que tivesse, seria um absurdo e algo extremamente despropositado. O grande problema é o que vem na sequência. Pelo fato de o palestrante referido por Capozzoli ter dito que respeitava esse tipo de interpretação e, no instante seguinte, ter feito críticas à astrologia, motivou o autor a questionar retoricamente que “se ele aceita ideias arcaicas e sem sentido, promessas despudoradamente falsas e ‘milagres’ deslavadamente mentirosos que uma legião de ‘pastores’ propaga diuturnamente em programas de rádio e TV, por que criar caso com a astrologia?” Capozzoli então responde: “A resposta, a meu ver, é simples e direta: covardia e ausência de integridade científica”. E emenda: “Estou me referindo a uma tendência, visível a olho nu, de se ‘respeitar’ farsas que são verdadeiros casos de polícia, envolvendo estelionato, entre outros crimes, mas ao mesmo tempo não perdoar astrólogos”.

Depois de dizer que não estava “defendendo nem atacando astrólogos e a astrologia”, e sim comparando pastores e astrólogos, Capozzoli foca de maneira muito específica o ponto que pretende destacar em sua crítica: As igrejas evangélicas, representadas pelos seus líderes, em suas programações de rádio ou televisão “manipulam a fé das pessoas” e, tais instituições, “cada vez mais concebidas como uma rentabilíssima atividade — à custa da miséria material e filosófica de boa parte da população — costumam reagir com a veemência típica de criminosos farsantes e abusadores da fé como forma de proteger seus negócios hediondos”. Uma vez que os “astrólogos, para usar uma expressão cotidiana, estão ‘pouco se lixando’ para o que dizem astrônomos e outros cientistas” e, justamente por isso, de acordo com o mesmo autor, “não são nenhuma ameaça”, o mesmo não se pode dizer de “igrejas que costumam saquear financeiramente um número desconhecido de vítimas”. Não obstante a questão levantada por Capozzoli, de que a “manipulação da religiosidade de cada um talvez seja a culminância do abuso e desrespeito profundos, camuflados sob uma pretensa liberdade religiosa que, na realidade, acoberta, entre outras coisas, uma negociata política, nefasta à sociedade como um todo”, sua motivação para tratar do assunto da ingerência evangélica nas discussões científicas é que esta “é uma questão profundamente afeita à ciência e à produção do conhecimento científico com base na ética, na estética e na história”. Assim, aludindo à obra de Carl Sagan que trata da ameaça à ciência, Capozzoli afirma que, seguindo as pistas deixadas por Sagan em O mundo assombrado pelos demônios, “talvez esteja na hora de se refletir um pouco mais sobre quais são, neste momento, as verdadeiras ameaças à ciência e à humanidade”.

Não sei se a iniciativa de publicar o texto de Lawrence Otto na edição de dezembro da Scientific American Brasil e a reação de Ulisses Capozzoli no editorial sejam respostas à crescente onda de eventos criacionistas que vem acontecendo em nosso país (De 17 a 20 desse mês no Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo) Campus de São Paulo, ocorrerá o 7° Encontro Nacional de Criacionistas, sob o tema: “Criacionismo: Nas fronteiras da ciência com a religião”), algo que se não tiver apenas um cunho apologético contribui para o adensamento das questões, ou se a crítica diz respeito às opiniões com pretensão de “verdade científica” emitidas por pregadores que pululam aqui e acolá. O maior erro de Capozzoli talvez seja o de, como disse o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, “comparar o pior com o melhor, ou seja, a hipocrisia religiosa com a honestidade arreligiosa”, pois, na verdade, “a comparação deve fazer-se em paralelo: autenticidade com autenticidade” (Recuperar a criação, p.185). Quanto à manipulação do sagrado por inúmeros grupos religiosos evangélicos, seja na televisão, no rádio ou “ao vivo”, ele indiscutivelmente está certo. A respeito da forma pretensiosa e arrogante como pregadores pretendem discutir teorias científicas, idem. Agora, como divulgador da ciência, Capozzoli deve igualmente posicionar-se de forma honesta reconhecendo as lacunas que existem na teoria da evolução, dando o direito de as crianças saberem distinguir entre fato (a realidade, tudo que existe) e teoria (tentativa de explicação do fato, da realidade, de tudo que existe). Pois, para responder ao texto dos pesquisadores da UEL (edição n°126, Scientific American Brasil de novembro/2012, pp.78-79), uma vez que existe diferença entre uma teoria científica e uma concepção religiosa, o evolucionismo não pode ser transformado em um dogma inquestionável como o criacionismo.

Assim, os dados levantados na pesquisa realizada pelos acadêmicos da Universidade Estadual de Londrina dando conta de que dos 920 estudantes universitários “55% dos entrevistados admitiram aceitar a evolução e que, segundo declararam, isso não descarta a crença deles na existência de Deus”, cotejados com a pesquisa realizada por Bizzo (2012) e referida por eles, envolvendo “2,3 mil estudantes do ensino médio de todo o Brasil, com uma média de idade de 15 anos”, cujo “estudo revelou que, para mais de 70% dos entrevistados, a religião não os impede de aceitar a evolução biológica”, tais números, obviamente, conforme admitido no texto assinado a oito mãos, “podem ser uma indicação de que os jovens brasileiros são flexíveis o suficiente para conciliar sua fé com o conhecimento científico” (p.79). Nesse particular e no sentido de construir uma sociedade mais solidária, é preciso admitir, há mais maturidade nos adolescentes do que em pregadores e cientistas que se acreditam inquestionáveis em seus arrazoados religiosos com pretensões científicas e em teses científicas com pretensões religiosas. Um assunto tão importante como a origem e o desenvolvimento da vida, acaba transformado em arenga ideológica num cabo de guerra que não promove a humanização do conhecimento nem produz dignidade humana. Surpreende ainda mais a conclusão dos pesquisadores da UEL ao dizerem que a “astrobiologia ou exobiologia (estudo da vida fora da Terra)” que “é uma ciência multidisciplinar, intimamente ligada às questões sobre a origem e evolução da vida na Terra e no Universo, talvez” utilizada como uma “força-tarefa na divulgação do que é ciência, suas limitações, seus avanços, utilizando os meios de divulgação existentes, em linguagem acessível ao público em geral, possa contribuir para uma sociedade mais crítica quanto a esses assuntos” (p.79). Estranho, mas o que está sendo sugerido é a troca de uma crença por outra!

fonte CPAD NEWS 

fonte www.avivamentonosul21.comunidades.net