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Comentario biblico de FILIPENSES N.2 E N.1
Comentario biblico de FILIPENSES N.2 E N.1

         COMENTARIO BIBLICO DE FILIPENSSES N.2 

 

É possível ter esperança em meio à adversidade? Esta pergunta pode parecer mera retórica, pois uma vez proposta àquele que sofre, mas alienada da sua realidade, ela ignora o sofrimento e as circunstâncias existenciais que a maioria dos seres humanos enfrenta no mundo. A consequência não poderia ser outra: a dissimulação de quem pergunta.

Porém, esta acusação não se pode fazer ao apóstolo Paulo. A sua esperança na adversidade está latente quando ele comunica aos seus irmãos: "As coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho" (1.12). Aqui, quem fala não é uma pessoa que se acampa e um escritório opulento e distante do sofrimento alheio, mas um ser humano que redige uma mensagem de esperança em um lugar contrário a qualquer esperança: a prisão. Mas resolutamente encarcerado. Como alguém como Paulo poderia estar resoluto numa prisão do primeiro século da era cristã?

A fé na soberania divina é a chave para entender a tranquilidade do apóstolo. A partir dela, ele estava convencido de que o seu sofrimento serviria para expandir o Evangelho entre os gentios. E os filipenses deveriam estar conscientizados disso também.

O olhar do apóstolo agora se volta para a necessidade da igreja de Filipos. Paulo sabe que a igreja é perseguida e sofredora. Embora o apóstolo estivesse cheio da graça de Deus desejando imediatamente estar com Cristo, ao voltar sua atenção para a necessidade da comunidade de Filipos ele entra num dilema.

O dilema paulino é este: "Desejo partir e estar com Cristo", mas "julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne". Aqui, descobrimos qual a esperança gloriosa do apóstolo em meio à adversidade: Estar com Cristo. Esta esperança deve ser a da Igreja também. Mas, em meio ao sofrimento, e após olhar para o sofrimento alheio, o apóstolo não se julga no direito de partir com Cristo sabendo que poderia ser um instrumento de Deus para encorajar irmãos na fé, edificá-los, e encorajá-los a proclamar o Evangelho ao mundo. A lição apostólica não poderia ser outra: quando olhamos para o sofrimento alheio e decidimos aliviá-lo brota em nós a esperança de sermos salvos das nossas adversidades. Estar com Cristo deve ser o nosso anseio, mas enquanto Ele não vem estaremos com Cristo juntamente com o próximo sofredor. O nosso sofrimento deve impulsionar-nos a proclamar ao outro aquilo que nos dá esperança: o Evangelho.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Neste capítulo, a Carta de Paulo segue o padrão comum adotado por ele para escrever suas cartas. Ele dá uma descrição detalhada das suas necessidades, mas destaca, acima de tudo, a paixão que o consumia: a pregação do evangelho acima de qualquer adversidade. O texto está adaptado ao assunto deste capítulo. Paulo estava preso em Roma, mas as suas cadeias não o impediam de proclamar o evangelho. Ele fala de seu sofrimento de forma exemplar, com o objetivo de levar os filipenses a uma reação cristã à perseguição. Ele queria que os filipenses entendessem que nada poderia diminuir a fé recebida. Pelo contrário, as coisas que lhe haviam acontecido em sua viagem missionária não eram um entrave para o progresso do evangelho. Os filipenses estavam profundamente preocupados com o estado físico de Paulo na prisão. Nutriam por ele um grande afeto. Sabiam que ele estava preso, aguardando o julgamento, e que não demoraria o seu julgamento perante o supremo tribunal do Império. Por causa dessa situação, a igreja se preocupava em saber como ele estava se sentindo. Na verdade, a preocupação maior dos filipenses estava em saber o que aconteceria com a igreja plantada por todo o mundo romano se Paulo fosse condenado à morte.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag.

A medida mas segura para determina a maturidade espiritual de um cristão é saber que nada pode roubar-lhe a alegria que lhe foi concedida pelo Espírito . Maturidade de Paulo é evidente no presente texto no qual ele deixa claro que nem circunstancias difíceis, desagradáveis, dolorosas, e até mesmo fatais não poderia roubar-lhe a alegria, e em vez disso ela aumentaram ainda mais sua alegria.

Embora seja um dom de Deus para cada crente e administrado pelo Espírito Santo (Gl 5:22), a alegria não é sempre constante e plena (cf. 1 João 1:4). A única causa certa para a perda de alegria na vida do crente é o pecado, que corrompe a sua comunhão com o Senhor, que é a fonte de alegria. Tais atitudes pecaminosas como a insatisfação, amargura, mau humor, dúvida, medo e alegria causa negativismo para ser executada. Consequentemente, a única maneira de restaurar a alegria perdida é de se arrepender e voltar a adoração adequada e obediência a Deus.

Outra coisa que não importa o pecado não como não é difícil, doloroso, ou decepcionante, precisa tirar a alegria do crente. No entanto, mesmo as coisas pequenas podem fazê-lo se os crentes reagem pecaminosamente para eles. A mudança para pior na saúde, trabalho, finanças, relacionamentos pessoais, ou outras áreas importantes da vida pode facilmente causar crentes a questionar o Senhor, a Sua soberana sabedoria, e Sua provisão graciosa. Quando isso acontece, a alegria é uma das primeiras vítimas. Os crentes são especialmente vulneráveis quando essas coisas acontecem de repente, levando-os desprevenidos. Sua resposta é muitas vezes de raiva, dúvida, desconfiança, medo, auto-piedade, a ingratidão, ou reclamando. Nesses casos, os eventos que não são pecaminosas em si levar a respostas pecaminosas que roubam a alegria.

A Palavra de Deus deixa claro que os problemas nesta vida é certo para vir (cf. Jó 5:7; 14:1;. Ecl 2:23; João 16:33). Os crentes não estão isentos dos problemas comuns e todas as pessoas enfrentam dificuldades. Eles também enfrentam perseguição por sua fé a partir do sistema mundo hostil. "Lembrai-vos da palavra que eu disse a você:" Jesus disse: "Um escravo não é maior do que seu mestre." Se me perseguiram, também vos perseguirão a vós "(João 15:20). Um pouco mais tarde acrescentou: "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16:33). Para os cristãos judeus espalhados na igreja primitiva que estavam sofrendo grande perseguição, Tiago escreveu: "Considere que toda a alegria, meus irmãos, quando passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé produz perseverança. E a perseverança deve ter a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma "(Tiago 1:2-4).

Mas Deus pode usar até mesmo os testes mais difíceis para o nosso bem e para Sua glória.

Nenhum escritor do Novo Testamento entendido que a verdade melhor do que Paulo fez. Ele era um modelo maior que a vida de um homem de Deus, cuja alegria nunca vacilou. Ele resistiu qualquer coisa que ameaçou se colocar entre ele e sua comunhão íntima com e confiar no Senhor. Paulo certamente experimentou tristeza e as lágrimas, sofreu tristeza e decepção, e perturbou-se por crentes pecadores, fracos, e contenciosa. No entanto, nunca parece ter havido um momento na sua vida como um crente, quando as circunstâncias diminuiu sua alegria. Na verdade, parece que o pior aflição só aumentou a pressão sobre a alegria da salvação (Fp 4:4, 10-13).

Até o momento ele escreveu Filipenses, Paulo tinha dificuldades sérias experientes de todo tipo. Quando escreveu esta epístola, ele era um prisioneiro em Roma. Ele havia muito tempo desejava pregar naquela grande cidade, tendo apenas alguns anos antes escrita para a igreja lá:

Para Deus, a quem sirvo em meu espírito, a pregação do evangelho do Seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós, sempre em minhas orações que fazem pedido, se talvez agora, finalmente, pela vontade de Deus eu pode ter sucesso em chegar a você .... Eu não quero que ignoreis, irmãos, que muitas vezes eu tenho planejado para chegar até você (e ter sido impedido até agora) para que eu possa obter algum fruto entre vós também, como também entre o restante dos gentios "(Rom. 1:9-10, 13;. cf v. 15).

O apóstolo estava expressando mais do que um desejo pessoal de ministro em um lugar novo e desafiador. Ele estava convencido da importância de trazer o evangelho naquela cidadela do paganismo e usando Roma como um trampolim para o ministério ainda mais (mesmo para a Espanha, Rom. 15:24). Parece duvidoso que ele tinha em mente a ministrar em Roma como prisioneiro. Nem ele provavelmente encaramos chegando lá só depois de enfrentar uma tempestade tempestuosa que resultou em um naufrágio desastroso (cf. Atos 21:33-28:31). Mas no entanto ele chegou lá ou sejam quais forem as circunstâncias Depois que ele chegou, Paulo intensamente queria pregar o evangelho lá "pela vontade de Deus" (Rom. 1:10).

Embora ele não estava a escrever esta carta de uma masmorra, mas uma residência privada (Atos 28:16, 30), Paulo estava acorrentado noite e dia para um soldado romano. Ele não tinha nenhuma privacidade quando ele comeu, quando ele dormia, quando escreveu, quando orava, ou quando ele pregou, ensinou, ou conversava com algumas amigas (vv. 17-31). No entanto, para um período de dois anos esta falta de privacidade tornou impossível para os soldados romanos que guardavam-lhe para evitar ouvir o evangelho e testemunhar a semelhança de Cristo notável Paulo. Como os próximos versículos sugere, este, aparentemente, levou alguns deles para a salvação (Filipenses 1:13-14;. Cf 4:22). Paulo regozijou-se por causa do ministério para o qual o Senhor o tinha chamado e por causa do fruto espiritual que o ministério produziu, mesmo enquanto ele estava em cadeias.

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

Referências pessoais de Paulo - seus grilhões, obra, rivais, dilema e convicções (1.12-26) As palavras introdutórias desta passagem têm por alvo acalmar os corações dos filipenses quanto à aparente calamidade de seu aprisionamento em Roma. Paulo lhes assegura que essas circunstâncias até contribuíram para a extensão do Evangelho (v. 12). Explica-lhes que “suas prisões em Cristo” se tornaram bem conhecidas, sendo comentadas em todo o palácio (literalmente: “por toda a guarda pretoriana”), incluindo César e sua corte, além dos romanos em geral (v. 13).  A prisão de Paulo é digna de nota num pleito judicial dessa natureza, devido ao seu testemunho da gloriosa pessoa de Cristo, realçado por sua constância e firmeza. Embora preso a grilhões por causa do Mestre, seu encarceramento acabou inspirando os irmãos em Roma a testificar com coragem de Cristo. Outros, provavelmente judaizantes agregados à igreja em Roma, embora invejosos e facciosos, também ajudariam a promover a proclamação de Cristo, por estranho que pareça. O nome de Cristo, fosse de boa vontade ou contrariando a simplicidade do Evangelho, estava nos lábios de muitos (vv. 14-18).

Paulo crê que mesmo na difícil circunstância em que se encontrava, de provas e sofrimentos, compartilhada pelos filipenses em oração inspirada pelo Espírito Santo, tudo resultaria na salvação de muita gente (v. 19). Esperava e desejava que Cristo fosse engrandecido por meio dele, não importando se para isso devesse continuar vivo ou morrer. Para Paulo, a vida resumia-se a Cristo – ele era tudo -, e a morte podia ser computada por lucro, pois significava estar com Cristo (v. 20,21).

De certa maneira, ele estava num dilema, perplexo, sabendo que sua “partida” (no grego, literalmente: “desatamento”) significaria estar na presença do Senhor, sem ignorar que sua presença no corpo se fazia necessária, a fim de poder acompanhar-lhes o progresso espiritual.

Se fosse solto da prisão e pudesse reunir-se com os irmãos, seria “para proveito vosso e gozo da fé” (vv. 22- 26).

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 62-63.

Procuram-se Pioneiros. Filipenses 1 :12-26

Mais do que qualquer outra coisa, o de sejo de Paulo como missionário era pregar o evangelho em Roma. Centro de um império grandioso, Roma era a principal cidade daquela época. Se Paulo a conquistasse para Cristo, milhões de pessoas seriam alcançadas pela mensagem da salvação. Essa oportunidade era uma das prioridades críticas do apóstolo, pois ele diz: "Depois de haver estado ali [Jerusalém], importa-me ver também Roma" (At 19:21). Quando estava em Corinto, escreveu: "Por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma" (Rm 1:15).

Paulo desejava ir a Roma como evangelista, mas, em vez disso, foi como prisioneiro! Poderia ter escrito uma longa epístola só sobre essa experiência. Em vez disso, porém, ele a resume como "as coisas que me aconteceram" (Fp 1:12). O relato dessas "coisas" encontra-se em Atos 21:17 - 28:31 e começa com a prisão ilegal de Paulo no templo em Jerusalém. Os judeus pensaram que ele havia profanado o templo permitindo a entrada de gentios nos átrios sagrados e os romanos pensaram que o apóstolo era um renegado egípcio que fazia parte da lista de homens mais procurados pela lei. Paulo tornou-se o centro de tramas políticas e religiosas e permaneceu preso em Cesaréia por dois anos. Quando, finalmente, apelou para César (o que era um privilégio de todo cidadão romano), foi enviado para Roma. A caminho da capital, seu navio naufragou. O relato dessa tempestade e da fé e coragem de Paulo é uma das narrativas mais dramáticas da Bíblia (At 27). Depois de três meses de espera na ilha de Malta, Paulo finalmente embarcou para Roma, a fim de comparecer à audiência perante César.

Para muitos, todos esses acontecimentos poderiam parecer uma sucessão de fracassos, mas não para um homem determinado e preocupado em falar de Cristo e do evangelho. A alegria de Paulo não era decorrente de circunstâncias ideais; ele se alegrava em ganhar outros para Cristo. E se as circunstâncias favoreciam o progresso do evangelho, era só o que importava para ele!

O termo progresso significa "avanço pioneiro".

E um termo militar grego que se referia aos engenheiros do exército que avançavam à frente das tropas para abrir caminho em novos territórios. Paulo descobriu que, na realidade, não se encontrava confinado numa prisão, pois sua situação havia lhe aberto novos campos de ministério.

Muitos já ouviram falar de Charles Haddon Spurgeon, o famoso pregador ingiês, mas poucos conhecem a história de sua esposa, Susannah. Quando ainda eram recém-casados, a Sra. Spurgeon desenvolveu uma enfermidade crônica e, ao que tudo indicava, seu único ministério seria o de encorajar o marido e orar por seu trabalho. Mas Deus colocou em seu coração o desejo de compartilhar os livros de seu marido com pastores que não tinham recursos para comprar esse material. Em pouco tempo, tal desejo levou à criação do Fundo para Livros. Essa obra de fé equipou milhares de pastores com instrumentos importantes para seu trabalho. Mesmo sem poder sair de casa, a Sra. Spurgeon supervisionou pessoalmente todo esse ministério pioneiro.

Deus ainda deseja que seus filhos levem o evangelho a novos campos. Deseja que sejamos pioneiros e, por vezes, cria situações em que não podemos ser outra coisa senão pioneiros. Na verdade, foi assim que o evangelho chegou pela primeira vez a Filipos! Paulo havia tentado entrar em outra região, mas Deus repetidamente havia fechado as portas (At 16:6-10). Paulo desejava levar a mensagem para o Oriente, às regiões da Ásia, mas Deus o dirigiu a pregar no Ocidente, em regiões da Europa. A história da humanidade teria sido muito diferente se Deus houvesse permitido que Paulo seguisse os próprios planos!

Por vezes, Deus usa instrumentos estranhos para nos ajudar a ser pioneiros do evangelho. No caso de Paulo, três instrumentos o ajudaram a levar o evangelho aos pretorianos, a guarda de elite de César: suas cadeias (Fp 1:12-14), seus críticos (Fp 1:15-19) e sua crise (Fp 1:20-26).

WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 85-86.

I - ADVERSIDADE: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO

  1. Paulo na prisão.

« ...minhas cadeias...» Inácio (ver Smry. xv) escreveu: «Sendo um prisioneiro em cadeias, que são ornamentos divinos, saúdo a todos os homens». Essa expressão de Paulo poderia referir-se a algemas literais ou ao seu aprisionamento, de acordo com o grego posterior, embora usualmente o neutro, tal como neste caso, indicasse as próprias algemas, ao passo que o género masculino da palavra indicava o aprisionamento.

«...em Cristo...» Em certo sentido espiritual, por causa da «união mística» com Cristo, em comunhão vital com ele, conforme se lê em I Cor. 1:4. Essa expressão é utilizada por Paulo por nada menos de cento e sessenta e quatro vezes em seus escritos. Ou então, no presente contexto, pode significar «por causa da minha lealdade a Cristo», o que somente ofende aos homens e os impele a me tornarem prisioneiro ou a me afligirem de outras maneiras.

Também se pode compreender essas palavras como «suporto tudo por amor a Cristo». (C om p ara r com o trecho de Efé. 4:1, onde se lê sobre «o prisioneiro de Cristo Jesus», referindo-se ao apóstolo dos gentios). «...tornaram conhecidas...» Dois elementos precisam ser reconhecidos aqui, a saber:

  1. O fato do aprisionamento de Paulo se tornou largamente conhecido, visto tratar-se de um caso incomum. Isso ilustra até que ponto a reputação de Paulo havia penetrado por todo o mundo antigo. Seu encarceramento tornou-se motivo de interesse público, tal como no caso de alguns criminosos hoje em dia, ou tal como certos casos sensacionais, que são publicados pelos meios de comunicação.
  2. Paulo, na qualidade de embaixador de Cristo, devido à notoriedade do seu caso, publicava assim o evangelho de Cristo. Paulo não era apenas um prisioneiro a mais, era o prisioneiro de Cristo, pois era mantido em custódia devido à sua lealdade a Cristo,, e todos sabiam disso. Seu próprio encarceramento se tornou um meio de chamar a atenção dos homens para Cristo e seu evangelho. Portanto, ao invés disso fazer cessar seu testemunho, suas tribulações que sofria eram um meio de mais ainda propagar-se a sua mensagem.

«...de toda a guarda pretoriana...» Algumas traduções dizem neste ponto, «...em todo o palácio...», querendo dar a entender que o apóstolo estava detido na cidade de Roma. Mas outros eruditos, tal como a tradução aqui usada, preferem a tradução de «...guarda pretoriana... * Mas, no grego original, o termo usado pode assumir um ou outro desses dois sentidos.

Além disso, pode significar «o palácio do governador», tal como havia tais palácios em todas as províncias romanas, e não apenas na capital do império. Por igual modo, pode significar «barracas militares», ou distrito militar de qualquer acampamento do exército romano. Originalmente, esse termo indicava a «tenda» do general de uma legião. Portanto, essa palavra, por si mesma, nada prova quanto à localização do aprisionamento de Paulo. (Ver igualmente a «casa de César», em Fil. 4:22, que não alude necessariamente a membros da família imperial, porquanto se tem demonstrado, na arqueologia e na pesquisa moderna, que essa palavra não indica necessariamente mais do que «aqueles que trabalham a serviço do governo», sendo esse o seu significado normal. Qualquer localidade do império romano poderia estar em vista.

Muitos indivíduos pertencentes à «guarda pretoriana» eram escravos ou outros oficiais inferiores de administrações civis ou militares. Portanto, Paulo poderia estar falando facilmente de circunstâncias em Éfeso, em Cesaréia, e não apenas em Roma; pelo que também o local de onde ele escreveu esta epístola deve permanecer na dúvida. A maioria dos eruditos, porém, mormente no caso desta epístola aos Filipenses (em contraste com as epístolas aos Efésios, aos Colossenses, a Filemom e as chamadas «epístolas-da prisão»), pensa que Roma foi a localidade onde ela foi escrita.

Mas Éfeso parece ser a localidade favorita no tocante às outras três epístolas citadas, conforme conjecturam os estudiosos; mas isso faria com que tivessem sido escritas consideravelmente mais cedo, na carreira paulina, do que a presente epístola aos Filipenses.

As palavras «...guarda pretoriana...», com a adição de «...e de todos os demais...», no presente texto, provavelmente leva o termo a referir-se a um grupo de homens, e não a uma localidade qualquer. Estariam em foco os soldados encarregados de tomar conta de Paulo, os quais seriam constantemente substituídos por outros. Assim, gradualmente, através da notícia passada de boca em boca, o caso de Paulo se tornou bem conhecido entre aquele grupo militar. Essas palavras, «... e de todos os demais...», mui provavelmente se referem ao fato que muitos, além dos componentes daquela guarda, como os oficiais civis e o povo comum, também se tinham interessado no caso de Paulo, à proporção em que sua fama foi crescendo.

O que era a guarda pretoriana ? Era aguarda imperial, guardas do «praetor», título de certo oficial romano, abaixo da categoria dos cônsules.

Originalmente esse título era dado exclusivamente a italianos de nascimento, embora mais tarde essa restrição tenha sido afrouxada. Essa guarda foi instituída por Augusto, por quem foi denominada de «coortes pretorianas». Augusto postou três mil deles na cidade de Roma, e os demais foram espalhados pelas cidades italianas adjacentes. Sob o imperador Tibério, todos foram trazidos de volta a Roma, tendo ficado alojados em um acampamento fortificado. Esse grupo, devido às qualificações e ao serviço superior que prestavam, recebia pagamento duplo, além de outros favores especiais. Seu tempo de serviço era de doze anos, o qual mais tarde foi ampliado para dezesseis anos; e grande soma em dinheiro (ao fim desse período), era dada a cada um de seus componentes. Parece que sua patente como um corpo militar, equivalia a centuriões, e com o tempo obtiveram tanto poder que até mesmo imperadores tiveram de cortejar o seu favor. No ano de 193 d.C., a guarda pretoriana foi dispensada, quando Severo subiu ao trono. Seus membros foram banidos. Todavia, alguns anos mais tarde, o grupo foi reorganizado, e seu número se quadruplicou. Mas finalmente foram suprimidos por Constantino (306-337 d.C., o primeiro imperador cristão de Roma). (Ver o trecho de Efé. 6:20, onde Paulo é descrito como acorrentado a um membro da guarda pretoriana).

O contacto do apóstolo dos gentios com a guarda pretoriana fez com que a sua fama se espalhasse paralelamente à fama de seu Senhor e do evangelho. Se porventura temos aqui alusão ao aprisionamento de Paulo em Roma, então o apóstolo estaria sob vigilância dessa guarda em sua própria casa alugada. (Ver Atos 28:31 acerca de detalhes dessa questão). Essa forma de encarceramento era intitulada «custódia militar». Sendo cidadão romano, Paulo foi alvo de algumas demonstrações de consideração, que outros cristãos primitivos não desfrutaram; mas isso não diminuiu em coisa alguma a ameaça de morte que ele enfrentava, sendo bem provável que após um segundo período de aprisionamento, que ele sofreu, foi martirizado.

CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 5. pag. 14.

PRETORIANA, GUARDA.

A guarda pretoriana nunca é mencionada no Novo Testamento, embora a palavra grega praitôrion, em Fil. 1:13; talvez aluda a essa força armada (o que explica a tradução que aparece em nossa versão portuguesa, «guarda pretoriana..). Naturalmente, os prisioneiros políticos eram mantidos sob vigilância de uma guarda, mesmo quando estivessem sob prisão domiciliar.

Originalmente, um pretor (vide) era um alto magistrado romano. Com a passagem do tempo, esse oficio Passou. a ser chamado oficio dos cônsules.

Porém. a forma adjetivada continuou a ser usada em vários contextos, como a cohors praetoria, «guarda pretoriana.., que formava a guarda pessoal de um general. Mais tarde ainda, desenvolveu-se a Guarda Pretoriana do Império, formada originalmente por nove coortes, e que foi constituída por Augusto, em 27 A.C .. Essa era uma espécie de corpo de elite, que provia uma proteção especial e uma força ostensiva, a fim de ajudar a manter a boa ordem.

Esse grupo tornou-se tão poderoso que chegou a derrubar e levantar imperadores. Os membros da guarda pretoriana recebiam um salário três vezes maior que o soldo dos soldados ordinários, além de benefícios extras especiais. Caligula aumentou a guarda pretoriana para doze coortes; e Vitélio (em 69 D.C.), para dezesseis. Domiciano, entretanto, reduziu esse número para dez coortes. Constantino desativou a instituição em 312 D.C. Uma coorte usualmente consistia em quinhentos soldados. Os militares desse grupo seleto serviam somente durante dezesseis anos; e então recebiam uma aposentadoria especial.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 5. Editora Hagnos. pag. 376-377.

1.13 - As minhas prisões em Cristo. A expressão em Cristo mostra que Paulo considerava sua prisão como o resultado da vontade soberana de Deus, pois promoveu o evangelho de duas formas. Primeiro, a guarda do palácio o ouviu enquanto Paulo pregava no cárcere. A guarda pretoriana era composta de milhares de soldados de elite altamente treinados do império romano cujo quartel-general ficava em Roma.

Durante os dois primeiros anos em que Paulo ficou em prisão domiciliar em Roma, diferentes soldados se revezaram para vigiá-lo. Uma vez que permaneciam acorrentados a Paulo, eles não tinham outra opção senão ouvi-lo proclamar o evangelho; não podiam bater nele para que ficasse em silêncio porque ele era um cidadão romano (At 16.37,38). Apesar de Paulo não poder sair para pregar ao mundo, Deus levou o mundo a Paulo. Em uma inversão irónica, os soldados ficavam cativos e Paulo ficava livre para pregar. Segundo, todos os demais lugares - os que visitavam Paulo - ouviram o evangelho. Alguns dos visitantes eram líderes dos judeus em Roma (At 28.17).

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 523.

Evidências da carta aos filipenses

Nossa incerteza quanto a Roma, como destino de alguns documentos do Novo Testamento, anda junto com nossa incerteza quanto a Roma como local de origem de outros. As "cartas da prisão" de Paulo tradicionalmente têm sido datadas durante seu cativeiro em Roma, mas vimos que, pelo menos para algumas, foi defendida uma origem em Efeso ou Cesaréia.

Se os "santos da casa de César" cujas saudações são enviadas à igreja de Filipos eram cristãos de Roma, como parece mais provável, então também é em Roma que podemos procurar mais naturalmente opraetorium no qual, segundo Filipenses 1.13, era do conhecimento de todos que Paulo estava na prisão por causa de Cristo. (Tem sido dito por alguns estudiosos que a carta aos Filipenses, como a temos, engloba mais de uma carta enviada por Paulo aos seus amigos em Filipos, e essa possibilidade deve ser mantida em mente, mesmo se vai contra a "probabilidade bibliográfica".) De todos os sentidos possíveis de praetorium, o mais apropriado nesse contexto é "guarda pretoriana". A guarda pretoriana era a força de segurança do próprio imperador, e como Paulo, com seu apelo, se colocara à disposição do imperador, era natural que os soldados encarregados dele em seu alojamento, em turnos, fossem da guarda pretoriana. Poucos desses soldados já tinham encontrado um homem como Paulo, e todos logo ficavam sabendo o que o trouxera a Roma.

Não só a guarda pretoriana, mas "todos os demais", diz Paulo, tinham vindo a saber a razão da sua prisão — "todos os demais" significando, provavelmente, todos os que tinham alguma ligação com os preparativos para o seu interrogatório.

Além disso, o fato de Paulo, apesar das restrições da sua prisão domiciliar, poder pregar o evangelho livremente a todos os que vinham vê-lo, encorajou muitos outros cristãos em Roma a dar testemunho com mais ousadia do que tinham feito antes, de modo que a vinda de Paulo a Roma tinha, de todas as maneiras, promovido a difusão do evangelho na cidade. Não que essa expansão foi promovida sempre em um espírito de cooperação com Paulo; as diferenças entre os vários grupos de cristãos em Roma significavam que alguns grupos tinham menos simpatias por Paulo que outros; alguns, por sinal, lhe eram claramente opostos. Podemos deduzir das palavras de Paulo que, enquanto alguns pregavam Cristo com um espírito de boa vontade, contando-se como seus amigos e parceiros, outros o faziam com um espírito de inveja e rivalidade, com nenhum motivo mais digno do que esfregar sal em suas feridas, para aumentar o senso de frustração que ele pode ter tido, em sua situação limitada. Mas Paulo reage com um espírito de tranquilidade e contentamento: o que importa é que Cristo está sendo proclamado, seja por motivos dignos seja indignos — "com isto", diz ele, "me regozijo" (Fp 1.15-18).

Isso está muito distante do anátema que ele invocou sobre os que lhe causaram problemas muitos anos antes, invadindo seu campo missionário na Galácia e ensinando um "evangelho diferente" aos seus convertidos ali. Certo é que os que lhe desejavam o mal em Roma, não estavam se imiscuindo no que não lhes dizia respeito, e não é sugerido que havia alguma coisa deficiente ou subversiva no conteúdo da sua pregação; mesmo assim, pode-se reconhecer que Paulo se tornou mais brando e manifesta mais da "mansidão e benignidade de Cristo" do que conseguiu, quando invocou essas qualidades ao altercar com membros desafetos da igreja de Corinto. Talvez seus dois anos de prisão em Cesaréia, seguidos da sua prisão domiciliar em Roma no momento, lhe tivessem ensinado novas lições de paciência.

Não havia como saber por quanto tempo ele ficaria em prisão domiciliar, nem quando seria chamado para comparecer perante César. Sua tendência era esperar por um resultado favorável do interrogatório; muitos amigos, em Roma, Filipos e outros lugares, estavam orando por isso, e ele estava convicto de que, pelo bem dos seus convertidos e a promoção do evangelho, sua absolvição e soltura seriam desejáveis. Se fosse seguir apenas sua preferência, ele não tinha tanta certeza: seria "incomparavelmente melhor" para ele partir para sua última viagem e estar em casa "com Cristo" (Fp 1.23). Era-lhe difícil escolher entre os dois; felizmente não cabia a ele a escolha, e sua oração era que, de um modo ou outro, Cristo fosse glorificado.

BRUCE. F. F. Paulo, o apóstolo da graça, sua vida, cartas e teologia. Editora Sheed. pag. 377-378.

  1. Uma porta se abre através da adversidade.

As CADEIAS de Paulo (Fp 1:12-14)

O mesmo Deus que usou o bordão de Moisés, os jarros de Gideão e a funda de Davi usou as cadeias de Paulo. Os romanos sequer suspeitavam que as correntes que colocaram nos punhos do apóstolos o libertariam ao invés de prendê-lo Como o próprio apóstolo escreveu em uma ocasião posterior em que também estava preso: "estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada" (2 Tm 2:9).

Em lugar de se queixar das suas cadeias, Paulo consagrou-as a Deus e pediu que as usasse para o avanço pioneiro do evangelho. E Deus respondeu a suas orações.

Em primeiro lugar, essas cadeias deram a Paulo a oportunidade de ter contato com os perdidos. Ele permanecia acorrentado a um soldado romano vinte e quatro horas por dia! Cada soldado cumpria um turno de seis horas, o que significava que Paulo poderia testemunhar a pelo menos quatro homens todos os dias! É possível imaginar a situação desses soldados, presos a um homem que orava "sem cessar", que sempre conversava com outros sobre a vida espiritual e que escrevia constantemente para igrejas espalhadas por todo o império. Em pouco tempo, alguns desses soldados também aceitaram a Cristo. Paulo pôde levar o evangelho à guarda de elite pretoriana, algo que teria sido impossível se estivesse livre.

Mas as cadeias permitiram que Paulo tivesse contato com outro grupo de pessoas: os oficiais do tribunal de César. O apóstolo encontrava-se em Roma como prisioneiro do Estado, e seu caso era importante. O governo romano estava prestes a determinar a situação oficial da "seita cristã". Era apenas mais uma seita do judaísmo ou algo novo e possivelmente perigoso? Deve ter sido uma satisfação enorme para Paulo saber que os oficiais de César eram obrigados a estudar as doutrinas da fé cristã!

Às vezes, Deus precisa colocar "cadeias" em seu povo para que realizem um avanço pioneiro que não poderia se dar de outra maneira. Algumas mães talvez se sintam presas ao lar enquanto cuidam dos filhos, mas Deus pode usar essas "cadeias" para alcançar pessoas com a mensagem da salvação. Susannah Wesley criou dezenove filhos numa época em que não havia eletrodomésticos nem fraldas descartáveis! Dessa família numerosa vieram John e Charles Wesley, cujos ministérios estremeceram as ilhas britânicas.

Fanny Crosby ficou cega quando tinha um mês e meio de idade, mas já em sua infância mostrou-se determinada a não permitir que as cadeias da escuridão a prendessem. Os hinos e cânticos que ela escreveu ao longo da vida foram usados por Deus de maneira poderosa.

Eis o segredo: quando existe determinação, olha-se para as circunstâncias como oportunidades de Deus para o avanço do evangelho, e há regozijo com aquilo que Deus fará em vez de queixas por aquilo que Deus não fez.

As cadeias de Paulo não apenas o colocaram em contato com os perdidos, mas também serviram para encorajar os salvos. Ao verem a fé e a determinação de Paulo, muitos cristãos de Roma tiveram sua coragem renovada (Fp 1:14) e "[ousaram] falar com mais desassombro a palavra de Deus". Aqui, o verbo falar não se refere às "pregações", mas sim às conversas diárias. Sem dúvida, muitos romanos comentavam o caso de Paulo, pois questões legais desse tipo eram de grande interesse para essa nação de legisladores. Os cristãos de Roma, solidários a Paulo, aproveitavam essas conversas para falar de Jesus Cristo. O desânimo costuma espalhar-se, mas o bom ânimo também!

Por causa da atitude alegre de Paulo, os cristãos de Roma foram encorajados novamente a testemunhar de Cristo com grande ousadia.

Enquanto convalescia no hospital depois de um acidente grave de carro, recebi uma carta de um homem que eu não conhecia, mas que parecia ter as palavras certas para tornar meu dia mais alegre. Recebi várias cartas dele, cada uma melhor do que a anterior.

Depois de me recuperar, me encontrei com ele pessoalmente. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o homem era diabético, cego e perdera uma das pernas (posteriormente, sua outra perna também teve de ser amputada); vivia com a mãe idosa e cuidava dela! Era, sem dúvida alguma, um indivíduo preso pelas cadeias de suas circunstâncias, mas, ao mesmo tempo, inteiramente livre para ser um pioneiro do evangelho! Teve oportunidade de falar de Cristo em escolas, agremiações, na Associação Cristã de Moços e em reuniões de profissionais que jamais convidariam um pastor como palestrante. Meu amigo era determinado e vivia para Cristo e para o evangelho. Por isso, experimentou a alegria de contribuir para o progresso do evangelho.

Talvez nossas cadeias não sejam tão dramáticas ou difíceis, mas, sem dúvida, Deus pode usá-las da mesma forma.

WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 86-87.

Fp 1. 13 Como isso é possível?! Além dos filipenses, também nós lhe damos ouvidos atentamente. Porque essa “situação” de Paulo já não é para nós hoje uma questão curiosa e distante que tentamos penosamente tornar palpável por ter havido certa vez no passado algo desse tipo. Pessoas dos dias de hoje, irmãos e irmãs de nosso meio, sofreram “situações” semelhantes e também continuarão a sofrê-las. Como lidamos no íntimo com essa situação, o que ela significa para o evangelho? Por que o Senhor permite que seus mensageiros enfrentem tais dificuldades? Essas perguntas são atuais. Paulo não se eleva simplesmente acima das dificuldades e não faz de conta que tudo é aprazível e belo. Notamos isso na expressão “mais” ou “antes”. No entanto, pode constatar agora com gratidão que tudo conduziu “mais”, “antes” para o progresso da mensagem, pois uma nova e inesperada possibilidade missionária se abriu, precisamente no quartel. A este respeito Paulo não fala na voz ativa: “Aqui pude falar acerca de Jesus aos soldados.” Afinal, era óbvio que ele não se calava acerca de Jesus. Paulo nunca teria silenciado acerca de Jesus em qualquer lugar que estivesse! Mas, por mais incondicionalmente necessário que seja nosso testemunho, sobre a trajetória do evangelho paira sempre o mistério da condução e eficácia divinas. A “porta da palavra” não é aberta por nós, mas por Deus (Cl 4.3). Por isso Paulo declara que “suas algemas se tornaram manifestas em Cristo em todo o pretório”. Afinal, para Paulo tudo acontece “em Cristo”. Por isto aconteceu “em Cristo” (ou “por Cristo”, como também é possível traduzir aqui a preposição grega en) que em todo o quartel se falasse do estranho prisioneiro que se diferenciava tanto de todos os outros prisioneiros que normalmente se via dentro do quartel. “Que razão haveria para encarcerar um homem desses?” Ora, quase que automaticamente surgia assim a oportunidade de anunciar, como resposta a tais perguntas, a mensagem de Jesus, que ia sendo transmitida por todas dependências do quartel. Contudo ela também se difundiu para além do quartel, para “todos os demais”. Não sabemos de quem exatamente Paulo fala. De qualquer maneira, porém, os soldados informam a outros acerca do prisioneiro de que estão cuidando agora e o que ele tem para dizer. Portanto é justamente assim que o evangelho alcança pessoas das quais do contrário jamais se teria aproximado. O que primeiro parecia ser um terrível impedimento, não obstante acaba servindo ao progresso da causa.

Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.

II - O TESTEMUNHO DE PAULO NA ADVERSIDADE (1.12,1 3)

  1. O poder do Evangelho.

A prisão de Paulo, do ponto de vista humano, poderia ter sido um revés para o evangelho. Entretanto, Paulo garante que nada, absolutamente nada, poderia frear a força do evangelho de Cristo. Nenhuma circunstância, política, material ou espiritual impediria o testemunho do evangelho.

O fato de o apóstolo estar preso poderia afetar o avanço do evangelho no mundo. Sua prisão era considerada um golpe contra a igreja de Cristo. Porém, o apóstolo transmite na sua carta a ideia de que nenhum poder físico ou material poderá conter a força do evangelho. O que Paulo, de modo simples e objetivo, diz para os filipenses é que cadeias não limitam o movimento dinâmico do evangelho que pode ser disseminado de boca em boca. Mais importante que as suas cadeias era a proclamação do evangelho, não importava como. Para o apóstolo em prisão, as notícias dos sucessos de conquista do evangelho na vida das pessoas lhe serviam de consolo para suportar os sofrimentos que padecia nas suas prisões. Saber que o testemunho das suas prisões produzia fruto positivo na vida dos cristãos, especialmente os romanos, dava-lhe uma alegria e um sentimento de vitória que superava todos os sofrimentos da prisão.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 35.

Até o momento ele escreveu Filipenses, Paulo tinha dificuldades sérias experientes de todo tipo. Quando escreveu esta epístola, ele era um prisioneiro em Roma. Ele havia muito tempo desejava pregar naquela grande cidade, tendo apenas alguns anos antes escrita para a igreja lá:

Para Deus, a quem sirvo em meu espírito, a pregação do evangelho do Seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós, sempre em minhas orações que fazem pedido, se talvez agora, finalmente, pela vontade de Deus eu pode ter sucesso em chegar a você .... Eu não quero que ignoreis, irmãos, que muitas vezes eu tenho planejado para chegar até você (e ter sido impedido até agora) para que eu possa obter algum fruto entre vós também, como também entre o restante dos gentios "(Rom. 1:9-10, 13;. Cf v. 15).

O apóstolo estava expressando mais do que um desejo pessoal de ministro em um lugar novo e desafiador. Ele estava convencido da importância de trazer o evangelho naquela cidadela do paganismo e usando Roma como um trampolim para o ministério ainda mais (mesmo para a Espanha, Rom. 15:24). Parece duvidoso que ele tinha em mente a ministrar em Roma como prisioneiro. Nem ele provavelmente encaramos chegando lá só depois de enfrentar uma tempestade tempestuosa que resultou em um naufrágio desastroso (cf. Atos 21:33-28:31). Mas no entanto ele chegou lá ou sejam quais forem as circunstâncias Depois que ele chegou, Paulo intensamente queria pregar o evangelho lá "pela vontade de Deus" (Rom. 1:10).

Embora ele não estava a escrever esta carta de uma masmorra, mas uma residência privada (Atos 28:16, 30), Paulo estava acorrentado noite e dia para um soldado romano. Ele não tinha nenhuma privacidade quando ele comeu, quando ele dormia, quando escreveu, quando orava, ou quando ele pregou, ensinou, ou conversava com algumas amigas (vv. 17-31). No entanto, para um período de dois anos esta falta de privacidade tornou impossível para os soldados romanos que guardavam-lhe para evitar ouvir o evangelho e testemunhar a semelhança de Cristo notável Paulo. Como os próximos versículos sugere, este, aparentemente, levou alguns deles para a salvação (Filipenses 1:13-14;. Cf 4:22). Paulo regozijou-se por causa do ministério para o qual o Senhor o tinha chamado e por causa do fruto espiritual que o ministério produziu, mesmo enquanto ele estava em cadeias.

Os versos 12-26 do capítulo um revelam quatro elementos da alegria de Paulo no ministério. Ele era alegre, apesar de problemas, desde que a causa de Cristo progrediu (vv. 12-14); apesar dos detratores, contanto que o nome de Cristo foi proclamada (vv. 15-18), a despeito da morte, enquanto o Senhor foi glorificado (vv. 19-21), e apesar de estar na carne, enquanto a igreja foi beneficiada (vv. 22-26).

A expressão “Quero que Saibam” se traduz de uma expressão comum em grego, que e frequentemente encontrada em cartas antigas. Expressões similares, tais como "eu quero que você entenda isso" ou "Eu quero que você saiba isso" hoje, são usados para chamar a atenção para um ponto importante, especialmente um que pode ser facilmente perdida, mal interpretado, ou difícil de aceitar. Por outro lado, Paul muitas vezes declarou que não queria que seus leitores sejam desinformados (cf. Rm 1:13;. 11:25, 1 Coríntios 10:1;. 2:01, 2 Coríntios 1:8;. 1 Tessalonicenses 4. : 13). No versículo presente que ele queria que seus amados irmãos a entendessem que ele queria dizer exatamente o que ele disse. Apesar de suas circunstâncias, Paulo não era amargo ou desanimado, mas tinha grande motivo para se alegrar.

“Aquilo que me aconteceu” se traduz “ta kata eme”, que significa literalmente "as coisas pertencentes ou relacionados a mim." Ela é traduzida como "as minhas circunstâncias" em Efésios 6:21. Em Colossenses 4:7 é traduzido como "meus negócios." As circunstâncias de Paulo, explica ele, terrível como eles parecem ser de uma perspectiva humana, concentraram-se para o maior progresso do evangelho. Ele não ignorar ou fazer pouco caso da sua prisão (cf. 1:7, 14, 17; Col. 4:3, 18;. Flm 9, 13), mas foi incidental ao seu estado dispostos, alegres, e imensamente privilegiada como um servo de Jesus Cristo (1:1). Mallon (maior) é melhor traduzida como "sim" (KJV), "na verdade" (NVI), ou "realmente" (NVI). Em vez de dificultar e restringir o seu ministério, circunstâncias difíceis de Paulo tinha feito exatamente o contrário (cf. 2 Cor. 12:9-10).

Era o progresso do evangelho para o qual Paulo viveu tão apaixonadamente. Para os anciãos de Éfeso ele declarou: "Eu não considero a minha vida de qualquer conta como preciosa para mim, para que eu possa terminar minha carreira eo ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus "(Atos 20:24). Tudo o resto na vida de Paulo teve uma importância apenas na medida em que isso afetou o progresso do evangelho.

Paul não só se considerava a obrigação de o Senhor, mas também "tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes .... Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego "(Rm 1:14, 16).

Tão forte era a obrigação que Paulo declarou-se "sob compulsão, pois ai de mim", disse ele, "se eu não anunciar o evangelho" (1 Coríntios 9:16.). "Eu faço tudo por causa do evangelho", explicou alguns versículos mais adiante (v. 23). Seu ministério e sua vida terrena, eram inseparáveis. Sua vida terrena não seria concluído até o seu ministério estava concluído, e quando o seu ministério estava concluído, sua vida terrena, não teria outra finalidade (cf. Fl 1:21-26;.. 2 Tm 4:6-8).

Prokopē (progresso) descreve não apenas avançar mas fazê-lo contra os obstáculos. O verbo relacionado foi usado por um explorador ou de uma equipe de avanço do exército cortando um caminho através de árvores e arbustos densos, avançando lentamente e com esforço considerável. A resistência é, portanto, inerente a esse tipo de progresso, e ninguém sabia melhor do que Paul como inevitável a resistência de Satanás (1 Ts. 2:18) e o mundo (1 João 2:15-16) é para o progresso do evangelho . Resistência por Roma pagã havia colocado em sua prisão de dois anos presente, e resistência por líderes judeus incrédulos tinha prenderam em Cesaréia por dois anos antes que (Atos 24:27). Ele explicou aos coríntios que, embora "uma larga porta para o serviço eficaz se me abriu, ... há muitos adversários" (1 Cor. 16:9). Aos tessalonicenses, ele escreveu: "Depois que já havia sofrido e sido maltratados em Filipos, como sabeis, tivemos a ousadia de nosso Deus falar-lhe o evangelho de Deus em meio a muita oposição" (1 Tessalonicenses 2:2.).

Ele encorajou Timóteo, Lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os descendentes, morto de Davi, segundo o meu evangelho, pelo qual sofro mesmo a prisão como um criminoso, mas a palavra de Deus não está preso. Por esta razão, tudo suporto por causa daqueles que são escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus e com ele a glória eterna "(2 Tm. 2:8-10).

Longe de lamentar, ressentindo-se, ou reclamando de suas dificuldades, Paul reconheceu-os como um elemento inevitável do ministério. Em seus próprios olhos, no entanto, eles eram apenas um pequeno custo que ele era mais do que dispostos a pagar, porque Deus usou esses estudos como um meio de promover o progresso do evangelho.

Paulo próxima focada em duas importantes conquistas de seu ministério, em primeiro lugar sobre o progresso do evangelho fora da igreja (v. 13) e, em seguida, em seu progresso dentro da igreja (v. 14). Primeiro, ele se alegrou de que sua prisão na causa de Cristo tornou-se conhecido por toda a guarda pretoriana todo e para todos os outros. Prisão é de desmon, que literalmente refere-se a uma ligação, como o que fez com uma corrente ou cabo. Por extensão, o termo passou a ser usado de qualquer restrição ou confinamento forçado, em particular a de um prisioneiro. Falando a um grupo de líderes judeus em Roma, durante o tempo que ele escreveu Filipenses, Paulo menciona "vestindo esta cadeia por causa da esperança de Israel" (Atos 28:20), e em Efésios ele falou de ser "um embaixador em cadeias "(Ef. 6:20).

Paulo "cadeias" (de halusis) eram um pouco mais de uma algema moderna, cerca de 18 centímetros de comprimento. Uma extremidade foi anexado ao pulso do prisioneiro, o outro para o guarda. A cadeia não foi removido do prisioneiro enquanto estava sob custódia, fazendo ambos fuga e privacidade impossível. Embora o apóstolo foi autorizado a viver em quartos privados (Atos 28:30), ele foi acorrentado desta maneira a uma série de soldados por um período de dois anos. Ao longo desses anos, é possível que várias dezenas de soldados diferentes foram atribuídos a guarda de Paulo, cada um tornando-se seu público cativo. Se eles já não estivessem conscientes disso, os soldados logo veio a perceber que esse homem extraordinário, não foi preso por cometer um crime, mas para pregar o evangelho. Sua fidelidade à causa de Cristo logo se tornou conhecido por toda a guarda pretoriana todo e para todos os outros. Os crentes fiéis na igreja de Roma não tinha dúvida de longo orou para que o Senhor abrisse uma forma de testemunhar a guarda pretoriana e influente elite. Em Sua sabedoria soberana, ele respondeu que a oração, fazendo os membros da guarda para que cativa Paulo por dois anos.

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

  1. A preocupação dos filipenses com Paulo.

O seu sofrimento propiciou um canal de abertura para se pregar o Evangelho.

Warren Wiersbe, em seu comentário sobre a Carta aos Filipenses, diz “que o mesmo Deus que usou o bordão de Moisés, os jarros de Gideão e a funda de Davi usou as cadeias de Paulo” para a proclamação do evangelho. Os cristãos romanos espalhados por toda a Roma, inclusive nas cidades adjacentes, começaram a falar mais livremente sobre o evangelho na capital do Império.

A prisão de Paulo, em vez de reter a força do evangelho, promoveu ainda mais a sua disseminação. O Espírito Santo usou a prisão de Paulo para tornar o evangelho ainda mais dinâmico e poderoso no seu avanço no mundo.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 38-39.

Fp 1.13 minhas cadeias em Cristo... conhecidas. As pessoas ao redor dele reconheciam que Paulo não era um criminoso, mas havia sido preso por pregar a Jesus Cristo e o evangelho (cf. Ef 6.20).

MAC ARTHUR. Bíblia de Estudo. Sociedade Bíblica do Brasil. pag. 1616.

Fp 1.12-14 O fato de estar em uma prisão leva muitas pessoas a se entristecerem e a desistirem, mas Paulo considerava essa situação como mais uma oportunidade de divulgar as Boas Novas de Cristo. Ele entendia que a atual circunstância não era tão importante quanto tudo aquilo que poderia fazer através dela. Transformando uma situação adversa em vantagem, estendeu a mão aos soldados que formavam a guarda do palácio e encorajou os cristãos que temiam a perseguição. Podemos não estar em uma prisão, mas ainda assim muitas vezes temos motivos para nos sentir desanimados — momentos de indecisão, responsabilidades financeiras, conflitos familiares ou na igreja, ou a perda do trabalho. A maneira como agimos nessas situações refletirá a nossa fé. Procure formas, assim como Paulo, de demonstrar sua fé. mesmo nas situações mais adversas. Quer tais situações melhorem ou não, a sua fé será fortalecida.

Fp 1.13 - Como Paulo acabou sendo encarcerado em uma prisão romana? Enquanto estava visitando Jerusalém, alguns judeus pediram sua prisão por estar pregando as Boas Novas, mas Paulo apelou para que César julgasse o seu caso (At 21.15—25.12). Foi então escoltado por soldados até Roma, onde ficou numa prisão domiciliar enquanto esperava o julgamento — não seria um julgamento por ter infringido qualquer lei civil, mas por estar divulgando o evangelho de Cristo. Nessa época, essa acusação não era considerada uma falta grave pelas autoridades romanas. Alguns anos mais tarde. entretanto, Roma adotaria um ponto de vista diferente sobre o cristianismo e faria todos os esforços para bani-lo. A prisão domiciliar de Paulo permita-lhe uma certa liberdade. Ele podia receber visitas, continuar a pregar e escrever cartas, como esta epístola aos filipenses. Um resumo da permanência de Paulo em Roma pode ser encontrado em Atos 28. 1-31. A “guarda pretoriana” se refere à tropa de elite que se alojava no palácio do imperador.

APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de estudo. Editora CPAD pag. 1661.

  1. Paulo rejeita a auto piedade.

Paulo começa referindo-se às “coisas que me aconteceram” (v. 12), ou seja, como está no grego do Novo Testamento “ta kat'eme” que diz respeito a “minhas coisas, meus assuntos” ou “coisas que dizem respeito a mim”. Ora, Paulo estava falando dos seus sofrimentos, mas sua avaliação sobre esses sofrimentos era que eles não deviam ser a razão de compaixão dos filipenses. Ele queria que os filipenses entendessem que o foco, o vértice de tudo e a pessoa para quem deviam olhar era Jesus. Ele era o eixo central da sua vida, e seus sofrimentos físicos e materiais contribuíam para o avanço da igreja no mundo. Paulo não se fazia de vítima do evangelho nem da igreja, mas entendia que tudo quanto acontecia na sua vida era para a glória de Cristo na sua igreja no mundo.

Paulo avalia seus sofrimentos com uma visão positiva. Ele era um missionário que tinha consciência da importância da sua missão. Na sua mente, todo e qualquer sofrimento infringido contra a sua pessoa no exercício do ministério cristão era circunstancial e estava sob os cuidados de Deus. A soberania de Deus equivale à consciência de que o sofrimento é temporal e que a superação sobre ele produz um sentimento de vitória e aponta para um futuro eterno de gozo na presença de Deus. Por isso, Paulo não agia com auto piedade para conquistar a compaixão das pessoas. Ao falar e escrever de seus sofrimentos, não esperava que os filipenses e todas as demais igrejas entendessem que ele não estava esperando dos cristãos atitudes de compaixão, de pena pelos maus tratos recebidos. Paulo queria que a igreja de Filipos e as demais igrejas do seu campo missionário percebessem que sua prisão contribuiria ainda mais para que o evangelho alcançasse muitas pessoas. Paulo não estava interessado em chamar a atenção para si, mas queria que a igreja não desanimasse em momento algum, mas desse prosseguimento ao objetivo da proclamação do evangelho em todo o mundo.

Que coisas eram essas vividas e experimentadas por Paulo? Ele podia lembrar-se de duras experiências que o acometeram e o deixaram, às vezes, com fome, com privação de roupas, com enfermidades regionais. Seu corpo tinha as marcas dos açoites que deixaram vergas em seus lombos; as marcas das correntes nos tornozelos e braços; os naufrágios; os apedrejamentos; os perigos em travessias de rios; os pés calejados em viagens a pés, e perigos de assaltos e ladrões. Todas essas experiências contribuíram para que o evangelho que não ficasse engessado em poucos lugares. Tudo isso contribuiu para que Paulo e seus companheiros de missões amadurecessem na fé e na convicção do galardão de Cristo ao final da jornada cristã (2 Co 5.10). Paulo entendia que fora chamado para compartilhar de um projeto divino e que os sofrimentos infligidos durante a execução desse projeto divino em favor do evangelho culminariam com a vitória de Cristo sobre as forças do mal. Por isso, Paulo se regozijava em Cristo. Ele se regozijava então nos seus sofrimentos. Aos colossenses, ele repetiu a mesma mensagem quando disse: “Regozijo-me, agora, no que padeço por vós e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24). Ele reagia aos sofrimentos com atitude de aceitação positiva e não permitia que a amargura dos sofrimentos ou qualquer resquício de auto piedade o impedisse de fazer a obra de Deus. Esse sentimento de sacrifício e paixão pela obra de Cristo está em crise nos tempos atuais. Os adeptos da pseudoteológica da prosperidade, que não admitem o sofrimento, desconhecem o privilégio de sofrer por Cristo.

No versículo 12, quando Paulo fala de “proveito” (ARC) ou “progresso” (ARA), está falando, de fato, de um termo militar que se referia aos trabalhadores que abriam caminho através de uma floresta utilizando ferramentas como manchetes, machados e foices a fim de facilitar a caminhada de soldados para o alvo de sua batalha. O termo grego para “progresso” é prokopê que significa, essencialmente, “avanço a despeito de obstruções e perigos que bloqueiam o caminho do viandante”. Na verdade, Paulo estava declarando que a obra do evangelho estava rompendo com obstruções e progredindo, a despeito da terrível oposição externa. Paulo estava dizendo, na realidade, que na batalha espiritual é preciso abrir caminho para chegar a um fim proveitoso. Nesse sentido, os sofrimentos do apóstolo contribuíam para maior proveito do evangelho.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 35-37.

Paulo tem a convicção de que toda a situação em que se encontra redundará em seu libertação. Até sua prisão e a prédica hostil de seus inimigos pessoais contribuirão no final para sua libertação. O que é o que quer dizer por libertação? O termo é soteria, e aqui tem três significados possíveis.

(1) Pode significar segurança. Neste caso Paulo diria que está quase seguro de que toda a situação concluirá com seu libertação. Mas dificilmente pode ser este o significado porque Paulo continua afirmando que não está seguro se viverá ou morrerá.

(2) Pode significar sua salvação nos céus. Neste caso Paulo diria que sua conduta nessa situação o fará testemunha no dia do juízo. Aqui há uma grande verdade. Em toda situação de oportunidade ou desafio o homem opera não só para o tempo, mas também para a eternidade. Em cada situação não só ganha o veredicto dos homens, mas também o de Deus. A reação do homem a cada situação, decisão, oportunidade e desafio do tempo é um testemunho em favor ou contra si na eternidade.

(3) Mas soteria pode ter um significado mais amplo que os dois anteriores. Pode significar saúde, bem-estar geral. Paulo bem pode estar dizendo que tudo o que lhe acontece nessa difícil situação é o melhor para ele, tanto no tempo como na eternidade. A afirmação significaria: "Deus me põe nesta situação que são todos os seus problemas e dificuldades — é um meio para minha felicidade e utilidade no tempo, e para minha alegria e paz na eternidade. Isto está previsto para meu bem-estar neste mundo e no vindouro." Lembremos que todo desafio da vida vem de Deus para nos tonificar e nos fortalecer.

Nesta situação Paulo reconhece dois grandes apoios.

(1) O apoio das orações de seus amigos. Uma das coisas mais belas nas cartas de Paulo é a insistência em pedir as orações de seus amigos. “Irmãos”, escreve aos Tessalonicenses, “orai por nós”; “Finalmente, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague” (1 Tessalonicenses 5:25; 2 Tessalonicenses 3:1-2). Dos coríntios fala da seguinte maneira: “Ajudando-nos também vós, com as vossas orações a nosso favor” (2 Coríntios 1:11). Escreve a Filemom que está seguro de que por suas orações será entregue de volta a seus amigos (Filemom 22). Antes de empreender sua perigosa viagem a Jerusalém escreve à Igreja de Roma pedindo suas orações (Rom. 15:30-32).

Paulo jamais se fez tão grande que não lembrasse a necessidade da oração de seus amigos. Jamais se colocou no alto para olhar para baixo; jamais falou como aquele que é capaz de tudo enquanto o povo não pode nada; lembrou sempre que, tanto ele como os seus, nada podiam sem a graça de Deus.

Lembremos que quando a pessoa está aflita e com o coração desfeito um consolo dos maiores é saber que há outros que o encomendam perante o trono da graça. Quando alguém está perante um esforço que o prostra ou uma decisão que o entristece recupera as forças quando lembra que outros o encomendam a Deus. Quando alguém vai a lugares desconhecidos e se encontra longe de sua casa se consola ao saber que a oração dos que ama atravessa os mares e os continentes e o apresenta perante o trono da graça. Não podemos chamar a ninguém amigo — nem nós mesmos podemos nos considerar amigos – de alguém por quem nunca oramos.

(2) Paulo sabe que conta com o sustento do Espírito Santo. A presença do Espírito Santo é o cumprimento da promessa de Jesus de estar conosco até o fim dos tempos.

Em toda esta situação Paulo tem uma esperança. A palavra que usa para esperança é muito gráfica; é um termo inusitado; ninguém o usou antes e bem pode ser que o mesmo o tenha cunhado. Trata-se de apokaradokia. Apo significa fora de; kara, cabeça; dokein, olhar. Apokaradokia significa o olhar ardente, concentrada e persistente que se separa de qualquer outra coisa, para fixar-se só no objeto de seu desejo. A esperança de Paulo é que nunca se veja reduzido ao silêncio por vergonha. Duas coisas poderiam reduzi-lo ao silêncio por vergonha. A covardia poderia fazê-lo calar quando deveria ter falado; e a ineficácia e a inutilidade de sua obra poderia privá-lo do direito de falar. Paulo tem a segurança de que em Cristo encontrará a valentia para nunca envergonhar-se do evangelho; que por meio de Cristo suas fadigas contribuirão ao bem de todos os homens. Espera a graça de ser intrépido ao falar.

  1. B. Lightfoot escreve: "O direito de falar livremente é a insígnia e o privilégio dos servos de Cristo." Para o servo de Cristo, falar a verdade com intrepidez não é só um privilégio, é também seu dever.

Se Paulo assumir desta maneira com coragem e efetividade sua própria oportunidade, obterá como resultado que Cristo será glorificado nele. Não interessa o que ocorra com ele. Se morrer, terá a coroa do martírio. Se viver, terá o privilégio de pregar ainda e de dar testemunho de Cristo.

Como Ellicott o expressa belamente, Paulo diz: "Meu corpo será o teatro em que se manifestará a glória de Cristo." Eis aqui a tremenda responsabilidade do cristão. Uma vez que escolhemos a Cristo e nos tornamos membros de sua Igreja estamos na alternativa de conduzir glória ou vergonha a Cristo por nossa vida e conduta. Um líder é julgado sempre pelo que são seus seguidores. Cristo é julgado através de nós.

BARCLAY. William. Comentário Bíblico. FILIPENSES. pag. 33-35.

8 .27 ,28 — Como filhos de Deus, nós nem sempre sabemos pelo que orar, ou como podemos orar melhor (v. 26). Podemos saber, porém, que quando oramos, por desígnio do próprio Deus, o Espírito aperfeiçoa o que falamos em oração. Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus. A referência feita primeiramente a todas as coisas diz respeito às aflições deste tempo presente (v. 18). Todas as circunstâncias trabalharão juntas e cooperarão para o bem do cristão; ou seja, o cristão será moldado, no presente momento, por Jesus Cristo e, no porvir, reinará com Ele.

Daqueles que amam a Deus. E uma referência àqueles que são chamados por seu decreto. Nosso amor é a nossa resposta à operação do Espírito Santo em nossa vida. Nós somos chamados de acordo com o seu propósito (NVI). Tudo o que Deus faz, inclusive a redenção, é para realizar Seu plano.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 385.

A SOBERANA VONTADE DE DEUS GARANTE A GRAÇA (8.28-30) – O espírito humano e o divino Espírito, harmonizados numa vontade, estão de fato - afirma-o Paulo neste parágrafo - realizando a vontade de Deus que abrange todas as coisas. Em vista dessa divina operação em nós e em nosso favor, somos advertidos de que para os que amam a Deus tudo lhes coopera para o bem, isto é, os que são eficazmente chamados segundo o seu propósito (28). A divina vontade está por trás dos chamados, que, não somente ouvem o chamamento, mas lhe obedecem. O que ficou estabelecido na presciência e na predestinação divinas, atinge inevitavelmente o alvo divino para a glória divina, que inclui o bem-aventurado estado dos eleitos.

DAVIDSON. F. Novo Comentário da Bíblia. Romanos. pag. 48

III - MOTIVAÇÕES PARA A PREGAÇÃO DO EVANGELHO (1.14-18)

Duas motivações que estavam na mente e no coração dos cristãos espalhados em toda a Ásia Menor, que era o campo missionário do apóstolo, além da Europa. Podemos perceber nessas duas motivações que moviam as igrejas como sendo uma positiva e a outra negativa. A positiva dizia respeito ao estímulo dos filipenses quanto às notícias da simpatia da guarda pretoriana à situação prisional de Paulo (1.13). Essa motivação produziu no coração e na mente dos cristãos filipenses a renovação de entusiasmo e disposição para continuar fiel ao propósito da propagação do evangelho.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 39.

  1. A motivação positiva.

Uma nova fonte de energia (v.14)

O texto diz que “muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões” descobriram uma nova fonte de energia para continuar a fazer a obra de Deus. O texto diz que “muitos dos irmãos” (1.14) foram estimulados pela repercussão positiva entre os cristãos de Roma de que o processo contra Paulo era injusto e não havia nenhuma ação criminosa, senão pelo fato de pregar a Cristo Jesus. Ora, visto que Paulo estava preso por causa de Cristo, a guarda pretoriana bem como as autoridades romanas passaram a entender que se tratava de um equívoco e que Paulo não era nenhum criminoso. Paulo, pelo Espírito, entendeu que essa situação de dúvida das autoridades romanas contribuiria para a disseminação do evangelho. Por isso, Paulo regozijava-se pela oportunidade de participar dos padecimentos de Cristo Jesus (G1 2.20). Aqueles irmãos poderiam agora anunciar a palavra de Deus com maior determinação e destemor.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 39.

Fp 1.14 - Muitos dos irmãos no Senhor [...] ousam falar a palavra. Muitos cristãos que viram Paulo algemado em Roma foram incentivados a pregar o evangelho com ousadia, enfatizando a demonstração audaz exterior de um caráter interior e o sentimento de coragem. Embora também pudessem ser presos, eles foram impulsionados pela intrepidez de Paulo e proclamaram a mensagem sobre Jesus Cristo sem temor.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 523.

Quem eram esses irmãos? Indubitavelmente, os crentes de Roma.

Há anos que aqui se estabelecera uma congregação, à qual o apóstolo endereçara sua famosa Epístola aos Romanos. Essa congregação consistia, em sua maioria, de conversos do mundo gentílico. Entretanto, quando Paulo chegou a Roma como prisioneiro, imediatamente proclamou o evangelho aos judeus, com o resultado de que “uns creram ... e outros se mantiveram incrédulos” (At 28.24). Os judeus que creram fundaram suas próprias igrejas em Roma. Não obstante, podemos estar certos de que entre os membros do primeiro grupo, os crentes gentios, e o segundo, os crentes judeus, existia um laço de comunhão cristã, de forma tal que, quando Paulo fala dos irmãos, faz referência a membros de ambos os grupos, isto é, àqueles que não abandonaram Roma. Semelhantemente lemos em Atos 28.30 que, durante seus dois anos de encarceramento em Roma, Paulo recebia a todos os que a ele vinham, proclamando o reino de Deus e ensinando sobre o Senhor Jesus Cristo abertamente e livre de embaraços (At 28.30,31).

Ora, pois, qual foi a atitude dos irmãos para com Paulo e sua mensagem?

E qual foi a atitude de seus líderes? Assim que souberam que Paulo fora submetido a julgamento, lhe ofereceram seus préstimos? Permaneceram firmes na divulgação da salvação, das boas-novas? Aqui no versículo 14 parece estar implícito que a princípio não demonstraram um grau muito recomendável de coragem. Alguma coragem aqui e ali, sim, porém não muita. Ao contrário, pareciam estar “apavorados ante os adversários” (v. 28), indubitavelmente precisavam da advertência de que cada homem procurasse não somente seus próprios interesses, mas também os interesses de outros (2.4). Todos estavam correndo após seus próprios negócios (cf. 2.21). Em sua defesa, ninguém se encontrava ao lado de Paulo; ao contrário, desertaram-se todos.

As coisas, porém, estavam mudando. Tenha-se em mente que, quando esta carta foi escrita, o autor fala como um homem que esperava um veredicto, não um julgamento. O julgamento chegara a seu término; o caso estava a ponto de encerrar-se (Fp 2.19,23,24). Todos tiveram a chance de assistir à intrepidez de Paulo, bem como sua coragem em meio ao “fogo do inimigo”. O Senhor o sustentara de forma mui maravilhosa (Fp 4.13), e isso não apenas durante seu julgamento, mas desde o início, quando ele se dirigia a Roma como prisioneiro (At 23.11; 27.23). Assim, pois, finalmente, como resultado de perceber o que a graça de Deus é capaz de efetuar no coração de seu apóstolo “prisioneiro”, a maioria dos irmãos (não apenas “muitos”, A.V.) tomou alento, o alento que é “no Senhor”, comunicado e reavivado por ele. Não só foi proclamada oficialmente “a mensagem de Deus”, isto é, o evangelho, mas essa mensagem se tornou ainda mais o tema para discussão aberta, o assunto da conversão ordinária ou coloquial, e isso agora muito mais do que antes. Todavia, esse não era o caso entre todos, mas somente entre a maioria dos irmãos. O fato de que, mesmo agora, as condições não eram exatamente ideais, mesmo entre os pregadores em Roma, pelo que veremos a seguir, contudo serve para demonstrar o extraordinário otimismo de Paulo:

HENDRIKSEN. William. Exposição de Filipenses. Editora Cultura Cristã. pag. 435-437.

  1. A motivação negativa.

O sentimento de pessimismo de alguns cristãos (1.15-17)

Paulo estava imobilizado para fazer a obra livremente, pois sua prisão o impedia de movimentar-se para fora da prisão. Alguns cristãos, principalmente, que eram mestres judaizantes, insistiam que era necessário unir os ritos mosaicos com as instituições cristãs. Paulo os combatia porque entendia que eram duas coisas completamente distintas. Entretanto, esses judeus cristãos tomavam essas posturas de Paulo e o acusavam de ser inimigo da Lei e dos Profetas, principalmente porque ensinava contra a necessidade da circuncisão para o cristão. Por esse modo, esses inimigos gratuitos de Paulo incitavam os romanos contra o apóstolo para o indispor contra os romanos. Essa situação despertou motivação errada em alguns dos cristãos de Filipos. Era um sentimento de pessimismo no sentido de que Paulo estaria prejudicando o crescimento do cristianismo.

Esse sentimento desenvolveu-se motivado por falsos obreiros existentes no seio da igreja de Filipos. Alguns cristãos mais afoitos aproveitaram-se da ausência do apóstolo para agir de modo discordante de tudo quanto haviam aprendido anteriormente, conforme está descrito nos versículos 15 ao 17. Sem dúvida alguma, o Diabo se aproveitou da fragilidade daqueles irmãos para plantar em seus corações sentimentos de mesquinhez, de inveja, porfias, discórdia e atitudes rebeldes (1.15,17). Ao ter notícias dessa situação e sabendo que a liderança local não estava conseguindo impedir essa situação, Paulo entendeu pelo Espírito Santo que o que importava, de fato, era que Cristo fosse pregado “de toda a maneira”, “quer por pretexto, quer por verdade”(1.18, ARA). O segmento hostil que se levantou na igreja criou uma situação que tinha por objetivo, acima de tudo, atingi-lo e tratá-lo como um desconhecido e sem reputação, ou mesmo como se fosse um falso apóstolo. Ele sabia que essa situação seria dissipada e o que importava mesmo era que o evangelho fosse pregado a todas as gentes até a vinda do Senhor.

“ Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia' (1.15). A despeito de Paulo estar preso naquela ocasião, ele faz entender que a obra da igreja de Cristo não perderia espaço no mundo por sua incapacidade de se movimentar. A obra não sofreria por sua ausência física. Porém, aqueles opositores tinham propósitos diferentes dos propósitos de Paulo. O apóstolo os denomina de eritheia porque pregavam por outros interesses e com atitudes de inveja e porfia. O interesse maior era trabalhar mercenariamente. A atitude dos caluniadores de Paulo era mercenária, pois trabalhavam com segundas intenções. Invejavam a autoridade e o poder apostólico que Paulo tinha. A palavra “porfia” indica contenda, rivalidade e conflito que os opositores de Paulo faziam para denegrir a imagem do apóstolo perante os irmãos.

“... mas outros de boa mente’’ (1.15), isto é, de boa vontade, que denota satisfação e contentamento daqueles que trabalham por amor ao Senhor. Os opositores de Paulo tinham motivação errada porque eram impulsionados por um espírito faccioso, partidário, de intriga, e valiam-se de meios inescrupulosos para alcançar seus objetivos perniciosos. No versículo 16 está escrito que alguns trabalham por amor porque foram alcançados pelo amor imenso do Senhor.

“mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção ’ (1.17). A palavra que melhor explica “contenção” é “discórdia”, que descreve aqueles estavam interessados apenas nos seus próprios interesses. Eles não tinham motivos puros, e por isso caluniavam a Paulo, querendo diminuir sua autoridade para com os filipenses.

“Mas que importa?” (1.18). Paulo estava afirmando que se aqueles falsos irmãos pregavam por porfia, fingimento ou por pretexto, o que importava, de fato, era que o evangelho estava sendo pregado. Não significa pregar erroneamente alguma doutrina, mas significa que se a mensagem for preservada, independentemente do comportamento daquelas pessoas, o que importa é que o evangelho seja pregado. Ele ainda diz: “nisto me regozijo e me regozijarei ainda”.

Ora, sua alegria não se prendia às circunstâncias ruins ou daqueles que o criticavam, porque a essência de tudo era a certeza da proclamação do senhorio de Cristo. Paulo preferia saber que os seus opositores pregavam o evangelho com fingida piedade, mas pregavam. Para ele, isso era razão de regozijo em sua alma.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 40-42.

15-17 Obviamente o testemunho público de Jesus – para o qual Paulo também gosta de empregar, além da expressão “proclamar”, a palavra “ser arauto”, a fim de dizer com toda a clareza que não se trata de uma “devoção” intimista da alma, mas de uma “mensagem de vitória” (“evangelho”) que abrange o mundo todo – não acontece em todos de “modo puro” e “em verdade”. Uma série de irmãos, no entanto, empreende a obra com nova seriedade “por amor, porque sabem que fui destinado à defesa do evangelho”. São arautos do Cristo “de boa vontade” ou, como talvez devamos traduzir mais precisamente, “ao agrado de Deus”. Ao lado deles, porém, há outros servindo à proclamação, mas que levam “segundas intenções” e motivos obscuros. Aqui Paulo traz à tona com muita franqueza uma dificuldade que constantemente transparece ao longo da história da igreja. Para nós é tanto assustador quanto consolador que ela já existisse em tal medida naquele tempo. A “inveja” se intromete – entre pregadores do evangelho. Com quanta profundidade ela está arraigada em nosso coração, mais profundamente que muitos pecados rudes. Nem mesmo uma conversão autêntica simplesmente arranca a inveja. Ela também se manifesta em pessoas que prestam um serviço tão sério a Jesus que nem mesmo se calam em situação de perigo. Em Roma talvez fossem pessoas que antes detinham posição de destaque na vida da igreja e cuja palavra era alvo de atenção especial. Agora era possível perceber a poderosa influência de alguém como Paulo em Roma. Sentiram-se relegados a segundo plano e privados de sua importância anterior. Então surgiu a inveja. Onde, porém, opera a inveja aparecem necessariamente ciumeiras e “discórdia”. Da inveja brota o prazer malicioso. No fundo tais pessoas se alegram pelo fato de Paulo ser neutralizado pela transferência para o quartel. Agora já não os estorva, já podem recuperar sua posição. Consequentemente também eles se tornam zelosos, mas “por interesse próprio”. Apesar do ativo e corajoso trabalho em última análise pensam em si mesmos, em ter influência sobre a igreja. Sim, chegam ao nefasto pensamento: que Paulo fique bastante irritado agora, já que suas algemas o tornam impotente e ele é obrigado a ver como nós ganhamos terreno e readquirimos o controle sobre tudo! Afinal, cada indivíduo tira conclusões a respeito do próximo a partir de si mesmo. O ambicioso projeta a ambição também no coração daquele a quem inveja. Provavelmente afirmações deste tipo devem ter sido expressas e difundidas, de modo que chegassem até Paulo. Com toda a certeza alguém como Paulo não dava atenção a meras suspeitas.

18 Como Paulo lida com aquilo que é levado a experimentar? Muitas vezes repetiu-se sua palavra: “Desde que Cristo seja anunciado”, e isso com freqüência se deu de forma muito errônea e equivocada, de acordo com nossa superficialidade. Paulo não se defronta com uma deturpação ou com um esvaziamento da mensagem em si. Não escreveu: “Desde que algo seja dito sobre Jesus, é isso o que importa. O que se afirma sobre Jesus não será tão relevante.” Em Gl 1.8s ele formula de forma bastante nítida e incisiva o que pensa sobre a violação do conteúdo da mensagem! Jamais teria se alegrado com heresias nem tampouco teria tentado superá-las com o consolo barato de que “de qualquer modo” Cristo ainda seria mencionado nelas. Aqui não está em jogo o conteúdo da mensagem, mas meramente a motivação de sua proclamação. Mesmo pessoas que realizam o trabalho sob a influência da inveja e do interesse próprio são de fato “arautos do Cristo”. E somente por ser verdadeiro o evangelho que estas pessoas anunciam Paulo consegue desconsiderar a motivação insincera: “Afinal, de todas as maneiras, seja com segundas intenções, seja em verdade, é proclamado Cristo, e disso me regozijo.” Ainda que aquelas pessoas quisessem feri-lo pessoalmente, “que importa”? Também eles certamente colaboram para que a obra do Cristo se torne conhecida de outros.

Aqui e acolá também nós somos confrontados com o fato de constatarmos inveja e ambição por trás do zelo de colaboradores de nossa denominação ou igreja. Talvez também vejamos outros se alegrando quando nossa atividade é tolhida por circunstâncias exteriores, enquanto eles ganham terreno. Então também nós temos o privilégio de tão ficar cheios e movidos pela causa do evangelho que saibamos suportá-lo sem melindres, desde que a límpida mensagem de Cristo alcance as pessoas.

Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.

Fp 1.15 - Os que pregavam por inveja e porfia não eram hereges, uma vez que pregavam acerca de Cristo. Mas, ao que parece, tinham ciúmes da atenção que Paulo recebia e decidiram plantar sementes de dissensão, a fim de causar problemas ao apóstolo. Outros cristãos, de boa mente, anunciavam a mensagem a respeito de Jesus com bons motivos. Eles admiravam Paulo e o evangelho, e dedicavam-se a servir a Deus com fidelidade.

Fp 1.16,17 - Alguns manuscritos invertem a ordem dos versículos 16 e 17. Os motivos dos cristãos que anunciavam Cristo por contenção podiam ser considerados qualquer coisa, exceto bons. O termo contenção significa que eles não pregavam para honrar a Deus ou ajudar Paulo, mas para ganhar aplausos e seguidores para si mesmos (Fp 2.3). A expressão não puramente enfatiza o modo como esses cristãos estavam agindo. Em julgando acrescentar aflição às minhas prisões, o significado literal do verbo acrescentar é levantar ou causar. Em outras palavras, Paulo acreditava que esses pregadores, na verdade, desejavam causar-lhe mais problemas enquanto ele estivesse na prisão.

Fp 1.18 — Com o questionamento Mas que importa, Paulo, em essência, estava dizendo: “Os motivos dos que anunciam a Cristo por contenção estão entre eles e Deus”. Independente de as pregações serem feitas com fingimento ou em verdade, por aparência ou pelo que era correto, Paulo se satisfazia com o fato de que o evangelho estava sendo propagado. Observe que o apóstolo não estava fechando os olhos para o erro. Ele amaldiçoou aqueles que corrompiam o evangelho (Gl 1.6-9). O problema tinha a ver com motivo e atitude, não com doutrina.

Quanto à expressão me regozijo, significa simplesmente alegrar-se. Como o espírito nobre e magnânimo de Paulo era diferente! Em vez de irritar-se e ser vingativo, ele se regozijou. Isso aconteceu porque seu foco estava em Jesus Cristo (Hb 12.2,3).

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 524.

Os críticos de Paulo (Fp 1:15-19)

É difícil imaginar que alguém se opusesse a Paulo, mas era exatamente isso o que alguns cristãos de Roma faziam. As igrejas da capital estavam divididas. Alguns grupos pregavam a Cristo com sinceridade, visando a salvação dos perdidos. Outros, porém, pregavam a Cristo por motivos escusos, procurando dificultar ainda mais a situação de Paulo. Estes últimos usavam o evangelho como um meio de alcançar propósitos egoístas.

É possível que tais indivíduos fizessem parte da ala "legalista" da igreja, contrária ao ministério de Paulo aos gentios e a sua ênfase sobre a graça de Deus em vez de na obediência à Lei judaica. A inveja e a contenda andam juntas, da mesma forma que o amor e a unidade são inseparáveis.

Paulo usa em Filipenses 1:15 um termo interessante: porfia, palavra que dá a ideia de "polêmica, rivalidade, competição para receber o apoio de outros". O objetivo de Paulo era glorificar a Cristo e levar as pessoas a seguir ao Senhor; o objetivo de seus críticos era promover a si mesmos e granjear seguidores para si. Em vez de perguntarem:

"você já aceitou a Cristo?", perguntavam: "de que lado você está, do nosso ou do de Paulo?" Infelizmente, esse tipo de "politicagem religiosa" ainda existe hoje, e quem a pratica precisa conscientizar-se de que apenas faz mal a si mesmo.

Quem tem a mente determinada vê os críticos como mais uma oportunidade de contribuir para o progresso do evangelho.

Como soldado fiel, Paulo sabia que estava "incumbido da defesa do evangelho" (Fp 1:16). Era capaz de regozijar-se, não com os críticos egoístas, mas com o fato de que pregavam a Cristo! Não havia inveja alguma no coração de Paulo. Ele não se importava se alguns eram a favor dele e outros contra.

Para ele, o mais importante era a pregação do evangelho de Jesus Cristo! Sabe-se, pelos registros históricos, que dois grandes evangelistas ingleses, John Wesley e George Whrtefield, discordavam sobre questões doutrinárias. Os dois tiveram um ministério bem-sucedido, pregando para milhares de pessoas e vendo multidões se entregarem a Cristo. Diz-se que alguém perguntou a Wesley se ele esperava ver Whitefield no céu, ao que o evangelista respondeu:

- Creio que não o verei no céu.

- Então você não acredita que ele seja convertido?

- Claro que ele é convertido! – exclamou Wesley -, mas não espero vê-lo no céu porque ele estará tão próximo do trono de Deus e eu estarei tão longe que não conseguirei enxergá-lo!

Apesar de discordar de seu irmão em Cristo sobre algumas questões, Wesley não tinha inveja alguma em seu coração e não tentou opor-se ao ministério de Whitefield. Em geral, é difícil aceitar críticas, especialmente quando passamos por situações difíceis, como era o caso de Paulo. De que maneira o apóstolo conseguiu regozijar-se mesmo em meio a tanta reprovação? Ele era determinado! Filipenses 1:19 indica que Paulo esperava que sua causa fosse vitoriosa ("me redundará em libertação") por causa das orações de seus amigos e da provisão do Espírito Santo de Deus. O termo grego traduzido por provisão dá origem à palavra "coral".

Sempre que uma cidade grega organizava alguma festa especial, alguém precisava bancar cantores e dançarinos. A doação precisava ser generosa, de modo que o termo adquiriu a conotação de "suprir com generosidade e abundância". Paulo não estava dependendo dos próprios recursos escassos, mas sim dos recursos generosos de Deus, ministrados peio Espírito Santo. Além de participar do avanço pioneiro do evangelho em Roma por meio de suas cadeias e de seus críticos, Paulo usou, ainda, um terceiro meio.

WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 87-88.

IV - O DILEMA DE PAULO (1.19-22ss.)

  1. Viver para Cristo.

Os versículos 19 a 26 apresentam o exemplo de uma vida consagrada ao Senhor, revelando ser a mais profunda e sincera consagração que um homem seja capaz de fazer a Deus. Jesus Cristo é engrandecido como objeto maior da vida do crente, porque a graça demonstrada de Cristo é o seu princípio de vida e a palavra dEle é a sua regra cotidiana. A frase “nisto me regozijo e me regozijarei ainda”, dita por Paulo do versículo 18, demonstra o sentimento que dominava a sua alma de que nada afetaria sua alegria em Cristo. Não se tratava de uma alegria efêmera ou passageira, mas de uma alegria produzida pelo Espírito Santo na sua vida interior. Em seguida, ele diz que tinha em seu coração uma “intensa expectação”. Que expectação era essa? Não se referia à sua própria segurança, mas ao fato de que sua prisão e privação promoviam ainda mais o progresso do evangelho.

O que é que Paulo esperava? Qual era a sua expectativa acerca dos seus sofrimentos e da continuidade da expansão da igreja? No versículo 18, Paulo diz: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira”. Essa atitude revelava o anseio do apóstolo pelo crescimento da igreja, sem se importar por quais meios, visto que o poder do evangelho superaria os problemas humanos.

Porém, no versículo 19, Paulo estava certo de que Deus era poderoso para tirar bem do mal, fazendo que o mal, ou seja, a oposição feita contra ele, redundaria na salvação de muitas pessoas. Nesse mesmo versículo, o apóstolo estava confiante na provisão (“socorro”) do Espírito de Jesus Cristo. Ora, o Espírito de Jesus não era outro senão a terceira pessoa da Trindade, enviado por Cristo para suprir todas as necessidades da sua igreja na terra (G1 3.5). A presença do Espírito Santo na vida pessoal do crente e na igreja de Cristo é uma garantia de resultados positivos.

"... intensa expectação' (1.20). Qual era a expectativa de Paulo quanto à sua vida? Na mente do apóstolo, estar motivado por uma “intensa expectação” ou “ardente expectativa” significa alguém que estica o pescoço para ver o que há adiante. Paulo tinha esperança e estava seguro da promessa de Cristo de que em breve ele estaria em sua presença. Ora, o que esperava Paulo? Ele esperava não ser envergonhado ou “confundido” (v. 20). Sua vida dedicada ao Senhor lhe dava a garantia de que seus inimigos é que seriam envergonhados, pois ele estava dando a sua vida em libação ao Senhor. Ele esperava engrandecer a Cristo no “seu corpo físico” (v. 20), isto é, os sofrimentos físicos que padecia lhe davam a sensação de participar dos sofrimentos do Senhor Jesus.

Como Paulo vê a morte e a vida em sua experiência pessoal (1.21,22)

A expressão “porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (v. 21) revela o sentimento que dominava coração e mente do apóstolo. Viver, para ele, era a vida que agora tinha. O seu passado não era vida, mas era morte. Porém, ao encontrar a Cristo, recebeu vida e vida abundante. Essa declaração não significa apenas viver para servir a Cristo, para fazer o melhor que possa no Reino de Cristo na terra, ou para agradá-lo, fazer sua vontade, ou para ganhar almas para Cristo. E muito mais que isso. Significa uma total identificação com Cristo, no sentido de que “o viver é ter Cristo em sua própria vida”. Em Gálatas 2.20, ele disse: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. Paulo se via identificado com Cristo com tal comunhão, como a união do tronco com os ramos, o corpo com a cabeça. Nesse sentido, as coisas do mundo não podiam afetá-lo, porque ele podia dizer: “Estou crucificado com Cristo”.

Na sua mente, continuar vivo fisicamente significaria continuar fazendo o seu trabalho missionário. Porém, ele via o seu sofrimento físico como um modo de glorificar a Cristo no seu corpo. Paulo colocava o seu ideal acima de qualquer adversidade. A morte traria lucro pessoal porque poderia estar para sempre com o Senhor. Porém, o que importava era a pregação do evangelho. Por vida ou por morte tudo o que Paulo queria era que Cristo fosse engrandecido no mundo (1.21). Ele queria viver para servir a Cristo, para agradar-lhe e fazer sua vontade, mas entendia, também, que o que importava era Cristo, não ele propriamente. Por isso, declarou aos gálatas: “E vivo, não mais eu; mas Cristo vive em mim” (G1 2.20). Sua consagração a Cristo era total e completa. Cristo era o principio, a essência e o fim na sua vida pessoal. NEle vivia e se movia para a sua glória, por isso, podia dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (1.21).

Nos versículos 19 a 21, Paulo expõe suas emoções revelando um dilema interior que era o desejo de estar com Cristo e o estar vivo na carne para continuar fazendo a obra de Deus. Pela morte ou pela vida, Paulo queria e desejava que Cristo fosse engrandecido na sua vida. Ele apela para as orações da igreja para que o socorro divino fosse concedido a ele naquela hora difícil.

1.22 — O “viver na carne” era uma declaração de que continuar a viver fisicamente poderia representar sua total devoção a Cristo. O que importava para ele era que seu trabalho em favor de Cristo produziria resultados eternos, e não meramente temporais. Essa expressão não tinha um caráter moral, mas referia- se a viver na carne para continuar a dar fruto no seu trabalho de disseminação do evangelho. Quando fala do “fruto da minha obra”, referia-se ao fato de que se sua existência física podia lhe dar a oportunidade de continuar dando fruto, então valia a pena estar vivo. Mais do que sua escolha pessoal entre viver e morrer, valia o fato de que estar vivo, contribuiria para a proclamação do evangelho e o fortalecimento da igreja. Na verdade, o seu futuro não dependia da sua escolha pessoal, porque estava sob o poder do Império Romano. Independentemente de qualquer ação drástica do império contra a sua vida, ele não tinha nada a temer pela certeza de que seu destino estava na mão de Deus.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 42-45.

18s “Mas também me regozijarei!” Os filipenses ficam atentos: será que o processo dele de fato está melhor do que temiam? Porventura ele tem uma boa notícia a comunicar? Prestam mais atenção ainda: “Pois na verdade sei que „isso me redundará em salvação‟ através da vossa oração e pelo apoio do Espírito de Jesus Cristo segundo minha ardente expectativa e esperança.” Ou seja, Paulo, estás contando com uma sentença de libertação porque nós aqui em Filipos e tantos outros em todos os lugares oram por ti e porque o Espírito de Deus na verdade também é capaz de guiar como rios de água o coração de alguém como Nero? Não é, Paulo, que tua “ardente expectativa e esperança” naturalmente também espera que não tenhas de morrer, que mais uma vez fiques livre de todo esse longo período de sofrimento, retornando à liberdade?!

Não foi em vão que Paulo não revestiu sua certeza com palavras próprias, mas recorreu a Jó 13.16, na forma que conhecia da tradução grega do AT. É como se esta citação visasse dizer aos filipenses: em relação ao futuro só sei aquilo que todas as pessoas sabem de Deus, até mesmo Jó. No final tudo desemboca em salvação. Também o filho amado de Deus não sabia, no tocante ao curso terreno das coisas, como continuaria. Também o filho amado de Deus eventualmente precisou entrar em toda espécie de aflições e dores. Exteriormente o futuro é tão incerto e inseguro para o crente como para qualquer outra pessoa. Sobre o processo de Paulo não paira a garantia de que para um mensageiro de Jesus rodeado de orações sempre haverá um bom desfecho. Da mesma forma não está escrito sobre o leito de enfermidade do devoto que ele recuperará a saúde. O crente só sabe o que todos os demais não têm como saber: o desfecho será para a salvação!

20 Trata-se na verdade de um modo de pensar radicalmente diferente, que separa o crente de todos os demais e distingue cabalmente os “santos em Cristo Jesus” de todas as outras pessoas, até mesmo das muitas que apresentam apenas uma religiosidade cristã. Também o crente não é um “estoico”, alguém cujo coração não se deixa mais mover por anseios e esperanças. Não, uma “ardente expectativa e esperança” vivem também no peito dele. Mas o conteúdo desta esperança não são mais o eu e sua prosperidade. Como isso será realmente possível? Como pode haver tal liberdade do eu? O coração inteiro perde-se de tal forma em Cristo que seu único e ardente desejo é “que… Cristo seja engrandecido”. Isso é amor verdadeiro a Jesus, gerado do conhecimento mostrado pelo Espírito Santo de que esse Jesus “me amou e a si mesmo entregou por mim” (Gl 2.20). Esse amor a Jesus não pode ser “produzido” por nós, e tampouco podemos nos “forçar” a tê-lo. Ele é presenteado no milagre da real transformação cristã, no milagre do renascimento. Porque tornar-se cristão significa simplesmente perder-se a si mesmo para Cristo. Obviamente Paulo encara isso com toda a sobriedade: mesmo quando um coração renascido se posiciona desse modo em favor de Jesus, ele passa por lutas interiores ao trilhar a dura trajetória de sofrimento. Também como crentes continuamos sendo “carne”, e nossa carne se defende apaixonadamente contra todos os sofrimentos e a morte. Por isso mesmo quem verdadeiramente renasceu pode fracassar em determinados pontos dessa trajetória e “ser envergonhado”. Mesmo e justamente alguém como Paulo (cf. Pedro antes de seu renascimento!) não constitui exceção disso, como se algo assim naturalmente não pudesse acontecer com ele. Ele precisa da intercessão da igreja! Precisa do apoio do Espírito Santo, o qual ele designa justamente aqui de “Espírito de Jesus Cristo”, porque também Jesus glorificou o Pai no sofrimento e prometeu o auxílio do Espírito Santo exatamente nos tempos de perseguição e julgamento (Mt 10.20). “Apoio do Espírito de Jesus Cristo” é, portanto, um genitivo do sujeito. Mas Paulo tampouco se encaminha aflito e incerto para o futuro. A “fé” é aquela certeza bem peculiar que está igualmente distante da “segurança” e da “incerteza”: Porque estou certo de que isso me redundará em libertação, de que não serei envergonhado! Até então acontecera assim na vida de Paulo. Nessa vida e serviço “sempre” foi “engrandecido Cristo”. E precisamente “com toda a franqueza”. Paulo emprega um termo genuinamente neotestamentário, parrhesia, que Lutero traduz com uma expressão certeira de seu tempo, Freidigkeit [ousadia], da qual se originou, após a perda desse termo arcaico, o conceito bastante enganador Freudigkeit [alegria]. Neste repercute uma ênfase muito equivocada no sentimento, totalmente distante da parrhesia do NT. Não são meus sentimentos “alegres” que importam. Para começar, parrhesia é, de forma bem objetiva, o “livre caráter público” de uma causa ou um discurso, e somente a partir daí também subjetivamente a “franqueza” com que acontece esse agir ou falar público. O primeiro significado puramente objetivo deve ser o que vigora, p. ex., na conhecida frase final de Atos dos Apóstolos (At 28.31). Talvez o mensageiro algemado agora também pense apenas: independentemente de como acabar seu processo, Cristo sempre será glorificado por meio dele, com toda a “publicidade”. Contudo, talvez seu raciocínio ainda seja determinado pelo “não ser envergonhado”: independentemente de como continuar sua situação, ele testemunhará de Cristo com clareza e ousadia, engrandecendo-o dessa maneira. Nosso termo “franqueza” ainda permite expressar melhor um pouco dos dois aspectos disso.

A glorificação de Jesus acontece “em meu corpo”. Afinal, é seu corpo que agora traz as algemas, é seu corpo que Nero pode mandar matar. No entanto, igualmente seria seu corpo, em caso de soltura, que novamente teria de suportar todas as agruras das peregrinações, do trabalho manual para o sustento da vida e do serviço de mensageiro. Paulo não era – como a maioria de nós no cristianismo! – um “platônico”, que somente valorizava “a alma” e desprezava o corpo como insignificante ou até mesmo “mau”. Naturalmente também ele sabe que o pecado deturpou justamente o corpo, podendo escravizá-lo: o corpo está “morto por causa do pecado” (Rm 8.10). Ele é um “corpo de humilhação” (Fp 3.21). Por isso é preciso mantê-lo de rédeas curtas (1Co 9.27), as “práticas do corpo” têm de “ser mortificadas por meio do Espírito” (Rm 8.13). No entanto, tudo isso na verdade ainda não significa considerar o corpo como mero “invólucro” da “alma” que seria a única importante. Paulo pensava em termos bíblicos e via com sobriedade e clareza o quanto nossa vida ativa está totalmente condicionada ao corpo e carece dele. Por essa razão ele convocou os romanos a ofertar como sacrifício certo para Deus não os “corações” ou as “almas”, mas seus “corpos” (Rm 12.1). Da mesma forma tem consciência em sua própria vida de que a glorificação de Jesus acontece “em” seu corpo ou, como novamente podemos traduzir aqui o en grego, “por meio de” seu corpo. Esse corpo “insignificante”, muitas vezes tão precário e maltratado, é o meio da glorificação de Jesus – que verdade!

Isso ocorre independentemente do desfecho do processo, tanto no caso de soltura como no caso de execução, “quer pela vida, quer pela morte”! Porque o “engrandecimento do Cristo” concede um alvo de vida que também está radicalmente acima dos contrastes que nossa existência pode enfrentar. Todos os demais alvos de vida, mesmo os mais intelectuais e nobres, qualquer outro sentido de vida, até mesmo um “cristão”, depende de nossa situação. Até mesmo quando considero que o alvo e sentido de minha vida é servir aos enfermos e miseráveis sendo diaconisa, uma enfermidade precoce simplesmente poderá desmantelar esse sentido de vida. Há somente um alvo que jamais me poderá ser tirado, um alvo que posso perseguir sendo sadio ou enfermo, prisioneiro ou livre, vivente ou moribundo: “que Cristo seja engrandecido em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte”. Em vista desse poderoso alvo a pergunta sobre o desfecho do processo perde sua constrangedora relevância.

21 Na sequência aparece aquela breve frase que se tornou uma das mais conhecidas de todo o NT. Inúmeras vezes ela foi recitada, inúmeras vezes cantada: “Jesus é minha vida, na morte hei de vencer” [HPD, nº 300, de Melchior Vulpius, 1609]. Justamente essas frases, porém, são particularmente ameaçadas e perigosas, de forma que devemos ouvi-las de forma completamente nova, a fim de passar por cima da habitual meia-compreensão e dos valores meramente orientados pelo sentimento. Nessa frase (assim como em todo o trecho) chama a atenção a marcante brevidade da linguagem, que exclui todos as dimensões sentimentais. A complexidade da tradução fornece uma impressão precária disso. Diversos aspectos de fato são difíceis de traduzir. Na palavra “viver, o grego faz diferença entre o verbo substantivado e o substantivo derivado do verbo, da mesma maneira como nós dizemos “o correr” e “a corrida”, “o cantar” e “o cântico”. Em “viver”, portanto, precisamos formular de forma análoga. Aqui nesta frase Paulo usa o verbo substantivado com artigo: “o viver”, ou seja, a atividade de viver, e não o substantivo mais abstrato “a vida” como um fenômeno existente. Por isso a frase de Paulo deve ser entendida de forma muito mais ativa e vital do que geralmente fazemos. Precisamos lê-la exatamente como a ouvimos, p. ex., a respeito de outra pessoa: a vida dela foi desenhar e pintar. Por isso, “para mim” também aparece enfaticamente na frente no texto grego. Não sei de que consiste a vida de outros, e isto tampouco me importa agora - para mim ela é “Cristo”. A frase tem ainda outro significado diferente do conhecido hino fúnebre. Cumpre perguntar enfaticamente se aqueles que, assustados diante do esquife, se refugiam no consolo “Jesus é minha vida”, na verdade também são capazes de repetir a frase de Paulo: “Viver para mim significa Cristo”. Não obstante, apenas quando esta primeira parte puder ser afirmada como singela realidade, também a segunda parte se torna verdade: que “morrer” significa “lucro”. Com que facilidade caímos no chavão devoto! Quem experimenta com o coração trêmulo quanto “prejuízo” o morrer lhe traz talvez esteja muito mais próximo da verdade e seja bem mais preferido por Deus! Em sua amarga aflição poderá encontrar o verdadeiro caminho para Cristo, e também terá o privilégio de viver de tal maneira para Cristo que o morrer se torna autêntica e sinceramente “lucro”.

Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.

Enquanto Paulo estava prisioneiro à espera do juízo devia enfrentar uma incerteza absoluta sobre seu destino de vida ou morte. Mas era-lhe indiferente. "Para mim", diz em sua famosa frase "o viver é Cristo". Para Paulo Cristo marcava o começo de sua vida. Aquele dia no caminho a Damasco foi como se Paulo tivesse nascido de novo e tivesse começado a viver uma vida inteiramente nova. Para Paulo, Cristo tinha sido a continuação da vida, não tinha havido um só dia em que tivesse vivido fora de sua presença e nos momentos de temor Cristo tinha estado com ele para lhe infundir ânimo (Atos 18:9-10). E para Paulo, Cristo era o fim da vida, pois esta o conduzia à sua presença eterna. Para Paulo Cristo era a inspiração da vida: significava o poder dinâmico e impulsor de sua existência. Cristo lhe tinha encomendado a tarefa de sua vida porque o tinha feito apóstolo e o tinha enviado como evangelista aos gentios. Cristo lhe tinha infundido fortaleza para a vida, pois a graça suficiente de Cristo era a que se aperfeiçoava em sua fraqueza. E Cristo era para ele a recompensa da vida, porque para Paulo a única recompensa que podia conceber era uma comunhão cada vez mais estreita com seu Senhor. A vida desprovida de Cristo não tivesse significado nada para Paulo. Para ele Cristo era a vida mesma.

“Para mim”, diz Paulo, “o morrer é lucro”. A morte é só a porta de entrada a uma presença mais próxima de Cristo. Há passagens em nas quais Paulo parece considerar a morte como um sonho do qual os homens serão despertados em alguma ressurreição geral futura (1 Coríntios 16:51-52; 1 Tessalonicenses 4:14, 16). Mas no momento em que percebia o sopro da morte, Paulo pensava nela não como o pegar no sono, mas sim como a entrada imediata à presença de seu Senhor. Se cremos em Jesus Cristo a morte é para nós união e reunião: união com Cristo e reunião com aqueles que amamos e dos que enquanto isso nos tínhamos separado.

BARCLAY. William. Comentário Bíblico. FILIPENSES. pag. 36.

Enquanto o desejo pessoal do apóstolo era de partir para estar com Cristo, a necessidade da igreja o convencia de que ele cedo seria libertado e continuaria trabalhando para o progresso dela na fé.

  1. Paulo cria que a presente oposição resultaria no bem porque os cristãos estavam orando. Como resultado, o Espírito de Jesus Cristo (o Espírito Santo, não um espírito cristão) concederia um suprimento abundante daquilo que fosse necessário para a emergência existente. Soteria seria melhor se tomada como libertação da prisão, embora muitos comentadores entendem-na num sentido mais amplo. Alguns julgam perceber uma citação de Jó 13:16 (LXX), e interpretam a esperança de vindicação de Paulo como descansando sobre a consciência que tinha de sua integridade (cons. Michael, in loc.)
  2. Apokaradokia, ardente expectativa, é uma palavra extraordinária, talvez cunhada pelo próprio Paulo. Literalmente significa olhar intensamente à distância com a cabeça estendida. A expectativa do apóstolo era dupla: para que ele não fosse envergonhado (isto é, desapontado com o fracasso do auxílio divino), e que Cristo fosse engrandecido (observe a substituição sensível da terceira pessoa passiva pela primeira pessoa ativa) no seu corpo (a esfera natural para a expressão externa do homem interior). A ênfase colocada sobre agora implica na proximidade da hora da crise. Quer pela vida, quer pela morte, não reflete indiferença da parte de Paulo sobre seu destino, mas a preocupação de que, em qualquer dos casos, Cristo seja honrado.
  3. A vida do próprio Paulo foi tão completamente absorvida pela pessoa e programa do seu Senhor que ele podia dizer, Porquanto para mim o viver é Cristo. Cristo era o resultado total de sua existência. O morrer é lucro porque na ausência das limitações da vida, a união com Cristo seria completamente realizada. Nenhum sentido de cansaço do mundo deve ser entendido nessas palavras.
  4. A falta de continuidade do versículo 22 reflete a perplexidade de Paulo. Das diversas possibilidades, a construção elítica – Se entretanto, (For-me concedido) o viver na carne, isto (resultará em) trabalho frutífero para mim – é a preferível. A escolha de carne em lugar de "corpo" enfatiza a natureza fraca e transitória da vida física. Paulo não se aventura a decidir entre as duas alternativas (neste contexto gnôrizô significa "tomar conhecidas as decisões de alguém"), mas prefere deixar a escolha com o Senhor.

MOODY. Comentário Bíblico Moody. Filipenses. pag. 10-11.

Fp 1.20,21 - Para aqueles que não creem em Deus. só resta a vida nessa terra; portanto, é natural que lutem pelos valores terrenos — dinheiro, popularidade, poder, prazeres e prestigio. Para Paulo, entretanto, viver significava desenvolver valores eternos e falar aos outros a respeito de Cristo, pois somente Ele poderia fazer com que entendessem a vida sob a perspectiva da eternidade. Todo o propósito de Paulo nesta vida era falar corajosamente a respeito de Cristo e se tornar semelhante a Ele. Assim Paulo poderia dizer consistentemente que morrer era melhor do que viver, porque a morte o livraria dos problemas terrenos e ele veria Cristo face a face (1 Jo 3.2. 3) Se você não está pronto para morrer, então não está pronto para viver. Procure ter certeza de seu destino eterno. Só assim será livre para servir — dedicando sua vida ao que realmente importa, sem medo da morte.

APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de estudo. Editora CPAD pag. 1663.

  1. Paulo supera o dilema.

“Mas de ambos os lados estou em aperto” (1.23). Na ARA, a palavra traduzida para “aperto” é “constrangido”. A palavra “aperto” dá a ideia de estreitamento de duas ideias: viver ou morrer. Entre viver ou morrer, o apóstolo diz mais: “tendo desejo de partir e estar com Cristo”. A esperança do crente em Cristo é que, quando morrer fisicamente, possa estar com Cristo. Não há purgatório para o crente fiel, nem mesmo para o infiel. Os que morrem vão para o lugar provisório (Sheol-Hades), que é a morada das almas e espíritos dos mortos. Os justos vão para o descanso do Paraíso, e os ímpios vão para “o Lugar de tormento”, e todos ficarão nesses lugares até a ressurreição de seus corpos. Os justos em Cristo ressuscitarão primeiro por ocasião do Arrebatamento da Igreja de Cristo e os ímpios só ressuscitarão no Juízo Final.

O apóstolo Paulo declara que estava em aperto, ou seja, pressionado por dois pensamentos em sua mente: morrer para estar com Cristo, ou continuar vivo, para completar a obra ainda por fazer em favor da igreja.

1.24 — Neste versículo, Paulo entende a ideia de que “ficar na carne” seria mais necessário, por amor da igreja, isto é, continuar vivo.

1.25,26 — Paulo entende que se fosse libertado da prisão teria a oportunidade de rever todos os irmãos filipenses e gozar da sua hospitalidade e amor. Tudo o que Paulo mais desejava naquele momento era estar livre para retornar a Filipos e ver a igreja de perto, bem como regozijar-se na fé daqueles irmãos.

Nesses versículos, o apóstolo Paulo resolveu seu dilema em relação à igreja e declara que o seu desejo de estar com Cristo foi superado pela obrigação e o amor de servir aos irmãos. Paulo estava pronto para continuar trabalhando, mesmo tendo que enfrentar oposições dos romanos, de falsos cristãos, além das privações materiais e físicas, desde que tudo isso contribuísse para o progresso do evangelho e do crescimento espiritual da igreja (vv. 25,26).

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 45-46.

22s Como isto poderá suceder? Não por meio de quaisquer artifícios, não por meio de um heroísmo qualquer, de disposição pessoal para morrer. Isso sempre resultaria em lutas que certamente falhariam no momento decisivo. É algo que só existe na forma de um presente libertador e soberano, no exato momento em que o viver para nós passa a ser Cristo. Porque então o morrer para nós se tornará um “partir” que nos conduz de todas as aflições, lutas, sofrimentos da atual existência para o “estar junto de Cristo”. É evidente que para Paulo esse “estar com Cristo” não é o alvo último e essencial de sua expectativa de futuro! Afinal, ele não poderia negar subitamente não apenas o que expôs tão poderosamente em 1Ts 4.13-18 e 1Co 15.35-57, mas também o que ele acaba de elaborar na presente carta em Fp 1.6,10s e sobretudo em Fp 3.20s. A explicação eventual de que, por causa do não retorno de Jesus e em vista da proximidade de sua própria morte, Paulo teria sido forçado a voltar-se agora para a esperança pela imortalidade puramente pessoal é totalmente impossível em vista de Fp 3.20s. Do mesmo modo, porém, a presente passagem também é violada pela sistemática teológica que considera como doutrina do NT a morte total do ser humano todo, quando leva a supor que nas entrelinhas o texto poderia insinuar que “tenho o desejo de partir e (mais tarde, quando da ressurreição dos mortos) estar com Cristo.” Sistematizações precipitadas sempre são negativas diante do NT, e não competem ao exegeta. Afinal, Paulo fala de um “lucro” trazido pelo morrer, e não apenas pelo retorno do Senhor. O desejo por ele testemunhado une tão estreitamente o “partir” e o “estar com Cristo” que não temos o direito de dissociá-los intercalando um longo tempo de morte ou de sono da alma. Assim a passagem perderia seu vigor peculiar no contexto geral das afirmações. Somente podemos constatar que a esperança de Paulo era mais rica do que nós queremos admitir com nossa sistemática, seja ela qual for. Com pleno vigor ele preservou a expectativa da parusia também quando escreveu aos filipenses. Considerou como alvo pleno somente a parusia e a perfeição da igreja que ela concretizará, inclusive mediante a dádiva de um novo corpo. Mas ao mesmo tempo ele era tão intensamente ligado à sua vida com Jesus que nem mesmo o morrer físico não poderia afastá-la, tão-somente aprofundando-a. Então ele estará “com Cristo” de um modo que até o momento ainda não era possível neste mundo, embora aqui também já esteja “em Cristo”. Por isso o morrer é um “lucro” pessoal para ele, sério e não-artificial, de forma que ele realmente podia ansiar de coração por essa “partida”. É capaz de afirmar com uma sucinta e forte frase intraduzível: “porque em muito melhor (seria isso!)”.

No entanto, Paulo não era nenhum individualista moderno! De forma alguma partilhava da ideia: “Já que estarei em situação tão mais favorável, posso tranquilamente deixar de lado a expectativa de futuro para as demais coisas”. Para ele importa a igreja, a consumação da obra de Jesus, a honra de Deus, a renovação de toda a criação! E este alvo não será ajudado em nada se Paulo, depois de morto, tiver recebido o presente de estar com Cristo e viver em condição muito melhor. Por isso Fp 1.21 e 3.20s permanecem consistente e claramente lado a lado, de modo que não temos a menor razão para atenuar ou modificar uma afirmação em favor da outra. Igualmente teremos de nos acostumar com o fato de que há etapas na ligação da vida com Jesus que não podem ser contrapostas uma à outra, porque cada uma possui seu próprio valor pleno. Há um “crer em Jesus”, há um “estar em Cristo” nesta terra, há um “estar com Cristo” após a morte, e há aquele “estar com o Senhor para todo o tempo” na consumação da igreja. Até mesmo neste ponto nosso olhar contempla mais alguns estágios na palavra da Escritura: “herdar tudo com Cristo”, “governar com Cristo como rei” em uma nova criação. Tudo o que Paulo fez e vivenciou nesta carne aconteceu “em Cristo”. Mas, por mais maravilhoso que isso seja, ainda não é “tudo”. Redimido dos labores, das dores e lutas de sua existência terrena, ele estará “com Cristo” de modo diferente e mais concreto. Porém nem mesmo isso ainda não é “tudo”, ainda não é o último e supremo estágio. Junto com a igreja também ele aguarda ardentemente a vinda de Jesus Cristo, o Senhor e Redentor, dos céus, para que transforme nosso corpo de humilhação em corpo igual ao de sua glória segundo o poder eficaz com que ele também é capaz de submeter o universo (Fp 3.20s).

Não precisar mais temer a morte, ansiando coerente e livremente pela partida, diante da qual todos em geral se assustam e atemorizam - isso é algo grandioso. Mas justamente agora Paulo revela algo ainda maior. Sua atitude permanece totalmente livre de qualquer anseio sentimental pela morte, como diz até mesmo o coral “Vem, doce morte” de J. S. Bach. Se lhe for atribuído “permanecer na carne”, isso para ele “significa fruto do trabalho”. Não sabe, agora, o que escolher, até mesmo no aspecto concreto do desfecho de seu processo. Ambos os desejos são intensos em seu coração, e ambos são em si puros e bons. Pode orar assim: que venha agora a sentença de morte, conduzindo-me de todo o enorme fardo de minha vida (cf. 2Co 11.23-33) para uma unificação mais profunda com Cristo! Concedendo-me a absolvição, pretendo produzir ainda mais frutos da obra! – Também essa prece ele pode e tem o direito de elevar a Deus. Que oração será essa, então? Uma coisa se torna decisiva para ele: “Permanecer na carne é mais necessário por vossa causa” (literalmente “continuar na carne”, como nosso “continuar vivo”). Com isso sua decisão foi tomada. Precisa acontecer aquilo que é “mais necessário”, ou, neste caso, é preciso rogar pelo “mais necessário”.

25s Talvez a frase subsequente “E confiando nisso estou certo…” não vise dizer mais do que exatamente isso: agora sei o que escolher, pelo que suplicar. Assim ele afirma tão-somente que foi libertado do dilema do quê desejar, sem gerar expectativas específicas para o desfecho real do processo. Conforme o teor das palavras, porém, é mais plausível supor que Paulo tinha a confiança de que também o Senhor levaria em conta o “mais necessário” e por consequência certamente concederia a Paulo que ele possa “permanecer”. Então “permanecerá com todos eles”. Certamente Paulo está olhando além de Filipos para todas as igrejas que precisam dele com tanta urgência. Mas em uma carta autêntica o autor dirige-se inicialmente apenas aos destinatários específicos. Por isso também Paulo continua: “Para o vosso progresso e alegria da fé, a fim de que vossa glorificação transborde em Cristo Jesus quanto a mim, por meio de minha presença de novo convosco.” Precisamos unir “progresso” e “alegria” a fim de relacionar o genitivo “da fé” com ambas as expressões. Se Paulo for liberto, não se aposentará merecidamente depois desses longos anos de sofrimento - seu trabalho continuará! Esse trabalho possui um alvo claro: o estado vigoroso e vivo da fé das igrejas. Paulo estava livre de qualquer falsa “humildade” que somente lamentaria sua insuficiência e imprestabilidade. Ele sabia que também seu trabalho “não é em vão no Senhor” (1Co 15.58). Por isso seu trabalho futuro propiciará um novo progresso na fé das igrejas, inclusive a dos filipenses. Como sua fé se tornará alegre quando virem o apóstolo a salvo de tais perigos! Paulo já vê diante de si como será a visita a Filipos depois de todos esses anos. Então haverá muito entusiasmo. As devidas ações de graça não serão prestadas apenas com medidas litúrgicas, mas então a “glorificação em Cristo Jesus” “transbordará” em Paulo, em tudo o que Jesus faz a Paulo e também concedeu à igreja por meio dele. Essa jubilosa alegria de fé de uma igreja inteira é mais importante e grandiosa do que a libertação de uma única pessoa das aflições desta vida e sua partida para o ambiente de paz do Senhor. Paulo tem certeza de que Deus concederá essa opção mais importante e mais grandiosa.

Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos Filipenses. Editora Evangélica Esperança.

Como resultado, Paulo vacilava entre dois desejos. "Estou posto num estreito", diz. A palavra que Paulo usa, senecomai, e é a que se aplicaria a um viajante que está num desfiladeiro estreito e rochoso com um muro de rocha de um lado e outro do outro, impossibilitado de se desviar do caminho e tendo como única alternativa a de seguir adiante. No que respeita a si mesmo, teria desejado partir para estar com Cristo; desejaria permanecer nesta vida somente por seus amigos e o que pudesse significar para eles. E então repensa; a escolha não é dela mas sim de Deus e não lhe é dado estabelecer o que fará porque só pode fazer o que Deus quiser.

"Tendo desejo de partir", diz Paulo numa frase muito gráfica. A palavra que usa para partir é analyein. Atrás desta palavra se perfilam três figuras.

(1) É a palavra que se usa para expressar a ideia de levantar acampamento, desatar as cordas das tendas, tirar as estacas e prosseguir a marcha. A morte é um ficar em marcha. Cada dia de marcha é uma jornada mais perto de nosso lar até que enfim se levanta pela última vez o acampamento neste mundo e se muda pela residência permanente no mundo da glória.

(2) É também a palavra que se usa para soltar amarras, levantar âncoras e fazer-se ao mar. Morrer é um fazer-se ao mar, lançar-se ao profundo, empreender essa viagem rumo ao porto eterno e para com Deus.

(3) É a palavra que se aplica à solução dos problemas. A morte traz as soluções da vida. Há um lugar em que todas as perguntas da terra receberão resposta, onde os problemas torturantes encontrarão uma solução, onde o quebrado será reparado e o perdido achado e, finalmente, onde os que mantiveram a esperança poderão compreender.

Paulo tem a convicção de que "ficará" e "permanecerá" com eles. Aqui, em grego, há um trocadilho impossível de reproduzir. Para "ficar" usa-se a palavra menein e para "permanecer" paramenein. A questão é a seguinte. Menein significa simplesmente permanecer com; mas  paramenein (para significa ao lado de) é aguardar ao lado de uma pessoa, estando preparado para ajudar em todo momento. Paramenein não só significa aguardar mas sim um aguardar disposto, e sempre capaz de ajudar. Paulo deseja viver não por si mesmo, mas por aqueles aos que, vivendo, pode continuar ajudando e servindo.

Assim, pois, se Paulo não pode ir vê-os de novo, os filipenses terão nele razões para glorificar-se em Jesus Cristo. Em outras palavras, poderão olhar a Paulo e ver nele o que Cristo pode fazer por um homem que se entrega totalmente a Ele. Paulo será um exemplo luminoso de como por meio de Cristo um homem pode enfrentar o pior e sair ileso e impertérrito. É o dever de todo cristão confiar e viver de tal maneira que os homens vejam o que Cristo pode fazer por aquele que lhe entrega sua vida.

BARCLAY. William. Comentário Bíblico. FILIPENSES. pag. 37-38.

  1. Ora, de um e outro lado estou constrangido. Synekomai (estou em apuros) é uma expressão mais forte significando "estar ligado". Com a adição de um e outro lado significa "tolhido e pressionado de ambos os lados". Contemplando a possibilidade da libertação ou da espada, Paulo sente-se tolhido de tomar qualquer uma das direções. Seu desejo pessoal é partir (analyô descreve um navio levantando a âncora ou um soldado saindo bruscamente do acampamento; é um eufemismo para "morrer") e estar com Cristo. Isto seria incomparavelmente melhor – um comparativo duplamente reforçado ("uma ousada acumulação", Moule, op. cit.,), expressando a excelência superior de se estar com Cristo.

Filipenses (Comentário Bíblico Moody) 12

  1. Mas a obrigação maior é continuar prosseguindo na presente vida. A preposição composta com o verbo simples – epi-menô, dá-lhe o pensamento especial de persistência. Desejo pessoal dá lugar à necessidade espiritual.
  2. E, convencido disto (isto é, tudo o que foi dito nos vs, 19-24), Paulo sabe (convicção pessoal, não visão profética) que ele permanecerá com todos vós para o vosso progresso. O resultado será o gozo da fé (os dois substantivos dificilmente podem ser separados). Da fé (objetivamente – o credo, e subjetivamente – a apropriação do crente).
  3. Afim de que assinala um propósito específico – dando-lhes um abundante motivo de glória. Em Cristo é a esfera de sua glória. Quanto a mim é o motivo, explicado pela frase seguinte, pela minha presença de novo convosco.

MOODY. Comentário Bíblico Moody. Filipenses. pag. 11-12.

A crise de Paulo (Fp 1:20-26)

Por causa das cadeias de Paulo, Cristo tornou-se conhecido (Fp 1:13), e por causa dos críticos de Paulo, Cristo foi pregado (Fp 1:18).

Mas por causa da crise de Paulo, Cristo foi engrandecido! (Fp 1:20). Havia a possibilidade de Paulo ser considerado traidor de Roma e de ser executado. Ao que parece, seu julgamento preliminar fora favorável, mas o apóstolo ainda não recebera o veredicto final. Mas o corpo de Paulo não lhe pertencia, e seu único desejo (resultante de sua determinação) era engrandecer a Cristo em seu corpo.

Cristo precisa ser engrandecido? Afinal o que um simples ser humano pode fazer para engrandecer o Filho de Deus? Considere, por exemplo, as estrelas, muito maiores que o telescópio, mas bem distantes. O telescópio as "aproxima" de nós. O corpo do cristão deve ser um telescópio que diminui a distância entre Jesus Cristo e as pessoas.

Para muitos, Cristo é uma figura histórica distante e nebulosa que viveu há séculos. Mas quando os incrédulos observam o cristão passar por uma crise, podem ver Jesus mais de perto. Para o cristão comprometido, Cristo está conosco aqui e agora. Enquanto o telescópio aproxima o que está distante, o microscópio amplia o que é pequeno. Para o incrédulo, Jesus não é grande.

Outras pessoas e coisas são muito mais importantes do que ele. Mas, ao observar o cristão passar por uma experiência de crise, o incrédulo deve ser capaz de enxergar a verdadeira grandeza de Jesus Cristo. O corpo do cristão é uma lente que torna o "Cristo pequeno" dos incrédulos extremamente grande e o "Cristo distante", extremamente próximo.

Paulo não temia a vida nem a morte! De uma forma ou de outra, desejava engrandecer a Cristo em seu corpo. Não é de se admirar que tivesse alegria!

Paulo confessa que se encontra diante de uma escolha difícil. Para o bem dos cristãos em Filipos, era necessário que ele permanecesse vivo, mas seria muito melhor partir e estar com Cristo. O apóstolo chega à conclusão de que Cristo permitiria que ele vivesse não apenas com o propósito de "[contribuir] para o progresso do evangelho" (Fp 1:12), mas também "para o [...] progresso e gozo da fé [dos filipenses]" (Fp 1:25).

Desejava que desbravassem novas áreas de crescimento espiritual. (A propósito, Paulo admoestou Timóteo, o jovem pastor, a ser um pioneiro em novos territórios espirituais na própria vida e ministério. Ver 1 Tm 4:15, em que o termo "progresso" é usado com o mesmo sentido.)

Paulo era um homem e tanto! Dispôs-se a adiar sua ida para o céu a fim de ajudar os cristãos a crescerem e a ir para o inferno a fim de ganhar os perdidos para Cristo! (Rm 9:1-3).

É evidente que Paulo não tinha medo da morte, pois significava apenas "partir". Esse termo era usado pelos soldados e se referia a "desarmar a tenda e prosseguir viagem".

Que retrato da morte do cristão! A "tenda" em que vivemos é desarmada pela morte, e o espírito vai para o lar, viver com Cristo no céu (ver 2 Co 5:1-8). Os marinheiros também usavam essa palavra com o sentido de "soltar as amarras da embarcação e pôr-se a navegar". Lorde Tennyson usou a mesma imagem para a morte em seu conhecido poema "Cruzando a Barra" [Crossing the Bar].

Todavia, partir também era um termo burocrático e descrevia a libertação de um prisioneiro. O povo de Deus encontra-se preso às limitações do corpo e às tentações da carne, mas a morte os libertará dessa servidão.

Ou, ainda, serão libertos quando Cristo voltar, se isso acontecer antes de morrerem (Rm 8:18-23). Por fim, partir era um termo usado pelos agricultores para se referir ao ato de remover o jugo dos bois. Paulo havia levado o jugo de Cristo, que era suave (Mt 11:28-30), mas também havia carregado inúmeros fardos em seu ministério (ver alguns deles em 2 Co 11:22 -12:10). Partir e estar com Cristo significava colocar de lado todos os fardos, pois seu trabalho na Terra estaria consumado.

Em todos os sentidos, não há coisa alguma que prive uma pessoa determinada de sua alegria. "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1:21). Maltbie Babcock, o conhecido músico e hinólogo do século XIX, disse: "A vida é aquilo para que estamos vivos".

WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 88-89.

Fp 1.23 - Paulo se sentia em aperto de todos os lados, como uma cidade sitiada sem esperança de ver-se livre de sua aflição. Ele estava dividido entre a possibilidade de encontrar-se com o Senhor e a sua paixão por ministrar aos filipenses. Neste versículo, o desejo significa mais do que uma vontade; indica uma forte ânsia. Em relação à profissão de Paulo como fabricante de tendas, o termo partir quer dizer levantar acampamento ou desfazer a tenda com o intuito de preparar-se para viajar para outro lugar.

Paulo via a morte não como o fim da vida, mas como um momento de transição de um lar para outro. Em sua mente, não havia uma comparação real entre a vida e a morte porque esta era muito melhor (literalmente, “muito mais superior”).

Jesus disse que prepararia um lugar para nós (Jo 14). Esse lugar já está preparado na casa do Pai.

Fp 1.24 - A palavra grega traduzida como mais necessário contrabalança a expressão muito melhor do versículo 23. A ideia contida no verbo ficar é permanecer completamente ou perseverar. E uma forma intensiva do termo grego usado para permanecer no versículo 25. O fato de que Deus queria que ele continuasse a viver era, de acordo com Paulo, totalmente necessário para o crescimento espiritual dos filipenses (v. 25).

Fp 1.25 - Proveito vosso. Paulo não estava satisfeito com o fato de os cristãos filipenses serem simplesmente salvos, mas queria que eles progredissem rumo à maturidade em Cristo. Por isso, sentia a responsabilidade de continuar a ensinar-lhes.

Fp 1.26 - A vossa glória [...] por mim. Paulo sabia que, uma vez que os filipenses o amavam muito, eles ficariam contentes em ver que Deus havia preservado a vida dele na prisão, e que o apóstolo estava certo de que o ministério com eles continuaria. O significado literal de glória é ostentação ou exaltação. A glória dos cristãos de Filipos aumentaria drasticamente por causa da obra do Senhor.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 525.

 

 

 

 

 

                           COMENTARIO BIBLICO DE FILIPENSES N.1

 

 

 

 

COMENTÁRIO

INTRODUÇÁO

As três mais belas cartas do apóstolo Paulo, dentre as treze, as cartas aos Efésios, aos Filipenses e aos Colossenses se destacam pela lucidez dos ensinamentos doutrinários e pela alegria do Espírito que o fazia superar todas as dificuldades. Acrescente-se a Carta a Filemom às três outras cartas escritas na prisão. Esta carta tinha um caráter bem pessoal com algumas inserções doutrinárias quanto ao trato social com escravos e senhores. Naturalmente, o contexto social e político da época permitia a compra e venda de escravos serviçais. Uma vez que Filemom tornou-se um ardoroso cristão, seu comportamento social mudou no trato com as pessoas. As Cartas são conhecidas como “cartas da prisão” porque foram escritas quando Paulo esteve preso em Roma nos anos 62 e 63 d.C.

A Cidade de Filipos

Filipos é o nome da cidade da Macedônia em homenagem a Filipe, pai de Alexandre, o Grande. Lucas descreveu Filipos como a primeira cidade da Macedônia, e sua localização estratégica tornou-a um posto de fronteira militar de Roma, vindo a ser uma das principais rotas entre a Europa e a Ásia. De pequena cidade antiga por nome Krenidês, significando lugar de fontes, foi transformada em um ponto estratégico para o Império de Roma (At 20.6) quando Filipe tomou posse da região e dominou a cidade. Filipos, portanto, tornou-se uma distinta colônia romana, e as colônias romanas eram administradas por magistrados, identificados como pretores (At 16.22,35,36,38).

A Macedônia

A Macedônia era um território do antigo reino da península balcânica (Balcãs), que tinha limites com a Tessália ao sul e ao este e nordeste com a Trácia. A Macedônia fazia parte dos domínios gregos pelas conquistas militares de Filipe II, todavia, depois que este foi assassinado, seu filho Alexandre III — identificado como Alexandre, o Grande — herdou o domínio grego-macedônico. A partir desse domínio, Alexandre, o Grande, partiu para a conquista da parte ocidental da Ásia e do Egito. Porém, com a divisão do império e a sua morte em 323 a.C., a Macedônia tornou-se outra vez um reino separado. Nos anos 221-179 a.C., os romanos fizeram guerra a Filipe e o venceram, mas os descendentes de Filipe reagiram, porém não conseguiram se impor sobre os romanos. A Macedônia tornou-se uma base de expansão do Império Romano. Nos novos tempos depois de Cristo, o cristianismo chegou à Macedônia nas cidades de Tessalônica, Bereia, Filipos e outras (ou colônias). Portanto, Paulo e seus companheiros chegaram a Filipos aproximadamente entre os anos 50 e 51 d.C.

Segundo o registro resultante das escavações arqueológicas no local da cidade de Filipos, os arqueólogos descobriram que Filipos era uma cidade idólatra com vários deuses gregos e romanos, além de várias divindades orientais, como Baal e Astarote e outros. Por não haver muitos judeus na cidade, não havia sinagoga judaica. Com as guerras constantes, a cidade foi sendo invadida e destruída perdurando o que restou da cidade de Filipos até a Idade Média, e então os turcos a destruíram totalmente, restando apenas ruínas arqueológicas com alguns vestígios do passado.

Como Tudo Começou

A mensagem do evangelho chegou a Filipos, na Macedônia, em 51 ou 52 d.C., conforme está registrado em Atos 16.6-40. Paulo e Silas estavam na segunda viagem missionária pela Asia Menor (hoje Turquia), quando, tendo desembarcado no porto de Trôade (ou Troas), Paulo foi surpreendido por uma visão de noite “em que se apresentava um varão da Macedônia e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos” (At 16.9). Paulo não teve dúvida de que era uma visão de Deus e, por isso, partiu para a Macedônia. Desembarcou no porto de Neápolis e viajou para Filipos.

Os Primeiros Convertidos

Em Filipos, Paulo começou a pregar a Cristo quando uma mulher vendedora de púrpura, chamada Lídia, que era da cidade de Tiatira, abriu o coração para a mensagem de Paulo e o recebeu em sua casa (At 16.14,15). Havia poucos judeus na cidade e gente de outras nações. Filipos era, de fato, uma cidade cosmopolita. Nas primeiras semanas de evangelização, uma vez que não havia uma sinagoga em Filipos, Paulo e seus companheiros desciam à beira do rio no dia de sábado onde se reuniam algumas mulheres e lhes pregava a Cristo. Entre os primeiros convertidos ao cristianismo aparecem o carcereiro e sua família, que foram tocados com o testemunho de Paulo e Silas na prisão, os quais, estando com os corpos feridos, cantavam ao Senhor (At 16.22-34).

O Primeiro Incidente

O modo incisivo de Paulo pregar o evangelho e apresentar a Cristo como Salvador e Senhor acabou por provocar a ira dos comerciantes de Filipos mediante um episódio de libertação de uma jovem adivinha que era escrava, cuja adivinhação lhes dava lucro. Paulo percebeu que se tratava de um espírito imundo que envolvia aquela jovem e expulsou o demônio dela. Uma vez liberta daquele espírito, a jovem não tinha mais o poder de adivinhar, o que provocou grande ira contra Paulo e Silas (ou Silvano) (At 16.16). Os senhores da escrava, percebendo que os lucros caíram, acusaram os dois apóstolos de interferirem em seus direitos de propriedade. Por isso, levaram-nos aos magistrados da cidade e os dois foram presos. Na prisão, depois de açoitados, Paulo e Silas cantavam ao Senhor. Antes, acusados ante os magistrados da cidade, para não serem apedrejados e mortos, os dois apelaram para o fato de que eram cidadãos romanos e não podiam ser tratados daquele modo. Lucas descreveu o episódio que culminou com a conversão do carcereiro da cidade, depois de um terremoto localizado naquele lugar.

A semente do evangelho foi plantada na cidade e, depois de algum tempo, os primeiros convertidos, a partir de Lídia, formaram a igreja na cidade.

A Segunda e a Terceira Viagem Missionária

Alguns eventos anteriores ao envio da Carta aos Filipenses indicam que Paulo completou sua segunda viagem missionária passando por Tessalônica, Bereia, Atenas e Corinto (At 17.1-23) a fim de visitar as igrejas ali estabelecidas.

Quando empreendeu a terceira viagem missionária, visitando as igrejas formadas em seu ministério, Paulo foi para Efeso, que era outra igreja formada em sua evangelização (At 19.1-40). Então, dessa feita, ele voltou para a Macedônia (At 20.1), quando visitou a igreja em Filipos, da qual recebia ajuda de sustento. No fim de sua terceira viagem missionária, Paulo foi a Jerusalém, onde foi preso (At 21.17- 23.30). Transferido de Jerusalém para Cesareia, onde esteve preso por dois anos (At 23.31; 26.32), foi posteriormente enviado para Roma, onde ficou preso por mais dois ou três anos. Foi nesse período de sua prisão que Paulo escreveu algumas de suas cartas entre 61 e 64 d.C., às igrejas de Éfeso, Colossos, Filipos e a Filemom.

A Autoria da Carta

Não há dúvidas quanto à autoria da Carta, porque os elementos autobiográficos colocados na Carta a tornam genuína e autêntica. Discute-se, antes de tudo, o local onde foi escrita, mas é indiscutível a autoria de Paulo. A Carta tem um caráter bem pessoal da parte de Paulo quando cita nomes de pessoas ligadas a ele de modo muito carinhoso. A autoria tem o testemunho dos pais da igreja que no século II citaram a Carta de Paulo aos Filipenses, tais como Poli- carpo e outros. Num documento histórico da primeira metade do segundo século, está escrito que Policarpo, bispo da igreja, escreveu aos filipenses lembrando as cartas de Paulo.

Data e Lugar da Composição da Carta

Tradicionalmente, tem-se datado a Carta em 61 ou 62 d.C., visto que essa data se situa no período da prisão de Paulo em Roma por dois anos (At 28.16-31). Quando Paulo se refere “à guarda pretoria- na” (1.13) e “à casa de César”, subentendem-se como elementos fortes de que a Carta aos Filipenses foi escrita durante o período de sua prisão em Roma. Os argumentos que colocam dúvidas sobre o lugar em que foi escrita a carta ficam desprovidos de provas. Paulo estava à disposição da justiça romana e, por isso, foi-lhe permitido morar em casa alugada desde que estivesse sob a guarda de um soldado.

Propósito da Carta

Um membro da igreja chamado Epafrodito, crente fiel e amigo de Paulo, visitou o apóstolo em sua prisão em Roma, levando uma oferta da igreja de Filipos (Fp 4.18). Epafrodito foi acometido de uma enfermidade ao chegar a Roma e quase morreu (Fp 2.27), mas recuperou-se e, quando se preparava para voltar a Filipos, Paulo resolveu escrever a Carta. Esta tinha por objetivo exortar e animar os filipenses, bem como alertá-los sobre boatos mentirosos a seu respeito lançados por falsos obreiros que procuravam minar a unidade da igreja e a sua lealdade ao apóstolo. Um dos propósitos de Paulo era agradecer a oferta enviada para ajudá-lo no seu sustento durante o tempo de sua prisão. Mesmo estando prisioneiro e com a vida correndo risco de extermínio, Paulo demonstrou à igreja que havia um gozo em sua alma que o capacitava a superar todas as adversidades (Fp 1.4; 4.11-13).

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 13-18.

A igreja cristã de Filipe teve sua origem com os próprios esforços do apóstolo Paulo, durante a sua chamada segunda viagem missionária, conforme o registro histórico de Atos 16:12-40. Tendo ouvido o chamado místico «Passa à Macedônia e ajuda-nos» (Atos 16:9), Paulo alterou os seus planos tencionados de continuar labutando na Ásia Menor; e foi assim que nasceu a missão evangelista européia e a igreja cristã no continente europeu. Posto que a segunda viagem missionária tem sido datada entre 48 e 51 d.C., a visita à cidade de Filipos teria tido a necessidade de ocupar a porçãoinicial desse período.

Policarpo, em sua epístola aos Filipenses (3:2), indicou que o apóstolo dos gentios havia escrito diversas cartas para eles. Não temos maneira de saber quantas dessas cartas foram escritas por Paulo, porém tem sido quase universalmente aceito que nossa epístola neotestamentária aos Filipenses representa uma ou mais das cartas genuínas do apóstolo Paulo àquela comunidade cristã. (Ver mais abaixo, «Autoria», quanto à autenticidade dessa epístola escrita por Paulo; e ver o ponto intitulado «Integridade», acerca da discussão da possibilidade que temos na epístola aos Filipenses mais de uma epístola, que teria sido incorporada na formação da mesma).

Embora Paulo houvesse sido encarcerado e tivesse sofrido várias indignidades na cidade de Filipos, parece que esse apóstolo nutria afeição toda especial pelos membros da igreja cristã dali. A sua epístola aos Filipenses é a mais pessoal e espontânea de todas as missivas que conhecemos, saídas da pena de Paulo. Nessa epístola transparece um afeto que parece jamais ter sido perturbado por conflitos e disputas, especialmente acerca da questão legalista, o que se verifica em diversas outras das epístolas paulinas. Não obstante, podemos considerar a passagem de Fil. 3:1 e ss., que encerra uma advertência acerca dos perigos do legalismo. Ordinariamente, Paulo se mantinha independente das igrejas locais, do ponto de vista financeiro, provavelmente devido ao fato que anteriormente havia perseguido a igreja de Cristo, o que o levou a acreditar que não deveria servir de fardo para os crentes, mas antes, deveria prestar-lhes um serviço gratuito, abundante e voluntário. Não obstante, Paulo não rejeitou alguma ajuda financeira dos crentes de Filipos, mas recebeu, pelo menos por duas vezes, algum dinheiro, quando se encontrava na cidade próxima de Tessalônica. (Ver Fil. 4:10). Mais tarde, quando Paulo se encontrava aprisionado, os crentes filipenses se lembraram novamente do apóstolo, e, através de Epafrodito, um dos membros daquela igreja, uma vez mais lhe enviaram uma demonstração palpável de seu amor cristão por ele. Foi assim que, no retorno de Epafrodito a Filipos, o apóstolo lhes enviou a epístola aos Filipenses, a qual é, essencialmente, uma missiva de agradecimento; mas Paulo também se aproveitou do ensejo para dissertar sobre vários temas, que ele julgou serem benéficos aos seus leitores, segundo se depreende de Fil. 2:25-28.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag.755-756.

I – INTRODUÇÃO A EPISTOLA.

  1. A cidade de Filipos.
  2. Localização

Filipos ficava localizada na parte oriental da Macedônia, em uma planície a leste do monte Pangeus, entre os rios Estrimon e Nestos. Ficava perto do Gangites, um riacho de águas turbulentas, cerca de dezesseis quilômetros distante do mar. Isso posto, apesar de não ser um porto marítimo, visto que ficava relativamente perto do mar, lemos acerca de Paulo e seus companheiros, que<<•navegamos de Filipos•>> (Atos 20:6). Essa cidade ficava localizada em uma planície fértil, paralelamente à Via Inácia, não muito longe das minas de ouro que ficavam nas montanhas, mais ao norte. Esses fatores emprestavam grande importância estratégica à cidade.

II História e Localização geral.

Atos 16:12: e dali para Filipos que é a primeira cidade desse distrito da Macedônia. e colônia romana; e estivemos alguns dias nessa cidade.

A cidade de Filipos derivou o seu nome do genitor de Alexandre o Grande, - isto é, Filipe Il, da Macedônia. Partindo dali no ano de 334 A.C., é que Alexandre o Grande iniciou sua famosa carreira de conquista mundial. Otávio, já imperador, fez dessa cidade uma col&nia romana. As colônias romanas eram pequenas réplicas da própria cidade de Roma. Usualmente um n6m.ero regular de cidadãos romanos emigrava para uma cidade qualquer, a fim de assegurar a sua romanização. Era reputado como grande honra, para uma cidade, haver sido constituída colônia romana.

Lucas alude à cidade de Filipos como primeira do distrito, e colônia, o que nos mostra que era cidade de grande importância política. Evidentemente o autor sagrado do livro de Atos era nativo de Filipos. O vocábulo grego me,.is, empregado por Lucas para indicar uma região ou ..distrito», na opinião de alguns eruditos, era antes considerado um erro da parte de Lucas. Mas os papiros descobertos nas areias de Fayum , no Egito, demonstraram que essa palavra era usada como expressão idiomática, para denotar as divisões de um distrito. Felibedjik (que significa Pequena Filipos) assinala o local das ruínas da antiga cidade. Nas escavações feitas, as estruturas romanas usuais têm sido encontradas, entre as quais podemos citar banhos, teatros, templos cristãos (embora não do período apostólico), um fórum de 150 por 75 metros de dimensões, etc. Acredita-se que um viaduto de arcos, do período colonial, situado a oeste da cidade, pertença aos dias do apóstolo Paulo.

Provavelmente esse viaduto foi o caminho por onde os missionários «saíram» da cidade, o que é mencionado no trecho de Atos 16:13. Se assim realmente sucedeu, então o «...rio... » a cujas margens falou o apóstolo Paulo, era o rio Gangites.

Filipe da Macedônia ampliou a localidade (depois de 300 A.C.), tendo-a fortificado como defesa de suas fronteiras, para conter os trácios. Nesse tempo floresciam ali as minas de ouro, e moedas de ouro foram cunhadas em nome de Filipe, tomando-se facilmente reconhecidas como válidas nas áreas circundantes. Quando a Macedônia foi conquistada pelos romanos, tendo sido subsequentemente dividida em quatro regiões, a cidade de Filipos foi incluída no primeiro desses distritos. (Ver Livio, xlv. 17,18.29).

Alguns eruditos, neste ponto, têm querido emendar o texto sagrado, substituindo a palavra que aparece no original grego, protes, pelo vocábulo ordinário proto, fazendo com que Atos 16: 12 diga: «...cidade da primeira divisão da Macedônia». Isso tem sido efetuado na tentativa de suavizar o problema criado pela declaração de Lucas, que aqui se encontra, de que Filipos era a «primeira» cidade do distrito; pois, na realidade, sabe-se que não era a cidade mais importante desse distrito. A honra do primeiro lugar cabia a Tessalônica e até mesmo a Anfipolis era maior do que Filipos.

Todavia, podemos aceitar a declaração lucana sem fazer-lhe qualquer emenda (e não há para isso qualquer precedente, nos próprios manuscritos), supondo que ele estivesse fazendo referência à questão da importância da cidade em termos muito latos, visto que manifestava assim seu interesse especial pela localidade, posto ser a sua cidade nativa. Ramsay declara acerca desse problema: «Anfipolis era considerada a primeira cidade por consenso geral; Filipos era primeira por sua própria opinião». (St. Paul, the Traveller»; pâgs, 206-207).

Com base nos escritos que nos restam de Livio (ver Anais xiv.29), ficamos sabendo que Filipos estava situada no «primeiro» distrito da Macedônia. Por isso mesmo é grande o esforço dos eruditos em tentarem dar solução ao problema da posição da cidade, criado pela declaração de Lucas, através de alguma emenda feita no texto sagrado.

Foi no ano de 42 A.C. que se deu a famosa batalha de Filipos, entre as forças de Antônio e Otávio, contra os exércitos de Bruto e Cássio. Subsequentemente, chegaram muitos colonos àquela região, e a cidade, naturalmente, cresceu em número e Importância. Sua proeminência aumentou ainda mais depois da batalha de Ácio, em 31 A.C., em que Otávio derrotou as forças aliadas de Antônio e Cleópatra. E visto que nessa cidade havia muitos que favoreciam a Antônio, a cidade foi forçada a render-se, entregando suas terras a Otávio. Em seguida, Otávio fez de Filipos uma cidade, em comemoração a essas suas vitórias militares. Foi o mesmo Otávio quem deu à cidade o seu titulo de «Colônia Julis Augusta Philíppensis», conforme se vê gravado em muitas moedas. Desse modo, tendo-se tornado uma colônia romana, passou a gozar do «direito itálico» (IUS ITALICUM), o que significa que os colonos desfrutavam dos mesmos direitos e privilégios de que usufruiriam se estivessem vivendo em próprio território italiano.

Na epistola que Paulo escreveu aos crentes de Filípos, suas referências à cidadania (ver Fil. 1:27 e 3:20), dessa maneira, teriam se revestido de maior significação, porquanto a cidadania sem dúvida significava muito para eles. Após a primeira visita de Paulo e seu aprisionamento nessa cidade, ao ser solto, seus posteriores contactos com a cidade são inferidos em referências nos trechos de Atos 20:1,6, e I Tim. 1:3.

III Sumário da descobertas Arqueológicas. A antiga cidade de Filipos foi escavada pela Escola Francesa de Atenas, de 1914 a 1938. Entre as descobertas feitas estava o fórum, ao sul da antiga Via Inâcia. Uma espaçosa tribuna foi encontrada ali, a qual talvez tenha estado ligada ao incidente em, que Paulo e Silas, que haviam expelido um demônio de uma jovem que ganhava dinheiro para seus senhores, fazendo adivinhações, foram rudemente lançados na prisão. Ver a narrativa em Atos 16:16 ss, Foi assim que teve lugar o famoso aprisionamento de Paulo e Silas em Filipos. Dois grandes templos foram desenterrados, juntamente com muitos edifícios públicos e particulares, um teatro romano, etc., quase tudo do século 11D.C. Uma arca foi encontrada perto do riacho Gangites. Essas arcas, com frequência, assinalavam as linhas fronteiriças das antigas cidades. Para dentro desses marcos não podiam penetrar certas coisas, como cemitérios ou santuários de divindades não reconhecidas. Talvez isso explique a razão pela qual Paulo e Silas sairam da cidade, até à beira do rio, para participarem de uma reunião de oração (Atos 16:13). Seja como for, sabemos que os judeus gostavam de ter reuniões de oração à beira dos rios, ou à beira-mar, provavelmente por causa do fato de que a água simboliza a vida. Quanto a essa prática, ver Filo, Flaccus 14, e Josefo (Anti. 16:10:23).

  1. Filipos e as missões cristãs. Paulo deixou a Ásia Menor, a caminho de sua missão européia. Antes de tudo, ele pregou em Filipos, que assim tomou-se o portão de entrada das missões cristãs na Europa. Naturalmente, esse foi um importantissimo acontecimento histórico, embora, na ocasião, provavelmente Paulo não fizesse ideia da magnitude da realização. Paulo e Silas, pois, foram aprisionados ali. O relato faz parte daquilo que, tradicionalmente, é chamado de Segunda Viagem Missionária de Paulo. De Filípos, eles foram a Tessalônica (Atos 16:12-40). Curiosamente, é nessa altura da narrativa do livro de Atos que a primeira pessoa “nós”, é abandonada. Isso indica que Lucas não acompanhou o apóstolo, nessa fase de suas atividades missionárias. Mas o «nós» da narrativa retoma em Atos 20:5, quando Paulo já se encontrava em sua terceira viagem missionária. Lucas ou era nativo de Filipos, ou então estudara ali a medicina, e aparentemente ficou para trás, enquanto Paulo e outros prosseguiram, a fim de poder erigir a igreja local em Filipos.

Sabemos, através de referências neotestamentárias, como 11 Coríntios 8:1-6; 11:9 e Filipenses 4:16, que a igreja de Filipos mostrou-se generosa em suas doações financeiras às atividades missionárias cristãs, tendo deixado um exemplo positivo antigo desse tipo de atividade. A epistola de Paulo à igreja cristã dali assumiu seu devido lugar entre os documentos imortais do Novo Testamento.

  1. Observações Históricas Subsequentes. No começo do século 11 D.C., Inácio, bispo de Antioquia, foi condenado à morte por haver-se professado cristão. Foi enviado a Roma, sob a guarda de Trajano. O grupo passou por Filadélfia, Esmina e Tróia. Então dirigiu-se ao continente europeu, passando por Filipos. E, provavelmente, utilizando-se da Via Inâcia, foi até Dirrâquium, A igreja em Filipos acolheu prazeirosamente a Paulo. Então a Igreja enviou duas cartas. Uma delas foi enviada à igreja em Antioquia, a fim de oferecer-lhe consolo, por causa do que havia acontecido. A outra foi dirigida a Policarpo, requerendo que lhe fossem enviadas cópias dos escritos de Inácio. Quem nos dá essa informação é Policarpo, em sua Eplstola aos Filipenses, Bispos de Filipos fizeram-se presentes aos concílios de Laodícéia, éfeso e Calcedônia.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 761-763.

Filipos era uma cidade importante no leste da Macedónia (nordeste da Grécia). Ele foi localizado na planície aluvial fértil do rio Strymon, perto do abismo, e pequenos riachos conhecidos como os Gangites (cf. Atos 16:13).

Filipos devido a sua importância nos tempos antigos à sua localização

estratégica (ele comandou a rota terrestre para a Ásia Menor). Nos dias de Paulo a estrada romana importante conhecida como a Via Egnatia percorria Filipos. A cidade também foi importante por causa das minas de ouro que se encontrava em montanhas próximas.

Foi essas minas de ouro que atraíram o interesse de Filipe II da Macedônia (pai de Alexandre, o Grande). Ele anexou a região em 356 aC e fortificou a pequena aldeia de Krenides ("as fontes pequenas", assim chamado por causa dos riachos nas proximidades), renomeando para - Filipos ("cidade de Filipe") homenageando a si mesmo. Após os romanos conquistaram Macedónia no século II aC, Filipos foi incorporada à província romana de mesmo nome. A cidade definhava em relativa obscuridade para mais de um século, até que em 42 aC tornou-se o cenario de uma das batalhas mais cruciais na história romana. Nessa batalha, conhecido na história como a batalha de Filipos, as forças de Antônio e Otávio ("César Augusto", Lucas 02:01) derrotou as forças republicanas de Brutus e Cassius. A batalha marcou o fim da República Romana e o início do império (o senado declarou Otaviano imperador em 29 aC, depois que ele derrotou Antônio e Cleópatra na batalha de Actium em 31 aC). Antony e Otaviano resolvido muitos dos seus veteranos do exército em Filipos, que recebeu o cobiçado status de uma colônia romana (cf. Atos 16:12). Mais tarde, outros veteranos romanos do exército se estabeleceram ali.

Como uma colônia, Filipos tinha o mesmo estatuto jurídico que as cidades na Itália. Cidadãos de Filipos eram cidadãos romanos, eram isentos do pagamento de determinados impostos, e não estavam sujeitos à autoridade do governador provincial. O Filipenses copiado arquitetura romana e estilo de vestir, suas moedas traziam inscrições romanas, e o latim era língua oficial da cidade (apesar de Grego também ser falado).

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

A cidade de Filipos, hoje apenas um montão de ruínas, tem lugar de destaque tanto na história sacra quanto na secular. Nas suas vizinhanças encontram-se as famosas minas de ouro e prata que, na antigüidade, eram exploradas pelos diligentes fenícios, produzindo, até os dias do rei Filipe da Macedônia, dez mil talentos por ano (aproximadamente 342,7 toneladas). Cruzando a cidade, estava a famosa Via Inácia, dividindo-a em cidade alta e baixa. Essa estrada se estendia por 800 quilômetros, de Hebro, na Trácia, a Dirraquio, no mar Adriático. De Dirraquio se chegava à Itália, por barca. Essa via expressa foi descrita por Cícero como “aquela nossa via militar que nos liga ao Helesponto” .

Filipos estava assentada num ponto estratégico da Via Inácia, justamente onde a cadeia montanhosa dos Balcãs, entre o Oriente e o Ocidente, forma uma garganta, ou seja, uma entrada natural que facilita a comunicação entre os dois continentes. Gozava duma posição privilegiada, fato reconhecido por Filipe da Macedônia e pelo imperador romano Augusto. Por conseguinte, acreditamos que foi por direção do Espírito de Deus que Paulo chegou ali. Se o Evangelho devia atravessar os Balcãs, Filipos se apresentava como o meio de mais fácil acesso.

A cidade recebeu o nome do seu fundador, Filipe da Macedônia, pai de Alexandre Magno. Ele a construiu para festejar a anexação duma província a seu império, vindo a servir de posição fortificada na fronteira. O rio Gangite passava a oeste, cerca de um quilômetro e meio da cidade.

O imperador Augusto (Otaviano) elevou a dignidade de Filipos, transformando-a em colônia romana. Assim ela se tornou uma povoação fronteiriça do Império Romano, fazendo lembrar ligeiramente a Cidade Imperial (Roma). Numa colônia romana, tanto a língua usada como o dinheiro em circulação (a cunhagem das moedas) e as leis vigentes, tudo se fazia em latim. Dentre outras vantagens, Filipos gozava da isenção de impostos sobre a terra, chegando a ser elevada a uma dignidade idêntica à do solo sagrado da própria Itália. Seus habitantes podiam orgulhar-se da plena posse de três grandes privilégios dos cidadãos romanos: isenção de flagelação, isenção de prisão (exceto em certos casos) e o direito de apelar diretamente a César.

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 51-53.

Quando Paulo escolhia um lugar para a pregação do Evangelho o fazia sempre com o olho do estrategista. Não só escolhia um centro importante em si, mas também cuidava para que fosse um ponto chave para toda uma região. Advertiu-se com frequência que muitos dos lugares escolhidos naquela época por Paulo para a pregação são ainda grandes nós de caminhos e pontos de junção ferroviária. Tal era Filipos. Filipos possuía preeminência ao menos por três razões:

(1) Nos arredores existiam minas de ouro e prata exploradas da antiga época dos fenícios. Ainda que em tempos do cristianismo estas minas estavam já exaustas, entretanto tinham feito de Filipos o grande centro comercial do mundo antigo.

(2) A cidade tinha sido fundada por Filipe o pai de Alexandre Magno. Por isso leva seu nome. Filipos foi fundada num lugar chamado Krenides, nome que significa "Os Poços" ou "As Fontes". Krenides era uma cidade muito antiga. Filipe fundou a cidade que leva seu nome por uma razão muito particular. Em toda a Europa não existia um lugar mais estratégico. Há aqui uma cadeia montanhosa que divide a Europa da Ásia, o Oriente do Ocidente. Justamente em Filipos esta cadeia desce formando um passo; portanto Filipos domina a rota da Ásia a Europa que necessariamente deve atravessar esse passo. Por este motivo em 368 A. C. Filipe fundou a cidade que leva seu nome, para dominar a rota do Oriente ao Ocidente. Também por esta razão, muito mais tarde uma das grandes batalha decisivas da história se travou em Filipos; porque ali foi onde Antônio derrotou a Bruto e Casio decidindo assim o futuro do Império romano.

(3) Pouco tempo depois, Filipos alcançou a dignidade de colônia romana. Estas colônias eram instituições admiráveis. Não eram colônias no sentido de avançadas da civilização em regiões inexploradas do mundo. As colônias começaram a ter importância militar. Roma tinha o costume de enviar grupos de soldados veteranos que tinham completo seu período e castigo à cidadania; estes eram levados a centros estratégicos de caminhos. Ordinariamente os grupos constavam de trezentos veteranos, com suas mulheres e filhos. Estas colônias eram os pontos focais dos caminhos do grande Império. Os caminhos tinham sido traçados de tal maneira que podiam ser enviados reforços com toda rapidez de uma colônia a outra, as quais se estabeleciam para proteger a paz e dominar os centros estratégicos mais afastados do vasto Império romano. Em princípio só existiam na Itália; mas logo se disseminaram através de todo o Império que crescia rapidamente. Vemos porque a primeira importância das colônias foi militar; mais tarde o governo romano dava o título de colônia a toda cidade que queria honrar ou recompensar por seu fiel serviço.

Estas colônias tinham uma grande característica própria. Onde quer que existiam, construíam pequenos fragmentos de Roma, e a nota dominante era o orgulho de sua cidadania romana. Falava-se o idioma de Roma; usavam-se vestimentas romanas; observavam-se costumes romanas; seus magistrados tinham títulos romanos e observavam as mesmas cerimônias que em Roma. Onde quer que estivessem, as colônias eram obrigada e inalteravelmente romanas. Jamais se imaginaria assimilarem o povo em que viviam. Eram parte de Roma, miniaturas da cidade de Roma, e não o esqueciam jamais. Podemos perceber o orgulho romano através da acusação contra Paulo e Silas em Atos 16:20-21: “Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, propagando costumes que não podemos receber, nem praticar, porque somos romanos”. “A nossa pátria está nos céus”, escrevia Paulo à Igreja filipense (3:20). Assim como o romano da colônia não se esquecia nunca qualquer que fosse o meio em que se encontrasse, de que era romano, tampouco eles têm que esquecer, em nenhuma sociedade, que são cristãos. Em nenhuma parte se vivia mais o orgulho de ser cidadão romano que nestas colônias. Uma colônia deste tipo era Filipos.

BARCLAY. William. Comentário Bíblico. FILIPENSES. pag. 10-12.

  1. O evangelho chega a Filipos.

A igreja de Filipos foi a primeira igreja fundada por Paulo na Europa.

O apóstolo chegou a Filipos em sua segunda viagem missionária, sendo dirigida pelo Espírito Santo de um modo muito dramático: Durante a noite Paulo teve uma visão, na qual um homem da Macedônia estava em pé e lhe suplicava: "Passe à Macedônia e ajude-nos".

Depois que Paulo teve essa visão, preparamo-nos imediatamente para partir para a Macedônia, concluindo que Deus nos tinha chamado para lhes pregar o evangelho (At 16:9-10) Embora os convertidos iniciais eram judeus ou prosélitos judeus (Atos 16:13-15), os gentios eram a maioria da congregação. Já que não havia sinagoga em Filipos (ou então o Paulo, recém chegado não teria se reunido fora da cidade no sábado) é uma evidência de que a população judaica da cidade era pequena. Duas conversões dramáticas, aquelas dos ricos prosélito Lydia (Atos 16:13-15) e o do carcereiro (Atos 16:25-34), marcaram o nascimento da Igreja. (Para uma descrição dos acontecimentos que rodearam a fundação da igreja em Filipos, ver o capítulo 18 deste volume.) Os filipenses tinham um profundo afeto por Paulo, assim como de Paulo por eles. Embora fossem pobres, eles a apoiaram financeiramente em um momento de seu ministério (4:15). Agora, depois de muitos anos, eles tinham mais uma vez enviado ao apóstolo um presente generoso na sua hora de necessidade. Meio século depois, a igreja de Filipos iria mostrar a mesma generosidade que o pai da igreja Inácio, que passou por sua cidade em seu caminho para martírio em Roma.

Paulo escreveu esta carta à sua amada congregação de Filipos e agradecer-lhes pela sua generosa doação (4:10-19), explica o por que ele estava enviando o Epafrodito de volta para eles (2:25-30), para informá-los de suas circunstâncias (1:12 -26), e avisá-los sobre o perigo dos falsos mestres (3:2, 18-19).

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

A igreja em Filipos

A história da fundação da Igreja em Filipos é bem conhecida por todos nós (At 16). Chegando de navio a Neápolis, Paulo e seus companheiros, Silas, Timóteo e Lucas (At 16.10-12), seguiram pela Via Inácia até Filipos, onde havia provavelmente poucos judeus, devido ao caráter militar e colonial do lugar. Não encontrando nenhuma sinagoga onde pudesse entregar sua mensagem, Paulo buscou a companhia dum pequeno grupo que se reunia nas margens do Gangite, fora da cidade.

Em Filipos ocorreram três conversões típicas: Lídia, a comerciante; a jovem com espírito de adivinhação, escrava de Satanás (esta pode ter sido liberta); e o carcereiro, um suboficial do exército romano.

Alguns eventos, principalmente a libertação da jovem adivinha, resultaram em feroz perseguição por parte das autoridades, à qual se seguiu uma libertação miraculosa.

A perseguição continuou, mesmo quando Paulo foi para Tessalônica. Os convertidos filipenses foram, então, submetidos a uma parcela de conflito e aflição, conforme Paulo relata em 2 Coríntios 8.2 e Filipenses 1.7,28-30. Mais tarde, Timóteo e Erasto foram enviados à Macedônia (At 19.22) e, sem dúvida, os irmãos de Filipos devem ter cooperado com voluntariedade, pois deles Paulo dá testemunho de estarem prontos e bem dispostos a atenderem o apelo de socorro em favor dos crentes pobres e necessitados em Jerusalém (2 Co 8.1-5).

No outono de 56 d.C., provavelmente, após uma ausência de cinco anos, o próprio Paulo partiu de Éfeso para revisitar suas igrejas europeias (At 20.1; 2 Co 7.5,6), passando por Filipos rumo à Grécia. Nesta passagem, sem dúvida, os filipenses devem ter tirado grande proveito de sua presença. Alguns meses depois, ele tornou a visitá-los, quando voltava, via Macedônia, rumo a Trôade (At 20.5,6). Vemo-los, mais tarde, enviando Epafrodito como portador de ofertas voluntárias para socorrer Paulo, que se encontrava numa prisão em Roma (2.25,30;

4.10-18). Foi por intermédio de Epafrodito que Paulo enviou sua Epístola aos Filipenses. Seu relacionamento com eles era o mais amoroso e pessoal possível.

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 53-54.

  1. Data e local da autoria.

A data desta epístola aos Filipenses depende do lugar onde Paulo a redigiu, isto é, do aprisionamento particular durante o qual ele a escreveu. Que o apóstolo era um prisioneiro, quando a escreveu, é óbvio, segundo se vê em Fil. 1:7,12. Sabe-se que Paulo sofreu aprisionamento em Jerusalém, em Cesaréia, em Roma, e, na opinião de alguns, também em Éfeso. As cidades de Roma, Cesaréia e Éfeso têm sido todas sugeridas como lugares de onde Paulo poderia ter escrito essa epístola. Sobre isso, convém que consideremos os seguintes pontos:

  1. Até relativamente há pouco tempo, o aprisionamento de Paulo em Roma, como lugar de onde ele escreveu esta epístola aos Filipenses, era a ideia tradicional. As alusões à «casa de César» (Fil. 1:13 e 4:22) e ao «pretório» eram consideradas como conclusivas em favor da proveniência da capital do império. Entretanto, têm sido encontradas pela arqueologia várias inscrições que mostram que os funcionários do governo e os representantes de Roma eram assim chamados, e que onde quer que eles residissem se tornava a casa de César. Esse termo era vinculado a muitas categorias de pessoas, como servidores, policiais, guardiães, bem como altos oficiais do governo. E o pessoal administrativo romano, em toda a cidade importante do império, era conhecido pelo termo de «pretório», que incluía todos os funcionários, os quais, em Roma ou fora dela, eram designados pela alcunha de «servos de César». Portanto, essa expressão, que tradicionalmente se pensava dar apoio à ideia que Paulo escreveu esta epístola aos Filipenses quando estava aprisionado em Roma, na realidade perdeu grande parte de sua força, pois o uso do termo é por demais amplo.
  2. Outros argumentos têm sido apresentados em favor da cidade de Roma, como o lugar de onde Paulo !redigiu! esta epístola aos Filipenses. Essa epístola parece antecipar sua possível morte (2:20-23), o que nos mostra que as acusações feitas contra Paulo eram sérias, e que o seu martírio poderia estar próximo. Ora, isso se harmoniza melhor com a situação de Paulo em Roma do que com qualquer outro período de aprisionamento. E isso se verifica especialmente porque, na qualidade de cidadão romano, não é provável que, sob tão adversas circunstâncias, o apóstolo Paulo não tivesse apelado para César, o que de fato fizera em Cesaréia, quando também se encontrava em grande dificuldade. Esse é o mais forte argumento em favor da cidade de Roma, embora se harmonize melhor com o segundo período de aprisionamento nessa cidade (conforme alguns eruditos têm postulado), e não com o primeiro período, porquanto o livro de Atos, em suas observações finais, não nos transmite a impressão de que havia qualquer ameaça tão séria como esta epístola aos Filipenses nos permite entender. Outrossim, Paulo pode ter enfrentado determinados perigos na cidade de Éfeso ou em outra localidade qualquer, sobre o que não temos conhecimento, e sob circunstâncias que talvez não permitissem um apelo fácil a César.
  3. Em favor do aprisionamento em Roma também tem sido aduzido o argumento que a igreja cristã de Roma corresponderia, quanto ao tamanho e à influência, às alusões constantes em Fii. 1:2 e s., que parecem indicar uma comunidade cristã considerável. Ora, outro tanto não se poderia atribuir facilmente a Éfeso, e, menos ainda, a Cesaréia.
  4. A introdução de Márciom, à epístola aos Filipenses, identifica claramente a sua proveniência como a cidade de Roma. Mas é possível que isso não tenha passado da reiteração de uma opinião antiga, a qual pode estar equivocada visto que os escritos de Márciom datam de cerca de cem anos que tais acontecimentos transpiraram.
  5. Outros estudiosos têm postulado a hipótese cesariana. Desde 1731 que Oeder, de Leipzig, sugeriu que Cesaréia teria sido o lugar onde a epístola aos Filipenses teria sido escrita. Essa ideia, entretanto, não é mais fácil de defender que a hipótese romana. Sobre isso, há algumas considerações que precisamos averiguar:
  6. A custódia referida em Atos 13:35, que descreve o aprisionamento do apóstolo Paulo em Cesareia, não sugere qualquer perigo iminente de martírio, conforme esta epístola aos Filipenses dá a entender por toda a parte.
  7. Outros estudiosos supõem que o tamanho e o prestígio da igreja cristã de Cesaréia não corresponde àquilo que é descrito em Fil. 1:12 e ss.
  8. Quando Paulo se encontrava em Cesaréia, esperava fazer ainda uma visita à cidade de Roma, e não outra visita a Filipos, que era o seu desejo, quando ele escreveu esta epístola, conforme se verifica em Fil. 2:24 e ss.
  9. Há, finalmente, a hipótese efésia. Embora não haja qualquer certeza no que diz respeito a algum período de aprisionamento de Paulo em Éfeso (a sua luta contra as «feras», que teria ocorrido ali, mencionada em I Cor. 15:32, pode ser uma alusão alegórica, e não literal), essa ideia tem ganho algum apoio em anos recentes, não somente como o lugar onde Paulo teria redigido esta epístola aos Filipenses, mas também como lugar onde ele escreveu as epístolas aos Efésios, aos Colossenses e a Filemon. Os seguintes argumentos são apresentados em favor dessa opinião:
  10. Sua referência à sua tencionada visita imediata se torna muito mais inteligível, pois Éfeso ficava muito mais perto de Filipos do que de Roma. Além disso, com base na epístola aos Romanos sabemos que Paulo planejava fazer uma viagem missionária à Espanha, depois deter passado por Roma, e não uma viagem ao território ia explorado da Macedônia. Podemos considerar o trecho de Fil. 2:24, onde o apóstolo Paulo estava preparado para reiniciar seu trabalho pastoral entre eles; também se pode considerar o trecho de Rom. 15:23-25, onde se lê sobre intuitos inteiramente diferentes. Essa referência da epístola aos Romanos mostra-nos que Paulo reputava «completada» a sua tarefa no oriente, e que agora queria visitar o ocidente.
  11. Existem evidências, nesta mesma epístola aos Filipenses, de que foram feitas várias visitas entre esses dois pontos (onde ele se encontrava aprisionado) e Filipos. Os crentes de Filipos ouviram falar do aprisionamento do apóstolo e lhe enviaram Epafrodito com uma dádiva em dinheiro. Então foram enviadas notícias a eles que seu mensageiro adoecera; e ele, por sua vez, recebeu uma mensagem que mostrava a preocupação daqueles irmãos. Mais tarde Epafrodito foi enviado a eles, levando-lhes esta epístola aos Filipenses.

Timóteo também foi envolvido nesses movimentos, de tal modo que, ao todo, precisamos pensar em quatro viagens pelo menos. Ora, Roma distava quase mil e trezentos Quilômetros de Filipos, ao passo que Éfeso ficava a menos da metade dessa distância; portanto, as idas e vindas muito mais provavelmente teriam ocorrido entre Filipos e Éfeso do que entre Filipos e Roma, que ficava a muito maior distância. (Ver Fil. 2:19-30).

  1. A menção da dádiva de que os crentes de Filipos haviam enviado a Paulo parece indicar a passagem de pouco tempo desde que Paulo estivera com eles, e não um intervalo de talvez dez anos, o que teria sucedido, se tal dádiva tivesse sido enviada para ele em Roma.
  2. É possível que a visita tencionada por Timóteo (ver Fil. 2:19) deva ser identificada com a visita mencionada em I Cor. 4:17 e Atos 19:22. Nesse caso, a própria revisita de Paulo àquele lugar poderia ser identificada com o que se lê em Atos 20:1-6, onde se veria então o cumprimento do seu desejo de visitá-los, conforme se lê em Fil. 2:24.

Contra a ideia do aprisionamento de Paulo em Éfeso, podem ser apresentados os seguintes argumentos:

  1. Essa ideia é de natureza especulativa, porquanto nada pode ser provado nesse sentido, excetuando talvez a referência isolada que há em I Cor. 15:32.
  2. A ausência de qualquer menção sobre a coleta para os santos pobres de Jerusalém parece ser um argumento forte quanto a isso, pois parece que Paulo estava obcecado acerca dessa questão, durante esse tempo.
  3. A mais séria objeção contra essa ideia é que a epístola aos Filipenses reflete um possível iminente martírio. Nesse caso, por qual razão Paulo não apelou para César, o que realmente fez mais tarde, em Cesaréia, quando viu as coisas contra ele? Para essa objeção realmente não há resposta. Essa questão, pois, permanece na dúvida, porquanto nenhuma dessas idéias pode ser defendida de maneira inteiramente bem-sucedida. Porém, afinal de contas, a questão não se reveste de importância capital. Se porventura a epístola aos Filipenses foi escrita em Éfeso, então teríamos de datá-la entre 53 e 54 d.C., o que significaria que foi escrita antes da primeira epístola aos Coríntios. Por outro lado, se Paulo a escreveu em Cesaréia, então sua data teria sido entre 56 e 58 d.C. E, se porventura, ele a escreveu em Roma, então deve ser datada depois de 58 d.C., que foi quando Paulo chegou pela primeira vez em Roma. No entanto, esta epístola aos Filipenses poderia ter sido redigida tão tarde como 60 d.C., ou mesmo mais tarde, se supormos que o apóstolo a escreveu quando de seu segundo período de aprisionamento, talvez tão tarde como 64 d.C. Alguns eruditos datam a chegada de Paulo em Roma tão tarde como o ano de 62 d.C., e, se porventura essa opinião é correta, teria sido escrita esta epístola aos Filipenses de dois a quatro anos depois dessa data.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 757-758.

Paulo escreveu Filipenses, assim como Colossenses, Efésios e Filemom, quando se encontrava na prisão. Até o final do século XVIII, a igreja aceita que as quatro epístolas da prisão foram escritos durante o tempo em que o apóstolo esteve preso em Roma (Atos 28:14-31). Nos últimos tempos, porém, tanto a Cesaréia e Éfeso têm sido propostos como locais alternativos.

As evidência de que Paulo escreveu Filipenses em Roma é impressionante. Os termos "guarda pretoriana" (1:13) e "casa de César" (4:22) são mais naturalmente entendidas como referências ao guarda-costas do imperador e servidores estacionados em Roma. Os detalhes da prisão de Paulo, como registrado em Atos harmonizar bem com aqueles em Filipenses. Paulo estava guardado por soldados (Atos 28:16; Filipenses 1:13-14), os visitantes permitidos (Atos 28:30; Filipenses 4:18), e estava livre para pregar o evangelho (Atos 28:31, Phil. 1:12-14). Que havia uma grande igreja na cidade a partir do qual Paulo escreveu (cf. 1:12-14) também favorece a Roma. A igreja na capital imperial era, sem dúvida, muito maior do que em qualquer Éfeso ou, especialmente, Cesaréia. Dois principais objeções têm sido levantadas sobre a visão tradicional de que Paulo escreveu Filipenses em Roma. Primeiro, alguns argumentam que enquanto Paulo pretendia visitar a Espanha, depois de visitar Roma (Rm 15:24, 28), as outras epístolas da prisão gravar seus planos para visitar Filipos (2:24) e Colossos (Fm 22) após a sua libertação. Por isso, eles mantêm, Filipenses e Colossenses () deve ter sido escrito antes de Paulo chegou a Roma. Embora seja verdade que Paul tinha originalmente planejado visitar a Espanha, depois de visitar Roma, dois fatos levou a mudar seus planos. Paulo não tinha previsto chegar em Roma como prisioneiro. Ele tinha passado quatro anos na prisão romana, e durante o tempo que os problemas surgiram nas igrejas da Grécia e Ásia Menor. Paul decidiu revisitar as igrejas antes de ir para a Espanha. Além disso, o fato de que a igreja romana não estava unido em apoio a ele (cf. 1:14-17) fez o apóstolo adiar sua visita à Espanha (cf. Rom. 15:24).

Em segundo lugar, alguns acreditam que várias viagens entre Filipos e para a cidade a partir do qual Paulo escreveu em Filipenses estão implícitas. Devido à grande distância entre Roma e Filipos, eles acreditam que essas viagens não pode ter todo o lugar tomado durante a prisão romana de Paulo. Por outro lado, Éfeso era muito mais perto de Felipos. (Note-se que, se válido, o argumento seria igualmente dizer contra uma origem cesariana de Filipenses.

Cesaréia não foi significativamente mais perto de Filipos que foi Roma.) Esse argumento, no entanto, não é válido. Moises Silva observa que:

É perfeitamente possível para atender as três viagens [entre Roma e Filipos] em um período de quatro a seis meses. Mas mesmo se nós permitimos que uma generosa de dois meses para cada uma dessas viagens, muito menos de um ano é necessária para explicá-los (e nada nos dados nos obriga a dizer que menos de um ano deve ter decorrido desde a chegada de Paulo em Roma a sua escrita de Filipenses). É muito difícil entender por que esse argumento contra uma origem romana continua a ser levada a sério. O assunto deve ser descartado de qualquer outra consideração. Se fizermos isso, no entanto, o único argumento claro contra a visão tradicional [que Paulo escreveu Filipenses de Roma] desaparece. (Filipenses, The Wycliffe comentário exegético [Chicago: Moody, 1988].., 7 itálico no original)

O argumento mais convincente de que Paulo escreveu Filipenses de Roma reside na natureza decisiva do veredicto, o apóstolo se mantem em espera. Ele queria ser livre, como ele esperava confiantemente (1:19, 24-26; 2:24), ou executado (1:20-21, 23). De qualquer forma, a decisão sobre seu caso seria final, e não haveria recurso. Esse fato parece excluir tanto Cesaréia e Éfeso, uma vez que como cidadão romano Paulo poderia (e fez em -Atos 25:11-12) exercer o seu direito de apelar para o imperador (o que um escritor conhecido como Paulo o "trunfo") a partir dessas cidades.

As teorias que Paulo escreveu Filipenses de Cesaréia ou Éfeso enfrentar grandes dificuldades adicionais. Os defensores da nota cesariana vista que a mesma palavra grega traduzida como "guarda pretoriana" em 1:13 é usado nos Evangelhos e modos de falar dos palácios do governador em Jerusalém (Mateus 27:27, Marcos 15:16; João 18: 28, 33; 19:9) e Cesaréia (Atos 23:35).

Mas a frase "e todos os outros" (1:13) indica que Paulo estava se referindo aos soldados da guarda pretoriana, e não a um edifício. Falha de Paulo mencionar Filipe, o evangelista é intrigante se ele escreveu as Epístolas da prisão de Cesaréia, já que ele viveu naquela cidade e hospitalidade desde a Paulo e seu partido (Atos 21:8). Além disso, Atos não gravar uma pregação generalizada do evangelho em Cesaréia, como registrada em 1:12-18.

Finalmente, a expectativa de Paulo de uma liberação rápida (cf. 1:25; 2:24) não se encaixa as circunstâncias de sua prisão em Cesaréia. Há única esperança do apóstolo da libertação ou era para subornar Felix, ou aquiescer ao pedido Festus de que ele voltar a Jerusalém para julgamento. Naturalmente, Paulo recusou uma das duas alternativas e permaneceu um prisioneiro em Cesaréia até o seu apelo ao imperador.

A teoria de que Paulo escreveu Filipenses (e as outras Epístolas da prisão) de Éfeso, embora uma alternativa mais popular do que Cesaréia, também enfrenta sérias dificuldades. A mais óbvia e grave é que não há registro em Atos que Paulo estava sempre na prisão em Éfeso. Esse silêncio é particularmente significativa, já que Lucas dedica um capítulo inteiro (Atos 19) para o ministério que Paulo passou três anos lá. Além disso, a declaração de Paulo aos anciãos da igreja de Éfeso, "Noite e dia por um período de três anos não cessei de admoestar cada um com lágrimas" (Atos 20:31), implica que o seu ministério em sua cidade foi contínuo, não interrompida por uma prisão prolongada. Outra omissão importante é a falha de Paulo mencionar nas epístolas da prisão à coleta para os santos pobres de Jerusalém, uma coleção que ele referidos nas epístolas que ele escreveu durante o tempo de sua estada em Éfeso (por exemplo, Romanos, 1 e 2 Coríntios). Falha de Paulo mencionar Gaio e Aristarco aos Filipenses é também estranho que ele escreveu de Éfeso, uma vez que estavam com ele lá (Atos 19:29). A igreja da qual Paulo escreveu Filipenses não foi unido no seu apoio a ele (1:14-17;. Cf 2:20-21). Isso, no entanto, não era verdade da igreja de Éfeso (cf. At 20:36-38). Nem é provável que os filipenses teria sentido a necessidade de enviar um presente para Paulo em Éfeso, onde o apóstolo contou com o apoio tanto da igreja e de amigos próximos, como Áquila e Prisca (cf. 1 Cor. 16:19 ; 1 Coríntios foi escrita em Éfeso). Finalmente, enquanto Lucas estava com Paulo quando escreveu as Epístolas da prisão (Cl 4:14), ele aparentemente não estava com Paulo em Éfeso (Atos 19 não é umas das " passagens" em Atos que indicam a presença de Lucas com Paulo).

Uma vez que Roma se encaixa nos fatos conhecidos da prisão de Paulo, e Cesaréia e Éfeso não se encaixam, não há razão para rejeitar a visão tradicional de que Paulo escreveu Filipenses perto do fim da sua primeira prisão romana (c. AD 61).

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

A carta foi com certeza escrita em Roma durante os dois anos em que Paulo esteve preso, como o registra Lucas em Atos 28.3-30. A data seria por volta do ano 61 d.C.

Epafrodito fora o emissário dos filipenses, encarregado de passar suas doações às mãos de Paulo (2.25; 4.18).

Desconsiderando sua própria saúde, no desejo de servir a Paulo ele ficou gravemente enfermo, mas pôde se recuperar por um milagre de Deus (2.27-30). Epafrodito, quando se apresentou a Paulo, estava também extremamente desejoso de retornar a Filipos, pois as notícias de sua enfermidade deixaram os irmãos muito aflitos (2.26).

Paulo, sem dúvida, guiado pelo Espírito Santo e também influenciado parcialmente por notícias de mal-entendidos entre alguns irmãos (1.27; 2.2-4,14; 4.2), resolveu enviar a epístola pelas mãos de Epafrodito. A mesma revela a profunda afeição que, de coração, nutria por eles e seu fervoroso anelo pelo bem-estar espiritual dos filipenses.

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 54.

II – AUTORIA E DESTINATÁRIO

  1. Paulo e Timóteo.

O apóstolo Paulo tinha a Timóteo como um filho e seu auxiliar direto na vida missionária. Por isso, coloca-o como coautor dessa Carta, e certamente de outras escritas às igrejas formadas do seu labor missionário. Naturalmente, a autoria principal era de Paulo que, certamente discutia com Timóteo os assuntos de sua preocupação a serem lembrados no conteúdo da Carta. Paulo não gozava de boa saúde e tinha dificuldades com a visão exigindo o auxílio constante para escrever os seus pensamentos.

A forma de escrever uma carta naquela época continha três elementos: iniciava com o nome do rementente, depois o nome do destinatário e os cumprimentos aos destinatários. Ainda que Paulo, por consideração especial a Timóteo, o coloque junto do seu nome como autores, o conteúdo da Carta é todo de Paulo e ele começa “dou graças a Deus”.

“Paulo” (1.1) — O autor da Carta, responsável pela igreja de Filipos. Para entender a preciosidade dos pensamentos de Paulo se faz necessário conhecer mais intimamente o personagem. Era judeu de sangue, da tribo de Benjamim (Rm 11.1), e natural de Tarso, na Cilicia. Sua cultura advinha de três mundos distintos: judaica, grego e romano. Os antagonistas da sua teologia afirmam que Paulo foi influenciado fortemente pela cultura grega, mas, na verdade, os fundamentos da teologia judaica foram a base para a teologia cristã, da qual Paulo foi o principal construtor. Em termos de liderança, Paulo se tornou o apóstolo mais influente. Ele teve a coragem de aceitar o desafio da missão evangelizadora para os gentios e ficou conhecido como o “apóstolo dos gentios” (At 9.15). Nas suas cartas, ele se identificava sempre pelo primeiro nome, “Paulo”, e na Carta aos Filipenses ele inicia de modo diferente das demais cartas. Em geral, ele começa identificando seu apostolado, mas nessa Carta ele acrescenta o nome de Timóteo, seu companheiro de viagem, e faz saudações à igreja de Filipos.

“... e Timóteo” (1.1) — Ao mencionar Timóteo, o apóstolo Paulo demonstra a importância do companheirismo de Timóteo. Perce- be-se que este foi alguém muito especial nas atividades de formação e fortalecimento das igrejas. Ele foi um companheiro de viagem de Paulo a partir da segunda viagem missionária e demonstrou em todo o tempo lealdade, fidelidade aos princípios do evangelho e participante nas aflições pelo nome de Cristo. Paulo o preparou para ser um autêntico pastor como de fato foi em Efeso.

“... servos de Jesus Cristo” (1.1) — Antes de apresentar-se por títulos que reforçassem suas posições diante dos cristãos de Filipos, Paulo declara que eles eram apenas “servos de Jesus Cristo”. Russell Shedd - missionário e escritor de grande profundidade, reconhecido em toda a América Latina e, atualmente, missionário no Brasil - explora o sentido literal da palavra “servo” no original grego doulos, que sugere a ideia de escravo voluntário que serve com alegria e regozijo, para agradar ao seu senhor. Ora, o Senhor de Paulo e Timóteo era Jesus Cristo. Na Carta aos Romanos, Paulo diz que foi chamado para “ser servo de Jesus Cristo” (Rm 1.1,6). Como tornar-se servo de Jesus Cristo? O mesmo apóstolo diz que o servo é um escravo que obedece a um senhor e a ele pertence por direito de compra. Em

1 Coríntios 6.20, está escrito: “Fostes comprados por bom preço” e isso significa que fomos comprados por Cristo. Na verdade, fomos redimidos por seu sangue, porque éramos escravos do pecado (Rm 6.17). Se somos escravos de Jesus Cristo, servimos a Ele, porque nos comprou e pagou o preço do seu sangue (Ef 1.7).

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 22-23.

Os quatro grandes livros clássicos de Paulo são as epístolas aos Romanos, aos Gálatas, I e II Coríntios. Praticamente nenhum erudito tem duvidado da autenticidade desses quatro livros do N.T. como obras genuinamente paulinas. Elas são tão semelhantes entre si, no que diz respeito ao estilo, ao vocabulário, à estrutura das sentenças e a todas as demais considerações literárias que é necessário aceitar ou rejeitar juntamente todas elas. Por esse motivo é que pouquíssimos estudiosos têm provocado qualquer debate em torno da autoria dessas quatro epístolas. Além dessas quatro, outras cinco epístolas têm sido aceitas como paulinas, com pouca disputa, a saber, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses e Filemom.

Ver comentos gerais sobre o corpus paulino na introdução a Romanos, primeiros parágrafos, e secção II. Esta epístola aos Filipenses é aceita como paulina por quase todos os eruditos, embora alguns deles pensem que ela representa mais de uma epístola, sendo realmente uma composição de peças da correspondência paulina, mais ou menos como as epístolas de I e II Coríntios são tidas como representantes de pelo menos quatro missivas, mas que chegaram até nós agrupadas em apenas duas epístolas. (No tocante a esse problema, no que se relaciona a epístola aos Filipenses, ver o ponto IV desta introdução, intitulado «Integridade da Epístola»).

Dentre as dez a treze epístolas neotestamentárias aceitas como paulinas, sete delas foram escritas na prisão, a saber, Filipenses, Efésios, Colossenses, Filemom, I e II Timóteo e Tito, embora seja quase certo que nem todas as sete foram escritas da mesma cidade, e por ocasião do mesmo período de aprisionamento. (Quanto a notas expositivas sobre essa questão, ver a secção II da introdução a esta epístola, intitulada «Data e Proveniência», bem como a introdução a cada uma dessas epístolas, sob o título «Proveniência»).

A própria epístola aos Filipenses (1:1) reivindica a autoria paulina. Timóteo é ali apresentado como um de seus associados, o que sabemos estar de conformidade com a vida de Paulo (ver Fil. 1:1 e 2:19). Além disso, as referências ao seu aprisionamento concordam com aquilo que sabemos ser verdade, acerca dos sofrimentos de Paulo (Fil. 1:7). O autor também se refere, de forma muito natural à sua anterior pregação na Macedônia (ver Fil. 4:15), bem como ao fato que os crentes de Filipos lhe tinham enviado dádivas (ver Fil. 4:10 e 2:25-28), o que não é um elemento que um forjador tivesse querido incluir, porquanto ordinariamente era costume de Paulo viver independentemente das igrejas, quanto ao aspecto financeiro. O conteúdo geral, o estudo e o vocabulário dessa epístola, tudo aponta para a autoria paulina.

Os próprios assédios contra a integridade dessa epístola, ainda que consigam mostrar que nessa epístola está representada mais de uma missiva, não seriam capazes de provar que essa «coleção» não seria paulina. Contudo, os argumentos contrários à autoria paulina são os seguintes:

  1. Uma suposta tentativa de mostrar afinidade para com as idéias do gnosticismo. (Ver Fil. 2:5 e ss.). Entretanto, a tríplice divisão celeste, terrestre e do submundo, não tem sido bem recebida pela maioria dos eruditos como uma prova de influências gnósticas, porquanto tais idéias podem ser encontradas tanto na teologia judaica como na teologia cristã, correntes na época de Paulo.
  2. A passagem um tanto indelicada que aparece no terceiro capítulo desta epístola, e que chama os opositores de Paulo de «cães» e de «falsa circuncisão», na opinião de alguns estudiosos, seria indigna do grande apóstolo Paulo. Porém, se lermos a primeira epístola aos Coríntios e a epístola aos Gálatas, verificaremos que isso se transforma em uma prova favorável à autoria paulina, e não contrária a ela, pois Paulo não hesitava em falar de forma ousada e mordaz.
  3. O trecho de Fil. 4:15, na opinião de alguns eruditos, contradiria aos trechos de I Cor. 9:15 e II Cor. 11:9, sob a alegação que se refere à coleta encabeçada por Paulo para os santos pobres de Jerusalém, que não chegou às mãos desse apóstolo, ou que não foi levantada no começo de seus labores na Macedônia (conforme esta epístola aos Filipenses parece indicar), mas antes, no final de seus labores ali. Porém, essa dificuldade é facilmente solucionada quando observamos que essa referência não é ao papel deles na coleta geral para os pobres de Jerusalém, pois Paulo se referia antes às dádivas pessoais que eles lhe tinham enviado; pois esta epístola aos Filipenses, pelo menos em parte, visou agradecer ao auxílio monetário que os crentes de Filipos haviam enviado ao apóstolo. O décimo sexto versículo deste mesmo capítulo deixa isso claro, onde se lê que o dinheiro, no dizer de Paulo, fora «...o bastante para as minhas necessidades», e não para os santos pobres de Jerusalém.

Todas essas três objeções, entretanto, não têm sido favoravelmente acolhidas pela grande maioria dos intérpretes, razão pela qual essa epístola tem continuado a ser considerada como genuinamente paulina.

A autoridade e a canonicidade da epístola aos Filipenses têm sido questões fixadas desde os tempos antigos. Ela usufrui da mesma autoridade, quanto a esses pontos de vista, que os demais livros clássicos paulinos, e podem ser aplicadas aqui as introduções às epístolas aos Romanos, aos Gaiatas e a I e II Coríntios, onde se ventilam as questões do cânon e da autoridade antiga. Não houve nenhuma ocasião, na igreja cristã primitiva, em que qualquer pronunciamento sobre o «cânon» tivesse sido efetuado, que não incluísse também a epístola aos Filipenses. Márcion, um dos pais da igreja (150 d.C.), em seu cânon neotestamentário de onze livros, que se constituía de dez das epístolas paulinas e de uma forma mutilada do evangelho de Lucas, incluía a epístola aos Filipenses. Todos os demais pais da igreja, após Márciom, que falaram a respeito da questão, jamais deixaram de incluir essa epístola. E antes mesmo da época de Márciom, Policarpo, em sua epístola aos Filipenses, mencionou a correspondência que Paulo tivera com eles, citando o trecho de Fil. 3:11. Nessa coleção de epístolas paulinas, a epístola aos Filipenses evidentemente foi escrita antes de Colossenses e depois de Efésios. (Ver a introdução à epístola aos Efésios, parágrafo 4,2). Essa é igualmente a ordem como essa epístola aparece no cânon muratoriano. Os pais da igreja Inácio, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e Eusébio, todos citaram trechos desta epístola aos Filipenses.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 756-757.

O texto divinamente inspirado de Filipenses apresenta Paulo como o autor (1:1), tornando assim a sua autoria indiscutível. Na verdade, exceto por alguns radicais do século XIX e alguns críticos, a autoria paulina de Filipenses nunca foi questionada. Hoje a maioria dos estudiosos, não importa qual a sua persuasão teológica, aceitá-la como uma verdadeira epístola paulina. J. B. notas Lightfoot, Algumas evidências internas podem levar a alguns leitores a colocar a autenticidade da Epístola aos Filipenses, mas essa perspectiva gera muitas dúvidas. Estas evidências podem ser tanto positivas quanto negativas. Por outro lado, a carta reflete completamente a mente de Paulo, em muitos momentos. Esta epistola não oferece nenhum motivo que poderia ter levado a uma falsificação. Apenas como a efusão natural do sentimento pessoal, provocado por circunstâncias imediatas, é de qualquer maneira concebível.

Um falsificador não teria produzido uma obra tão sem propósito (sem propósito para, no seu caso deve ter sido), e não poderia ter produzido algo tão Inartificial. (Epístola de São Paulo aos Filipenses [Reprint; Grand Rapids: Zondervan, 1953], 74)

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

Não havia necessidade de Paulo, como nas cartas aos Gálatas e aos Coríntios, defender sua autoridade apostólica, pois os filipenses eram leais a ele e também à “fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). Também a afeição que tinham por ele era extraordinária e mais de uma vez o haviam ajudado em suas necessidades (4.10-18). Note que, ao se dirigir a eles, Paulo dispensa o título de “apóstolo” (Fp 1.1; comp. Rm 1.1; 1 Co 1.1; G1 1.1).

Nenhum erro doutrinário dividia a igreja, e nesse aspecto difere das epístolas aos Gálatas, Coríntios e Colossenses, enviadas da mesma prisão. Contudo, no capítulo três, Paulo adverte contra o judaísmo e uma possível forma de antinomianismo. Mas não há razão para crer que estes erros estavam realmente presentes na igreja. O desejo de Paulo era preveni-los contra tais ensinos antes que efetivamente surgissem.

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 55.

  1. Os destinatários da carta.

“... aos santos... que estão em Filipos” (1.1) — Difere o tratamento do apóstolo aos cristãos que viviam em Filipos. Ele os chama “santos”, porque se referia àqueles que foram salvos e separados para viver uma nova vida em Cristo Jesus (2 Co 5.17). Era o tratamento que Paulo dava a todas as igrejas. Ele fortalecia a ideia de um estado de santidade ativa porque viviam e exerciam sua fé “em Cristo Jesus”. Essa expressão “em Cristo Jesus” era também usada em outras cartas para ilustrar a relação dos crentes com Cristo. Tratava-se de uma relação íntima como existe entre a “videira e os ramos” (Jo 15.1-7; 1 Co 12.27). Os destinatários, portanto, são chamados “santos” porque foram separados para viver para Cristo. A igreja romana identifica como “santos” os que já morreram. Porém, o contexto teológico indica que “santos” são todos quantos servem ao Senhor Jesus em vida física. O significado da palavra “santo” é “separado”. Os crentes em Cristo, independentemente de suas fraquezas, são os “separados” para servirem a Cristo. A santidade pode ser vista sob dois ângulos: posicionai e a progressiva. Posicionalmente, todos quantos estão em Cristo Jesus são considerados “santos”. Progressivamente, todos os vivos em Cristo aperfeiçoam a vida cristã buscando a separação de toda e qualquer ação pecaminosa.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 23-24.

As pessoas a quem a epístola é dirigida: 1. “...a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos”. Ele menciona a igreja antes dos ministros, porque os ministros são para a igreja, para a edificação e benefício dela, não a igreja para os ministros, para a dignidade, domínio e riqueza deles, “...não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vosso gozo” (2 Co 1.24). Eles não são somente servos de Cristo, mas servos da igreja por amor a Ele. “...e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus” (2 Co 4.5). Considere isso: Os cristãos aqui são chamados santos; separados para Deus, ou santificados pelo seu Espírito, ou por profissão visível ou santidade real. E aqueles que não são realmente santos na terra nunca serão santos no céu.

Observe: A epístola é dirigida “...a todos os santos”, mesmo os mais desprezíveis, insignificantes e com um mínimo de dons. Cristo não faz acepção; o rico e o pobre se encontram nele: e os ministros não devem fazer acepção no seu cuidado e ternura para com as pessoas. Não devemos ter “...a/e de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tg 2.1). Santos em Cristo Jesus; os santos são aceitos somente pelo fato de estarem em Cristo Jesus, ou de serem cristãos. A parte de Cristo, os melhores santos serão pecadores e incapazes de comparecer diante de Deus. 2. Ela é dirigida aos ministros ou oficiais da igreja: “...com os bispos e diáconos”, os bispos e anciãos, em primeiro lugar, cuja função era ensinar e governar, e os diáconos, ou supervisores dos pobres, que cuidavam dos negócios externos da casa de Deus: as instalações, os utensílios, a manutenção dos ministros e a provisão dos pobres. Estes eram todos os “cargos” conhecidos na igreja e que eram de escolha divina. O apóstolo, na sua epístola a uma igreja cristã, reconhece apenas duas classes, que ele chama de bispos e diáconos. Portanto, toda pessoa que entenda que os mesmos atributos e títulos, as mesmas qualificações, os mesmos procedimentos do cargo e a mesma honra e respeito são atribuídos em todo o Novo Testamento àqueles que são chamados de bispos e presbíteros (de acordo com o Dr. Hammond e outros comentaristas conhecidos), terão dificuldades em dispô-los em cargos diferentes ou classes distintas de ministério nos tempos bíblicos.

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 610.

Paulo dirige sua carta a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos. Palavra “ Qodesh”, seu equivalente hebraico, hagios (santos) se refere a alguém que está separado, mais especificamente se tratando dos crentes, que são separados por Deus para Si mesmo. Ambas as palavras são muitas vezes traduzida como "santo".

Infelizmente, para algumas Denominações santos são muitas vezes considerados como sendo de uma ordem especial, ou seja, Grandes cristãos que realizaram boas ações extraordinárias e viveram uma vida exemplar. No sistema católico romano, os santos são reverenciados, Na verdade são pessoas que só podem ser oficialmente canonizados após a morte, porque eles têm cumprir com certos requisitos exigentes. Mas a Escritura deixa claro que todos os santos remidos, seja sob a Antiga ou nova aliança, são pessoas separado do pecado e dedicados a Deus.

Quando Deus ordenou a Ananias para impor as mãos sobre o recém convertido Saulo (Paulo), de modo que ele recuperasse a vista, ele respondeu: "Senhor, eu ouvi de muitos a respeito desse homem, quantos males fez aos teus santos em Jerusalém" (Atos 9:13). Alguns versículos adiante Lucas escreve que "como Pedro estava viajando por todas essas regiões, veio também aos santos que habitavam em Lida" (Atos 9:32). Em ambos os casos é evidente que os santos se refere a todos os crentes nessas cidades (cf. Ef 1:1;. Col. 1:2). Paulo ate mesmo se refere aos crentes imaturos em Corinto como santos, isso indica indiscutível que o termo não tem relação com a maturidade espiritual ou caráter deles, ele escreveu: " Å igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso "(1 Cor. 1:2). Como todos os outros crentes, os cristãos em Corinto não eram santos por causa de sua maturidade espiritual (cf. 1 Cor. 3:1-3), mas sim porque eles eram "santos por vocação", uma referência ao seu chamamento à salvação (cf. Rom. 8:29-30).

Todos os crentes são santos, não porque eles próprios são justos, mas porque eles estão em seu Senhor, Jesus Cristo, cuja justiça é imputada a eles (Rm 4:22-24). Um budista não fala de si mesmo como em Buda, nem um muçulmano falar de si mesmo como em Mohammed. Um cientista cristão não está na Mary Baker Eddy ou um mórmon em Joseph Smith ou de Brigham Young. Eles podem seguir fielmente o ensinamento eo exemplo desses líderes religiosos, mas eles não são determinados a ser como eles. Somente os cristãos pode pretender ser igual ao seu Senhor, porque eles foram feitos espiritualmente um com Ele (cf. Rom. 6:1-11). "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou", Paulo escreveu: "mesmo quando estávamos mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou com Ele, e nos assentou com Ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus "(Ef 2:4-6). Aos Gálatas ele declarou: "Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2:20). Nas cartas de Paulo, a frase "em Cristo Jesus" ocorre cinquenta vezes, "em Cristo" vinte e nove vezes, e "no Senhor" Quarenta e cinco vezes. Estar em Cristo Jesus e, portanto, aceitável a Deus é a fonte suprema da alegria do crente.

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

OS CRISTÃOS EM FlLIPOS

A segregação racial, étnica e social é tão antiga quanto a própria sociedade. Onde quer que vivam, as pessoas formam grupos considerando esse aspecto diferenciador e depois levantam muros ã sua volta, para impedir que outros, que não seguem o padrão estabelecido, unam-se a elas.

Em Filipos, como em qualquer outro lugar, Paulo ofereceu o evangelho primeiro aos judeus. Provavelmente havia poucos na cidade, porque não existia sequer uma sinagoga. No judaísmo do século 1, dez homens que seguiam essa crença já eram suficientes para justificar a construção de uma sinagoga para os cultos de adoração. Os judeus que viviam em Filipos atravessavam o portão da cidade e seguiam em direção às margens do rio Gangites para adorar a Deus e orar. Contudo, a Igreja cristã à qual Paulo escreveu deve ter prosperado, porque, em sua carta, ele se referiu aos níveis de liderança na Igreja, como bispos e diáconos.

Filipos era uma cidade romana com diversas culturas que ficava na estrada principal (a Via Egnatia), estendendo-se desde as províncias do leste a Roma, e sua igreja tinha um grupo distinto de cristãos. O Novo Testamento menciona especificamente três pessoas: uma asiática, uma grega e uma romana. A princípio, tinham pouca coisa em comum. A primeira era uma mulher de negócios que vendia roupas de púrpura aos ricos; a segunda, uma jovem escrava que estava possuída por um espírito de adivinhação; e a terceira era um carcereiro. Três raças, três classes sociais e, provavelmente, três formas de devoção religiosa diferentes, antes de ter um encontro com Cristo.

Mas Paulo lhes ensinou que todos eram iguais no Corpo de Cristo; todos eram pecadores salvos pela graça de Deus. Eles deviam humilhar-se como Jesus fizera e estar unidos no amor de Cristo. Em um mundo segregado no tocante à classe social e à etnia, a igreja em Filipos violava as regras: nisto não há judeu nem grego/ não há servo nem livre [...] porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3.28). Essa igreja era um dos lugares mais integrados do mundo mediterrâneo.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 521.

  1. Alguns destinatários distintos: “bispos e diáconos”.

Fazia parte da vida da igreja uma liderança especial identificada pelos “bispos e diáconos” que serviam na igreja de Filipos. No grego bíblico, a palavra “bispo” é epíscopos e tem o sentido de supervisor. Como a palavra “bispos” está no plural, subentende-se que se tratava dos líderes principais da igreja. Em outras partes do Novo Testamento, destaca-se a função do presbítero, cuja função essencial era a liderança local, submetida, naturalmente, a um pastor ou bispo da igreja. A palavra episkope refere-se também à pessoa do bispo, do líder, do pastor local. Paulo não teria citado essa palavra se não houvesse bispos na igreja de Filipos. O sistema atual de governo eclesiástico usa o termo pastor, cuja função é a mesma referente ao bispo.

Todavia, Paulo saúda também aos “diáconos”, cuja função era a mesma estabelecida em Atos 6.1-6. Os diáconos cuidavam da administração material da igreja. Com os dois tipos de liderança no seio da Igreja, Paulo entende que devem merecer apoio e apreciação pelo seu trabalho na vida eclesiástica. Ele dá importância à liderança espiritual da igreja. O padrão básico instituído nas igrejas do primeiro século tinha em sua liderança “bispos”, ou seja, líderes espirituais responsáveis pela igreja local, e tinha “diáconos” que serviam à igreja na liderança dos bispos.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 24-25.

A adição com os bispos e diáconos torna esta saudação única. O termo episkopos ou «bispos» significa alguém que inspeciona ou revista, uma espécie de superintendente (cf. 1Ts 5.12, «os que vos presidem»). Do uso desse termo na literatura paulina, muitos adotam a opinião que o episkopos estava presente na igreja primitiva, desde a sua fundação, e não que apareceu mais tarde, em séculos posteriores. Outros notam que presbyteros («presbítero» ou «ancião») é o nome geral do dirigente de uma igreja, no Novo Testamento, e estão convictos de que o episcopado é de data posterior. Episkopos o presbyteros são aceitos como termos idênticos, especialmente porque encontramos, na Epístola aos Filipenses, a palavra bispos, no plural. É interessante ressaltar aqui a origem das duas opiniões a respeito do governo da igreja. O vocábulo diakonos aparece freqüentemente nos Evangelhos e Epístolas, sendo traduzido por «servo» ou «ministro» que é sua significação. Num sentido mais técnico «diácono» é o termo aplicado à classe dos oficiais da igreja, cujo dever se relaciona mais com os negócios materiais da igreja, do que com assuntos espirituais (1Tm 3.8). A função especial dos diáconos pode ter tido origem na escolha dos sete, em At 6, ainda, que ali tal nome não seja mencionado para eles. As saudações do verso 2 são uma combinação cristã do grego familiar e da forma de saudação dos hebreus, graça e paz que somente podem vir de Deus, o Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Ef 6.23-24).

DAVIDSON. F. Novo Comentário da Bíblia. Filipenses. pag. 10-11.

BISPO

No grego, episkopos «supervisor. Palavra que é aplicada, antes de tudo. a Cristo (I Ped. 2:25); em seguida. ao oficio apostólico (Atos 1:20, citando Sal. 109:8); e finalmente, aos lideres das congregações locais cristãs (Fil. 1:1). Como verbo, substantivo e adjetivo. a palavra aparece no Novo Testamento por onze vezes (Beb. 12:15; I Ped. 2:12.25; 5:2; Luc, 19:44: Atos 1:20: 20:28; I Tim. 3:1.2: Fil. 1:1, e Tito 1:7.

Origens:

Nosso termo português, «bispo», deriva-se do latim, biscopus, mas a palavra no Novo Testamento, é grega e designa o Senhor Jesus e os apóstolos como «supervisores.., e finalmente, um dos ofícios do ministério cristão, que são os «supervisores.. abaixo de Cristo. Os títulos «bispo», «ancião» e ..pastor- eram  sinônimos perfeitos, indicando um dos quatro ministérios cristãos: apóstolos, profetas. Evangelistas e pastores/mestres (Efé. 4:11). Portanto, aqueles três títulos são intercambiáveis, conforme se vê em Atos 20:28. A palavra grega podia ser usada de maneira não-técnica, aplicada a qualquer pessoa dotada de autoridade de supervisão. Em I Pedro 2:25 é um titulo de Cristo. Em Filipenses 1:1 indica o grupo de autoridades liderantes de uma comunidade cristã. Tito 1: 7 parece usar a palavra como sinônimo de «ancião». Talvez devêssemos dizer que «bispo». «ancião» e «pastor» eram três títulos que ressaltavam três aspectos diferentes de uma mesma função eclesiástica.

Contudo, alguns estudiosos pensam que as epístolas pastorais fornecem indícios para pensarmos de outra maneira. Pois Tim6teo recebeu de Paulo o poder de consagrar anciãos para serem oficiais das igrejas da área onde ele trabalhava no evangelho. Isso parece aproximar-se ao oficio distinto de ..bispo», conforme o mesmo surgiu posteriormente, o qual já tinha autoridade sobre os anciãos de alguma área geográfica. Todavia, não é necessariamente assim.

pois pastores podem consagrar outros irmãos como pastores, sem que isso requeira que o presbitério consagrador componha-se de «bispos» que consagrem «pastores», como se um oficio maior desse autoridade a um menor.

Nas funções e poderes dos apóstolos. Encontramos uma função similar à dos futuros «bispos», pois os apóstolos certamente tinham funções que se estendiam a áreas geográficas, e não meramente a igrejas locais isoladas. Porém, esse argumento perde muito de sua força quando consideramos que os apóstolos enfeixavam, em seu oficio, todos os demais ministérios. Em seu trabalho, os apóstolos também eram profetas, evangelistas, pastores e mestres. Portanto, não é de se admirar que fizessem coisas próprias dos deveres que, posteriormente, mas ainda dentro do período neotestamentârio, eram entregues aos bispos ou anciãos.

lrineu (ver o artigo) no segundo século da era cristã. refere-se aos bispos como sucessores dos apóstolos, tanto como mestres como administradores das igrejas. Até ai, nada há de mais, pois os bispos poderiam ser os mesmos anciãos. Mas Hip6lito (ver o artigo), entre 160 e 235 D.C., assevera que somente os bispos tinham a autoridade para ordenar. Toma-se claro, pois, que em sua época.; um bispo era mais que um ancião. Na Síria e na Ásia Menor, cada corpo local governante era supervisionado pelos chorepiscopoi, ou «bispos itinerantes.., os quais, por sua vez, eram responsáveis diante de um bispo fixado em alguma cidade grande mais próxima. Mas, como é evidente, isso já representa uma evolução que não existia nos tempos dos apóstolos, pelo que não deveria servir-nos de padrão. O ministério das igrejas cristãs foi sofrendo. transformações que não têm base bíblica. Assim, na África do Norte, um bispo com plenos direitos era nomeado sempre que vinha à existência alguma comunidade cristã. Nos distritos em redor de Alexandria, as aldeias eram deixadas ao encargo de anciãos, os quais operavam sob a supervisão do bispo de Alexandria. A mesma coisa sucedia na Europa Ocidental, onde somente os bispos tinham o direito de ordenar a ministros locais. Naturalmente, havia muitos lugares onde o bispo era apenas o ancião ou pastor de uma igreja local. Mas, em redor das cidades maiores, surgiu a tendência de um pastor de uma cidade maior exercer influência sobre os pastores de cidades menores. E aquele passou a ser chamado «bispo». O titulo continuava o mesmo dos tempos do Novo Testamento, mas as funções dos bispos ultrapassavam em tudo quanto se vê nas páginas sagradas. Esse tipo de atividade' continuou até que houve a necessidade de surgirem os «arcebispos», ou -bispos-chefes..; ou então, nas igrejas orientais, os e patriarcau. Em todo esse desenvolvimento, foi surgindo o papa de Roma, que tinha maior prestigio e autoridade que a de todos os arcebispos e bispos. Isso criou toda uma hierarquia eclesiástica, ao passo que o Novo Testamento nos apresenta a idéia de um ministério diversificado, mas sem superioridades e inferioridades. Disse Jesus: <<um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos>>(Mat. 23:8).

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag. 542-543.

Bispos e diáconos são chamados para liderar a igreja. Como é evidente a partir de Atos 20:17, 28 e 1:5 Tito, 7, superintendente é outro termo para ancião, o nome mais comum do Novo Testamento para bispos(cf. Atos 11:30; 14:23; 15:2, 4, 6, 23; Tiago 5:14). Os anciãos são também referidos como pastores (Atos 20:28, 1 Pedro 5:1-2), pastor-professores (Efésios 4:11), e bispos (cf. Atos 20:28, marg; 1. Tim. 3:2, marg.). Suas altas qualificações são definidas em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:6-9. Bispos, ou presbíteros, são mencionadas pela primeira vez em relação ao dinheiro fome e alívio enviado pela igreja em Antioquia aos anciãos da Judéia pelas mãos de Barnabé e Saulo (Atos 11:30). Eles mediam a regra de Cristo nas igrejas locais através da pregação, ensino, dando exemplos piedosos, e tendo uma liderança guiada pelo Espírito Santo.

Embora o seu papel é principalmente um serviço prático, em vez de pregação e ensino, os diáconos são necessários para atender aos mesmos elevados padrões morais e espirituais (1 Tm. 3:8-13) como idosos. A distinção entre os dois cargos é que os presbíteros devem ser professores habilitados (1 Tm 3:2;. Tito 1:9).

JOHN MACARTHUR, JR. Novo Testamento Comentário Filipenses Comentário Expositivo.

III – AÇÃO DE GRAÇA E PETIÇÃO PELA IGREJA DE FILIPOS (1. 3-11)

  1. As razões pela ação de graças.

As igrejas que receberam de Paulo as mais calorosas ações de graças foram as de Filipos e Tessalônica. A expressão, no versículo 3, “dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós”, indica que Paulo os tinha na mais alta conta, lembrando-se sempre do zelo e carinho dos filipenses.

Boyd. Frank M. Comentário Bíblico. Gálatas. Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus. Editora CPAD. pag. 60.

Ao dar graças a Deus pela lembrança que vinha a sua mente acerca dos cristãos de Filipos, ele está, de fato, afirmando que apesar de estar preso fisicamente, sabia que os irmãos permaneciam firmes na fé sem se deixar levar pelo engano dos falsos mestres que tentavam desmerecer todo o trabalho feito anteriormente.

Ele estava preso, mas a Palavra de Deus continuava livre.

Mesmo sendo prisioneiro de Cesar (de Roma), a lembrança da igreja lhe dava forças para recordar e enviar a Palavra de Deus que ninguém podia prendê-la. Ele não podia estar comungando fisicamente com os filipenses, mas podia orar por eles, pois a oração não tem fronteiras.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 25-26.

Paulo eleva o seu coração em gratidão e oração pela participação dos cristãos filipenses na obra do Evangelho e expressa seus profundos anseios em que continuem a crescer no amor e no discernimento.

  1. Ação de graças com alegria é uma corrente oculta que permeia todas as cartas de Paulo. (Só em Gálatas ela foi momentaneamente eclipsada pela seriedade da ameaça judaizante.) Em nenhum outro lugar ela explode à superfície mais expressivamente do que em Filipenses. Mesmo na prisão os pensamentos de Paulo se dirigiam para os outros. Em sua contínua lembrança deles, ele dá graças a Deus. O singular meu Deus exibe um relacionamento profundo e íntimo.

MOODY. Comentário Bíblico Moody. pag. 5-6.

  1. Uma oração de gratidão (vv 3-8).

"... todas as vezes que me lembro de vós” (1.3) sugere a importância de valorizarmos a história e as pessoas que fizeram parte dessa história. A falta de memória tem produzido distorções dos nossos valores, e o espírito de gratidão tem se tornado raro em nossos dias. Em seus pensamentos, Paulo lembrava a experiência amarga que tivera juntamente com Silas em Filipos, quando foram arrastados à presença das autoridades e condenados (At 16.19). Foram açoitados publicamente e, com vestes rasgadas e o corpo ferido, foram colocados no cárcere da cidade, com os pés presos em troncos dentro da cadeia. Porém, a recordação maior daquela prisão vivida por Paulo e Silas era o livramento que Deus lhes deu e a conversão do carcereiro, depois do terremoto. O sentimento mais forte na mente e no coração de Paulo era a convicção de que, naquele momento, ele estava preso, mas a Palavra de Deus não estava algemada. Paulo entende ainda que ele, de fato, era prisioneiro de Cristo, e não de César. Podiam colocar algemas no homem Paulo, mas não podiam algemar o evangelho de Cristo. Para o evangelho de Cristo, que é a manifestação da Palavra de Deus, não há limitação geográfica ou física. A Palavra de Deus é poderosa e livre para operar na vida das pessoas. Suas orações não se restringiam às paredes de uma cela, porque elas lhe davam consolo e certeza de estar sendo ouvido. Suas orações lhe proporcionavam alegria de espírito.

'‘...fazendo, sempre com alegria, oração por vós em todas as minhas súplicas" (1.4). Parece um contrassenso, ou um paradoxo, reunir súplica com alegria, mas isso só é possível quando se tem o Espírito Santo dentro de si. Ele nos habilita a superarmos as tristezas e necessidades produzindo um gozo interior (alegria) que nada no mundo seria capaz de produzir. A igreja de Filipos dava a Paulo alegria pura quando pensava nela.

Que significam essas súplicas? No grego bíblico, a palavra “súplica” é deesis, e é substantivo de deomai, que significa “tornar conhecida uma necessidade específica”. Paulo não faz uma oração qualquer, sem uma intenção precisa. Ele faz um pedido a Deus pela igreja de Filipos. Na verdade, a súplica que Paulo faz em favor da igreja tem um caráter intercessório que se origina na compreensão da necessidade da igreja. Mais tarde, Paulo reforça essa oração quando diz: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória” (4.19). Dos vários tipos de oração, a intercessão toca o coração de Deus.

Paulo faz uma oração de gratidão pela cooperação dos filipenses na disseminação do evangelho (1.5)

“... pela vossa cooperação” (1.5). A palavra cooperação ganha um sentido especial nas orações do apóstolo porque ele ora não só por seus filhos na fé, mas agradece a Deus a cooperação deles na disseminação do evangelho. Essa cooperação referia-se aos donativos enviados pela igreja por intermédio de Epafrodito (2.25). Quando fala de cooperação, está de fato trazendo à tona o carinho e a comunhão dos cristãos de Filipos (At 2.42; 1 Jo 1.3,7). Por essa oração, ele lembra a participação nas lutas pelo evangelho e a contribuição financeira espontânea para sustentar os servos de Deus (Fp 4.15,16; 2 Co 8.1-4; 9.13; Rm 15.26). Enquanto os filipenses cooperavam, os coríntios fechavam a mão (1 Co 9.8-12).

  1. Uma oração de gratidão pela intimidade espiritual dos filipenses com o seu ministério (1.6-8)

“... tendo por certo isto mesmo” (1.6). Na ARA, a expressão é “estou plenamente certo”, indicando que a “boa obra” não é outra coisa que não seja “a salvação recebida”. Paulo não tinha dúvidas quanto à salvação. Ele estava totalmente convicto acerca da salvação e sabia que nada poderia frustrar ou interromper a obra de Deus na vida dos crentes que a receberam (Rm 8.26-39).

“... aquele que em vós começou a boa obra” (1.6). Que “boa obra” era esta? Paulo atribui a “boa obra” a Deus por meio de Jesus Cristo. A “boa obra” não é outra coisa senão aquela que só Deus pode operar. Trata-se de uma obra da qual os crentes participam em termos de pregar o evangelho a outras pessoas. Deus não faz só essa obra, mas requer pessoas que se tornam cooperadoras na sua obra (1 Co 3.9). Porém, Paulo agradecia a Deus pelos filipenses, porque eles participavam da mesma graça do evangelho com o apóstolo (1.7). Era, de fato, a identificação de uma intimidade espiritual que ele gozava na presença de Deus, mesmo estando algemado. Paulo tinha um carinho especial pela igreja de Filipos e demonstra uma forte afeição pelos filipenses como uma prova de amor que deve existir entre o pastor e suas ovelhas (Fp 1.8).

“... aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo” (1.6). A obra de aperfeiçoamento é progressiva, paulatina. Ela vai sendo desenvolvida até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. O que se entende por “até ao Dia de Jesus Cristo”? A expressão: “dia de Jesus Cristo” refere-se ao tempo da volta do Senhor Jesus, que acontecerá em duas fases distintas. A primeira fase é o arrebatamento da Igreja, que acontecerá de modo invisível e será um evento apenas para a igreja sobre as nuvens (1 Ts 4.13-17). A segunda fase da volta de Jesus será visível para a terra e ocorrerá no final da Grande Tribulação, quando Jesus descerá para desfazer o poder da trindade satânica: o anticristo, o falso profeta e o Diabo. Ele irá instalar um novo reino e domínio na terra a partir da Jerusalém terrestre (2 Ts 2.7-9). O termo “dia” no contexto dessa escritura abrange os dois eventos: sua vinda sobre as nuvens e sua vinda com as nuvens. A essência da escritura indica dois aspectos importantes acerca da salvação: a perfeita e a progressiva. A salvação perfeita refere-se à obra perfeita que Jesus realizou no Calvário. Trata-se de uma obra perfeita e completa.

Mas o que Paulo quis enfatizar com a palavra “até” é a dinâmica da salvação progressiva a qual o Senhor vai aperfeiçoando até a sua vinda. A consumação da salvação se dará no Dia de Jesus Cristo. Tudo o que depende de nós é a nossa perseverança na fé até aquele dia.

Nos versículos 7 e 8, o apóstolo Paulo faz um interlúdio na sua carta para afirmar aos filipenses a sua profunda afeição e o respeito por eles pelo fato de participarem da sua vida de modo especial. Quando diz “vos retenho em meu coração” (v. 7), na forma grega pode ser traduzida como “vós me tendes em vosso coração”. No versículo 8, Paulo expressa seu amor e gratidão pelos seus amigos filipenses por participarem dos seus sofrimentos, das suas tristezas e também das suas alegrias.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 26-29.

A Gratidão e Alegria do Apóstolo w. 3-6

O apóstolo prossegue, depois da dedicatória e da bênção, às ações de graças pelos santos em Filipos. Ele anuncia o motivo da sua gratidão a Deus em relação a eles. Observe aqui:

I Paulo lembrava-se deles: ele pensava muito neles; e embora não os pudesse ver e estivesse longe deles, eles não estavam distantes da sua mente; ou: “...todas as vezes que me lembro de vós” - epi pase te mneia, já que ele pensava neles com frequência, falava deles com frequência e deleitava-se em falar deles. O simples fato de mencioná-los trazia alegria ao seu coração; é um prazer ouvir do bem-estar de um amigo ausente.

II Ele lembrava-se deles com alegria. Em Filipos o apóstolo foi maltratado; lá ele foi açoitado e colocado no tronco, e por ora via pouco do fruto do seu trabalho; e mesmo assim ele lembra de Filipos com alegria. Ele entendia que seus sofrimentos por Cristo eram uma honra, consolo e sua coroa, e sentia satisfação toda vez que o lugar onde sofreu era mencionado. Ele não tinha nem mesmo um pouco de vergonha deles, nem aversão ao ouvir falar da cena dos seus sofrimentos. Na verdade, ele lembrava de tudo com alegria.

III Ele lembrava-se deles em oração: “...fazendo, sempre com alegria, oração por vós em todas as minhas súplicas” (v. 4). A melhor forma de lembrar dos nossos amigos é fazê-lo diante do trono da graça. Paulo orava muito por todos os seus amigos, mas por esses de uma maneira particular. Pelo que tudo indica, por essa maneira de expressão, ele mencionou por nome diante do trono da graça as muitas igrejas pelas quais estava interessado e preocupado de uma maneira especial. Em certos períodos, ele orava de maneira especial pela igreja de Filipos. Deus permite que tenhamos liberdade com Ele, ainda que, para o nosso consolo, saiba quem temos em mente mesmo quando não os mencionamos. Ele agradeceu a Deus cada lembrança alegre deles. Observe: As ações de graças devem fazer parte de cada oração: e, qualquer que seja o motivo de nossa alegria, também deve ser o motivo de nossa gratidão.

Deus deve receber a glória daquilo que traz consolo ao nosso coração. Ele agradeceu a Deus, mas também fez petição com alegria. Da mesma forma que a alegria santa é o coração e a alma do louvor agradecido, assim o louvor agradecido é a língua da alegria santa.

V Tanto em nossas orações quanto em nossas ações de graças, devemos ver Deus como nosso Deus. A gratidão nos anima na oração e expande o coração em louvor, ao ver cada misericórdia vindo da mão de Deus como nosso Deus. “Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós”. Devemos agradecer ao nosso Deus as graças e consolos, os dons e utilidade dos outros, à medida que recebemos o benefício deles e Deus recebe a glória por eles. Mas qual é o motivo dessas ações de graças? 1. Ele agradece a Deus o consolo que tinha neles: “...pela vossa cooperação no evangelho desde o primeiro dia até agora” (v. 5). Observe: A cooperação do evangelho é uma boa cooperação; e os cristãos mais insignificantes cooperam no evangelho com os maiores apóstolos, porque a salvação do evangelho é uma “...comum salvação” (Jd 3), e eles “...alcançaram fé igualmente preciosa” (2 Pe 1.1). Aqueles que sinceramente recebem e aceitam o evangelho têm comunhão nele desde o primeiro dia: um cristão nascido de novo está interessado em todas as promessas e privilégios do evangelho desde o primeiro dia da sua vida. “...até agora”. Considere isso: E um grande consolo para os ministros quando as pessoas que começam bem continuam e perseveram.

Alguns, por sua cooperação no evangelho, entendem sua liberalidade em propagar o evangelho e não traduzem koinonia por comunhão, mas por comunicação. Mas, comparando essa palavra com as ações de graças de Paulo pelas outras igrejas, parece significar de forma mais geral a comunhão que tinham na fé, na esperança, no amor santo, com todos os cristãos sinceros - uma comunhão (cooperação) nas promessas, ordenanças, privilégios e esperanças do evangelho; e isso “...desde o primeiro dia até agora”. 2. Pela confiança que tinha neles (v. 6): “Tendo por certo isto mesmo...”. Observe: A confiança dos cristãos é o grande consolo deles, e podemos extrair motivos de louvor das nossas esperanças bem como das nossas alegrias; devemos dar graças não somente pelas posses e evidências presentes, mas também elas perspectivas futuras. Paulo fala com muita confiança acerca do bom estado dos outros, estando certo de que se fossem sinceros em relação à caridade e à fé, seriam felizes: “...que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo”. Uma boa obra entre vós - en hymin, assim pode ser lido; entendamos isso, de modo geral, acerca da implantação da igreja entre eles. Aquele que implantou o cristianismo no mundo o preservará enquanto este mundo existir.

Cristo terá uma igreja até que o mistério de Deus seja concluído, e o corpo místico, completado. A igreja é edificada sobre uma rocha, “...e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Mas isso se deve aplicar a pessoas específicas e é uma referência à realização certa da obra da graça onde quer que tenha sido iniciada. Observe aqui:

(1) A obra da graça é uma boa obra, uma obra abençoada; porque nos torna bons e é uma garantia do que é bom para nós. Ela nos torna semelhantes a Deus e nos prepara para o gozo de Deus. Aquilo que nos faz o maior bem certamente pode ser chamado de boa obra.

(2) Sempre que essa boa obra foi começada ela foi começada por Deus: “...aquele que em vós começou a boa obra”. Não poderíamos começá-la por conta própria, porque por natureza estamos “...mortos em ofensas e pecados”: e o que as pessoas mortas podem fazer para reviver; ou como podem começar a agir, antes que estejam vivas novamente, estando mortas agora? E Deus quem vivifica aqueles que estão mortos (Ef 2.1; Cl 2.13).

(3) A obra da graça começou nesta vida, mas não termina aqui. Enquanto estamos neste estado imperfeito ainda precisa ser feita mais alguma coisa.

(4) Se o mesmo Deus que começa a boa obra não se encarrega de levá-la adiante e terminá-la, ela permaneceria para sempre incompleta. Aquele que começou deve concluí-la.

(5) Podemos estar confiantes, ou convencidos, de que Deus não desistirá, mas que terminará e coroará a obra das suas mãos. Porque “...a obra de Deus é perfeita”.

(6) A obra da graça jamais se tornará perfeita até ao Dia de Jesus Cristo, o dia da sua aparição. Quando Ele vier julgar o mundo, e concluir sua mediação, então essa obra será completada e a pedra-angular será suscitada com júbilo.

A Afeição e Esperança do Apóstolo w. 7,8

O apóstolo expressa a afeição ardente e sua preocupação pelo bem-estar espiritual deles: “...vos retenho em meu coração” (v. 7). Ele os amava como a sua própria alma, e eles estavam próximos do seu coração. Ele pensava muito neles e estava preocupado com eles. Observe:

  1. O motivo de retê-los em seu coração: “...pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho”', isto é, eles tinham sido auxiliados por ele e pelo seu ministério; eles foram participantes da graça de Deus que por ele, e por meio de suas mãos, foi comunicada a eles. Isso torna as pessoas preciosas para os seus ministros. Ou: “Vós fostes participantes da minha graça; vós estivestes unidos comigo tanto no fazer quanto no sofrer”. Eles eram participantes da sua aflição por compaixão e preocupação e estavam prontos a ajudá-lo.

Isso ele chama de participantes da sua graça; porque aqueles que sofrem com os santos são e serão consolados por eles; e aqueles que levam sua parte da carga também participarão da recompensa. Ele os amava porque eles participaram das suas prisões e na “...defesa e confirmação do evangelho”: eles estavam tão dispostos a defender o evangelho quanto o apóstolo; por essa razão, ele os retinha em seu coração. Companheiros de infortúnio devem ser amáveis uns com os outros. Aqueles que se arriscam e sofrem pela mesma causa de Deus e do evangelho devem por essa razão amar uns aos outros ternamente: ou, porque vós me retendes no coração - dia to echein me en te kardia humas. Eles manifestaram seu respeito por ele ao apoiarem firmemente a doutrina que ele pregava e estarem prontos a sofrer com ele. 0 sinal mais claro de respeito em relação aos nossos ministros é receber e permanecer na doutrina que pregam.

  1. A evidência de retê-los em seu coração: “Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração”. Assim ficou claro que ele os trazia em seu coração, porque tinha uma boa opinião deles e uma boa esperança em relação a eles. Observe: E bem correto pensar o melhor das pessoas, da melhor forma possível.
  2. Um apelo a Deus concernente à verdade disso (v. 8): “Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho”. Pelo fato de tê-los no coração, ele tinha saudades deles, desejava vê-los, desejava ouvir deles, ou desejava o bem-estar espiritual deles, bem como o crescimento e progresso deles no conhecimento e na graça. Ele se alegrava neles (v. 4), por causa do bem que via e ouvia acerca deles; e, mesmo assim, ele tinha saudades deles, desejando ouvir mais acerca deles; e ele tinha saudades de todos eles, não somente daqueles que eram perspicazes e ricos, mas mesmo dos mais insignificantes e pobres; e ele tinha muitas saudades deles em “...entranhável afeição de Jesus Cristo”, com a mesma preocupação carinhosa que Cristo tem mostrado às almas preciosas. Nisso, Paulo era um seguidor de Cristo, e todos os bons ministros deveriam ter o mesmo objetivo: essa terna compaixão que Jesus Cristo tem para com as pobres almas. Foi por compaixão deles que o Senhor incumbiu-se da sua salvação, dispondo-se a um sacrifício tão incomensurável para alcançá-la. Assim, em conformidade com o exemplo de Cristo, Paulo tinha compaixão deles, e tinha saudades de todos eles, “...em entranhável afeição de Jesus Cristo”. Não deveríamos também compadecer-nos e amar as almas por quem Cristo teve amor e compaixão tão grandes? Para isso, o apóstolo apela a Deus: “...Deus me é testemunha”. Era um sentimento íntimo que ele expressou por eles, da sinceridade da qual somente Deus era testemunha, e, portanto, é a Ele que o apóstolo apela. “Quer vocês o saibam ou estejam conscientes disso ou não, Deus, que conhece o coração, o sabe”.

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 610-612.

1.3 - Na expressão dou graças, o tempo do verbo grego indica que Paulo agradecia continuamente a Deus pelos cristãos filipenses. Sempre que o Senhor os trazia à sua mente, o apóstolo dava graças, por todas as vezes que por se lembrava deles.

1.4 - A alegria, um tema que se destaca em Filipenses, marcava as orações de Paulo pelos cristãos em Filipos, mesmo quando ele intercedia pelas necessidades deles. Essa é a primeira das cinco vezes em que a palavra grega para alegria é usada na carta (v. 25;2.2,29; 4.1). Paulo também emprega o termo grego para regozijo nove vezes nessa epístola (v. 18; 2.17 [duas vezes], 18 [duas vezes], 28;3.1; 4.4 [duas vezes]).

1.5 - Cooperação é um termo usado para caracterizar uma parceria num empreendimento comercial no qual todas as partes têm participação ativa, a fim de assegurar o sucesso do negócio.

Entre os cristãos, o vocábulo expressa intimidade com Cristo (1 Co 1.9) e com outros irmãos na fé (2 Co 8.4; 1 Jo 1.7). Nesse caso, é possível que Paulo esteja usando a palavra cooperação para se referir às contribuições financeiras que os filipenses lhe haviam ofertado desde o primeiro dia até agora (Fp 4.14,15). Desde que se tornaram cristãos, os filipenses se dedicaram continuamente a viver e proclamar a verdade sobre Jesus Cristo, e, em especial, a ajudar Paulo em seu ministério.

1.6 - Em algum momento do passado, Paulo se convenceu de que Deus completaria Sua boa obra entre os filipenses, e sua confiança permaneceu inabalável, o que se verifica na declaração tendo por certo. Quanto à expressão em vós, uma vez que vós é um pronome plural, a boa obra que Deus estava realizando acontecia entre os cristãos, e não em algum cristão isolado. A preposição até expressa avanço em direção a um objetivo e, neste versículo, indica que está chegando o tempo em que Deus terminará plenamente Sua obra entre os cristãos filipenses. O ministério do qual estes participaram continua (como uma corrida de revezamento) até o momento e continuará até a volta de Cristo, o Dia de Jesus Cristo. Paulo se refere a esse advento em outra passagem também como o Dia de Cristo (Fp 2.16). Quando ocorrer esse glorioso retorno, Jesus julgará os não cristãos e avaliará a vida dos que se tornaram Seus seguidores (2 Tm 2.11-13).

1.7 - A palavra justo expressa um sentido de retidão moral (de acordo com a Lei de Deus) e muitas vezes é traduzida dessa forma em todo o Novo Testamento. Neste contexto, indica que os pensamentos de Paulo com relação aos filipenses estavam perfeitamente de acordo com a vontade de Deus.

Na sentença porque vos retenho em meu coração, o termo coração se refere à parte mais profunda de uma pessoa, a sede dos pensamentos e das reflexões. Logo, podemos concluir que Paulo nutria extrema consideração pelos filipenses, principalmente porque estes haviam participado da graça dele, tanto nas prisões quanto na sua defesa e confirmação do evangelho. Uma vez que defesa implica discurso, podemos estar certos de que Paulo não ficou em silêncio enquanto permanecia na prisão, mas falou com ousadia sobre Jesus Cristo. E possível que o apóstolo também estivesse mostrando que testificaria acerca de Cristo em seus processos judiciais.

A palavra confirmação, usada somente nesta passagem e em Hebreus 6.16 no Novo Testamento, é um termo legal e comercial que significa uma garantia válida. Defesa e confirmação são os aspectos negativo e positivo do ministério de Paulo. Ele defendia o evangelho contra os ataques de seus oponentes e confirmava-o por meio de sinais poderosos. Uma vez que ambos são termos legais, o modo como são usados por Paulo pode indicar que ele estivesse antecipando seu iminente julgamento.

1.8 - Deus me é testemunha. Como se tivesse feito um juramento em um tribunal de justiça, Paulo expressou a seriedade e a verdade do que estava para dizer: das saudades que de todos vós tenho.

O apóstolo desejava ardentemente estar com os filipenses; ele ansiava pelo bem-estar espiritual deles. Neste sentido, o termo todos enfatiza que cada um dos cristãos em Filipos (não somente a liderança) era o foco da atenção de Paulo. Quanto à expressão afeição de Jesus Cristo, o significado literal da palavra traduzida como afeição remete aos órgãos internos, considerados pelo leitor do século 1 como a sede dos sentimentos mais profundos. Visto que o coração era o centro da reflexão, Paulo, neste versículo, falou de sua afeição, seus sentimentos entranhados pelos cristãos. Segundo a terminologia moderna, Paulo revelou que tinha o coração de Jesus Cristo. Seus sentimentos pelos filipenses eram como os de Jesus, que os amou e morreu por eles.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 520-522.

  1. Uma oração de petição (vv 9-11).

O apóstolo sabia o que estava fazendo e por que fazia. Por isso, sua oração não era vazia de sentido e de conteúdo. A expressão que temos na Almeida Revista e Corrigida é “e peço isto”, e na Almeida Revista e Atualizada o texto diz o seguinte: “E também faço esta oração”. Na verdade, Paulo fez orações de ação de graças pelos filipenses, mas revela no versículo 9 o conteúdo de sua petição por eles.

Que aumente mais e mais o amor (1.9). Paulo entendia que a igreja precisava crescer, não apenas em quantidade, mas em qualidade. Ele não via falta de amor. Pelo contrário, Ele ora para que o amor existente aumente ainda mais, porque sabia que o amor estagnado faz com que tudo fique estagnado. O amor vivido na vida dos filipenses precisava ainda mais ser dinamizado. Ele conseguia vislumbrar o amor numa dimensão muito maior, que deve ser demonstrado em ação. O amor é a base de sustentação da obra de Deus. Se faltar o amor, a obra irá padecer e sucumbir. Porém, não basta apenas o amor humano. E necessário que o amor de Deus seja derramado nos corações (Rm 5.5). A habitação do Espírito dentro da vida interior do crente produz “o fruto do Espírito”. Das nove qualidades do fruto do Espírito, o amor aparece em primeiro (G1 5.22).

...”em ciência e conhecimento” (1.9). De que maneira o amor pode crescer? O apóstolo Paulo indica o caminho para o aumento do amor: através do conhecimento e da ciência, que aqui neste contexto refere-se ao “discernimento”. Várias vezes encontramos a palavra “conhecimento” traduzida do grego epignosis, que se entende por conhecimento espiritual, religioso e teológico. Crescer em conhecimento mediante a operação regeneradora do Espírito na vida do pecador, que o torna apto a conhecer a verdade (1 Tm 2.4; 2 Tm 2.25; Hb 10.26). O amor de Deus na vida abre o tesouro do conhecimento na vida do crente e o torna maduro para a salvação (Ef 4.13).

Paulo orava para que o amor transbordasse em conhecimento e compreensão espiritual a vida cristã dos filipenses. Ele orava para que esse amor lhes desse a capacidade de ver com toda a clareza (“ciência”) a diferença entre o certo e o errado, e que não precisassem sofrer a censura de quem quer que seja até ao Dia de Cristo.

A capacidade para discernir as coisas excelentes (1.10). A expressão que aparece na versão Corrigida é “que aproveis”. “Discernir” no grego bíblico é aisthesis traduzido como “percepção”. O termo refere-se a uma capacidade de perceber entre o certo e o errado. Porém, um dos dons do Espírito (1 Co 12.10) é “discernir os espíritos”, que implica uma capacidade espiritual e sobrenatural. Não se trata de apenas obter percepção moral. A palavra “aprovar” descrevia o ato de analisar e provar o valor de um metal ou de uma moeda, para saber se era falsa ou verdadeira. Quando Paulo usa a expressão “coisas excelentes”, referia-se às coisas genuínas, coisas que diferem e fazem distinção entre aquilo que é excelente e verdadeiro e o que é falso e adulterado. A capacidade de saber escolher o que é melhor pode ser uma capacitação do Espírito com “o dom de discernimento espiritual”. Esse dom se manifesta na vida do cristão, dando4he condições de saber julgar sensatamente as coisas.

A graça da sinceridade e da inculpabilidade no dia de Cristo (1.10). Subentende-se que a sinceridade e a inculpabilidade no dia de Cristo resultarão do comportamento que o crente tem em sua vida íntima e na vida pública.

A palavra “sincero” aparece no texto original como eilikrines, que na sua etimologia pode ter dois significados. O prefixo eili, que significa “luz solar” e o sufixo do termo krines ou krinei, com o sentido de julgar. A união desses dois termos para formar a palavra eilikrines significa que, no ato de aprovação, o crente sincero é capaz de suportar e passar pela luz solar que não esconde nada errado ou impróprio. E como movimentar uma peneira à luz do sol para revelar as sujeiras, como a peneira que separa a palha do trigo. Isso fala de pureza, de isenção moral e de contaminação. Os sinceros serão provados e, uma vez aprovados, serão considerados inculpáveis.

Já a palavra “inculpáveis” aparece no grego como aproskopos, cujo sentido é, no sentido negativo, aquilo que não leva ao pecado. Na ARC, a expressão é “sem escândalo”, e dá a ideia de “alguém inofensivo, que não tropeça, que não cai em pecado”. Manter uma vida cristã inofensiva, que não tropeça nem leva outros a tropeçar requer do crente a ajuda do Espírito Santo para que nenhuma falta de ordem moral, física ou espiritual venha afetar ou manchar sua reputação como cristão. Paulo falou em outra ocasião, em Atos 24.16, sobre o “ter uma consciência sem ofensa”. Ora, sabemos que o Dia de Cristo só acontecerá após o arrebatamento da Igreja, quando os salvos comparecerão diante do Tribunal de Cristo (2 Co 5.10) para que suas obras sejam avaliadas e recebam a recompensa. Para chegarmos no Dia de Cristo, precisamos viver uma vida de sinceridade e inculpabilidade. Paulo diz aos tessalonicenses que deveriam conservar uma vida irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Ts 5.23).

O fruto da justiça reproduzido na vida dos filipenses (1.11). Paulo usa a palavra fruto em sentido ético, para falar de colheita de justiça. Os frutos são suas obras más ou boas. E pelos frutos que se conhece a qualidade da árvore. Os bons frutos de uma árvore boa, aprovada por Deus, produzem “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e temperança (G1 5.22). A justiça que vem Deus produz um fruto que se manifesta com perfeição em seu próprio caráter e obra. Na verdade, Paulo desejava que os crentes de Filipos não fossem estéreis, mas cheios de frutos “para a glória e louvor de Deus”.

As circunstâncias adversas no ministério eram amenizadas com a demonstração de amor das igrejas que foram plantadas por Paulo. Nesse sentido, ele tinha razões sobejas para agradecer a Deus por aqueles a quem amava.

CABRAL. Elienai. FlLIPENSES A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Editora CPAD. pag. 29-32.

A Afeição e Esperança do Apóstolo w. 9-11

Esses versículos contêm as orações que o apóstolo fez por eles. Com frequência, Paulo fazia questão que os amigos soubessem o que ele pedia a Deus em favor deles. Dessa forma, eles saberiam o que deveriam pedir por si mesmos e ser dirigidos em suas próprias orações.

Assim seriam encorajados a crer que receberiam de Deus a graça vivificadora, fortalecedora, eterna e confortadora, que um intercessor tão poderoso quanto Paulo pedia a Deus em favor deles. E alentador saber que nossos amigos oram por nós, aqueles que, assim pensamos com razão, têm a sua porção diante do trono da graça.

O apóstolo também orava por direção na caminhada deles e para que se esforçassem para responder às suas orações por eles; porque dessa forma ficaria claro que Deus as havia respondido. Ao orar dessa forma por eles, Paulo esperava o bem-estar deles. Deveríamos ter o desejo de cumprir nosso dever, para não desapontarmos as expectativas de amigos e ministros que oram por nós.

Ele orou:

  1. Para que eles fossem um povo amoroso: “...que a vossa caridade aumente mais e mais”. Ele fala aqui do amor deles por Deus, uns pelos outros e por todos os homens. O amor é o cumprimento da lei e do evangelho.

Observe: Aqueles que já são dotados de muita graça têm a necessidade de ter cada vez mais, porque ainda continua faltando alguma coisa, e somos imperfeitos em nossas melhores realizações.

  1. Para que eles fossem um povo bem criterioso e sensato: que o amor pudesse aumentar “...em ciência e em todo o conhecimento”.

Não é um amor cego que nos recomendará a Deus, mas um amor fundamentado na ciência e no conhecimento. Devemos amar a Deus por causa da sua excelência e amabilidade infinita, e amar nossos irmãos por causa do que vemos da imagem de Deus neles. Emoções fortes, sem ciência e um conhecimento firme, não nos tornarão completos na vontade de Deus, e, às vezes, fazem mais mal do que bem. Os judeus tinham um zelo por Deus, mas não de acordo com o conhecimento, e eram levados por meio desse zelo à violência e raiva (Rm 10.2; Jo 16.2). 3. Para que eles fossem um povo capaz do correto discernimento. Esse seria o resultado da sua ciência e conhecimento: “Para que aproveis as coisas excelentes” (v. 10); ou, como está na margem: Proveis as coisas que diferem, eis to dokimazein humas ta diapheronta, para que possamos aprovar as coisas que são excelentes ao provarmos e discernirmos sua diferença de outras coisas. Considere isso: As verdades e leis de Cristo são coisas excelentes; é necessário que cada um de nós as aprove e respeite. Apenas devemos prová-las para aprová-las; e elas facilmente se tornarão atraentes a qualquer mente perscrutadora e discernidora.

  1. Fossem um povo honesto e justo: “...para que sejais sinceros”. A sinceridade é a perfeição do nosso evangelho, que deveria nortear nosso comportamento no mundo, que é a glória de todas as nossas virtudes. Quando somos genuínos com Deus naquilo que fazemos e realmente somos o que aparentamos ser, então somos sinceros.
  2. Fossem um povo inofensivo: “...e sem escândalo algum até ao Dia de Cristo”, sem se ofender e muito cuidadoso para não ofender a Deus ou aos irmãos, e, sim, “...andar diante de Deus com toda a boa consciência” (At 23.1); e “...sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (At 14.16). E devemos continuar irrepreensíveis até o fim, para que possamos ser apresentados dessa forma no Dia de Cristo. Ele apresentará a igreja “...sem mácula, nem ruga” (Ef 5.27), e apresentará os crentes “...irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (Jd 24).
  3. Fossem um povo útil e produtivo (v. 11): “...cheios de frutos de justiça...”. Nosso fruto se acha em Deus, e, portanto, devemos pedi-lo a Ele. Os frutos de justiça são as evidências e resultados da nossa santificação, os deveres da santidade fluindo de um coração renovado, a raiz da acusação em nós (veja Jó 19.28). “...cheios de frutos de justiça”. Observe: Aqueles que fazem muitas coisas boas deveriam continuar se esforçando para fazer ainda mais. Os frutos da justiça, produzidos para a glória de Deus e para a edificação da sua igreja, deveriam realmente nos encher e nos animar completamente. Não temam ser esvaziados ao produzir os frutos da justiça, porque vocês serão cheios com eles. Esses frutos “...são por Jesus Cristo”, pela sua força e graça, porque sem Ele nada podemos fazer. Ele é a raiz da boa oliveira, de onde se tira a fertilidade. Somos fortes “...na graça que há em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1), e “...corroborados com poder pelo seu Espírito” (Ef 3.16), para glória e louvor de Deus. Não devemos desejar a nossa própria glória ao darmos frutos, mas a “...glória e o louvor de Deus”, para que “...em tudo Deus seja glorificado” (1 Pe 4.11), e devemos “...fazer tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). Deus fica honrado quando os cristãos não são bons somente, mas fazem o bem e enriquecem em boas obras (veja 1 Tm 6.18).

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 12-13.

1.9 - E peço isto. Os versículos 9-11 apresentam o conteúdo da oração de Paulo pelos filipenses. Ele desejava que a fervorosa caridade deles continuasse acesa, mas dentro do esplendor da plena ciência e do conhecimento espiritual. Amor sem ciência é como um rio sem curso. As águas incontroladas são desastrosas, mas eficazes quando controladas. A caridade que Paulo buscava para os cristãos é a forma mais sublime de amor em Cristo, baseada num compromisso duradouro e incondicional, não numa emoção instável.

O vocábulo ciência é o primeiro de dois termos nos quais se edifica uma caridade direcionada. A ciência sugere um entendimento íntimo pautado numa relação com o próximo. Neste caso, o ponto para onde converge essa ciência é Deus. Encontrada no Novo Testamento somente nesta passagem, a palavra grega traduzida como conhecimento significa entendimento moral ou ético fundamentado no intelecto e nos sentidos. O termo indica percepção ou visão de situações sociais.

1.10 - Para que aproveis. O verbo aprovar é usado na literatura antiga em referência ao teste do ouro que determina sua pureza e ao experimento com bois que avalia se eles são úteis para a tarefa prestes a ser feita. A proposta do versículo anterior de aumentar a caridade, controlada pela ciência, tem por objetivo a capacidade de avaliar pessoas e situações de um modo correto.

O termo sinceros, cujo significado literal é julgados pela luz do sol, não significa esforçar-se com honestidade; em vez disso, quer dizer puros, sem mistura, e livres de falsidade. Qualquer mancha em uma roupa ou imperfeição em uma mercadoria poderia ser vista quando o objeto fosse colocado contra a luz do sol. Neste sentido, Cristo morreu para, com Seu sangue, purificar a Igreja de toda mácula (Ef 5.27).

Usando ainda outra expressão explícita para descrever o cristão, sem escândalo, Paulo esclarece o sentido de não escandalizar alguém. Neste versículo, significa os filipenses não induzirem os outros a pecarem por causa da conduta pessoal. Isso é de extrema importância porque o alvo que o cristão tem à sua frente é o Dia de Cristo, no qual ele se colocará diante do Salvador, que é a testemunha fiel e verdadeira (Fp 1.6; 1 Co 1.8; 5.5), para ser avaliado. Essa possibilidade regozijadora, porém séria, deveria motivar-nos a purificar nossa vida (1 Jo 2.28; 3.2,3).

1.11 - Entendemos melhor a expressão frutos de justiça como frutos resultantes de nossa justificação ou frutos caracterizados pela conduta moralmente correta. O termo justiça descreve a fonte ou a natureza dos frutos: o comportamento. Crescer em caridade [amor] e buscar uma vida sábia e pura, que transborde justiça, resultam em glória e louvor de Deus. Assim, a cada dia aumentamos nossa capacidade de agradar ao Senhor e glorificá-lo para sempre.

EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 522-523.

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