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encarnação de Cristo (filipenses 2.5-11)
encarnação de Cristo (filipenses 2.5-11)

umildade e Encarnação de Cristo (Fp 2:5-11)

 A humildade de Cristo levou à sua suprema exaltação. Cristo possui natureza humana verdadeira, tendo sido exaltado por haver completado com pleno êxito a sua missão como homem.

O texto de referência da nossa lição 03 é uma das obras primas de Paulo. Ainda que ele nada mais houvesse escrito, somente essa porção teria feito dele um escritor imortal. Essa passagem é a principal glória da epístola aos Filipenses; nela Paulo se eleva a discernimentos profundíssimos e eloqüentes, sobre os quais a fé cristã se tem alicerçado. Não nos devemos surpreender que esta seção, quanto aqualidade literária, é diferente do restante da epístola. Dentre a missiva pessoal, que compõe a maior parte desta epístola aos Filipenses, levanta-se subitamente, qual pico majestoso, esta grandiosa passagem sobre a humanidade de Cristo, como não há igual em todo o N.T.Esta passagem assume as características de um hino ou poema, e alguns têm pensado que ou a passagem já era isso mesmo, ou que foi composta pelo apóstolo como se fora tal. Existem alguns fragmentos de hinos, preservados nas páginas do N.T., o que e comentado no trecho de Ef 5:19. No entanto, sua conexão tão perfeita com seu contexto parece indicar que Paulo compôs esta passagem no instante em que começou a escrevê-la, embora certamente em um momento de inspiração extraordinária. O trecho demonstra os sinais de uma composição cuidadosa, embora a gramática não seja a mais excelente possível, aqui e acolá. Esta passagem é similar à de II Co 8:9«...pois a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos...» Todavia, a presente passagem é uma expansão elaborada e eloqüente dessas idéias básicas. Paulo demonstrou uma capacidade poética de ordem em nada inferior, equilibrando cuidadosamente não apenas cláusulas correspondentes, mas também palavras particulares. Nesta e em algumas outras passagens, como o oitavo capitulo da epístola aos Romanos, o décimo terceiro da epístola aos Efésios, encontramos os escritos mais excelentes de Paulo.

 O propósito prático imediato destes trechos serve para ilustrar a necessidade de humildade e harmonia, no seio da comunidade cristã; e esta elevadíssima porção da epístola não está fora de harmonia com esse tema, mas antes, ilustra-o. Era comum que Paulo escrevesse sobre elevadas questões doutrinárias usando de verdades práticas, diárias, como ilustração. Sua exposição imortal sobre o amor (ver o décimo terceiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios) foi inspirada pelo seu desejo de ver os crentes empregarem os dons espirituais de maneira correta. E sua apresentação de Cristo como o «Noivo» e da igreja como a «noiva», foi inspirada pelo seu interesse por ilustrar o amor mútuo que deveria haver entre marido e mulher, neste mundo. Por outro lado, sua belíssima expressão sobre a carreira do crente (ver o terceiro capítulo desta epístola), foi inspirada por seu desejo de ilustrar a superioridade do cristianismo sobre o legalismo.

 Qual é a importância da humanidade de Cristo? No presente texto transparece a grande importância da humanidade de Cristo. Jesus não foi exaltado porque era divino, de modo a ter sido elevado acima de tudo, até à mão direita de Deus Pai; pelo contrário, foi ele assim exaltado porque completou com todo o sucesso a missão que viera cumprir como homem, a sua missão messiânica. Isso concorda com o trecho de Hb 1:9, onde vemos que a exaltação de Cristo se alicerça sobre o fato que ele amou a justiça e odiou a iniqüidade; e essa foi agrande característica de sua missão terrena. Nesse ensinamento nos é relembrado que Cristo se identificou conosco, em nossa humanidade, a fim de que nós pudéssemos identificar com ele, em sua exaltação e em sua natureza divina, vindo assim a compartilhar de sua plenitude e da plenitude de Deus Pai (ver Rm 8:29; Ef 1:23; 3:19 e II Pe 1:4).

 O que ocorre ao Cabeça, necessariamente ocorrerá também ao corpo místico, já que nossa identificação com Cristo é completa e eterna. E essa é a profundíssima mensagem do evangelho que vai muito além do perdão dos pecados e da mudança futura de endereço para os céus. Isso nos ensina que Cristo foi vencedor e foi exaltado; e outro tanto pode acontecer conosco, e isso da mesma maneira e com o mesmo grau que ocorreu com Jesus, porquanto nossa identificação com ele garante isso.

 «Cultivai a disposição que houve em Cristo Jesus. Pois ele, embora existisse desde a eternidade, em estado de igualdade com Deus Pai, não considerou que essa condição divina fosse algo a que ele deveria agarrar-se tenazmente; antes, deixou tudo de lado, e assumiu a forma de escravo, tendo sido feito à semelhança dos homens; e, uma vez encontrado na forma de homem, humilhou-se ao tornar-se obediente a Deus de tal morte que sofreu a morte, sim, a morte ignominiosa da cruz». (Vincent, in loc.).

 Devemos observar que foi o escravo quem foi supremamente exaltado. Paulo queria que aprendêssemos essa lição, para que pudéssemos receber nossa glorificação no serviço de outros, e não no serviço de nós mesmos.

 2:5: Tenda em vós aquele sentimento que houve tombem em Cristo Jesus, 

Há três coisas que devemos uns aos outros: Exemplo, exemplo e exemplo. 

«...Tende...sentimento...» No grego encontramos a palavra «proneistho», forma que aparece nos mss C(3), KLP, e nas versões cóptica e aramaica, bem como nos escritos de Origenes, Eusébio, Basilio, Crisóstomo e Teodoreto. Essa forma é a terceira pessoa do singular do presente do imperativo da voz passiva. Porém, a forma melhor é «proneite», o imperativo ativo, segundo lemos nos mss P(46), Aleph, ABCDEF, em muitas versões latinas, no siríaco e nos escritos dos pais da igreja Cirilo, Êutico (nos códices que ele conhecia), Vitorino eAmbrosiastro. Literalmente, teríamos aqui «tende a mentalidade», «tende a disposição mental», «tende o pensamento». O «sentimento» ou «disposição» aqui focalizado é aquilo mesmo que é explanado nos versículos que se seguem—uma disposição de altruísmo, de interesse pelos outros, ao ponto mesmo de sofrermos das barbaridades dos homens, a fim de podermos servir a outros.

 «...em vós...» Em cada crente, individualmente, como é claro, embora pareça haver antes a idéia de «entre vós». Essa disposição altruísta de Cristo deveria ser a nota dominante na comunidade cristã. Meditemos sobre a vida de Cristo, acerca de seus sacrifícios e de sua dedicação suprema aos homens, e que esse exemplo nos impulsione ao amor cristão, rejeitando nós todo o ódio e inveja.

 A tradução deste versículo não é isenta de dúvidas. Algumas dizem: «Tende entre vós mesmos a mentalidade que tendes em Cristo Jesus». Isso seria uma ordem para que os crentes aplicassem, na ação diária, em relação a outras pessoas, aquilo que eles mantinham particularmente, na qualidade de crentes em Cristo. Nessa capacidade, os crentes deveriam considerar-se humildes, gentis, amorosos e altruístas. Essa tradução é possível; mas ainda que esse seja o sentido do versículo, o contexto geral mostra-nos que Paulo conclamava os crentes a que «seguissem o exemplo de Cristo», a sua humildade. E a maioria dos intérpretes prefere a interpretação que dá a idéia de uma exortação.

 A humilhação de Cristo consistiu de haver ele assumido a nossa humanidade, para em seguida ser ainda mais aviltado nessa humanidade. Jesus ilustrou plenamente esse conceito, e nós somos exortados a seguir o seu claro exemplo. A humilhação de Cristo tem «efeitos salvadores», que são efeitos espiritualmente benéficos. Mas, finalmente, Jesus Cristo foi soberanamente exaltado. O apóstolo dos gentios queria que nos lembrássemos desses fatores, ao seguirmos o seu exemplo.

 Eis uma história que mostra o quanto a influência de Cristo pode transformar os homens: Conta-se que um jovem, como brincadeira, fez uma longa confissão de maldades a um padre católico, na catedral de Notre-Dame de Paris. O padre não tardou a reconhecer que tudo não passava de fingimento, e replicou: «Para que eu lhe dê a absolvição, você terá de ajoelhar-se perante o altar-mor. E olhando para Jesus crucificado, diga por quatro vezes: 'Fizeste isso por mim, e eu não poderia ser mais indiferente do que sou'. O folgâzão se ajoelhou e disse: 'Fizeste isso por mim, e eu não poderia ser mais indiferente do que sou' ...Mas então engoliu em seco, e não pode prosseguir. Levantou-se dos joelhos, retornou à Inglaterra, e hoje em dia é um ministro anglicano. O exemplo do amor de Cristo, que o levou ao sacrifício, conquistara-o para a vereda cristã.

 2:6: o qual, subsistindo em forma do Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar,

 Praticamente cada vocábulo deste versículo tem sido sujeitado ao estudo mais acurado possível. Essa é uma das grandiosas declarações bíblicas sobre a natureza preexistente de Cristo. A frase difícil deste versículo é aquela aqui traduzida por «...não julgou como usurpação o ser igual a Deus...» a qual também tem sido traduzida por «não pensou que a igualdade com Deus fosse algo a que devesse agarrar-sé». Também tem havido outras traduções; e admite-se universalmente a sua dificuldade.

 «...subsistindo...», «sendo». No grego é «uparchon». Geralmente se trata de simples sinônimo do termo grego «einai» (ser), conforme o exame de qualquer bom léxico grego. No grego helenista uma palavra era usada em substituição à outra, sem qualquer modificação quanto ao seu sentido básico. Os comentários de alguns eruditos, por conseguinte, dizem que se trata aqui de uma palavra um pouco mais forte, que olha para a condição anterior, adiada até o presente; mas essa explicação não tem alicerce sólido. Não há qualquer necessidade de fortalecimento da idéia, porque o texto obviamente fala da preexistência de Cristo. Assim sendo, nessa preexistência Cristo tinha a forma de Deus. Na realidade, o sentido de toda a frase gira muito mais em torno da palavra «...forma...» do que em torno da palavra «subsistindo». O possuir a forma divina não subentende, necessariamente, existência na eternidade passada, a menos que essa expressão signifique, comprovadamente, divindade. Se realmente esse é o sentido da frase, então a existência de Cristo, por toda a eternidade passada, deve ser compreendida, porquanto o Senhor Deus é «eterno» por definição. Por si mesma, entretanto, essa expressão indica a preexistência de Cristo, porquanto houve um tempo em que ele existia em forma diversa da forma humana, antes de tornar-se homem. Esse tanto do sentido do versículo é claro além de qualquer controvérsia.

 «...forma...» No grego original temos o vocábulo «morphe». Entretanto, todas as palavras são elásticas, podendo assumir sentidos diversos. Portanto, este termo pode indicar a duplicação da «natureza verdadeira» da divindade, ou então a simples «aparência externa», quando então era usada para indicar formas vistas nas visões que apareciam com forma semelhante à humana. Também era termo usado para indicar os deuses que, por razões especiais, assumiam forma humanaContudo, em contraste com o vocábulo grego «schema», que sempre se refere à forma externa, a palavra aqui usada pode significar a corporificação da natureza essencial. No trecho de Mt 17:2, a forma verbal desse vocábulo é usada para indicar como Cristo teve sua forma trans­formada perante seus discípulos, durante a transfiguração. É provável que, naqueles momentos, a substância real do Espírito Humano de Cristo tenha sido espiritualizada, tendo assumido uma natureza diferente e superior. Portanto, nesta palavra, vê-se que sempre está envolvida a natureza real de alguém.Dessarte, pode-se perceber que o sentido deste texto não pode ser determinado pelo mero significado do termo. Além disso, os argumentos alicerçados apenas sobre o sentido de palavras são argumentos deficientes, ainda que porventura isso defenda a verdade.

 Essa expressão poderia significar que Cristo, em alguma existência superior e preexistente, participou dos atributos de Deus, sem possuir a natureza divina essencial—uma elevadíssima posição, embora não a posição de divindade. Ou então poderia significar que ele sempre teve a pró­pria natureza de Deus Pai. Exatamente o que está em foco aqui pode ser determinado pela teologia paulina normal. Assim sendo, se confrontarmos esta passagem com o trecho de Cl 2:9, que declara franca e abertamente a divindade de Cristo, então concluiremos que somos forçados a pensar que a palavra «forma», aqui utilizada, se refere à natureza essencial de Cristo, que participava desde a eternidade passada da divindade.

 «A ênfase deste versículo é a mesma dada em Hb 1:3—Cristo Jesus foi a manifestação de Deus, até onde qualquer ser criado pode contemplar. E isso não apenas entre os homens, mas também em toda a eternidade passada, nas dimensões celestes. E outro tanto fica implícito no fato que ele é o «Logos», a expressão falada de Deus. Cristo é o Verbo eterno; e isso significa que por toda a eternidade passada, o que se sabia sobre Deus era sabido por meio do Verbo. E, finalmente, o Verbo se manifestou entre os homens, tendo assumido a nossa humanidade, ficando assim fundidas a natureza divina e a natureza humana. Portanto, o significado dos termos «Verbo» e «forma» subentendem a manifestação do que Deus é para seres criados, sem importar se esses seres são anjos ou homens. Por isso é queLightfoot (in loc.) mostra-se correto, ao observar: «Embora 'morphe' (forma) não seja a mesma coisa que 'phusis' (natureza) ou que'ousia' (ser essencial), contudo, a possessão de 'morphe' (forma) envolve a participação na 'ousia', por semelhante modo; pois 'morphe'não subentende acidentes externos, e, sim, os atributos essenciais». (Isso pode ser comparado com o trecho de II Co 4:4, onde Cristo figura como a «imagem» de Deus, o que é igualmente atestado em Cl 1:15).

 

Comprovando A Divindade De Cristo 

1. Cristo exibe a «forma» de Deus, pelo que também deve possuir a substância daquela forma, mesmo que esse vocábulo vise apenas falar de como sua essência se manifesta e se exibe.

2. Os próprios eleitos, declaradamente, chegarão a possuir a natureza divina (ver II Pe 1:4), bem como seus atributos (ver Ef 3:19). É um absurdo, pois, supor alguém, que o eterno Filho de Deus não seja possuidor dessa natureza. Se o menor é verdade, o maior sempre será verdade. De fato, o menor não poderia ser verdadeiro, a menos que o maior o fosse primeiro. Chegaremos a participar (finitamente) da natureza divina porque ele já participa (infinitamente) dessa natureza. Recebemos de sua imagem (ver Rm 8:29) porque, primeiramente, ele a possuiu.

3. O fato de que este versículo fala de uma «igualdade» que Jesus Cristo poderia reclamar juntamente com Deus, se assim tivesse querido fazer, mostra-nos, de modo inequívoco, a divindade de Jesus; de outra forma, essa declaração seria absurda.

 «....o ser igual a Deus...»

a. É óbvio que, quando de sua encarnação, o Filho assumiu posição subordinada, mas não demonstrou um zelo equivocado, procurando «reter» igualdade com o Pai, embora isso fosse inerente à sua natureza divina, como Deus Filho.

b. Embora igual quanto à natureza, como o Filho, e até como membro da Trindade ele tomou uma posição de subordinação, e isso por sua própria determinação, tendo em vista sua realização e missão, sobretudo como quem se identificaria com os demais filhos de Deus, dentro da mente e do plano de Deus.

 «...usurpação...» Até este ponto, este versículo é perfeitamente claro, embora as palavras empregadas possam assumir diferentes significações. Mas há tremenda controvérsia em torno do sentido da palavra grega «arpagmos», bem como quanto à maneira como ela é utilizada aqui.

 Os sentidos possíveis, pois, são os que seguem:

 1. Jesus Cristo, na qualidade de Filho eterno de Deus, sempre teve a «forma» de Deus, sendo igual a ele. E não julgava que essa posição fosse uma «usurpação ilegal», um «furto».

2. Estando Cristo na forma de Deus (e, portanto, sendo igual a Deus, já que é o Filho de Deus), não considerou ele que a continuação nessa posição fosse algo que não devesse ser «ansiosamente retida», porquanto tinha ele de realizar a sua missão encarnada, neste mundo.

3. Embora o Filho de Deus fosse preexistente, possuía posição inferior à de Deus Pai, não tendo pensado que era algo que deveria seranelantemente buscado na tentativa de obter a mesma glória de Deus Pai. Isso concordaria de perto com vários mitos antigos, nos quais algum deus é visto a tentar assumir a posição de um deus supremo, como se verificou no caso de vários deles que aspiravam a posição ocupada por Zeus, o qual, no conceito dos antigos, era o deus supremo, mas que, antes disso, havia usurpado tal posição de seu próprio pai, Cronos, mediante o ludibrio e a violência. Os gnósticos também retratavam alguns «aeons» (poderes angelicais) como excessivamente ambiciosos, buscando posições mais elevadas na hierarquia do poder. E alguns intérpretes acreditam que, de alguma maneira crua, Cristo é aqui pintado como capaz de assumir tal atitude, embora tenha assumido posição de inferioridade, quando da encarnação, para poder desincumbir-se de sua missão terrena.

4. Outros eruditos pensam que a frase não indica «ser igual a Deus», em qualquer sentido, mas antes, indica «existência em pé de igualdade com Deus», o que, presumivelmente, significa uma forma idêntica de existência, nos lugares celestiais, que visa permanecer ali, na mesma posição de Deus.

 Na realidade, não há como determinar com certeza esta expressão, embora a interpretação que mais pareça provável seja a que aqui ocupa o segundo lugar. Assim sendo, embora Cristo, o Filho de Deus, o Verbo de Deus, possuísse eternamente a natureza e os atributos de Deus, não pensou que isso deveria ser «retido», ou que essa retenção fosse questão de busca ansiosa. Pelo contrário, o grande objetivo de Cristo, que ele buscava ansiosamente concretizar, era identificar-se com os homens, a fim de produzir a redenção humana. Seu grande propósito não era parecer totalmente divino, mas sim, tornar-se humano.

 «Antes de sua encarnação, estando na forma de Deus, Cristo não reputou a sua igualdade divina como um prêmio que devesse ser agarrado e retido a todo o transe; pelo contrário, deixou de lado a forma divina, e tomou sobre si mesmo a natureza divina» (Vincent, inloc, o qual, ao usar a idéia de «forma de Deus posta de lado» como os «atributos da natureza divina», e não a própria natureza divina). «O sentido (da expressão) é que, estando (Cristo) na forma de Deus, e, portanto, gozando de igualdade com Deus, não se aferrou a essa qualidade, como motivo de glória própria, em comparação com o poder de conferir salvação a todos os homens, que ele teve por bem considerar uma nova alegria e uma glória». (Barry, in loc., que expressa aqui a interpretação da maioria dos antigos intérpretes do grego).

 2:7: mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;

 Este versículo tem recebido um número extraordinário de interpretações, o que levou Bruce («The Humiliation of Christ», pág. 11), a observar: «A diversidade de opiniões entre os intérpretes, em relação ao sentido desta passagem, é suficiente para desesperar os estudantes, afligindo-os de paralisia intelectual». Porém, antes de entrarmos na exposição do próprio versículo, expomos abaixo a nota expositiva geral sobre o tema da «humanidade de Cristo».

 A Humanidade de Cristo: Esse é um tema por demais negligenciado no seio da igreja, até mesmo em sua seção evangélica, a qual, apesar de tudo quanto diz em contrário, enfatiza tão-somente a divindade de Cristo, até mesmo no que tange à natureza da encarnação. Por isso, em muitas igrejas, Cristo é um Cristo docético. Explicando, na opinião de tantos cristãos, Cristo é humano apenas na «aparência»; e isso representa uma antiga heresia gnóstica. De acordo com esse ponto de vista, tudo quanto Cristo é visto a fazer, em sua missão terrena, como seus milagres e a sua impecabilidade, é atribuído à sua «natureza divina», de tal modo que não é maravilha que ele tenha feito o que fez, exceto que morreu. Porém, a verdade inteira dessa questão é que o Senhor Jesus cumpriu a sua missão inteira como homem, extraindo do Espírito Santo, que a ele fora conferido sem medida, todo o poder que exerceu. E este o foi transformando como homem, para que pudesse operar obras admiráveis. Poder-se-ia afirmar que Cristo operou os seus prodígios do mesmo modo que podemos operá-los, e maiores ainda (ver Jo 14:12), tal como um crente pode fazer, conforme vai sendo transformado ou «espiritualizado». Porquanto essa é uma avenida de desenvolvimento espiritual aberta para todos os remidos. Ora, é exatamente esse aspecto que empresta sentido e força à humanidade de Cristo e à sua encarnação —pois declara que tudo quanto ele realizou como homem pode ser realizado também por nós.

 Fatos A Considerar

 1. Cristo se identificou totalmente conosco, em nossa natureza humana, a fim de que, eventualmente, pudéssemos identificar-nos totalmente com ele, em sua natureza divina. Portanto, a própria salvação consiste da condução de «muitos filhos» à glória (ver Hb 2:10).

2. Em sua encarnação, ele se autolimitou, e, por isso mesmo, usualmente realizou tudo pelo poder de sua humanidade espiritualizada, mediante a virtude da presença e da capacitação dada pelo Espírito Santo. Talvez, em seus milagres sobre a natureza (como a multiplicação dos pães e a tranqüilização da tempestade), Cristo tenha apelado para sua divindade inerente. Contudo, de modo geral, o que ele fez, fez em sua humanidade, demonstrando-nos assim o caminho para o poder divino (ver Jo 14:12).

3. Embora impecável (ver notas sobre isso em Jo 8:46 e Hb 4:15), Cristo aprendeu certas coisas por meio daquilo que sofreu, e assim, como homem, foi aperfeiçoado. Isso nos é ensinado em Hb 5:8,9. Por conseguinte, em tudo isso ele foi aperfeiçoado como simples homem, e não como o Logos eterno. No que tange a este último aspecto, ele foi sempre perfeito. Porém, como homem, ele mostrou aos demais homens qual o caminho do desenvolvimento espiritual, porquanto realmente atravessou esse caminho.

4. Ele tomou sobre si nosso próprio tipo de natureza humana, debilitada como ela está pelo pecado (ver Rm 8:3), embora nunca houvesse cometido pecado. Não obstante, em sua humanidade, ele teve de abordar os mesmos problemas e fraquezas que nos afligem. Em Jesus, pois, Deus irrompeu no mundo, e assim permitiu que os homens alcançassem autêntica vitória espiritual.

 «A humanidade de Cristo é claramente ensinada pela Bíblia inteira. Ele seria o descendente de Abraão e nele todas as nações seriam abençoadas (ver Gn 22:18); e esse descendente, conforme Paulo explicou, era exatamente Cristo (ver Gl 3:16). Além disso, o Messias prometido pertenceria à 'tribo de Judá' (ver Gn 49:10), e seria da 'linhagem real de Davi' (ver Is 11:1,10 e Jr 23:5). Assim é que Mateus traça a genealogia de Cristo partindo de Abraão, através de Davi (ver Mt 1:1 e ss.), ao passo que Lucas traça a genealogia de Cristo para trás, passando por Davi, por Abraão, e chegando até Adão, o primeiro homem (ver Lc 3:23 e ss.). De conformidade com a profecia (ver Is 7:14), Jesus nasceria miraculosamente de uma mãe virgem (ver Mt 1:18 e ss.; Lc 1:26 e ss. e comparar com Gn 3:15). O Filho encarnado não cessou e nem poderia cessar de ser Deus verdadeiro; porém, ao mesmo tempo, tornou-se verdadeiro homem. E agora ele é, ao mesmo tempo, Filho de Deus e Filho do homem (ver Mt 16:13,16, etc). A genuinidade da humanidade de Cristo é ainda confirmada pelo fato que cresceu desde a infância até à idade adulta (ver Lc 2:40,52), pelo fato que experimentou a tentação (ver Mt 4:1 e ss.; Lc 4:1 e ss.; Mc 1:12 e ss.; Hb 2:18 e 4:15), pelo fato que padeceu fome (ver Mt 21:18), sede (ver Jo 4:7 e 19:28), fadiga (ver Jo 4:6 e Mc 4:38), tristeza (ver Jo 11:35), pelo fato que não sabia todas as coisas, como homem (ver Mc 13:32), e pelo fato que sofreu, e, sobretudo, pelo fato que morreu (ver as narrativas bíblicas de sua agonia e crucificação). Finalmente, é importante observarmos que a humanidade de nosso Senhor foi retida até mesmo após a sua ressurreição dentre os mortos (ver Lc 24:38-42)». (Philip Hughes, no Bakers Dictionaryof Theology, pág. 273).

 Naturalmente, a humanidade que Cristo reteve, mesmo após a sua ressurreição, é aquela referida na passagem de II Pe 1:4, onde ele aparece como o Deus-homem, de cuja natureza todos os homens podem participar, contanto que se deixem unir a ele mediante a redenção. E isso a despeito do fato que Cristo permanecerá na posição suprema de Cabeça, ao passo que nós seremos sempre o seu corpo místico. (Ver o trecho de Ef 1:23 acerca desse conceito). Não obstante, somos a «plenitude» de Jesus Cristo, ao passo que ele preenche a tudo em todos, isto é, ele é tudo para todos nós.

 A humanidade de Cristo é comprovada pelas seguintes razões: Sua concepção miraculosa (ver Mt 1:18); seu nascimento (ver Mt 1:16); sua participação na carne e no sangue (ver Jo 1:14); sua possessão de alma humana (ver Mt 26:28 e At 2:21); sua circuncisão (ver Lc 2:21); seu crescimento em estatura e sabedoria (ver Lc 2:52); seu choro (ver Lc 19:41); sua fome (ver Mt 4:2); sua sede (ver Jo 4:7); seu sono (ver Mt 8:24); seu cansaço (ver Jo 4:6). E também por ter sido homem de tristezas (ver Is 53:3,4 e Lc 22::44); por haver sido esbofeteado (ver Mt 26:67); por haver suportado afrontas (ver Lc 23:11); por haver sido açoitado (ver Mt 27:26); por haver sido encravado na cruz (ver Lc 23:33); por haver morrido (ver Jo 19:30); por haver sido sepultado (ver Mt 27:26), por haver sido tentado como nós, embora sem pecado (ver At 3:22; Fp 2:7,8 e Hb 2:17). A humanidade de Cristo é descrita como parte necessária não apenas de sua missão terrena, mas igualmente de seu ofício de Mediador (ver Rm 6:15,19; I Co 15:21; Gl 4:4,5; I Tm 2:5 e Hb 2:17). Sua natureza humana foi reconhecida pelos homens (ver Mt 6:3; Jo 7:27 e At 2:22), mas é negada pelo anticristo, pelos hereges, provavelmente da variedade gnóstica (ver I Jo 4:3 e II Jo 7).

 A humanidade de Jesus Cristo, pois, após examinarmos várias referências bíblicas, mostra ser algo indispensável, pois:

1. Isso era necessário para que cumprisse sua missão terrena em geral, visto que somente como homem poderia redimir aos homens.

2. Havia necessidade de identificar-se ele com os homens, a fim de que estes pudessem identificar-se com ele, na sua glória.

3. Pois assim é que poderíamos atingir aquela medida e aquela forma de glorificação que pertence a ele, de conformidade com a vontade divina, e a fim de que ele pudesse conferir tal glorificação a todos os remidos.

4. Pois era mister tal para que ele pudesse assumir a posição suprema no universo, como seu Cabeça (ver Ef 1:10 e ss., quanto ao «mistério da vontade de Deus»), na qualidade de unificador e restaurador de todas as coisas, bem como o personagem em torno do qual a harmonia e a unidade universais serão estabelecidas. A exaltação de Cristo ocorreu porque ele cumpriu com pleno êxito a sua missão terrena, e não porque essa exaltação já lhe fosse devida, como Deus, conforme nos informa o décimo versículo do presente capitulo, conforme dizem também o primeiro capitulo da epístola aos Efésios e o trecho de Hb 1:9. E é andando pelo caminho que ele mesmo palmilhou que nos tornamos «plenitude» de Cristo, embora ele preencha a tudo em todos, sendo tudo para cada um de nós.

5. Seu presente ofício de Mediador exigia que ele se identificasse conosco, como também isso é requerido pela nossa identificação potencial com ele, em sua glorificação. (Ver Hb 2:17).

6. A necessidade que há de ser fortalecido e consolado o povo de Deus, na sua peregrinação terrena, depende do fato de ser Cristo um ser humano verdadeiro. (Ver Hb 2:18).

7. Todas as forças do mal, que produzem a «morte» do homem, foram derrotadas quando da missão terrena do Filho de Deus, porquanto ele «provou a morte em favor de todo o homem», a fim de outorgar-lhes a vida eterna. (Ver Hb 2:9).

8. Apesar de Cristo ser o Caminho, é ele, por igual modo, o «pioneiro» desse caminho, mostrando-nos ele, desse modo, como podemos ter êxito nessa peregrinação deste mundo (ver Hb 2:10).

9. A ressurreição de Cristo Jesus garante a nossa própria. Mas isso não poderia ocorrer não fora o fato de ter Cristo assumido a nossa humanidade (ver a totalidade do décimo quinto capitulo da primeira epístola aos Coríntios).

10. A ressurreição de Cristo subentende a sua ascensão aos céus e a sua glorificação; e isso também nos está assegurado pelo Salvador, que é o Deus-homem, o Filho de Deus (ver Rm 8:30).

 Esses dez pontos mostram o que está implícito na verdade da humanidade de Jesus Cristo. Portanto, quão equivocados estão aqueles que atribuem à divindade de Cristo tudo quanto ele fez de incomum. Bem pelo contrário, ele pôs de lado o poder e os atributos divinos (posto que não a própria natureza divina), a fim de que a encarnação tivesse uma significação vital para toda a humanidade. Da mesma maneira que ele se identificou totalmente conosco, a mesma determinação divina que assim fez com que fossem as coisas, nos leva a sermos totalmente identificados com o Filho de Deus, porquanto o Cabeça não pode ter um destino diferente daquele outorgado ao corpo.

 Vários dos evangelhos apócrifos, como o Evangelho de Tome, pintam Cristo como um elevadíssimo ser angelical, cuja suposta natureza humana era apenas «aparente». Disso se originou o termo «docético», que indica a posição daqueles que imaginam que todas as obras extraordinárias de Cristo se devem à sua divindade, e nada à sua humanidade. Assim, pois, seus sofrimentos não teriam sido reais, e as suas próprias obras miraculosas eram as de um anjo, e não as de um homem. A igreja cristã dos primeiros séculos de nossa era considerou que tal posição é herética, e a moderna igreja evangélica, que atribui ao poder divino de Cristo, tudo quanto ele realizou, está se aproximando perigosamente dessa antiqüíssima heresia, embora suas formulações teológicas falem em outro tom.

 «...a si mesmo esvaziou...» Longe de preferir seus elevados direitos e privilégios, em pé de igualdade com Deus Pai, Cristo se «...esvaziou...», o que representa tradução literal do verbo grego «Kenoo». Esse verbo também pode significar «tornar sem efeito», «anular», «privar-se de». O que os intérpretes disserem a respeito disso será determinado, não por esse termo grego ou pelo que diz o versículo inteiro, mas pelo que significa tal conceito, teologicamente falando, a saber:

1. Mui provavelmente, Paulo não tencionava estabelecer qualquer declaração teológica exata, firmando distinções neste ponto; antes, de maneira geral e indefinida, meramente salientou o fato que, ao invés de Jesus escolher as glórias celestiais e poderes elevados, preferiu a esfera humilde dos homens, a fim de poder redimir a seus eleitos; e assim esvaziou-se de sua expressão de vida nas regiões celestes. Essa expressão, portanto, serve para ilustrar uma atitude, a fim de serem bons seguidores de Cristo, não procurando expressar, em quaisquer termos exatos, as limitações que havia no estado encarnado de Jesus Cristo. Esta expressão, por conseguinte, é posteriormente definida naquilo que se segue, acerca de sua natureza: Cristo se tornou homem, um escravo, um escravo obediente, ao ponto de haver aceito uma morte ignominiosa, preferindo isso a reter suas glórias celestiais elevadas—e tudo isso porque queria redimir os homens. Qualquer coisa que vá além disso, na tentativa de expressar o sentido do trecho, penetra no campo da teologia especulativa, embora algo mais seja definido em outras porções do N.T.

2. Cristo Jesus jamais poderia ter deixado de ser Deus, pois como pode alguém deixar de ser aquilo que é essencialmente?

3. No entanto, Cristo pôs de lado os seus atributos e poderes divinos, para que pudesse compartilhar plenamente da condição humana, em sua fraqueza e sorte. É isso que empresta à encarnação de Cristo o seu significado para nós. A diferença entre os crentes, quanto às opiniões que embalam sobre essa questão, atinge apenas até que ponto «absoluto» esse esvaziamento é encarado por eles.

 «...pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos» (II Co 8:9). A graça de Deus, por conseguinte, foi o grande motivo da encarnação de Cristo, e isso como expressão ao amor divino.

 «...assumindo a forma de servo...» Reaparece aqui, tal como no versículo anterior, onde é amplamente comentada, a palavra «...forma...» Não subentende necessariamente a idéia de «natureza», mas dá a entender , alguma espécie de natureza essencial, que se manifesta através de alguma «forma» específica ou caráter de manifestação. Certos atributos, baseados em uma espécie específica de natureza entram em ação. Portanto, as palavras, «Cristo, na forma de Deus», subentendem, ainda que não o afirmem necessariamente, a sua divindade.

 Uma Metáfora Notável

 a. A humilhação de Jesus chegou ao extremo de haver se tornado um «escravo». Ninguém é inferior a um escravo. O escravo não tem vontade própria, não tem direitos, não tem qualquer proteção perante as leis do estado. Serve de instrumento ao serviço de outros e é forçado a fazer as coisas mais árduas e degradantes. É, essencialmente, um «trabalhador braçal», e não tem direito a descanso. Cristo não era realmente um escravo, mas assumiu, a «forma» (aparência) de escravo, em comparação com sua glória anterior.

b. Em sua missão, ele «trabalhava» como instrumento alheio, cumprindo a vontade do Pai. E foi obediente; mostrou-se supremamente dedicado; foi produtivo.

c. É possível que o apóstolo tivesse em mente a passagem de Is 52:13, quando escreveu essas palavras. O escravo obterá sucesso e será exaltado. Acabará vencendo. Mas primeiramente teria de trabalhar e sofrer.

 «...reconhecido em figura humana...» «...figura...» é tradução do vocábulo grego «omoioma», que significa «cópia», «imagem», «aparência», «formato». Essa palavra pode significar também ou a «real duplicação» da natureza, ou a «semelhança» dessa natureza.

 Como Paulo Usou Esses Termos?

 1. Quando se utilizou das expressões «forma de Deus» e «semelhança de homens», Paulo não fez qualquer tentativa de descrever especificamente a natureza metafísica de Cristo. Não estava declarando, diretamente, que Cristo era Deus e homem, em sua essência.

2. Não obstante, ele deixa isso entendido em sua linguagem. Para que tivesse a «forma» de Deus, era mister que primeiramente possuísse a «natureza» correspondente. Sua natureza divina se expressa de certa maneira visível e compreensível—a isso chamamos de «forma». E sua natureza humana se expressava de certa maneira visível. Daí dizermos «semelhança de homens». Todavia, ser-lhe-ia impossível ter a semelhança, sem ter também a essência da natureza humana.

3. Esse raciocínio deve ser verdadeiro, pois seria absurdo afirmar-se que Cristo não era nem Deus e nem homem, com base na teologia doN.T. Naturalmente, os gnósticos afirmavam exatamente essa aberração, reduzindo Cristo a um ser pertencente à ordem angelical. As expressões usadas no texto, poderiam, talvez, subentender essa idéia, pois as palavras são instrumentos plásticos e inexatos. Mas a teologia de Paulo contradiz tal noção. As expressões em foco, pois, enfatizam o «modo de manifestação», embora não afirmem especificamente que Cristo fosse, ao mesmo tempo, Deus e homem.

 «A sujeição 'de Cristo' à lei (ver Lc 2:21 e Gl 4:4), bem como a seus pais (ver Lc 2:51); o seu estado aviltado como carpinteiro, como filho reputado do carpinteiro (ver Mt 13:55 e Mc 6:3); o fato que foi traído a troco do preço de um escravo (ver Ex 21:32); sua morte similar à de um escravo, a fim de libertar-nos da servidão ao pecado e à morte; e, finalmente, sua dependência a Deus como um escravo, na qualidade de homem, não permitindo que sua divindade se manifestasse externamente (ver Is 49:3,7), tudo isso demonstra que ele assumira a 'forma de um escravo'». (Faucett, in loc.).

 Por isso mesmo é dito nas Escrituras que o Filho do homem veio para servir a muitos (ver Mt 20:28). E assim também, aquele discípulo do Senhor Jesus que quiser ser grande, que seja o servo de todos (ver Mt 20:27). Esta é a lição que nos apresenta o texto que ora comentamos, dando a entender, ao invés de declará-lo dogmaticamente, as naturezas divina e humana de Jesus, o Cristo, naturezas essas que se correspondem entre si. Na sua força como lição nossa é derivada do grande contraste entre a glória que ele tinha como ser divino, e a humilhação que sofreu como ser humano.

 «...tornando-se...» Essa palavra pode ser contrastada com o termo «subsistindo», que figura no versículo anterior. A palavra que ora comentamos assinala a entrada de Cristo no seu novo estado, quando veio compartilhar da natureza humana.

 2:8: e, achado na formo de homem, humilhou-se o si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

 Temos aqui a humilhação dentro da humilhação de Cristo, que foi da servidão à obediência absoluta, e esta última expressa na forma de morte por crucificação, reservada para os escravos e piores criminosos.

 «...a si mesmo se humilhou...» Notemos que a vontade ativa do Filho de Deus, Jesus Cristo, se mostrou ativa nessa sua humilhação. Ele deixou voluntariamente as riquezas celestiais e toda a sua glória, e se submeteu espontaneamente à sua aviltada condição terrena. Obedeceu e morreu voluntariamente, tendo tido uma morte vergonhosa. No grego original temos o verbo «tapeinoo», que significa «humilhar-se», «rebaixar-se», «degradar-se», «aviltar-se».

 «O que se deve fazer com um quadro não é tanto analisá-lo, e, sim, deixá-lo falar, conforme Paulo queria que falasse 'o quadro do exemplo de Cristo' àqueles crentes filipenses, que se exaltavam a si mesmos. Isso sugere que Deus, o criador, que se deu eternamente a si mesmo, para que pudéssemos existir, desde toda a eternidade tinha em si mesmo essa disposição mental de dar-se de si mesmo, de transmitir-se a outros; e essa atitude se tornou supremamente visível quando da manifestação de Deus em Cristo, mas que atinge até mesmo crentes individuais, a fim de que cada um deles se desvencilhe de si próprio e entre em uma nova união com a vida altruísta de Deus, para o que também foi criado o espírito de cada um de nós. Uma vez que essa revelação se concretizou (na pessoa de Cristo), nada mais pode ser acrescentado a ela». (Wicks, in loc).

 E diz o mesmo autor: «Há dinamite neste quadro sobre o interesse eterno de Deus por cada personalidade humana. Isso espatifou a subida social que mostrara a sua feia cabeça em Filipos. E através de todos os séculos tem servido de âmago de uma contínua revolução».

 «...morte de cruz...» Essa era a mais patente ilustração possível de humildade que se poderia fazer na sociedade antiga. Na polida sociedade romana era proibido até mesmo mencionar esse gênero de morte, que estava reservado aos piores criminosos e aos escravos. No dizer de Vincent (in loc.): «O final da descrição deixa o leitor no ponto mais baixo da humilhação de Cristo, a morte como a de um malfeitor; o tipo de morte ao qual estava vinculada uma maldição, dentro da legislação mosaica. (Ver Dt 21:23; Gl 3:13 e Hb 12:2).Na qualidade de cidadão romano, Paulo estava isento desse opróbrio (mas Jesus, o Cristo, o maior de todos os homens, não o estava)». É interessante que os gregos estavam acostumados a imaginar os seus deuses no maior poder e honrarias que se possa conceber; e para eles um Salvador crucificado era uma insensatez.

 «...cruz...» Jesus desceu do ponto mais alto até à profundeza mais vil, tendo a morte mais desprezível de todas, a de um criminoso condenado, sobre a maldita cruz». (Robertson, in loc). «Ele se suprimiu tão completamente que finalmente morreu no madeiro». (Scott,in loc).

 2:9: Pelo que tombem Deus o exortou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome;

 As palavras «...Pelo que...» mostram que a exaltação de Cristo ocorreu por causa de sua missão terrena bem-sucedida, para cuja concretização teve de humilhar-se; essa exaltação não se deveu à sua divindade inerente. O trecho de Hb 1:9 concorda com isso. Cristo foi exaltado acima de todos os seus companheiros, tendo entrado em um ambiente de profundíssima alegria, visto que amou supremamente à retidão e odiou à iniqüidade. E note-se que naquela passagem de Hebreus os crentes são chamados de «companheiros» do Filho de Deus. Isso igualmente concorda com o primeiro capítulo da epístola aos Efésios, onde se vê que a exaltação de Jesus Cristo, em razão do que se tornou Cabeça de tudo, unificador e restaurador de todas as coisas, humanas e angelicais, animais e inanimadas, se deveu ao fato que completou a sua missão terrena. E que essa missão ficou terminada foi comprovada pelo fato que ressuscitou dentre os mortos, ascendeu aos céus e foi glorificado.

 A Teologia E As Lições Práticas

 1. Teologicamente, aprendemos que Cristo foi supremamente exaltado devido ao êxito de sua missão. Em correspondência a isso, ficamos sabendo que seremos glorificados nele (ver Rm 8:30), e assim viremos a participar de sua natureza e atributos (ver Cl 2:10), bem como da natureza do Pai com todos os seus poderes (Ef 3:19). Não há como separar a sua glória da nossa, pois ele é o Cabeça e nós somos o corpo de um mesmo organismo, pelo que, necessariamente, compartilhamos da mesma forma de vida.

2. Eticamente, aprendemos que é um absurdo um homem exaltar a si mesmo, pois a verdadeira exaltação vem através da humildade. Esse é um principio bíblico permanente. (Ver Mt 23:12; Lc 14:11; 18:14; I Pe 5:6; Sl 8:6 e 10:1,7).

3. Indiretamente, Paulo advertia assim às facções existentes em Filipos quanto à gravidade de seu erro. Se o próprio Cristo teve de humilhar-se a fim de cumprir a sua missão, que dirá o mero homem!

 Veja-o agora: O humilde servente de Nazaré, o carpinteiro de uma pequena vila. Uma vila tão pequena que Josefo, o historiador judeu, apesar de ter mencionado dúzias de cidades da Galiléia, nunca sequer mencionou Nazaré. Repentinamente, como um poderoso cometa que cruza velozmente pelos céus em toda a sua glória, o humilde Servente é o Messias, cumprindo a sua missão. Sua missão o leva a sacrificar, a sofrer, à renúncia, e finalmente à morte da cruz, o degrau mais baixo na escada que eleva-se até o Trono. Agora, o que dizem as Escrituras? Por causa disto, Deus o aprova e exalta-o acima de todas as criaturas. Com ele levante-se o sol da redenção no Este, e seus poderosos raios iluminam tudo, em todos os lugares, aqueles nos céus, aqueles na terra, aqueles em hades. «Se eu me elevar, trarei todos os homens a mim», disse ele. E assim se tornou.

 Três grandes quadros descritivos são postos perante o nosso olhar, a saber:

 1. O quadro do elevadíssimo estado do Filho de Deus, nos lugares celestiais, antes de sua encarnação.

2. O quadro de seu estado aviltado, em sua humildade, em contraste com sua situação imediatamente anterior à sua encarnação.

3. O quadro de sua exaltação, na qualidade de homem, obtida em resultado do término bem-sucedido de sua missão terrena.

 «...exaltou...» No original grego é «uperupsoo», «elevar às mais elevadas alturas», «exaltar excelsamente», «exaltar supremamente», uma expressão enfática que indica a natureza elevadíssima e grandiosa da exaltação de Cristo. O trecho de Ef 1:19 e ss. nos fornece o melhor comentário sobre essa idéia. Não existe nome e nem ser tão elevado quanto Cristo. De fato, todos os seres têm nele a razão de sua existência. Cristo é o restaurador de tudo, e tudo deverá estar em união perfeita com ele, reconhecendo seu senhorio e sua posição de Cabeça. Cristo entrou no estado de glória transcendente, e agora está assentado à mão direita de Deus Pai, conforme se vê em Rm 8:34 e Cl 3:1. Ele é o Senhor de todos, de vivos e de morto tanto da terra, como do hades, como dos lugares celestiais (ver Rm 14:9 e mostra-se glorioso em seu reinado (ver I Co 15:25).

 «...nome...» Simboliza a pessoa, o indivíduo, seu ser, sua natureza atributos. O nome de Cristo se eleva acima de todo qualquer outro nome—ele é a principal autoridade, superior a todos os nomes que possam ser mencionados agora e na eternidade. Isso se deve ao fato que ele se assentou à mão direita de Deus nos lugares celestiais (ver Ef 1:20).

 Havia uma prática antiga de conferir novos nomes às pessoas que obtinham vitórias importantes ou que passavam por grandes crises em suas vidas. (Ver Gn 17:5; 32:28; Ap 2:17 e 3:12). Jesus, o Cristo (ser divino-humano), é declarado «Senhor», isto é, recebe esse título como seu nome eterno. Ver Rm 1:4 acerca do título «Senhor».

 «...Deus o exaltou sobremaneira...» A exaltação é uma das prerrogativas de Deus Pai, como também somente a ele cabe receber glória. A glória não pode ser atribuída aos homens (ver I Co 1:29,31). Assim sendo, os elementos facciosos e invejosos deveriam notar que a auto-exaltação envolve a usurpação de prerrogativas divinas.

 2:10: para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus e na terra, a debaixo da terra,

 Este versículo se assemelha ao de Ef 1:21, onde são alistados vários poderes angelicais elevados, os quais estão sujeitos ao senhorio de Cristo. Embora as palavras «...debaixo da terra...» não sejam mencionadas ali, a unidade «universal» de todas as coisas, em Cristo, exige que até mesmo o submundo de alguma maneira contribua para a glória de Deus, ainda que isso tome muito tempo e ainda que tudo ocorra de maneira que ultrapassa o nosso entendimento presente. Mas é impossível que haja alguma coisa que eventualmente não venha a ser afetada pelo poder de Cristo; e esse poder sempre se manifesta através da graça divina. Nenhum ser humano, e nem qualquer outra criatura, escapará ao juízo, porquanto cada erro cometido será devidamente corrigido, cada dívida será paga. Todavia, devemo-nos lembrar que o julgamento não será apenas uma medida retributiva; também terá aspectos disciplinares e remidores, conforme se compreende através de passagens como I Pe 3:18-20 e 4:6. E isso é dito até mesmo acerca dos decretos mais severos de Deus, conforme se aprende em Rm 11:32.

 O Cumprimento Do Mistério Da Vontade De Deus

 1. Observemos que este versículo (e seu contexto) é paralelo da importante mensagem de Ef 1:10, onde se aprende que, eventualmente, todas as coisas e todos os seres, terão de ficar debaixo do poder do Filho, formando assim uma unidade em torno dele.

2. O poder de Cristo atinge todas as regiões: a celestial, a terrena e a do mundo inferior. Nada pode estar fora do alcance de seu poder e de sua graça.

 O Nome Jesus

 1. Não há que duvidar que esse uso é significativo aqui. O «Senhor» é definido como «Jesus». Disso se entende que há uma essênciasalvatícia ou restauradora na própria idéia de «Senhorio», no N.T.

2. Portanto, o poder que Cristo exercerá sobre todas as coisas, não será meramente um poder forçado. Todos os seres inteligentes chegarão a exercer certa forma de fé, ainda que não a fé evangélica, em Cristo, como o Senhor. Mesmo que isso seja forçado, em alguns casos, eventualmente será uma atitude genuína.

3. O número dos eleitos será extremamente pequeno. Cristo «restaurara» todas as coisas.

 «...ao nome de Jesus...» Não temos aqui uma tradução correta. O grego declara «...no nome de Jesus...» No dizer de Ellicott (IN loc):«...a esfera espiritual, o elemento santo, por assim dizer, 'onde' cada oração deve ser oferecida e onde cada joelho se dobrará». Isso pode ser confrontado com o trecho de Ef 5:20: «...dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo...»

 «Dobrar os joelhos, no nome de Jesus é adorá-lo nessa esfera de autoridade, graça e glória que o seu nome representa; por estar alguém conscientemente dentro do reino no qual ele é o Senhor, reconhecendo a justiça dos títulos 'Jesus', 'Salvador' e 'Senhor', e aceitando lealmente as obrigações que esses títulos implicam». (Vincent, in loc).

 «...se dobre todo joelho...» Temos aqui a menção de um ato de adoração, e não de uma obediência forçada e obrigatória a Cristo, como Senhor. Cristo dispõe de meios próprios para impulsionar os homens a essa atitude voluntária; e esses meios funcionam até mesmo no após-túmulo. Embora pudesse forçar os homens a tal atitude, prefere fazê-lo mediante a persuasão da magnificência do seu próprio ser. Cristo é o «cão de caça dos céus», que jamais permitirá que um homem escape; pelo contrário, persegui-lo-á e trá-lo-á até si mesmo, ainda que isso envolva uma forma de redenção secundária, que não se possa comparar com a redenção dos «eleitos». Entretanto, temos de deixar Deus ser o juiz e árbitro de como tudo isso sucederá, e quais são os seus efeitos. No dizer de Kennedy (in loc): «Esse nome, que declara o verdadeiro caráter e a verdadeira dignidade de Jesus Cristo, é tanto a base como o objeto da adoração».

 Que a salvação é inerente no senhorio de Cristo, é uma alta doutrina. Dá-nos de amá-lo.

 «...nos céus...» Todo o joelho se dobrará, mas isso indica «pessoas», seres inteligentes, conforme a figura simbólica do «dobrar os joelhos» nos mostra. Todos prestarão honra e lealdade a Jesus Cristo, em seu elevadíssimo ofício e em sua exaltação acima de todo o nome. Paulo se refere aqui aos muitos seres celestiais, às ordens angelicais, existentes em muitas esferas celestes. Há muitas dessas ordens, e algumas ocupam níveis de poder mais elevados do que outras. (Ver Ef 1:21 quanto aos «principados», «potestades», «poderes» e «domínios», que são todos nomes de poderes angelicais, e sobre os quais Cristo será o Cabeça, o que significa que dele receberão o direito de viver). O corpo inteiro de seres celestiais, em suas respectivas dimensões celestes, está aqui em foco. (Ver Rm 8:21; I Co 15:24; Ef 1:20-22; Hb 2:8; Ap 5:13. Acerca dos «seres celestiais» em particular, ver os trechos de Ef 1:21; 3:10; Hb 1:4-6 e I Pe 3:23).

 «...na terra...» Seres humanos são focalizados aqui, sem qualquer distinção aparente acerca da esfera em que talvez estejam habitando, quando finalmente atribuírem essa glória à pessoa de Cristo Jesus, embora talvez haja aqui um indício indireto sobre a doutrina da continuação da existência da terra, na nova criação, quando as nações da terra serão sujeitas a Cristo. A expressão paulina significa, de maneira geral, «todos os seres de todos os lugares», sem tecer quaisquer especulações acerca de como os seres podem trasladar-se de uma esfera para outra, dentro do vastíssimo universo de Deus.

 «...debaixo da terra...» Expressão usada no grego desde os dias de Homero, dando a entender os espíritos dos mortos, que estão nohades. De acordo com a doutrina neotestamentária, esses espíritos estão vivos, e Cristo exerce certo ministério entre eles, visando o bem deles.

 O Significado Da Descida Ao Hades

 1. O relato da descida de Cristo ao hades é mais completamente descrito em I Pe 3:18—4:6. A narrativa da descida de profetas do A.T.ao hades, é um tema comum em composições judaicas antigas e não-bíblicas. Muitas culturas (incluindo a grega e a romana), continhamtais histórias em sua literatura. Os escritos cristãos primitivos também narram como Cristo desceu ao hades e ali desenvolveu um ministério. Portanto, esse conceito é antiqüíssimo, e muito reiterado, embora figure nas páginas do N.T. raras vezes. As referênciasneotestamentárias são como os picos de um «iceberg». Representam uma tradição honrada e desde há muito estabelecida, pelo que, de maneira alguma, formam um elemento isolado. Mas representam um acúmulo considerável de literatura judaica e cristã.

2. ver o significado da descida ao hades, em I Ped. 3:18, Ef 4:9,10:

a. A descida de Cristo ao hades não teve o propósito de pregar julgamento. Isso seria uma contradição com toda a sensibilidade cristã, além de ser uma idéia antibíblica.

b. A maioria dos intérpretes antigos, era de opinião de que ali Cristo ofereceu plena salvação aos perdidos, e que essa oferta é válida (de acordo ainda com essa interpretação), até à segunda vinda de Cristo, a qual determinará os destinos finais das almas. O destino será determinado por esse evento, e não pela morte pessoal de cada indivíduo.

c. Outros, ainda, antigos e modernos, têm pensado que Cristo melhorou as condições dos perdidos no hades, sem lhes haver oferecido a redenção. Essa idéia reflete, pelo menos, o significado de Ef 1:10, sem importar se descreve ou não o intuito da própria descida ao hades.

d. O trecho de Ef 4:9,10, ensina-nos que a descida se revestiu do mesmo propósito que a subida, a saber, fazer Cristo tonar-se «tudo para todos». Essa é, igualmente, a mensagem de Ef 1:23. Cristo teve seu ministério na terra; teve seu ministério no hades; e teve (e tem) seu ministério nos céus. Todos esses ministérios têm a mesma finalidade, ou seja, fazer todas as coisas retrocederem até Cristo (ver Cl 1:16), pois ele é não somente o Alfa, mas também o Omega. Essa unidade em torno de Cristo será benéfica para todos, embora só confira a salvação para os eleitos. Os não-eleitos serão uma espécie diferente de ser, que não participarão da natureza divina.

e. O julgamento ajudará a produzir essa restauração; mas não conseguirá dar a redenção aos perdidos. O fato de que os perdidos não serão remidos, significa que permanecerão no estado de juízo eterno. Porém, dentro dessa condição, Cristo dará àqueles homens uma existência digna de ser vivida, a qual redundará em glória positiva para ele. Pois Cristo será o objetivo de toda a existência deles. Isso é verdade porque Cristo assumirá o controle de todas as coisas; todas as coisas serão centralizadas em torno dele; ele será tudo para todos.

f. Eventualmente, haverá um único alvo e uma única razão para se viver: o Filho de Deus, o Cristo, o Logos eterno. Isso se concretizará na forma de uma unidade, em bondade, dentro do propósito divino.

g. A despeito de qualquer glória que o estado de restauração porventura venha a envolver, será (para os não-eleitos) uma perda infinita, em confronto com o ganho infinito dos eleitos.

 2:11: e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

 Os gnósticos especulavam que há muitos universos, e que cada um deles conta com seu deus ou com elevados poderes angelicais. Alguns gnósticos faziam de Cristo o mais exaltado desses poderes, ao passo que outros não lhe conferiam qualquer posição especial, exceto que supunham que a sua autoridade se estende pela terra inteira, da mesma maneira que cada «aeon» teria uma área específica de domínio. Mas Paulo contradiz isso tudo, mostrando que o senhorio de Cristo é absolutamente universal, incluindo todos os mundos e todos os seres. No primeiro capítulo da epístola aos Efésios, Cristo é retratado como Cabeça de todos, como o restaurador e unificador de todos os seres e de todos os mundos. E aqui outro tanto é dito, exceto que o simbolismo não é esmiuçado em detalhes, conforme se faz naquela passagem.

 «...toda língua confesse...» No original grego temos a palavra «eksomologeo», que tem o sentido primário de «declarar francamente», de «fazer confissão aberta», embora haja o sentido secundário de «confessar com gratidão». Este sentido secundário é preferido por alguns intérpretes, porquanto, no grego posterior, parece que esse significado suplantou inteiramente o primeiro. Se esse é realmente o verdadeiro sentido, então é salientado, tal como no décimo versículo, que essa confissão será feita não por seres forçados a tanto, que se sintam esmagados. Bem pelo contrário, o propósito remidor de Cristo, operante em escala universal, tendo permeado todos os mundos e todos os seres, produzirá uma voluntária confissão de ações de graças. Mas até mesmo sem apelarmos para o sentido secundário do termo, não há razão alguma para pensarmos que essa confissão venha a ser feita com relutância. Não obstante, a verdade é que muitos seres terão de passar por lições dificílimas, enquanto Deus lhes ensina a realidade do senhorio de Cristo; mas todas as criaturas inteligentes haverão de finalmente reconhecer isso voluntariamente, de todo o coração.

 «...que Jesus Cristo é Senhor...» Diz Alford (in loc): «Esse é o grande escopo de toda a mediação de Cristo e de seu reino medianeiro, conforme se verifica em comparação com I Co 15:24-28». O termo «...Senhor...» é freqüentemente aplicado a Jesus Cristo, nas páginas do N.T., algumas vezes meramente como título de respeito, mas, na maioria das vezes, como indicação de sua divindade. Note-se também, em Rm 10:9,13, que somente a confissão de Jesus como Senhor, e a aceitação desse fato de todo o coração, na forma de entrega da alma aos seus cuidados, pode levar alguém à salvação. Não há tal coisa como um crente ou convertido que também não aceite a Jesus como seu Senhor. Somente a «crença fácil» que se espraiou entre tantas igrejas evangélicas hoje em dia pode admitir tal aberração. ON.T. não ensina e nem permite tal conceito, pois a própria essência da salvação consiste de sermos conformados segundo a imagem de Cristo, através da total submissão a ele, de tal modo que o humano será absorvido pelo divino.

 «Esteja absolutamente certo, pois, toda a casa de Israel, de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo» (At 2:36). E comenta Kennedy (in loc): «O termo 'Senhor', se transformou em uma das palavras mais amorfas do vocabulário cristão. Se penetrássemos em seu significado e lhe déssemos o efeito prático que ela tem, isso recuperaria, em grande medida, a atmosfera que havia na era apostólica».

 «...para glória de Deus Pai...» Essa é a principal finalidade da existência dos homens. Note-se que Deus é o «...Pai...» Na epístola aos Efésios essa é a nota chave de tudo quanto os homens participam nas bênçãos celestiais, porquanto essas bênçãos nos são dadas como filhos, da parte do Pai, já que nos temos tornado participantes da natureza do Filho de Deus. (Ver Ef 1:2,3,5,11,14,17; 2:18,19; 3:14 e 6:23 quanto a essa ênfase. No que tange ao fato que todos os seres vivos existem para a glória de Deus, ver Ef 1:14, onde também se lê que nossa participação na herança celestial será para «o louvor de sua glória»). Os crentes participam dessa glória por causa da herança que possuem em Cristo, pelo que também são donos das «riquezas da glória de sua herança». Nesse ponto, «vários aspectos da glória divina são salientados, a saber:

1. Essa glória pertence à família divina, derivada do Filho de Deus e outorgada aos filhos de Deus, o que fala da riqueza e do brilho da vida e das bênçãos espirituais.

2. Isso também alude à presença de Deus. E ninguém chegará a ver a Deus se não houver sido glorificado «em Cristo», mediante a autêntica aceitação de seu senhorio. Porém, ao ser assim glorificado, o crente passará a compartilhar da glória de Deus.

3. Há alusão aqui a todos os excelentes atributos divinos, como à santidade, ao amor e ao poder de Deus. Ele é «glorioso» no poder e bondade infinitos que caracterizam o seu ser. E a redenção exalta essa particularidade, porquanto o louvor dos remidos exaltará o amor e a bondade de Deus, aumentando a glória celestial por conduzir os seus filhos até à sua presença, para que sejam participantes eternos de sua graça, para, que compartilhem de «toda a plenitude de Deus», conforme se vê em Ef 3:19.

4. A majestade e a sublimidade de Deus, de modo geral, bem como as excelências infinitas de sua pessoa, são todas focalizadas mediante o uso deste vocábulo. Tudo isso será exaltado e aumentado quando ficar demonstrado que Cristo é o Senhor de todo o universo, e quando isso for reconhecido; pois é mediante o exercício do «senhorio» de Cristo que os propósitos e a vontade de Deus terão cabal cumprimento. Assim também as excelências divinas serão aplicadas a todas as criaturas, elevando-as a um nível muitíssimo mais elevado, de acordo com o beneplácito divino. Note-se que o estabelecimento prático do «senhorio» de Cristo é necessário para que a glória de Deus seja completa, ou seja, para que Deus receba toda a glória a que faz jus, bem como para que os remidos participem da mesma; pois isso faz parte da glória que Deus receberá. Finalmente, deve-se entender que a glória de Deus Pai e de Deus Filho são mútuas. (Ver os trechos de Lc 10:16; Jo 5:23 e 17:5).

 No presente contexto, pode-se observar quão absurdo, portanto, é que os homens se vangloriem de si mesmos. Essa é a razão mesma pela qual Paulo resolveu demonstrar as verdades sobre Cristo que temos aqui expostas. Ninguém pode invejar a outrem, nem criar facções, nem fazer de si mesmo um pequeno César no seio da igreja; porquanto toda exaltação cabe; exclusivamente a Deus. Além disso, essa exaltação a Deus é reconhecida mediante a aceitação, por parte do homem, do senhorio de Jesus Cristo, e não porque este ou aquele se fazem de pequenos «senhores» entre os irmãos. Quando alguém assim age, está usurpando a glória que cabe exclusivamente a Deus, negando, por outro lado, o senhorio que somente Cristo pode e deve exercer. Por conseguinte, os pequenos «césares» são pequeninos «senhores» na igreja, formando uma situação insultante para Cristo e para seu Pai, bem como para a igreja cristã inteira.

 «Todas as modalidades de salvadores prometem transformar o mundo de fora para dentro, e às vezes até conseguem proporcionar alguns benefícios externos; finalmente, porém, o homem precisa libertar-se de si mesmo, se tiver de experimentar a verdadeira 'liberdade dos filhos de Deus'». (Wicks, in loc).

 «Nem mesmo os homens mais poderosos e sábios têm podido revelar mais plenamente o coração de Deus e o coração do homem, como o fez no passado o Cristo crucificado. Aquelas coisas têm sido reveladas de uma vez para sempre. 'Está consumado!' Em face do Crucificado, todo o 'mais' e todo o 'menos', bem como todo o progresso e aproximação, não têm qualquer sentido. Assim, pois, podemos dizer acerca de Cristo, tão-somente: Ele é a nova realidade; ele é o ponto final». (Paul Tillich, Shaking the Foundations, pág. 148).

FONTE VEJA www.pentecostalteologia.blogspot.com.br 

FONTE Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo testamento, 2003