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estudo do livro de Judas
estudo do livro de Judas

Judas (comentários Vss. 1-4)

Saudação (Vss. 1,2).

O autor sagrado se apresenta aqui a seus leitores. Seu herói é «Tiago», o irmão do Senhor. Escreve ele em honra a Judas, irmão de Tiago. Assim fazendo, queria que soubessem que ele defendia o evangelho apostólico contra os assédios da heresia gnóstica, além de exortar a seus leitores que reconheçam a urgência da defesa à fé cristã. Ele, e outros semelhantes a ele, salvaram a igreja primitiva de tornar-se apenas outra das religiões misteriosas greco-romanas, o que fatalmente teria sucedido, se o gnosticismo houvesse ganho a batalha.

 

1: Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, amados em Deus Pai, e guardados em Jesus Cristo: 

«..Judas... » Era um nome comum e popular entre os judeus, o que se evidencia pelo fato que, entre os próprios discípulos de Jesus, havia dois com esse nome Judas Iscariotes e Judas, filho de Tiago (ver Lc 6:16 e ss. e At 1:13). Um dos meio-irmãos de Jesus também tinha esse nome, conforme se vê em Mt 13:55. Provavelmente este Judas está em foco aqui. Nas páginas do N.T. também se lê sobre «Judas, o Galileu» (ver At 5:37), sobre «Judas de Damasco» (ver At 9:11) e sobre «Judas, chamado Barsabás» (ver At 15:22). Judas Macabeu foi um dos grandes heróis do judaísmo post-exílico, sendo natural que os pais favorecessem o nome de um herói, dando tal nome a seus filhos. A forma hebraica,«Jehudah», foi dada a um dos filhos de Jacó. Subseqüentemente, tornou-se nome da tribo dele descendente, que se tornou a mais estranha das tribos. Judá e Benjamim (quando a nação se dividiu em duas partes: norte e sul) foram astribos que formaram o reino sulista (ver I Rs 11:21 e 12:17-21). O nome «judeu» deriva-se desse vocábulo, e, embora originalmente indicasse apenas um membro da tribo de Judá, mais tarde veio a indicar qualquer israelita, sem importar a tribo a que pertencesse. No hebraico, tal vocábulo significa «louvado pelo Senhor».

 No tocante a Judas, irmão do Senhor, temos pouquíssima informação. (Ver Mt 13:55 quanto à lista dos irmãos de Jesus). Evidentemente ele era filho de José e Maria, ainda que alguns estudiosos neguem isso, com base em um preconceito a priori, que defende sem base a idéia da perpétua virgindade de Maria. A identificação dos «irmãos» de Jesus é discutida em Mt 12:46,47. Dentre seus muitos irmãos, dois se tornaram «apóstolos», isto é, dotados de estatura espiritual apostólica, Tiago e Judas. O trecho de At 1:14 mostra-nos que muitos, e talvez todos os irmãos de Jesus, se converteram após a ressurreição. E talvez exatamente devido à sua ressurreição. O trecho de I Co 15:7 evidentemente dá a entender que Tiago, irmão do Senhor, foi uma das pessoas privilegiadas pelo aparecimento pessoal do Senhor ressurreto.

 Há uma tradição, preservada por Hegesipo (conforme foi registrado por Eusébio, em sua História EclesiásticaIII.20.1,2), que mostra que os netos de Judas continuaram na fé, e que seu íntimo relacionamento com Jesus lhes trouxe dificuldades perante o governo imperial, até que Domiciano viu que eram humildes de aparência, um tanto rústicos, pobres, certamente não servindo de ameaça ao império, como traidores em potencial.

 «...servo de Jesus Cristo...» Os tradutores e revisores erraram ao não colocarem aqui o termo mais correto e franco, «escravo», porquanto isso é o que afirma aqui o original grego. A «escravidão» fala da perda absoluta da vontade pessoal, da total absorção de uma personalidade humana por outra. Os escravos não tinham direitos, privilégio e vontade própria. Portanto, espiritualmente falando, ser alguém um «escravo» de Cristo indica dedicação absoluta, total outorga da alma aos seus cuidados. Paulo empregou esse termo, apontando para si mesmo. Esse vocábulo subentende um «serviço» totalmente consagrado, pois um escravo, acima de tudo, deveria «trabalhar para seu senhor». O termo grego «doulos» (escravo) é usado por cento e vinte e cinco vezes nas páginas do N.T., em seu uso literal e metafórico. (Quanto a seu uso metafórico e espiritual, além da presente passagem, ver os trechos de Rm 6:16,17,20; II Co 4:5; Gl 1:10; 4:1,7; Fp 1:1; 2:7—onde o termo é empregado ao próprio Cristo, apontando para a sua total dedicação à sua missão terrena; Tg 1:1; I Pe 2:16; II Pe 1:l; 2:19; Ap 1:1; 2:20; 7:3; 10:7; 11:18; 15:3; 19:2,5 e 22:3,6). Essa palavra também é usada em sentido negativo, conforme se vê na leitura dessas várias referências bíblicas. É possível alguém ser escravo do pecado, ser cativado pela vontade de Satanás, para detrimento de sua própria alma.

 «...irmão de Tiago...» O apóstolo Tiago é o herói do autor sagrado. Ora, Tiago era o irmão do Senhor. É mediante o uso do nome de Tiago que o autor desta epístola identifica sua obra com a tradição e com o evangelho apostólico, mostrando assim o seu propósito de defender o evangelho contra os assédios da heresia gnóstica. Tiago foi o famoso «bispo» ou «supervisor» da igreja de Jerusalém, dotado de grande autoridade espiritual sobre a igreja. Todos quantos representassem o seu nome certamente expunham fielmente o evangelho de Cristo.

 O autor sagrado não se chama «irmão do Senhor», provavelmente por humildade, ou então como alguns dizem, porque na realidade não era tal, porquanto tão-somente escrevia em honra a Judas (como o seu discípulo), não presumindo ao menos escrever tais palavras em sua epístola.

 «...aos chamados...» Os evangelhos sinópticos (ver Mt 20:16 e paralelos) algumas vezes falam da «chamada» de Deus como algo que nem sempre é eficaz, contrastando isso com aqueles que foram meramente chamados, mas não são os eleitos. Porém, no restante do N.T. (como aqui), tal distinção não é feita. Os «chamados» são os mesmos «eleitos», e isso é visto como um convite divino que é eficaz em todos os casos. A «chamada» nos chama para fora do mundo e da lealdade ao pecado cósmico (investido em Satanás), para que nos tornemos parte do reino de Deus, de sua retidão, do processo de transformação segundo o seu Filho, o que é o destino de todos os eleitos de Deus. Por esse intermédio é que os remidos chegam a compartilhar da própria natureza e da divindade de Cristo (ver II Pe 1:4), bem como da plenitude de Deus, tal como o Filho de Deus é possuidor dessa plenitude (ver Cl 2:10 e Ef 3:19).

 O autor sagrado queria mostrar que o fato que fomos chamados por Deus envolve grande responsabilidade moral, algo que os gnósticos ignoravam e que desconheciam. Assim também Paulo invocou os crentes a que andassem de modo «digno» de sua chamada e posição cristãs (ver Ef 4:1).

 «...amados de Deus Pai...» Os crentes são comumente intitulados «amados» porque, sobre eles, acima de todos os homens, o amor de Deus se tem derramado. Esse amor é a base de todo o bem-estar espiritual. Deus é amor (ver I Jo 4:8), pelo que tudo quanto ele faz é realizado tendo em mente o benefício de outros, porquanto o amor é altruísta em suas atitudes e ações. E até mesmo o juízo divino é apenas o dedo da mão amorosa de Deus.

Além do que se diz em João 3:16, ver acerca do «amor de Cristo», que nos constrange a viver como cristãos, em II Co 5:14; ver o «amor» como um dos aspectos do fruto do Espírito Santo, uma qualidade moral divinamente implantada, o solo bom onde medram todas as demais virtudes cristãs, em Gl 5:22; e ver uma série de citações, que ilustram bem o princípio do amor, em I Jo 2:10.

 O vocábulo «amados» é constantemente usado nas páginas do N.T. como titulo aplicado aos crentes, os quais são os amados de Deus (como se vê aqui) e de outros crentes. Há um amor e um interesse mútuos dentro da família de Deus. (Ver os trechos seguintes, onde também essa palavra é empregada: Rm 1:7; 11:28; 12:19; 16:8,9,12; I Co 4:14,17; 10:14; 15:58; II Co 7:1; 12:19; Ef 1:6; 6:21; Fp 2:12; 4:1; Cl 3:12; 4:7,9,14; I Ts 1:4; II Ts 2:13; I Tm 6:2; II Tm 1:2;Fm 1,2,16; Hb 6:9; Tg 1:16,19; 2:6; I Pe 2:11; 4:12; II Pe 1:17; 3:1,8,14,15,17; I Jo 3:2,21; 4:1,7,11; III Jo 2:5,11; Jd 3:17,20 e Ap 20:9).

«...Deus Pai...» Deus é nosso Pai. Todas as bênçãos espirituais chegam aos homens da parte de nosso Pai celeste. Isso geralmente é idéia que figura nas introduções às epístolas paulinas.

 A Polêmica 

1. Os chamados também são «amados». Os gnósticos, contra os quais foi escrito este livro, criam no deísmo, o qual pode ser contrastado com o teísmo. O deísmo ensina que apesar de existir um poder divino ou cósmico, que a tudo criou, esse poder ou pessoa não mantém interesse pessoal por sua criação, não galardoando e nem castigando, e nem fazendo intervenções na vida da humanidade. Deus, de acordo com essa definição, está divorciado de sua criação. O teísmo, em contraposição a isso, ensina que Deus criou e até agora continua presente em seu universo. Deus recompensa ao bem e pune ao mal, fazendo intervenções na história humana. Para que alguém seja «amado por Deus», como é óbvio, torna-se necessário que exista um Deus concebido aos moldes teístas.

 2.  O Filho é o mediador desse Deus, o que nega a existência dos muitos «aeons» (ou mediadores angelicais), criados pelos gnósticos. O amor de Deus se expressa no Filho (ver Rm 5:8).

 O Significado Espiritual: Deus Como Pai 

Notemos as palavras «amados em Deus Pai». Isso se dá mediante a comunhão mística com ele, estando ele identificado conosco como Pai, posto estarmos sendo transformados em filhos seus, segundo a imagem de seu Filho, o que nos confere todos os benefícios espirituais, pela mediação do amor. O original grego poderia ser traduzido por «por Deus, o Pai», se tivermos de entender o dativo como algo que indica agência. Ambos os sentidos são verdadeiros, mas o primeiro deve ser o tencionado. A palavra «em» pode significar «na presença de», em então «contemplado por». Todavia, apesar disso refletir a verdade do caso, a primeira possibilidade parece encerrar a idéia central. (Isso pode ser comparado com I Jo 2:24, onde se fala sobre a «permanência» no Pai e no Filho, o que também aponta para a comunhão mística). Essa comunhão é um poder transformador, conferindo-nos a imagem de Cristo, a sua semelhança e natureza (ver II Co 3:18, onde esse ensinamento é bem claro).

 Alguns estudiosos acreditam que a preposição grega «en» (aqui traduzida como «em»), mediante repetidas transcrições ficou deslocada, porquanto originalmente estaria vinculada às palavras «Jesus Cristo». Assim pensava Hort, em sua obra Selected Readings, (pág. 106). Nesse caso, deveríamos ler este versículo como segue: «...queridos a Deus, o Pai, e... guardados mediante união 'com' Jesus Cristo». Pelo menos assim traduz Goodspeed. Porém, com ou sem a preposição, colocada antes de Cristo, o dativo desse vocábulo já deixa entendida a mesma coisa.

 «...guardados...», isto é, qual tesouro precioso. Somos resguardados de todos os maus desígnios dos poderes malignos; somos preservados para um propósito específico e beneficente, tanto no caso dos resguardados, como no caso daquele que nos guarda. A segurança do crente fica aqui subentendida. Com a preposição grega «en» ou sem ela em virtude do dativo), somos guardados devido à nossa comunhão mística com Cristo. Ele é a vinha e nós os ramos. A vida inteira consiste de permanecermos nele (ver Jo 15:4), e isso nos proporciona toda a segurança necessária. Isso pode ser comparado com a expressão paulina «em Cristo», que ele usa por nada menos de cento e sessenta e quatro vezes, dando a entender a comunhão mística com o Senhor através da mediação do divino Espírito, em nós residente.

 O fato que somos guardados dá-nos o poder de vencermos às tentações, de derrotarmos as heresias, de vivermos fielmente agora, e também de chegarmos à salvação eterna, em seus últimos estágios, conforme se vê no vigésimo quarto versículo.

 «...em Jesus Cristo...» Podemos entender isso como «por», «em favor de» ou «em» Cristo. Provavelmente o sentido certo é a última dessas possibilidades, seguida por nossa versão portuguesa. Trata-se de uma comunhão mística com Cristo, a qual nos mantém seguros. Porém, as outras idéias, como é óbvio, também expressam verdades, pois Cristo é o «õmega», todas as coisas são «para ele» (ver Cl 1:16). Cristo é, por semelhante modo, o poder espiritual que torna realidade a nossa segurança eterna.

 2: Misericórdia, paz e amor vos sejam multiplicado.

 As cartas antigas, após a saudação geral, traziam a expressão do desejo de boa saúde da parte daqueles que receberiam as mesmas. Mas, nas cartas do N.T., isso é substituído por Sentimentos religiosos, por «valores espirituais», em lugar do mero desejo de saúde física. As epístolas de Paulo sempre trazem «graça e paz» como desejo expresso em favor de seus leitores originais. Nas epístolas pastorais temos «graça, misericórdia e paz», o que também aparece na segunda epístola de João. Neste ponto, entretanto, temos uma combinação sui generis, «misericórdia, paz e amor». Talvez a palavra «misericórdia» seja um sinônimo genuíno para «graça», conforme tal vocábulo algumas vezes era usado. Porém, o termo «amor» é uma nova e inicial bênção se não mesmo algo novo, que os escritores do N.T,; desejavam em favor de seus leitores. (Comparar com Gl 6:16, onde temos «paz e misericórdia», invocados sobre o «Israel de Deus»).

Podemos estar certos que o intuito do autor sagrado não foi meramente o de apresentar uma fórmula literária comum. Sendo ele um homem espiritual, orou para que tais bênçãos espirituais realmente fossem conferidas a seus leitores. O leitor deste comentário poderia consultar as notas abaixo, sobre as idéias alistadas:

 1. MisericórdiaA misericórdia aparece paralela à graça. A misericórdia salva; e a graça também salva. E ambas resultam do vastíssimo amor de Deus (ver o terceiro versículo). O amor de Deus o inspira à bondade para com o homem, fazendo de Deus o Salvador (ver o quarto versículo). A misericórdia retém o julgamento e abre caminho para a graça derramar sobre nós bênçãos positivas. A vida terrena de Jesus de Nazaré foi a concretização suprema da misericórdia divina em favor dos homens. Os vários aspectos do «fruto do Espírito Santo», como a longanimidade, a gentileza, etc, repousam parcialmente sobre a sua misericórdia, pelo que quando um homem exerce misericórdia com coração livre, deve-se isso ao fato que ele está compartilhando da natureza moral de Deus, mediante o poder transformador do Espírito Santo, que nele veio residir.

 2. PazNos escritos de Paulo, ela sempre vem «da parte de Deus», porquanto a reconciliação com Deus estabelece a paz entre Deus e o homem, embora por mediação de Cristo. A «paz» consiste de harmonia íntima e de grande compostura, com base na harmonia da alma remida com Deus, com suas leis, com suas exigências e com seu Cristo. Trata-se de uma qualidade espiritual, que transcende aos ditames das circunstâncias externas.

 3. AmorEssa é a virtude básica de todos os dons divinos, a virtude inspiradora de tudo quanto é nobre. Pois, à semelhança da morte, o amor transforma a tudo. Está aqui em foco o amor de Deus pelos homens, o que, por sua vez, inspira os homens ao amor. Todo o verdadeiro amor vem de Deus, porque até mesmo quando os homens sem regeneração amam, isso se deve à influência do Espírito Santo neste mundo. Tudo quanto Deus faz de alguma forma qualquer expressa a sua natureza amorosa. A bondade e a gentileza de Deus se derivam do seu amor. E até mesmo o seu juízo é apenas um dedo da mão amorosa, porquanto tudo é decretado a fim de instruir e disciplinar, ou seja, eventualmente, para beneficiar, e não meramente para impor retribuição.

 «...vos sejam multiplicados...» Que essas virtudes fossem derramadas com abundância, e não com parcimônia. Essa expressão (mas acompanhada da palavra «graça») também pode ser vista nos trechos de I Pe 1:2 e II Pe 1:2. Evidentemente isso era uma fórmula epistolar.

Essa mesma saudação aparece em uma carta enviada aos Sirneanos, escrita a fim de descrever o martírio de Policarpo (escrito datado de cerca de 156 D.C.). Isso pode refletir ou não conhecimento da epístola de Judas. Esta presenteepístola provavelmente foi escrita antes disso, seja como for. O amor e a misericórdia, uma vez mais, aparecem combinados no vigésimo primeiro versículo, com a «vida eterna», com o grande benefício produzido por aquelas duas virtudes.

 Propósito Central da Epístola (V ss. 3,4)

 O autor sagrado não perde tempo para chegar a declarar o propósito de sua epístola. Ele queria escrever, ansiosamente, um tratado sobre a nossa «comum salvação», instruindo a seus leitores sobre as graças e glórias da fé cristã. Porém, ao observar o grande sucesso que os mestres gnósticos vinham obtendo, infiltrando-se como estavam na igreja e obtendo convertidos às suas doutrinas falsas, que degradam a Cristo, seu dever se lhe tornou claro. Ele voltou toda a sua energia a uma denúncia amarga e cortante contra a heresia gnóstica, especialmente porque os mestres gnósticos encorajavam e praticavam a imoralidade. O autor sagrado conclamou aos crentes para que seguissem o seu exemplo, tornando-se leais e poderosos na defesa da fé.

 3: Amados, enquanto eu empregava toda a diligência para escrever-vos acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos.

 «...Amados...» O autor sagrado aplica essa expressão indicativa dos crentes por três vezes nesta epístola (ver os versículos terceiro, décimo sétimo e vigésimo). (Há notas expositivas completas sobre o pensamento assim expresso, no primeiro versículo, onde já vimos que os crentes foram chamados «amados» por Deus). Os crentes são amados uns dos outros porque o amor de Deus se tornou um poder eficaz em suas vidas. Mediante a transformação dada pelo Espírito, o que lhes dá a imagem de Cristo «cultivando os seus frutos», os crentes chegam a expressar uns para os outros, em certa medida, aquilo que Deus tem expressado para a humanidade. Esse vocábulo é usado por cerca de sessenta vezes nas epístolas neotestamentárias. Na primeira epístola de João, por exemplo, ver I Jo 3:2,21; 4:1,7,11; III Jo 2,5,11; Rm 1:7; 9:25; 11:28; 12:19; 16:8,12. Comparar também com I Pe 2:11; 4:12; Tg 1:16; I Co 15:58; Fp 4:1; Cl 4:7,9.

 Deve-se observar os três usos centrais do vocábulo «amado», no N.T.:

1. Fala de Jesus como o objeto especial do amor de Deus, sobretudo na qualidade de Filho a cumprir sua missão messiânica (ver Mt 3:17; 12:18; 17:5; Mc 1:11; 9:7; Lc 3:22).

2. Esse vocábulo expressa o amor de Deus para com todos quantos se reconciliam consigo através de Cristo (ver Rm 1:7; 11:28; Cl 3:12; I Ts 1:4).

3. Também é usado esse termo para falar do relacionamento altruísta ideal que os crentes devem ter uns com os outros (ver Rm 12:19; I Co 4:14; Fm 1; Hb 6:9; Tg 1:16 e II Pe 3:1).

 «...empregava toda diligência...» Provavelmente essas palavras indicam o fato que o autor sagrado tinha planejado, reunira material e talvez tivesse começado uma obra acerca das glórias da fé cristã, um tratado não-polêmico, que tencionaria exortar, encorajar e ensinar aos crentes. Para ele não foi prazer abandonar esse tipo de esforço, a fim de lançar uma severa advertência à igreja, concernente à heresia gnóstica.

 «...nossa comum salvação...» Consideremos aqui os pontos seguintes:

1. O perdão dos pecados;

2. O arrependimento;

3. A fé inicial;

4. A vida de fé;

5. A santificação; e

6. A glorificação.

Isso conduz à transformação segundo a imagem moral de Cristo (ver Gl 5:22,23), o que, por sua vez, nos confere sua imagem metafísica (ver II Co 3:18 e Rm 8:29), a fim de que compartilhemos de sua própria natureza, de modo a virmos a ser cheios de toda a plenitude de Deus (ver Ef 3:19 e Co 2:10), com o resultado que chegaremos a participar do mesmo tipo de vida que Deus possui (ver Jo 5:25,26 e 6:57), ou seja, a própria «natureza divina» (ver II Pe 1:4).

 Qual É A Natureza Da Salvação ?

 1. A salvação começa quando da conversão, inclui o arrependimento (ver At 2:38) e prossegue na santificação.

2.  Pode ser definida mediante o vocábulo «filiação» (ver He 2:10).

3.  Do ponto de vista da eternidade, a salvação consiste da glorificação, um processo sem fim, no qual as almas humanas remidas estarão sendo transformadas segundo a imagem do Filho, assumindo os seus atributos, tudo baseado na participação em sua própria natureza.

4.  Aqueles que participarem da plenitude do Filho (em sua natureza e atributos), necessariamente participarão também da plenitude do Pai (ver Ef 3:19), tal como dela participa o Filho.

5. Por conseguinte, a salvação é a duplicação do Filho nos filhos de Deus de maneira bem real e literal.

6. A diferença da natureza que pertence ao Pai e ao Filho e a natureza dos filhos, não poderá ser medida em termos de «qualidade», mas somente em termos de extensão. Em outras palavras, a natureza é a mesma, trata-se da mesma «modalidade de vida». Mas os filhos de Deus participarão da divindade apenas finitamente, ao passo que o Pai e o Filho participam infinitamente dessa forma de vida. Jamais poderá haver estagnação nesse particular. O vaso (a alma) é imerso no oceano da divindade. Não pode conter o oceano, mas pode ir aumentando em suas dimensões, passando a conter maior e maior porção do oceano.

O Senhor, pois, aumentará para sempre os limites de sua habitação nos remidos. O alvo de toda existência é Cristo. E isso será sempre uma verdade.

 «...obrigado...» Por quê? Porque os gnósticos estavam obtendo êxito em sua campanha de adquirir adeptos tirados da igreja, com sua doutrina insidiosa. Os gnósticos ensinavam que Cristo era apenas um «aeon» (uma emanação angelical), e não o Verbo ou mesmo um elevado poder espiritual, porquanto era apenas um dentre muitos mediadores e pequenos salvadores. Negavam também a encarnação, dizendo ser isso uma impossibilidade moral e metafísica. Negavam a humanidade de Cristo, reduzindo ainda a sua «divindade» ao mero nível de algum pequeno «deus» entre muitos. Negavam a expiação do pecado pelo sangue de Cristo. E faziam da imoralidade uma parte oficial de seu sistema ético. Foi esse tipo de sistema religioso que forçou o autor sagrado a entrar na ofensiva, produzindo a escaldante denúncia que temos à frente.

 «...exortando-vos a batalhardes diligentemente...» No grego temos «epagonidzomai», «lutar», «combater». Deriva-se esse termo da raiz «agon», originalmente um «lugar de reunião», onde havia as competições atléticas. Finalmente, em sua forma verbal, aponta para a «agonia» da luta dos contendores. Judas, pois, exorta-nos a «agonizarmos» em prol da fé cristã, isto é, a nos dedicarmos à sua defesa e propagação, em face da oposição. Isso deveríamos fazer«diligentemente», idéia essa expressa na forma intensificada do verbo grego (com um prefixo preposicional).

 «...pela fé...» A palavra «fé» é usada essencialmente de três maneiras diferentes nas páginas do N.T., a saber:

1. A fé subjetiva, isto é, a fé que nós mesmos exercemos, nossa outorga pessoal aos cuidados de Cristo.

2. A fé também aparece como uma qualidade subjetiva, na ação diária (o viver «de fé em fé», segundo se lê em Rm 1:7), que é virtude espiritual. (Ver também o trecho de Gl 5:22 quanto a essa forma de fé). Trata-se do fortalecimento e do cultivo diário da confiança em Cristo, que nos leva a viver de modo dedicado a ele. Isso é o «viver segundo a dimensão eterna».

3. Também há a «fé objetiva», isto é, «aquilo em que cremos», o credo ou sistema do cristianismo, a «fé cristã». Esse é o uso aqui tencionado por Judas. Fora deste livro, porém, tal uso só se encontra nas «epístolas pastorais», e isso com freqüência.

Na primeira epístola de João transparece o fato que os gnósticos negavam as doutrinas fundamentais da encarnação, da fusão das naturezas divina e humana na pessoa de Jesus Cristo, de sua autêntica missão salvadora e de seu senhorio, do fato que Deus é o Salvador (pois os gnósticos eram «deístas»), da expiaçâo pelo sangue (pois o «Cristo», conforme diziam eles, não poderia nem sofrer e nem morrer). Podemos supor que a mesma doutrina era defendida pelos falsos mestres atacados nesta epístola. Essa é a «fé» aqui aludida. Em favor desse credo cristão é que o autor sagrado exortou os seus leitores a agonizarem.

 «...uma vez por todas foi entregue...» Os mestres gnósticos haviam introduzido um novo evangelho, que na realidade não era «evangelho». O autor sagrado assevera que não pode haver nenhum «novo» evangelho, mais ou menos como Paulo faz em Gl 1:7-9. Cristo trouxe-nos a revelação final de Deus. Se maiores revelações porventura tiverem de ser dadas, terão de estar centralizadas em Cristo. A declaração diz que Cristo é a revelação final do N.T. Aquilo que degrada de sua divindade, de sua humanidade, de seu senhorio e de seu poder de salvar é que é automaticamente falso.O autor sagrado não fecha a porta da investigação na verdade, mas contende que toda a verdade deve estar centralizada no Cristo anunciado pelos apóstolos. Gerações sucessivas têm o dever de transmitir a outros o que os apóstolos nos legaram. Ninguém, entretanto, é o guardião de toda a verdade divina, e podemos «ir crescendo» na doutrina de Cristo, sendo-nos dado um maior e mais profundo discernimento quanto à sua significação cósmica.

 Abaixo transcrevemos algumas idéias de vários comentadores, acerca do que vínhamos dizendo acima:

 «A linguagem de Judas acerca da fé é altamente dogmática, altamente ortodoxa, altamente zelosa. Seu tom é o de um bispo do século IV... Os homens que usavam tais frases criam apaixonadamente em um credo. » (Bigg, in loc).

 «A fé: a súmula daquilo em que crêem os crentes». (Vincent, in loc).

 «O vocábulo 'fé' não é usado aqui em seu sentido primário de uni sentimento ou confiança subjetivos, mas no sentido secundário daquilo em que se crê, a verdade do evangelho, conforme se vê abaixo, no vigésimo versículo e também em Gl 1:23; 3:23 e Fp 1:27». (Mayer, in loc).

 «...uma vez por todas...» No grego temos o termo «apaks», usado em seu sentido clássico de «uma vez por todas», tal como se vê no quinto versículo desta epístola e em Hb 6:4. «Isso exclui as novidades dos libertinos». (Mayer, in loc).

 «...entregue...» pelos apóstolos, que transmitiram a outros o que tinham recebido diretamente da parte de Jesus Cristo, como também através de revelações subseqüentes, dadas pelo Espírito Santo, as quais, finalmente, vieram a fazer parte do nosso N.T., embora não haja aqui qualquer alusão a algum documento escrito.

«Nenhuma outra 'fé' será dada». (Bengel, in loc).

«...santos...» Um título comumente aplicado aos crentes, o que mostra, que devem ser santificados, pois, de outra maneira, não serão crentes, porque «sem a santificação ninguém verá a Deus» (ver Hb 12:14).

 4: Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde ha muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.

 Este versículo apresenta-nos várias características negativas dos mestres gnósticos, a saber:

1. Eles eram falsos mestres, os quais secretamente obtinham admissão à igreja por métodos desonestos e distorcidos, apresentando-se como se fossem autênticos meros cristãos, embora ensinassem uma doutrina totalmente estranha ao evangelho.

2. Eles eram falsos profetas que somente cumpriam as predições bíblicas de que apóstatas haveriam de entrar na igreja, os quais tinham sido «reprovados» por Deus desde o começo.

 A Reprovação 

1.  O versículo à nossa frente, parece ensinar a idéia da reprovação ativa. Trata-se do conceito oposto ao da eleição. Assim sendo, alguns pensam que Deus elegeu alguns por um ato positivo seu, e, similarmente, que rejeitou a outros. Isso, entretanto, faria Deus tornar-se o autor do mal.

2. Outros intérpretes acreditam na idéia da reprovação passiva. Deus não causaria a perdição dos homens, mas deixaria a alguns de lado, permitindo que caíssem na perdição, sem ajudá-los a saírem de sua condição voluntária. Parece-me, todavia, que esse conceito é contrário à idéia do Deus que «amou o mundo de tal maneira». Não parece ser uma atitude passiva.

 A maioria dos intérpretes, para evitar a severidade do que aqui é dito, fazem dessas palavras uma «reprovação passiva». Os homens se endurecem devido à sua própria perversidade, e então Deus «deixa-òs» nesse estado, pelo que o resultado natural é que elos se tornam candidatos apropriados ao juízo condenatório. Porém, até mesmo essa doutrina da «reprovação passiva» é duvidosa. Deus é o Salvador de todos, e quer que todos sejam salvos (ver I Tm 2:3,4). Esse é o sentido da cruz e do evangelho. O primeiro capítulo da epístola aos Efésios volta-se distintamente contra qualquer forma de «reprovação», e este comentário não apoia tal pensamento teológico. Contudo, o versículo à nossa frente dá certamente a impressão de refletir a antiga teologia judaica, onde a «reprovação», de alguma maneira qualquer, era uma doutrina aceitável. Se explicarmos que Deus, finalmente, «entrega» tais indivíduos ao sabor da própria perversidade deles (conforme é indicado no primeiro capítulo da epístola aos Romanos), e que eles endurecem a si mesmos, e que o julgamento deles é causado por eles mesmos, então estaremos dizendo a verdade.

 A Heresia Que Estava Sendo Atacada 

1.  O autor sagrado, utilizando-se de citações indiretas extraídas de I Enoque, ataca os falsos líderes que se haviam infiltrado na igreja. Mas profecias como as de Enoque 81:8; 106:19 e 108:7, dificilmente poderiam ter sido a «causa» de uma apostasia ocorrida na Ãsia Menor, nos dias de Judas. Entretanto, pode ser que essas profecias descrevam os falsos líderes.

 Além disso, os falsos mestres gnósticos eram homens ímpios, em sua doutrina e vida diária. Transformavam a graça de Deus em lascívia. Isso é uma direta referência à imoralidade oficialmente aprovada do sistema gnóstico. Os gnósticos criam que a matéria é o princípio mesmo do mal, é que o corpo participa da matéria. Assim sendo, o corpo seria totalmente poluído e incapaz de ser remido. E o desígnio do sistema cósmico seria destruir finalmente à matéria. Os gnósticos também criam que podemos ajudar ao sistema do mundo nesse propósito, abusando de nossos corpos. Esse abuso pode ser perpetrado através do ascetismo extremo (forma de gnosticismo atacado em Cl 2:15 e ss.), ou através da imoralidade exagerada, que enfraquece e degrada ao corpo (tipo de gnosticismo combatido nas epístolas pastorais, nas epístolas joaninas e nesta epístola). Dessa maneira, pois, os gnósticos faziam da imoralidade algo não somente desejável, mas também legal. Assim é que pervertiam à «graça de Deus», ou seja, o «evangelho transmitido mediante a graça», além de aplicarem erroneamente a lei da liberdade. Não há que duvidar, conforme a história o demonstra, que aquelas passagens paulinas que tratam de «coisas indiferentes» (ver o décimo quarto.capítulo da epístola aos Romanos, o oitavo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, etc), permitindo «liberdade» para que certas coisas sejam feitas ou não, como à observância de dias religiosos e a ingestão de certos tipos de alimentos e bebidas, eram torcidas pelos mestres gnósticos, a fim de que supostamente ensinassem que podemos fazer qualquer coisa que queremos com nossos corpos, pois são «realmente indiferentes» para com a saúde da alma. Os gnósticos se utilizavam da ilustração do mergulhar o ouro na lama. Assim fazendo-se, o ouro não é corrompido, pois a lama não pode penetrar no mesmo. E, desse modo, os gnósticos imaginavam, loucamente, que a alma mergulhada no pecado não é prejudicada. A mensagem dos mestres gnósticos, por conseguinte, não envolvia «exigências morais». Alguns deles eram místicos, e totalmente pensavam que suas supostas experiências místicas tornavam a moralidade algo desnecessário. Bem pelo contrário, sabemos que o misticismo autêntico purifica-nos a moralidade.

Cumpre-nos observar que os críticos de Paulo pervertiam as suas idéias, atribuindo a ele idéias que os gnósticos é que defendiam. Paulo teve de defender-se dessa distorção de sua doutrina de liberdade. (Ver Rm 3:5-8; 6:1,2,15-23; I Co 6:12-15; 10:23; Gl 5:13-24). A doutrina cristã diz que a santificação é absolutamente necessária para a salvação.

Os gnósticos também negavam que Jesus, o Cristo, fosse o «único Mestre e Senhor». Isso faziam reduzindo-o a um dentre muitos «aeons» ou emanações angelicais, não querendo admitir fosse ele o «Logos». Seria apenas um salvador, um mediador, um deus entre tantos outros que teriam contacto com a terra. Também faziam isso negando a validade da encarnação. Segundo eles, nenhum «aeon» (como o Espírito-Cristo) poderia encarnar-se. Isso seria metafisicamente impossível, pois não poderia haver tal mudança de um «tipo» de vida para outro, e nem é habitação de duas naturezas em um único ser. Também diziam que tal «moralidade» não é possível, porquanto a matéria seria o princípio mesmo do mal, e a encarnação envolveria a poluição. Daí os gnósticos concluíam que Cristo não foi um homem; foi ou um aeonque fingia ser homem, mas cujo corpo era apenas um fantasma (posição docética, proveniente de tdokeo», termo grego que significa «parecer»). Ou então diziam eles que o «aeon-cristo» meramente viera possuir o corpo de Jesus de Nazaré, quando de seu batismo, tendo-o abandonado quando de sua crucificação (expressando uma forma modificada de docetismo, posição mantida pela maioria dos gnósticos). Naturalmente, pois, a «expiação» seria ilegítima, porque somente Jesus de Nazaré teria morrido. Cristo não poderia ter sofrido e nem morrido. (Ver II Pe 2:1 sobre a «negação», por parte dos gnósticos, do «Senhor que os comprara», uma alusão direta à expiação pelo sangue de Cristo. Comparar isso com o trecho de I Jo 2:2, onde é salientada a idéia , da «propiciação» contra o erro gnóstico. Ao reduzirem o Cristo a apenas um dentre muitos «aeons», a apenas um dentre muitos mediadores entre Deus e os homens, os gnósticos degradavam o «senhorio» de Cristo. No entanto, ninguém pode ter a Jesus como Salvador se também não o tem como seu Senhor. Ver Rm 1:4 acerca do «senhorio» de Cristo. Finalmente, negando a encarnação, os gnósticos negavam tanto a autêntica humanidade de Cristo como a fusão das naturezas divina e humana em sua pessoa, ou seja, potencialmente, a capacidade de recebermos a natureza divina (ver II Pe 1:4), o objeto mesmo da salvação. Por conseguinte, negavam a natureza verdadeira da salvação, conforme ela é ensinada no sistema cristão.

 Abaixo damos outras idéias e interpretações sobre tudo isso, extraídas de outros comentários:

1. O termo Soberano (no original grego, «despotes»), usualmente se refere a Deus (ver Lc 2:29; At 4:24; Ap 6:10), pelo que, em alguns manuscritos é adicionada a palavra «Deus», neste texto. (Ver a nota textual que há abaixo). A negação de Deus, o «Senhor dos Espíritos», é um pecado atacado no livro apócrifo de Enoque (ver Enoque 38:2; 41:2; 45:2; 46:7 e 48:10). É possível, pois, que a «negação» referida nesta epístola de Judas também deva ser entendida como algo que envolvia Deus Pai. Nesse caso, Deus é negado como Salvador, pois os, gnósticos tinham um conceito deísta de Deus, o que significa que Deus criara um ou muitos universos, mas nada tem a ver agora com sua «criação», pois seria um ser totalmente transcendental, não podendo ter qualquer contacto com a matéria, exceto através de uma quase interminável sucessão de sombrios «aeons», pois de outro modo ficaria contaminado. O cristianismo, em contraste com isso, é religião altamente «teísta», ou seja, ensina que Deus se faz presente na história humana, recompensando e condenando. Além disso, a negação de Deus importa em negar a seu Filho e ao evangelho. Por isso é que I Jo 2:23 mostra que a negação Ou o não-reconhecimento da verdadeira natureza e missão do Filho é, ao mesmo tempo, a negação do Pai. Ora, aquele que nega ao Pai e ao Filho é «anticristo», conforme se vê no vigésimo segundo versículo daquele capítulo.

 2. Há outros intérpretes que pensam que «Soberano» se refere a Cristo, o que seria defesa extremamente enfática de seu Senhorio verdadeiro e sem par. Isso concorda com a doutrina cristã padronizada, desde os primeiros séculos. (Ver Cl 1:15 e ss. quanto à maior defesa neotestamentária do «senhorio absoluto de Cristo e seu valor cósmico»). Inácio referiu-se aos mestres hereges chamando-os de «bestas em forma humana», porquanto consideravam a humanidade de Jesus apenas uma «aparência» (docetismo). (Ver Inácio, Sym. 2:1 e 4:1,2). Essa era uma das maneiras pelas quais os mestres gnósticos «negavam nosso Soberano e Senhor». E óbvio que nenhuma salvação de almas humanas pode ser produzida por um «aeon-Cristo» que não fosse real Soberano e que não tivesse feito expiação pelo pecado.

 «... antecipadamente pronunciados...» No grego é «prographo», que literalmente significa «escrever de antemão», embora também significasse «exibir» ou «proclamar publicamente». O propósito de Deus evidentemente é referido aqui como algo que operava desde a antigüidade, o que foi confirmado nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, que avisavam sobre a vinda dos apóstatas, o que era aludido até mesmo nos escritos apócrifos, como no livro de Enoque, tudo o que asseverava que os apóstatas serão conduzidos a «julgamento», ou «krima». Os intérpretes falam sobre como Deus «previra» o aparecimento dos mestres ímpios, ou seja, Deus «predisse» e «afirmou», desde os tempos antigos, o seu juízo. Isso está de acordo com os fatos; mas não é certo que o autor sagrado não defenda aqui alguma forma da doutrina da «reprovação». Isso já foi comentado nos parágrafos anteriores sobre este mesmo versículo. Os intérpretes mais calvinistas vêem aqui a idéia da «reprovação eterna», produzida pela «cegueira judicial»; mas isso dificilmente está em consonância com aquilo que sabemos acerca do amor de Deus, bem como acerca dos seus propósitos no evangelho.

 NOTAS Bibliografia R. N. Champlin,COMENTARIO DO NOVO TESTAMENTO,2003