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Etica biblica cristã (13) a moralidade
Etica biblica cristã (13) a moralidade

             A MORALIDADE CRISTÃ (continuação) 

 

6:16    Ou não sabeis que o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque, como foi dito, os dois serão uma só carne.

 

A linguagem utilizada por Paulo é mais do que simbólica e poética. O que ele afirmava é que o contato sexual não é um ato físico passageiro, mas antes, de alguma maneira mística, une duas pessoas no mesmo tipo de laço íntimo. Mui provavelmente ele defendia a tese que, em tal união, ocorre alguma espécie de união de energias vitais físicas e psíquicas, uma real união de seres, de alguma maneira. Nos escritos dos místicos é comum a declaração que expressa o sentimento de que o sexo está envolvido em alguma forma qualquer de aura. E é fato bem conhecido que os impulsos sexuais suprimidos podem, realmente, provocar experiências místicas. No sexo, embora não saibamos dizer como, há um elemento transcendental qualquer, o que talvez envolva alguma forma de profunda comunhão entre as duas pessoas, no nível de suas energias vitais, tanto físicas como espirituais. Parece ocorrer uma espécie de união de seres. Talvez seja por esse motivo que, nas Escrituras, a relação matrimonial é empregada para ilustrar simbolicamente a união entre Cristo e a sua igreja, porquanto, de maneira bem real, exemplifica uma real comunhão de energias espirituais vitais, e não meramente uma união poeticamente expressa.

 

Paulo cita aqui o trecho de Gn 2:24, de acordo com a versão da Septuaginta (tradução do A.T. hebraico original para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã), onde, naturalmente, há alusão às relações matrimoniais. Não obstante, Paulo deixava entendido que quer dentro do casamento, quer fora dele, as relações sexuais envolvem alguma espécie de união vital dos seres de duas pessoas. Essa união pode justificar nossa comum afirmativa que, de certa forma, elas se tornam «uma só pessoa». Ora, e seria possível que um crente, que professa ter a Jesus Cristo como seu Senhor, e que assim se encontra supostamente em Cristo, isto é, que goza de alguma espécie de comunhão mística com ele, possa ao mesmo tempo unir-se tão vitalmente a uma mulher sensual, carregada de pecados, impelida por diversas concupiscências fortes, como ocorre se se unir a uma prostituta? Paulo não podia admitir que ambas essas coisas podem ser realidade na vida do crente. Ter tal união com uma mulher dessa natureza é romper a comunhão mística com Cristo, é sufocar a intimidade com ele. Por conseguinte, tal imoralidade sob hipótese alguma pode ser reputada como questão «indiferente», moralmente falando, conforme alguns crentes de Corinto supunham. 

«Ter contato sexual com uma das sacerdotisas de Afrodite (o que fazia parte do ritual pagão em Corinto), significava consagração a essa deusa, e, naturalmente, exclusão do corpo de Cristo». (C.T. Craig, in loc). 

No Talmude encontramos uma declaração similar: «Quem quer que se una à mulher de outro homem, com isso renuncia ao Deus Santo e Bendito e se exclui da congregação dos israelitas». (Sohar Genes., fol. 19). 

O problema da prostituição: Paulo não aborda esse e outros problemas relacionados do ponto de vista da saúde da comunidade, do orgulho individual ou do respeito próprio ou pelos outros, conforme fazem a medicina e a sociologia modernas. Para o apóstolo dos gentios tratava-se, essencialmente, de um problema espiritual, pesadamente sobrecarregado de proposições espirituais da mais elevada ordem. As relações entre um homem e o seu Deus são afetadas por sua vida sexual, razão pela qual é algo que se reveste das mais importantes consequências. A comunhão com Deus pode ser totalmente abafada, e a intimidade com Jesus Cristo pode ser destruída, através do abuso das funções sexuais. 

«A indulgência nesse particular do sexo embota o fino fio da vida pessoal e diminui a sensibilidade do indivíduo para com as realidades espirituais... E grande parte desses abusos, se não mesmo todos eles, tem sido combatida pela sociologia, particularmente no que diz respeito à prostituição abusos esses igualmente condenados por Paulo. Apesar de ser possível ao indivíduo escapar, pelo menos durante algum tempo, de quaisquer consequências físicas e fisiológicas, não é possível escapar das consequências psicológicas. A prostituição tende por produzir efeitos psicológicos adversos sobre os indivíduos envolvidos, e, em adição a isso, efeitos adversos inevitáveis sobre a estrutura moral e espiritual da sociedade. Outrossim, conforme o ponto de vista do apóstolo, qualquer pessoa que se permite tais práticas une sua ,personalidade' com a de sua companheira, ou vice-versa, assim contaminando o próprio templo de Deus, de quem pertence, com exclusividade, a 'personalidade' do crente... Uma das mais antigas heresias contra a qual o apóstolo teve de combater foi a ideia perniciosa que dizia que a liberdade cristã subentende licenciosidade... Suas convicções precisam ser reafirmadas pela igreja, século após século». (John Short, in loc). 

Paulo cita aqui certos trechos do A.T., a fim de encontrar apoio para o seu argumento, prática essa comumente vista em suas epístolas, usualmente com o acompanhamento da fórmula está escrito. 

«Aquilo que tem sido feito sobrevive, moralmente, em ambos. E daí por diante um não pode livrar-se do outro». (Findlay, in loc). 

«...serão os dois uma só carne...» Essas palavras não significam fazer uma só carne, reproduzindo sua própria espécie, ao que tem sido reduzido o significado deste versículo, mas que é um sentido realmente alheio ao texto.

 

6:17    Mas, o que se une ao Senhor é um só espirito com ele. 

A declaração paulina aqui é de grande importância:

 

  1. Não fala de uma simples disposição que compartilhamos com Cristo.

 

  1. Compartilhamos a mesma essência de natureza com ele. A declaração, então, é paralela àquela de Rm 8:29 que fala sobre a nossa transformação à imagem de Cristo. 
  2. É o Espírito que transforma a alma humana. Ver II Co 3:18. Aqui, a palavra «espírito» é uma referência ao «espírito humano.» Alguns intérpretes preferem «Espírito». O grego nunca tem um «p» maiúsculo na palavra «pneuma», portanto, às vezes, não é claro se «disposição», «espírito humano», ou «Espírito Santo» é o sentido. No presente versículo uma referência ao Espírito é remota. A nossa união com Cristo nos dá a essência espiritual dele, mesmo como a união com uma prostituta obriga-nos a compartilhar das energias vitais dela. 
  3. A dignidade de Cristo não é prejudicada pela participação dos outros filhos na natureza dele. O Filho e o Pai possuem a natureza divina infinitamente; os filhos, finitamente. Mas toda a eternidade consiste no aumento contínuo da participação dos filhos, porque na eternidade não pode existir estagnação. Sendo que existe uma—infinidade—com a qual devemos ser enchidos, deve existir também um enchimento eterno, infinito. 
  4. O versículo, embora declarando uma imensa verdade metafísica, é principalmente ético. A nossa comunhão com Cristo, no nível da alma, exige de nós uma vida de pureza e grande avanço ético. O nosso privilégio como filhos exige de nós uma renúncia das coisas mundanas.

A palavra «...Senhor...», que aparece neste versículo, se refere a Jesus Cristo, o que representa um uso muito comum nas páginas do N.T. (Ver quanto ao tema da «intimidade entre a cabeça e o corpo», os trechos de Gl 2:20; Ef 2:5 e ss.; 3:16 e ss.; Cl 2:10; 3:1 e ss.; Jo 15:1 e ss. e 17:23 e ss.). 

Assim, pois, o apóstolo Paulo mostra que a nossa união mística com Cristo é muito mais íntima do que aquela que temos com nossas respectivas esposas. E a aplicação dessa verdade é aquela expressa por Calvino (in loc): «Pois se aquele que é casado não deve ter relações sexuais ilícitas com uma prostituta, muito mais hediondo será o crime dos crentes, se se unirem a prostitutas, visto que não somente formam 'uma só carne' com Cristo, mas também 'um só espírito'. E isso nos mostra a comparação entre o maior e o menor».

 

«Meyer observou com razão que o casamento místico entre Cristo e a sua igreja não deve ser pressionado aqui (como fez Olshausen, com base em Ef 5:23 e ss.), visto que as relações dos comparados não correspondem entre si. Não obstante, a veracidade íntima dessa relação mística é a 'base' fundamental de ambas essas passagens». (Alford, in loc). 

«Aquele que se une com Deus, mediante a fé em Cristo Jesus, recebe o Espírito e se torna participante da natureza divina. E quem poderia modificar tal relação a fim de ter contato com uma prostituta? ou para desfrutar de qualquer satisfação sensual? Aquele que pode fazer tal troca deve estar caído profundamente!» (Adam Clarke, in loc). 

O presente versículo, por conseguinte, ensina-nos que está envolvido muito mais do que a comunhão com Cristo, na experiência mística, embora essa experiência também seja uma realidade. Na verdade, ensina a participação real na sua natureza essencial.

 6:18    Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo. 

«...Fugi da impureza...» É usada aqui a mesma palavra grega empregada no décimo terceiro versículo, «porneia», igualmente traduzida por «impureza», a qual é comentada em I Co 5:1. Essa palavra indica qualquer contato sexual ilícito, qualquer forma de imoralidade. Cumpre-nos fugir de toda e qualquer forma de desvio moral que se afaste dos elevados padrões do cristianismo, pelos motivos seguintes:

 

  1. Os indivíduos imorais na realidade não podem ser pessoas convertidas, pelo que também não herdarão o reino de Deus, cujo sentido, neste caso, é «vida eterna» (ver o nono versículo).

 

  1. Porque a conversão e a santificação cristã formam uma nova criatura, o que é comprovado pelas experiências da vida diária. (Ver o décimo primeiro versículo). 
  2. Porque aquilo que fazemos com nossos corpos não pode ser classificado entre as «questões indiferentes», do ponto de vista moral, como indiferentes são as diferenças de dietas, observância de dias especiais, etc. (Ver os versículos doze e treze). 
  3. Porque o «corpo» tem um grande destino, não sendo apenas o lar temporário da alma. Além disso, o corpo não é a sede do mal, mas antes, o lugar de habitação do Espírito Santo, o santuário de Deus, o qual será também ressuscitado pelo poder de Deus, tal como o Senhor Jesus foi ressuscitado. (Ver os versículos catorze e dezenove). 
  4. Porque quando das relações sexuais há uma união vital de duas pessoas, de corpo e espírito, numa espécie de comunicação mística; razão também pela qual nenhum crente pode unir-se legitimamente com uma mulher sensual. Isso rompe a comunhão do crente com Cristo. (Ver o décimo sexto versículo).
  5. Porque, em Cristo, e devido à nossa transformação íntima segundo sua imagem, somos unidos a ele em espírito, passando a participar de sua mesma natureza espiritual. Por esse motivo, é um crime horrível alguém poluir sua natureza espiritual com a imoralidade. O espírito humano remido pertence a Cristo, e só pode ser devidamente unido a ele mediante o processo da santificação. 
  6. Finalmente, o pecado de imoralidade é um pecado mais grave do que qualquer outro que o crente possa cometer, visto que polui o seu corpo, o qual é passível das seguintes coisas:
  7. Será ressuscitado pelo poder de Deus;
  8. Recebeu grande destino em Cristo;
  9. Tendo sido redimido através da expiação pelo sangue de Cristo, pertence a ele com exclusividade, não podendo, por conseguinte, ser sujeitado a abuso por nossa vez (ver a última porção do presente versículo e o versículo vigésimo);
  10. O corpo agora é templo do Espírito Santo, santuário de Deus, lugar da habitação de Deus, onde o Senhor torna-se conhecido à personalidade humana, não podendo, por essas razões, ser poluído pela imoralidade. (Ver o décimo nono versículo);
  11. O corpo é possessão de Deus (ver o vigésimo versículo);
  12. Tudo deve ser feito visando a glória de Deus (ver o vigésimo versículo). 

Como se podem derrotar os pecados sexuais? Paulo aconselha a fuga do pecado, tanto aqui como no trecho de I Co 10:14 (onde a mesma coisa é dita acerca da idolatria). É somente nesses dois trechos que Paulo fala em tais termos, em todas as suas epístolas. Existem alguns pecados poderosos demais para serem enfrentados diretamente, por demais enganadores ou por demais atrativos. Os pecados do sexo não podem ser derrotados enfrentando-os e lutando. O encontro com situações que provocam a tentação inevitavelmente leva à queda. Isso nos mostra quão sábio é evitar os filmes perversos, a literatura sensual, as produções teatrais, etc, porquanto tais coisas e espetáculos aguçam um apetite que inevitavelmente conduz à queda. E temos aqui, por semelhante modo, um poderoso argumento contra os contatos e carícias durante o namoro e o noivado, bem como contatos sociais por demais íntimos com outros, numa sociedade onde os padrões morais são bem frouxos. Compete-nos, portanto, evitar todos os contatos dessa natureza, todas essas tentações. Paulo recomenda que «fujamos» dessas coisas. 

Porque, se não fugirmos delas, mais cedo ou mais tarde ocorrerá inevitavelmente a queda, porquanto nesse campo da sexualidade enfrentamos um inimigo que nos pode derrotar sem qualquer grande esforço. Não convém que enfrentemos frontalmente esse pecado, oferecendo-lhe resistência através da força da vontade. Nosso plano de batalha, nesse caso, consiste em fugir. E nessa fuga que fujamos para os braços de Cristo, desenvolvendo nele as virtudes morais positivas (ver Gl 5:22,23), as quais nos protegerão dessa forma de pecados. A alma remida que permanece em comunhão com Cristo, através de seu Espírito, mediante a meditação, o estudo das Escrituras, a oração, e, idealmente, mediante as experiências místicas reais, perderá seu apetite pelas concupiscências carnais. Nesse processo de fuga (do mundo), para os braços de Cristo, podemos derrotar as paixões da carne, não havendo, na realidade, qualquer outro método através do que isso possa ser feito com sucesso.

 

Paulo já havia declarado algo similar, com o mesmo sentido básico, na passagem de Rm 13:14: «...mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências». Assim sendo, não devemos frequentar aqueles lugares, ler aquelas coisas, ter contato com aquelas pessoas, que formariam provisões para as ações sensuais. Pelo contrário, «revistamo-nos do Senhor Jesus Cristo». Que seja ele o nosso revestimento espiritual. Que ele nos cubra e proteja com o seu sangue. 

Com esses pensamentos podemos comparar o ensinamento de Jesus Cristo sobre o adultério visual (ver Mt 5:28). E também podemos confrontar a admoestação e censura de Simão Pedro, que diz: «...tendo olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes,...» (II Pe 2:14). Existem homens que vivem em estado permanente de concupiscência, em razão do que vivem procurando sempre alguém com quem adulterar. Seus olhos percorrem a terra, procurando quem queira pecar em seguida com eles e a vitalidade de seus seres é desperdiçada nessa pervertida atividade. Conforme a tradução inglesa de Williams (aqui vertida para o português), os olhos dessas pessoas são «insaciáveis pelo pecado». Jamais ficam satisfeitas, sempre precisando de quem queira compartilhar de sua sensualidade. Tornaram-se escravos completos do sexo. Tais indivíduos, ao invés de fugirem dessa forma de pecado, buscam situações favoráveis para o pecado, sempre fazendo coisas que provocam o seu apetite. Tais homens não passam de escravos, e somente a ajuda «vinda do alto» poderá salvá-los. A fim de não nos tornarmos escravos dessa forma de pecado, precisamos fugir do inimigo. Se quisermos enfrentá-lo diretamente, através da força da vontade, seremos fatalmente vencidos e escravizados. O pecado da imoralidade é como um super-homem, insaciável e insano. O sexo descontrolado, na realidade, é um monstro insano. 

Sófocles, no diálogo de autoria de Platão, intitulado República (329), ao ser interrogado sobre como vinha manuseando as questões do «amor», retrucou: «Mui alegremente tenho 'escapado' do mesmo, e sinto como se tivesse escapado de um senhor louco e furioso». Sim, o sexo pervertido pode ser uma entidade assim, e feliz é aquele que consegue escapar do mesmo. 

«Pecar 'contra o corpo' é defraudá-lo da parte que o mesmo tem com Cristo, é cortá-lo de seu destino eterno. Esse é o efeito da fornicação, em um grau sem-par... Aquilo que o apóstolo Paulo assevera sobre a fornicação, nega a respeito de qualquer outro pecado». (Robertson e Plummer, in loc). 

«...pecado... fora do corpo...» Precisamos admitir que temos aqui uma frase difícil, porquanto não nos é dada qualquer explanação a respeito da mesma. É bem provável que isso signifique que todos os outros pecados, que não os de natureza sexual e imoral, ainda que de maneira relativa, mas não absoluta, sejam pecados que não prejudicam finalmente ao corpo e ao seu tencionado destino. Somente a perversidade sexual teria tal efeito. 

«...fora...», nesse caso, é palavra que significa algo como «sem efeito sobre o destino do corpo» (novamente falando apenas em sentido relativo). Por essa razão é que Alford (in loc.) comenta a respeito dessa questão como segue: «A assertiva do apóstolo é estritamente veraz. O alcoolismo e a glutonaria são pecados feitos no corpo e através do corpo, sendo praticados mediante o abuso do corpo, mas são coisas 'introduzidas de fora', pecaminosas em seu 'efeito', cujo efeito é dever de cada indivíduo prever e evitar. Mas a fornicação é a 'a alienação daquele corpo que pertence ao Senhor, fazendo do mesmo, corpo de uma prostituta'; não é um 'efeito' sobre o corpo deles, com base na participação de coisas vindas de fora, mas antes, é uma 'contradição da verdade' do corpo, proveniente 'de dentro' de si mesmo».

 

É bem provável que Paulo concordaria com essa opinião de Alford. O que é inegável é que Paulo não subscreveria àquela filosofia que afirma que todos os pecados são igualmente maus, não havendo qualquer gradação de pecado.

 

Gradações De Pecado 

  1. Alguns crentes, naqueles momentos que fazem experiências com a teologia popular, supõem que não há gradação no pecado. Noutras palavras, «pecado é pecado», dizem, «e todos os pecados são igualmente maus diante de Deus».

 

  1. Essa opinião, entretanto, nega o princípio exarado em Rm 2:6, que diz que cada indivíduo será julgado de conformidade com as suas próprias obras, e que o próprio crente será julgado segundo o que tiver praticado, de bom ou de mau, através do seu corpo (ver II Co 5:10). 
  1. Essa teologia popular também nega a base mesma da lei da colheita segundo a semeadura. 
  1. A discussão sobre Rm 1:24 e seu contexto, bem como o texto presente, parecem impor uma censura especial à imoralidade de natureza sexual. Essa forma de pecado desfecha um ataque especial contra o corpo, que é templo do Espírito. 

«A palavra 'corpo' deve continuar sendo entendida como termo que indica a 'natureza humana inteira', que é referida no décimo nono versículo, como templo do Espírito Santo. Outros pecados profanam os átrios exteriores do templo; mas esse pecado penetra até ao próprio Santo dos Santos, com sua imundícia mortífera

 'Endurece ao intimo e petrifica aos sentimentos'.

 

Há uma profunda significação e uma grande verdade nas solenes palavras litúrgicas: 'Da fornicação, e de todos os outros 'pecados mortais', ó bom Senhor livra-nos'». (Shore, in loc). 

Mas também existem outras explicações sobre essas palavras, fora do corpo, conforme a lista que expomos abaixo: 

  1. Alguns pensam que as palavras «qualquer outro» devem ser compreendidas no sentido popular de «quase todo». Assim sendo, outros pecados podem ter um efeito tão adverso para o corpo como a imoralidade, podendo também ser «contra o corpo», sendo igualmente pecados feitos «no corpo» ou «contra o corpo», embora em um sentido secundário. 
  1. Outros pensam que a imoralidade polui «o corpo inteiro», ao passo que o efeito de outros pecados é apenas parcial, razão pela qual poderiam ser reputados (de maneira relativa) como praticados «fora do corpo», isto é, sem produzirem plenos efeitos perniciosos contra o corpo.

 

  1. Ainda outros estudiosos imaginam que a imoralidade se torna um real tirano, dominando o corpo, com uma intensidade desconhecida no caso de outros pecados, o que significaria que sua relação para com o corpo é menos pronunciada, pelo que também poderiam ser considerados como praticados «fora do corpo».

 

  1. Finalmente, conforme Paulo mostrara antes, os contatos sexuais ilícitos levam o crente culpado a participar das energias vitais de ordem física e psíquica de uma mulher sensual (ver o décimo sexto versículo deste capítulo), o que resultaria em um mau efeito sobre o corpo. Nenhum outro pecado conseguiria atingir desse modo as próprias energias vitais, porquanto no caso de nenhum outro pecado há tal contato com uma força maligna. É bem provável que esta quarta possibilidade expresse sentimento que Paulo quis transmitir, embora as outras ideias talvez tenham alguma aplicação ao que ele tencionava dizer.

 

«Os outros vícios são conquistados pela luta; a concupiscência, pela fuga». (Anselmo).

 

6:19    Ou não sabei que o vosso corpo é santuário do Espirito Santo, que habita em vós, o qual possuis da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?

 

Este versículo encerra diversas importantes verdades que podem ser sumariadas como segue:

 

  1. Todos os crentes possuem a presença permanente do Espírito Santo neles. Não pode haver salvação, sob hipótese alguma, nem fé, nem conversão, nem santificação, nem regeneração e nem transformação segundo a imagem de Cristo sem a agência do Espírito Santo e sem o entrelaçamento de sua natureza santa com a natureza humana.

 

  1. O que fora dito antes, acerca da comunidade cristã, como templo do Espírito Santo (ver I Co 3:16 e ss.), em que a «igreja» aparece como santuário e lugar de habitação de Deus, no Espírito Santo, é dito aqui a respeito do crente «individual». A doutrina assim ensinada é que deve haver algum contato real e vital entre o espírito humano e o Espírito de Deus; porquanto disso é que se constitui a salvação. Em outras palavras, a salvação ocorre mediante essa «experiência mística» com o Espírito do Senhor. É uma experiência «mística» porquanto através dela entramos em real contato e intimidade com a natureza divina, não sendo isso apenas uma expressão simbólica. Na verdade, a energia divina se une à energia humana e a transforma. Deus, pois, mostra-se «imanente» em sua criação.

 

  1. Por causa dessa presença habitadora do Espírito Santo, o crente passa a pertencer inteiramente a Deus, ficando destinado a compartilhar da natureza divina. (Ver o décimo sétimo versículo deste capítulo). 
  1. Essa verdade, considerada em seu conjunto, subentende que o corpo (o «eu» inteiro), bem como qualquer porção do mesmo, não pode ser entregue a práticas pecaminosas, imorais. Tal combinação é simplesmente impossível. O indivíduo precisa escolher entre uma coisa e a outra.

 

«...da parte de Deus...» Visto que Deus é o manancial último de todas as bênçãos espirituais, que nos são dadas por mediação de Cristo, através do Espírito Santo. (Quanto a isso ver os trechos de Ef 1:3,4; Rm 11:32). O Espírito de Deus é um presente dado aos homens, para que se concretize sua total salvação. Ora, o Espírito Santo não pode habitar em um santuário poluído, porquanto não pode realizar ali a sua obra. Assim sendo, a presença permanente do Espírito Santo, o dom de Deus aos homens que visa a sua redenção espiritual, requer que o crente se separe do mal, tal como aprendemos em II Co 6:16. Essas palavras, «...da parte de Deus...», por conseguinte, mostram nossa total dependência para com o Senhor. Nossa realização espiritual é um presente divino, e não um produto do esforço humano. Essa é uma suposição fundamental do sistema inteiro da graça divina, da soteriologia paulina. 

«...santuário...» No original grego encontramos o vocábulo «naos», que era aplicado ao «Santo dos Santos», em contraste com o termo «ieron», que se aplicava ao templo inteiro. É verdade, entretanto, que tais palavras gregas podiam ser empregadas como sinônimos, referindo-se ao templo inteiro e seus recintos. No entanto, parece que Paulo fez aqui alusão ao lugar mais íntimo do templo, o qual, no templo de Salomão, era o local onde se verificavam as manifestações da glória divina. Dentro da dispensação do novo pacto, entretanto, o crente é que é local dessa manifestação divina, sendo ele mesmo transformado pelo Espírito Santo, que ali habita. O crente é o santuário do Espírito Santo. É interessante que em I Co 3:16 a mesma palavra é usada para indicar o «templo», referindo-se à comunidade inteira da igreja cristã. 

«...corpo...», o santuário do Espírito Santo. Estão possivelmente em vista, nessa palavra, tanto «a personalidade inteira» como o «corpo físico», ambos os quais são ocupados pela energia divina. Ora, sendo assim a realidade dos fatos, o corpo do crente não pode ser entregue à imoralidade, porque o Espírito de Deus não pode habitar à vontade em um templo devotado às forças malignas. 

«...não sois de vós mesmos...» A presença do Espírito Santo no templo do corpo faz deste último propriedade exclusiva de Deus. É sua residência, lugar onde ele manifesta a sua glória. E assim o crente individual deixou de ser mera entidade humana. O indivíduo, ao entregar ao controle do Espírito de Deus o santuário de seu ser físico, na realidade cessou de exercer controle pessoal sobre o mesmo, deixando de ser seu próprio senhor. Daí por diante, tudo quanto Deus planeja para a humanidade, na redenção que há no sangue de Cristo, torna-se potencialmente possível, e eventualmente se tornará uma radiosa realidade. Porém, nenhum indivíduo poderá atingir a esse elevadíssimo alvo enquanto quiser ser o capitão da sua própria alma. O crente, pois, em sua personalidade inteira, torna-se propriedade de Deus. (Ver os trechos de At 20:18 e Rm 14:8, acerca desse pensamento). Vivendo ou morrendo, vivemos ou morremos para o «Senhor». 

Com essas ideias podemos confrontar as palavras de Epicteto, o qual disse: «Se fosses uma estátua de Fídias, pensarias tanto em ti mesmo como no artista; e procurarias nada fazer indigno daquele que te fez, ou de ti mesmo. Mas por que, visto que Zeus foi quem te fez, nem por isso cuidas em como te comportares? No entanto, o artista, em um caso, é como o artista no outro caso? ou a obra em um caso, é como a obra no outro caso?» 

Declarou ainda esse mesmo antigo autor: «Miserável! Levas Deus contigo, mas não o sabes. Pensas que me refiro a algum deus de prata ou de ouro? Carregas a ele contigo, dentro de ti mesmo, e não percebes que o estás poluindo com os teus pensamentos impuros e com teus feitos maléficos». (Discursos, ii.8).

 

Por conseguinte, pertencemos a Deus, em face das seguintes considerações:

  1. Por direito de criação;
  2. Por direito de redenção;
  3. Por direito de possessão;
  4. Por direito de propriedade moral e espiritual;
  5. Por direito da gratidão que nos convém é que essa possessão deve ser expressa (ver o vigésimo versículo, mais abaixo);
  6. Por direito da obra expiatória de Cristo (ver também o vigésimo versículo); e
  7. Por direito da possessão e habitação permanente do Espírito Santo (que é o aspecto ensinado neste décimo nono versículo).

 Aos diversos argumentos contrários à prática da imoralidade, por parte do crente, e que são sumariados no versículo anterior, Paulo acrescenta aqui essa ideia da possessão absoluta, por parte de Deus, do ser de cada crente. O corpo do crente pertence realmente a Deus, que é o seu remidor. Portanto, o crente não pode deixar o seu corpo ser usado para maus propósitos; o crente não tem «direito» algum de fazer tal coisa. O crente perdeu a «autoridade» sobre si mesmo. Ora, tal «autoridade» foi transferida para Deus, e a ele compete usar nossos corpos para o bem, ao passo que, nas mãos humanas, nossos corpos seriam inevitavelmente usados para o mal.

 

6:20    Porque fostes comprados por preço; glorificai pois o Deus no vosso corpo. 

As palavras «...comprados por preço...» expressam um tema extremamente comum nas páginas do N.T., referindo-se sempre à «expiação» operada pelo sangue de Cristo, em que Cristo nos «comprou novamente» do mercado de escravos do pecado. (Quanto a essa verdade, ver especialmente os trechos de I Pe 1:18,19 e At 20:28). O preço pago foi o sangue de Cristo, que simboliza tudo quanto Cristo Jesus fez por nós, em sua morte expiatória pelos pecadores. É dessa maneira Cristo nos libertou dos nossos pecados, liberando-nos de nossa lealdade ao pecado, de nossa escravidão ao pecado. Cristo também rompeu o domínio das forças malignas sobre nós, às quais estávamos sujeitos, exatamente porque éramos homens decaídos, vivendo em uma esfera de decadência espiritual, à qual chamamos de terra. (Ver Cl 2:15). Por essa razão é que lemos a respeito de Jesus Cristo: «...foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação» (Ap 5:9).

 

A expiação dos nossos pecados também é verdade expressa na Bíblia nos termos de resgate. (Ver os trechos de Mc 10:45; I Pe 1:18,19). A passagem de I Co 7:23 subentende a mesma verdade, mas emprega a figura simbólica da servidão. Segundo essa ilustração, o escravo (o pecador) é remido e libertado; mas passa a pertencer a um novo senhor. Antes, pertencíamos ao nosso pai, Satanás; mas fomos libertados de seu domínio, que se estende aos corpos dos homens e ao sistema do mundo inteiro, o ambiente no qual vivemos. 

Em lugar algum, entretanto, as Escrituras ampliam a figura simbólica aqui referida a fim de dar a entender que «Satanás» recebeu o preço da redenção ou resgate. Essa tão absurda ideia, entretanto, tem sido ensinada aqui e acolá durante quase todo o decurso da história eclesiástica, especialmente na chamada Idade Média. A satisfação foi antes dada a Deus, e a nenhum outro, e tudo foi aceito na pessoa do Amado, o Filho de Deus. (Ver Ef 1:6). 

Portanto, preço, «resgate», e «mercado de escravos» são diferentes metáforas empregadas pelo apóstolo dos gentios, das quais não podemos extrair todos os seus pensamentos espirituais paralelos. O sentido de «preço» é claro, como também são claros os sentidos de «resgate», de livramento da servidão, da satisfação dada a Deus. Porém, não nos cabe indagar aqui para quem foi pago esse resgate, isto é, se a Deus ou a Satanás, como se fôssemos forçados a satisfazer a alguma exigência que requeira o sofrimento às mãos de Cristo, a fim de satisfazer a alguma magnificente sede de vindita. Levar a doutrina da redenção, em seus aspectos simbólicos, a extremos como esses, é prejudicar tal doutrina. (Quanto a notas expositivas sobre o conceito de «resgate», ver os trechos de Mt 20:28 e I Tm 2:6). O ato de comprar, de pagar um resgate, subentende com grande clareza o direito de possessão e de controle daquilo que foi assim adquirido;e esse era justamente o ponto que Paulo procurava frisar aqui. O corpo do crente, comprado pelo Senhor, ao preço do seu sangue, pertence a ele, como a ele pertence a personalidade inteira do crente. Portanto, nosso corpo deve ser dedicado ao serviço e à glória do Senhor Jesus. 

Assim, pois, aos diversos argumentos contrários às práticas imorais, que envolvem os corpos dos crentes (sumariados no décimo oitavo versículo deste mesmo capítulo), ainda um outro argumento é aqui adicionado. O direito de possessão absoluta é um direito exclusivo de Deus. O corpo do crente, por conseguinte, não pode ser utilizado como instrumento de práticas imorais, como se esse corpo pertencesse a alguma força maligna e degradante.

 

«O resgate foi da servidão ao pecado, da maldição imposta pela lei, bem como do poder de Satanás (comparar com os trechos de Rm 6:17e ss.; Gl 3:13; Cl 1:13 e At 26:18). Ora, esse resgate foi feito por certo 'preço', a saber, o seu 'sangue'. (Ver Mt 20:28; I Pe 1:18). Deixando de lado a mera significação da palavra, mas observando o que nela está envolvido, chegamos ao mui importante pensamento que o preço foi altíssimo e que o resgate foi caro... Essa expressão ocorre em I Co 8:23, mas onde, tal como em At 20:28, Cristo é apresentado como o possuidor». (Kling, in loc). 

«...glorificai a Deus no vosso corpo...» Essa é a inferência prática tanto deste versículo como desta seção inteira. Essa glorificação deve ser dada em forma de palavras, mas também deve incluir feitos de ação de graças. (Ver I Co 10:31, que diz: «...fazei tudo para a glória de Deus»). Esse conceito inteiro de dar glória a Deus é comentado em Rm 16:27. «O aspecto da adoração a Deus se manifesta através de uma vida completamente dedicada ao seu serviço». Tal dedicação eliminará a servidão ao pecado, incluindo o pecado da imoralidade. Por conseguinte, Paulo ajunta ainda uma outra razão pela qual o crente não pode ocupar-se de tais práticas. O presente capítulo expõe muitas dessas razões, e uma nota de sumário aparece no começo dos comentários sobre o décimo oitavo versículo deste capítulo. 

A glória conferida a Deus é temporal. É agora a principal preocupação da vida. «E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai» (Cl 3:17). Mas essa atitude se estende também pela eternidade afora, visto que as ações morais da vida do crente servem para transformar-lhe a alma para ocupar-se de um serviço mais elevado e muito mais glorioso. Não obstante, o alvo permanece o mesmo, a saber, a glória de Deus. Isso expressa uma grande verdade, pois, quando damos glória a Deus, nós mesmos somos glorificados em Cristo, já que somente nesse estado podemos ser feitos o meio exaltado de glorificar o seu nome, conforme se espera de nós que façamos. (O trecho de Rm 8:29,30, descrevem a natureza dessa glorificação). 

É visando a glória de Deus que experimentamos a glorificação, o que redunda em seu louvor; e isso significa que tanto o Senhor, como nós mesmos, somos beneficiados. Assim sendo, a finalidade da vida, o seu propósito mesmo, é a glória de Deus, é o desfrutamento de Deus, por parte do crente, para sempre. Somente quando glorificamos verdadeiramente a Deus é que podemos encontrar nosso bem e destino mais elevados. Ser alguém transformado segundo a imagem de Cristo redunda em glória para Deus, sendo essa a maior glória que um homem pode fazer redundar para Deus, já que isso é realmente agradável para o Senhor. É para glória de Deus que seremos finalmente glorificados. Assim sendo, a glória conferida a Deus é sempre benéfica para os homens. Porquanto os decretos de Deus são todos benéficos e benignos, e jamais de natureza destrutiva, como também são sempre altruístas, e nunca egoístas. Por essa razão é que as Escrituras dizem com toda a verdade: «Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...» (Jo 3:16).

 

«...no vosso corpo...» Porque o corpo físico é agora o instrumento de que dispomos para a glorificação de Deus, sendo esse o grande tema da presente passagem. O corpo é que deve ser usado no serviço de Deus, e não utilizado para finalidades imorais. O corpo do crente pertence a Deus, e não a forças malignas. O corpo do crente será redimido, tornando-se um veículo eterno da glória de Deus, sem importar se pensamos nele como uma entidade física ou como representante do ser inteiro do crente. Contudo, a entidade física é enfatizada neste versículo.

 

Com este versículo se pode comparar o trecho de Rm 12:1,2, onde o corpo também aparece como o instrumento da dedicação dos crentes a Deus, e onde o corpo é usado como o «símbolo» da dedicação da pessoa inteira do crente ao seu Senhor.

 

Variante Textual: «...no vosso corpo e no vosso espírito...» é como o texto aparece em alguns manuscritos antigos, como C(3), D(2), as versões latinas k, l e p, e nas traduções AC e KJ. Porém, todos os manuscritos realmente antigos, como P(46), Aleph, ABC(1)D(1)EFG, omitem essas palavras, no que são seguidos pelas outras doze traduções não mencionadas aqui, mas que foram usadas para efeito de comparação por este comentário. As palavras, «e no vosso espírito» representam uma glosa escribal, cujo intuito é o de enfatizar a personalidade humana inteira, como a esfera e o agente da glória de Deus. Porém, embora isso represente uma verdade, não é o que Paulo salienta aqui. Não obstante, a verdade que ele destaca é similar, embora ele tenha empregado somente o termo «corpo» para expressar a agência do homem para a gloria de Deus.

 

Paulo aponta aqui para os crentes de Corinto (e para nós também) o caminho real da autêntica dedicação das faculdades totais do crente, para a glória de Deus, o que também redunda na própria glorificação dos crentes, em Cristo Jesus. Mas aqueles crentes de Corinto, em seu egoísmo, vinham fazendo do próprio «eu» o centro de todas as suas atividades, algo fatal para todo aquele que se diz crente.

 

Epicteto se insurgiu contra as concupiscências e contra os excessos praticados pela natureza mortal. Vale a pena acompanhar a bela passagem desse autor, que ilustra bem a ideia expressa neste sexto capítulo da primeira epístola aos Coríntios, extraída de seu Manual(3,11): «Uma vez que um indivíduo possua o objeto desejado por alguém, passa a exercer controle sobre o espírito desse alguém e este último passa a ficar escravizado ao primeiro. Em consequência disso, a fim de ser evitada essa vulnerabilidade, é mister que o indivíduo impeça que essa situação se transforme em realidade, tornando-se independente, não somente com respeito às coisas impessoais, mas, igualmente, no tocante às pessoas. Exercita-te, pois, naquilo que está ao teu alcance. O senhor de cada indivíduo é o homem que tem autoridade sobre aquilo que deseja ou não, evitando uma coisa ou tirando outra. Por conseguinte, que aquele que almeja ser livre, não deseje qualquer coisa e nem evite coisa alguma que dependa de outrem, porque, de outra maneira, estará destinado a ser um escravo.

 

Algumas pessoas se deixam escravizar às emoções imperiosas, como o sexo, conforme observou Menandro: 'Uma jovem sem qualquer dignidade fez de mim um escravo, embora nenhum adversário me tivesse podido subjugar'. As práticas sexuais podem atingir tais extremos de tirania que, quando assim sucede, poucos, ou mesmo ninguém, podem escapar sem ficar com cicatrizes. Epicteto indaga:,Quando uma jovem bonita te exauriu as forças, porventura conseguis te escapar ao justo castigo?'

 

É necessário que todos exerçam uma vigilância eterna, para escaparem das seduções do sexo: e essa vigilância só pode ser cultivada mediante práticas hígidas, que se desenvolvem em hábitos firmes e protetores. Epicteto demonstrou a sua técnica como segue: 'Portanto, se não desejas tornar-te colérico, não alimentes o hábito do aborrecimento, para não alimentares ainda mais a fogueira. Para começar, conserva-te tranquilo, e conta os dias em que não cederes à ira. Eu costumava irar-me todos os dias; então, um dia sim, e outro não; então, de três em três dias; e, finalmente, de quatro em quatro dias. Mas, se conseguires passar calmo durante trinta dias, então oferece um sacrifício a Deus; portanto, primeiramente o hábito é enfraquecido, e em seguida é totalmente destruído. Quanto a mim, consegui sentir-me liberto da ira pelo espaço de um dia, e também no dia seguinte; e, depois, por dois ou três meses a fio. E, se porventura surgiam motivos para eu irar-me, cuidava zelosamente por abafá-los. Devo reconhecer que é mister fazer isso com grande domínio próprio. Hoje, quando vi uma bela mulher, não disse para mim mesmo: 'Oxalá que ela fosse minha!' ou: 'Feliz é o seu marido!' Porquanto aquele que assim afirma, também está inclinado a dizer: 'Feliz é o adúltero!' Por semelhante modo, não me ponho a imaginar a cena que se poderia seguir: a mulher se despiria e se reclinaria ao meu lado. Nesse caso, eu daria palmadinhas em minha própria cabeça e diria: 'Bravo, Epicteto, acabas de rejeitar uma bela falácia, muito mais bela que o chamado Mestre. E ainda que a pobre mulher, coitada dela! se sentisse desejosa, fizesse acenos e me solicitasse a estar com ela, chegando mesmo a tocar em mim e achegar-se mais para perto de mim, ainda assim eu me conservaria indiferente, e seria vencedor...Isso é algo de que alguém poderia sentir-se realmente orgulhoso...Ora, como é que esse feito pode tornar-se realidade?

 

Pelo menos toma tu a resolução de agradar ao teu verdadeiro 'eu׳; toma a resolução de pareceres nobre aos olhos de Deus; fixa os teus desejos na disposição de te tornares puros em presença de teu puro 'eu׳, e na presença de Deus.

 

A Resignação

 

«É necessário que o indivíduo estabeleça a paz consigo mesmo, entrando em harmonia com o mundo. Jamais deve perder de vista o fato de que ele é um mero mortal humano, animal, vegetal, etc. Se alguém conservar-se permanentemente no reconhecimento dessa verdade básica e simples, então a sua alma será capaz de controlar-se quando outros estiverem perdendo a compostura e o controle próprio.

 

Entre as muitas coisas capazes de tornar um homem vulnerável, destaca-se o amor. Como exemplo disso, consideremos o homem que ama profundamente à sua própria esposa. Esse homem estará sujeito a sentir-se extremamente angustiado no caso do falecimento dela. A vida pode tornar-se insuportável quando ficamos separados de seres amados; em consequência, a fim de fortificar-se como o aço, em face de tais circunstâncias, o indivíduo precisa lembrar-se incessantemente da natureza perecível da vida e das atividades humanas. 'Quando qualquer coisa, desde as mais vis até às mais excelentes, se fizer atrativa e útil para ti, ou tornar-se objeto de tuas afeições, nunca te olvides de perguntar a ti mesmo: Qual é a sua natureza?! Se por acaso gostas muito de uma jarra, diz para ti mesmo que aprecias muito aquela jarra, e então não ficarás perturbado se a mesma vier a quebrar-se. Se osculares a um filho teu ou à tua esposa, diz para ti mesmo que estás beijando um ser humano; pois então, se porventura a morte desfechar o seu golpe, não ficarás aflito'. Em outras palavras, se alguém conservar-se na completa consciência do fato que, nesta vida, nada é permanente ou imutável, então mais facilmente poderá resignar-se ante qualquer ocorrência desagradável que o envolva. Não obstante, essa atitude só deve ser tomada quando os objetos e as circunstâncias estiverem além da capacidade do indivíduo em alterá-los. Por outro lado, o homem pode assumir uma outra atitude, diferente da que é aconselhada acima, a qual é igualmente eficaz no manuseio das tragédias: 'Jamais digas a respeito de qualquer coisa: Eu a perdi. Pelo contrário, diz: Eu a devolvi. Teu filho morreu? Foi devolvido. Tua esposa faleceu? Foi devolvida. Tuas propriedades te foram arrebatadas? Porventura não foram também elas devolvidas? Mas, talvez objetes: Aquele que as arrebatou de mim é um homem iníquo. Porém, que te importa a pessoa através de quem o grande Doador pediu-te algo em devolução? Enquanto o grande Doador permitir-te ficar na posse de alguma coisa, cuida dela, mas não como tua própria; antes, trata-a como os viajantes tratam de uma hospedaria'». (Seleções extraídas de Epicteto, com comentários, do livro intitulado Realms ofPhilosophy, William S. Sahakian, Schenkman Pub. Co., Cambridge, Mass., Estados Unidos da América do Norte, 1965).Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo novo testamento,2010

fonte www.avivamentonosul21.comunidades.net