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historia da igreja primitiva N.7
historia da igreja primitiva N.7

             

                  A IGREJA PRIMITIVA NO IMPERIO ROMANO 

 

 

Os cristãos ensinam e sabem que sem a memória não há esperança e sem esperança a memória se vai.  Graças as memórias hoje celebramos nossos cultos, Pentecostes, Natal, Páscoa, Descida do Espírito Santo e muitas outras datas, situadas em nosso calendário cristão. A memória é algo precioso e por muita vezes ficamos só na história oficial, histórias com registros escritos, fotografados, pintados e perdemos parte do brilho escondido na memória. Dreher cita exemplos de congregações luteranas onde na verificação dos livros impressos, identificamos apenas pastores e presidentes de comunidades e em contra partida se observamos a memória de um idoso, entraremos em um mundo onde há mulheres, crianças, pessoas simples, gente esmagada debaixo de árvores, picadas de cobras e muita outras características do tempo.

É esta a história que Dreher nos convida a estudar. Não apenas episódios mas, causas e motivos. Saber das raízes, raízes estas que nos ajudaram a formar nossa memória espiritual e intelectual.

O império romano na época do nascimento de Cristo apresenta uma unidade visível na figura do Imperador. O império se apresentava dividido em províncias, onde tínhamos as províncias imperiais, senatoriais e especiais cada uma delas dirigidas por pessoas com títulos apropriados. Assim como observamos as decisões tomadas em concílios em nossa atualidade, as províncias tinham suas decisões em assembléias denominadas concilium. A menor unidade administrativa era a cidade. O império romano conseguiu estabelecer uma uniformização da cultura em seu sistema administrativo e assim uma grande comunicação entre as partes do império. Paz e tranqüilidade foram propiciadas ao império pelo imperador Augusto. A forte miscigenação étnica propiciada pelas facilidades de locomoção propiciaram grande mistura das tradições. O helenismo (idéias e culturas da Grécia antiga) influenciava o mundo romano. O heleninsmo atingiu muitas regiões, mas, jamais conseguiu atingir totalmente a Judéia, Samaria e o Egito.

A situação religiosa no Império Romano durante o nascimento de Jesus, se apresenta de formas diferenciadas. O império era tolerante em relação aos cultos e, somente algumas regiões tiveram seus cultos proibidos. Celebrações que tinham sacrifícios humanos e permitiam orgias eram proibidas pelo império. Dreher não trata pormenorizadamente todos as religiões, mas, destaca algumas, como podemos identificar as invasões de cultos egípcios e orientais da Grécia levou as crenças nas estrelas e os ministérios da astrologia e assim se desenvolveu os sistemas de magias. Entre os muitos cultos que eram estabelecidos, uns atraindo mais homens e outros, mais as mulheres, destacamos o culto a Mithras que veio a ser o grande concorrente da fé cristã. Na época do nascimento de Cristo a história mostra a propagação do culto ao imperador. Apesar de toda a pluralidade de cultos o sincretismo (sistema que combinava os princípios de diversos sistemas) preparou o caminho para uma crença monoteísta. Nos primórdios do cristianismo nos deparamos com um tempo onde religião deixava se ser uma convicção para se tornar uma obrigação, onde não havia mais lugar para a fé, os deuses estavam intimamente ligados a política e nem a construção de novos templos por Augusto conseguiu reavivar os cultos. O caminho estava preparado para uma forma de religião que viesse a substituir as antigas.

Ao estudarmos  a Palestina e o judaísmo palestino identificamos a Síria como sendo uma das províncias mais exploradas. Lá encontramos a Judéia e os judeus do antigo povo de Israel. Judéia e Jerusalém tinham sido conquistadas  e boa parte da população foi deportada para a babilônia, onde identificamos esta dispersão judaica de diáspora. A Judéia, sendo dirigida por uma má política tornou-se dependente dos romanos. Herodes, um político competente e inescrupuloso subiu ao poder e caiu na graça dos romanos. Jerusalém já não era mais a Sião de Javé, estava dividida em partidos. Surgiu ali os grupos dos sadoquidas, os saduceus, os zelotes , os fariseus que tinham grande influência na população, os essênios extremamente piedosos e que se tornaram conhecidos após a Segunda Guerra Mundial co a descoberta do convento de Qumran.

A diáspora levou os judeus a todas as partes do Império Romano e um escritor chamado Strabo relatou nos dias do imperador Augusto dificilmente haveria algum lugar no mundo onde os judeus não houvessem chegado. O Egito e a Síria tinham 1 milhão de judeus cada um, na palestina 500 mil, no Império Romano cerca de 1,5 milhão. Um fato para o grande crescimento e expansão é um mistério e povo judeu interpreta através da promessa feita ao patriarca Abraão. O povo judeu mantinha sua unidade e esta é vista durante a páscoa onde o povo se reunia em Jerusalém que tornara-se um centro político-religioso. Esta união tornou-se um movimento missionário. A pregação judaica era uma crença monoteísta e em Alexandria, no Egito o antigo testamento foi traduzido para o grego. Em torno das sinagogas criaram-se os círculos tementes a Deus. No nascimento de Jesus o Império Romano se apresentava contra o semitismo (Modos e idéias judaicas). O fato de o os judeus não terem a imagem de um Deus os levou a ridicularizarão.

Nestes quatro primeiros capítulos Dreher nos apresenta fatos históricos que nos proporcionam um melhor entendimento das questões sociais, econômicas e religiosas no tempo de Jesus. Dreher inicia esta caminhada pelos tempos de Jesus nas palavra de Paulo: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho... e relata os escritos sobre Jesus, os chamados evangelhos e seus escritores. Nos mostra que não podemos ter a visão mais clara de um Jesus histórico, mas temos as palavras e os atos de um Jesus terreno. Jesus foi a mensagem do reino de Deus. A fé em Jesus fez brotar uma esperança, um novo céu e uma nova terra. A mensagem de Jesus era tida como válida para todos os seres humanos, rico e pobre, forte e fraco, homem e mulher.

Dreher ressalta o relato de Gálatas 4:4 , onde o apostolo Paulo discursa sobre a “Plenitude do Tempo” um relato fruto da fé e que assim sendo torna-se complexo a explicação de como Paulo chegou a esta afirmação. Ressalta ainda a dificuldade de ter uma imagem clara e precisa de um Jesus histórico. Podemos entender com esta afirmativa de Dreher que, sabendo que temos relatos apenas de pessoas que partilhavam das idéias de Jesus, não temos como ver o que outros tenderiam a dizer. Assim caminhamos por fé em Jesus. Um presente que recebemos ao brotar uma esperança em nosso coração. A fé de vermos um novo céu e uma nova terra, onde não haverá mais choro, nem dor, e viveremos todos juntos. Jesus tinha suas mensagens voltadas basicamente para os humildes e oprimidos. Uma palavra que trazia esperança e sempre era tida como verdadeira e válidas para todos os seres humanos.

Falamos muito sobre os patriarcas da fé e por que não lembrar da matriarca do cristianismo. Certamente ao falarmos do cristianismo lembramos de Jerusalém, afinal foi lá que a maior parte das coisas aconteceu.  Foi nesta cidade que a fé se desenvolveu de uma forma cristã diferente da que conhecemos hoje. Foi lá que Jesus apareceu e foi lá que Jesus ordenou que os discípulos ficassem até que fossem revestidos de poder pelo Espírito Santo. Foi lá que aconteceu o pentecostes. Em Jerusalém podemos observar algumas características como: Era um lugar onde havia muito movimento; Foi onde houveram as aparições pascais; Foi lá onde começamos a identificar a palavra envio. Temos o caso de Estevão, Felipe e mulheres incumbidas neste comissionamento. 

Dreher, fala sobre os ensinamentos dados pelos comissionados como a ressurreição, o cumprimento das escrituras, os testemunhos pessoais e o arrependimento.  O objetivo de cada pregação era o batismo. Com o batismo pretendia-se ver o perdão e o arrependimento. Estes grupos para os judeus eram mais um semelhante aos fariseus. O judaísmo tolerava muitos grupos  e heresias dede que aceitassem o Tora. A comunidade se declarava o Israel dos finais dos tempos e aceitavam a cruz, iam ao templo, eram unânimes, partiam o pão de casa-em-casa e estas refeições tinham caráter de culto. Oravam o Pai Nosso, jejuavam e tinham seus bens em comum. Tinham como líder Tiago, irmão de Jesus. Tinham o domingo como o dia do Senhor onde as pessoas se reuniam em suas casas para celebrar a ceia.

A mensagem se expandiu e de Jerusalém a Roma era conhecida a fama de Jesus. Paulo foi o homem que levou a mensagem ao mundo helenista-romano. Paulo era judeu e natural de Tarso, era rico e chegou a querer ser rabino. Tinha como profissão o fazer tendas. Era um homem determinado a seguir a lei. Paulo foi encarregado se não deixar que a nova seita crescesse e um dia em indo à Damasco teve seu encontro com Cristo. Após sua conversão Paulo teve um crescente interesse missionário, o qual levou muito a sério.

A comunidade de Jerusalém não permitia dois tipos de comunidades cristã e Paulo apresentava uma nova compreensão escatológica. Em Antioquia, lembra Dreher que havia um número grande de convertidos e então Barnabé é enviado até lá para acalmar os ânimos. Barnabé levou Paulo consigo. Lá o pessoal de Antioquia exigia a eliminação de muitas prescrições  para os que não eram judeus. Assim ocorreu em Jerusalém uma grande reunião para dar definições aos ocorridos o que conhecemos como: Concílio dos Apóstolos. Ao final tiveram algumas definições como a liberação dos cristãos da circuncisão e o dever  de evitar o sexo antes do casamento e o consumo de carne sacrificada. Os conflitos com Pedro nunca cessaram e Barnabé o abandonou. Paulo buscou muitas informações no antigo testamento que apontavam para Jesus. Paulo anunciou também aos gregos a salvação.

Em relação às comunidades gentílicas-cristãs, logo após Paulo, temos algumas fontes que nos ajudam a entender estas comunidades como: os escritos neotestamentários, os pais apostólicos, os evangelhos e os atos dos apóstolos. Como pais apostólicos temos Clemente, Inácio de Antioquia, Policarpo, Barnabé, Papias, o pastor de Hermas e ainda a Didaquê.

Quando nos voltamos para a situação das comunidades e surgimento do episcopado monárquico, Dreher nos mostra que por volta de 130-140 o entusiasmo do cristianismo estava desaparecendo. Estávamos a caminho da institucionalização. Nesta época já surgiam formas mais rígidas de organização e nos deparamos com o episcopado monárquico que ficou conhecido como bispo. O clero era composto por um bispo, um presbítero e um diácono. Todos deveriam obedecer e submeter-se aos ministros. Daí temos uma Igreja Clerical.

O culto já não tinha todo aquele entusiasmo. Havia uma ordem a ser seguida e costumes fixos. Haviam comemorações semanais e cultos ao nascer do sol e cultos pela noite. Cada um com um costume onde podemos identificar o uso de cânticos, orações formuladas (Pai Nosso) e leitura das escrituras. Os cultos eram no dia do Senhor e em outros durante a semana. O domingo surgiu na França em oposição ao sábado. Nas quartas e nas sextas-feiras haviam jejuns e vigílias. No domingo não havia jejum e nem joelho no chão. As orações eram feitas em pé conforme o Didaquê. O batismo era realizado de várias formas não sendo necessário a imersão, bastava a aspersão. Nos batismos feitos as pressas direcionavam as pessoas as classes de catecúmenos para que aprendessem da didaquê e fossem catequizados. A fé começava com a confirmação batismal era seguida com o aprendizado das fontes posteriores dos apóstolos onde muitas destas tornaram-se bíblia. A ética era seguida com jejuns e abstinências de carnes, vinho e sexo e uma obra assistencial aos necessitados era muito visível. Nas comunidades, Dreher nos mostra as mudanças surgidas mediante a fé e o tratamento dado a pessoas que desejavam participar das comunidades mas tinham profissões que não condiziam. Também não era permitido um cristão seguir a carreira militar por ter que clamar por outros deuses. Não havia muita preocupação com a escravidão, pois se esperava uma breve volta do messias. Como o passar do tempo muitos militares tornaram-se cristãos e não deixaram a profissão. Dreher relata ainda sobre uma cristã que tornou-se concubina do imperador  e intercedia pelos cristão em perigo.

No 9º (nono) capítulo Dreher trata das Heresias e calolicidades nos apresentando que os sinas, visões e milagres eram algo normal e que doutrinas de salvação (gnoses) apareciam. A gnose era como um bálsamo para a alma e influenciava muito na igreja a ponto de pontos poderem distinguir. A igreja precisou travar uma grande batalha contra as gnoses. Dreher nos apresenta ainda uma série de relatos como os de Saturnino que descreveu que Jesus não nasceu e sim apareceu, Basilides que diz que Cirineu após ter carregado a cruz foi crucificado no lugar de Cristo e Cerinto que afirmou que o mundo foi criado por Virtude, um ser afastado de Deus e que Jesus é fliho de José e Maria e que Cristo teria encarnado nele de depois o deixado sozinho para morrer.

No item 9.2 encontramos Marcião, homem filho de bispo e que foi expulso da comunidade que se junta a Valentino que também tinha sido expulso e começa a proclamar que Javé era um deus imperfeito e que tudo que ele tinha criado era besteira. Afirma que o Deus verdadeiro era Jesus e que este era totalmente diferente do anterior. Marcião busca eliminar tudo o que é judeu da Igreja e isto conduz o povo a confessar que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo Testamento.  A Igreja consegue ajustar os dogmas e afirma que Jesus Cristo é o filho de Deus e normatiza que tudo o que for surgir e ser escrito tem que partir deste princípio. Temos então a primeira grande confissão de fé.

Dreher fala sobre o Montanismo, um outro movimento que teve seu iníco quando Montanus foi batizado e após o batismo começou a falar em línguas e também duas mulheres. Eles seguiram pregando heresias a afirmando que a vida de Cristo estava próxima. Tertuliano, que tinha grande influência na Igreja, tendo defendido a igreja na luta contra os marcisistas e gnósticos apoiava o movimento e assim a igrej o abandonou.

Por fim temos Cipriano, um dos mais influenciado por Tertuliano. Este pai da Igreja fugiu do martírio e depois defendeu-se dizendo que onde se escondeu pode motivar a comunidade a ser perseverante. Mas tarde foi preso e morte. Ele afirmava que o episcopado monárquico tinha sido definido por Jesus ao declar: “Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a minha igreja” e também “assim como o pai me enviou eu vos envio”.

No capítulo 10, Dreher fala sobre a formação do cânone neotestamentário e a mulher na igreja antiga. O que logo se destaca é que a mulher não podia ter acesso as escrituras e muito menos assumir alguma responsabilidade a não ser a do lar segundo a interpretação do cristianismo primitivo. Quando lemos as epístolas nos deparamos com Febe, Júnia e vemos diaconisas, mulheres na liderança e ajudantes de Paulo.  O machismo era evidente no novo testamento, as passagens onde constavam mulheres fora m alteradas e raramente quando deixadas foram inseridas outras palavras para desqualificar as mulheres. Lucas era muito machista e não permitia de forma algum relato de mulheres. Havia grande ciúme em relação a Maria Madalena.  Após Constantino a mulher foi eliminada de vez dos ciclos importante da igreja. Ortodoxia e Heresia era o binômio que caminhava junto a igreja. Muitos foram os debates a cerca das mulheres e a mesmas passagens bíblicas eram usadas tanto para  minimizar como para maximizar a presença da mulher na Igreja.  A verdade era que a mulher tinha uma influência muito grande mas o machismo não podia aceitar, pois diziam: “o pecado começou na mulher”.

O Patriarcado Eclesiástico tem como ponto de partida: a mulher é herege. Criada para funções auxiliares e quem fosse contra a tradição da igreja era um herege. O resultado foi a marginalização inevitável da mulher na igreja. Por fim, fica explicito que Jesus nunca deixou as mulheres a margem e os evangelistas tiveram que entender isto. Elas ficaram juntas a cruz, foram as primeiras testemunhas do sepulcro vazio e da ressurreição. Jesus é renovador e elimina todas as diferenças. Paul também afirma isto em sua cartas aos Gálatas 3:28 – “Somos um em Cristo Jesus”.

Fé Cristã e Filosofia é tema abordado por Dreher no 11º capítulo. Dreher fala de quando o jovem cristianismo se depara com o estocismo profundamente religioso. Aponta Justino como filósofo que se converteu aos 25 anos e que buscou mostrar que toda a filosofia estava inspirada do Logos divino. Epileto que foi escravo também seguiu nesta linha e o estocismo foi se transformando em estocismo cristão. Clemente de Alexandria, considerado o primeiro teólogo defendia a mesma tese de Justino. A pessoa mais influenciada pelo pensamento de Clemente foi Orígenes, este foi o sucessor de clemente e transformou a escola de catequese em escola de teologia. Tornou-se o mais famoso dos sábios, explicava e palestrava em vários lugares sobre a essência da fé cristã. Manteve-se simples. Foi preso, torturado e alguns anos mais tarde morto devidos as seqüelas das torturas. Nunca negou a fé e depois de Clemente e Origines a igreja não pode mais deixar de lado a filosofia.

     Imperador e os Cristãos – A fé cristã não foi adversa à autoridade, inclusive oravam pelas autoridades conforme 1 Tm 2.2 e as autoridades permaneciam por muito tempo indiferentes quanto ao cristianismo até surgir Nero. Após o falecimento de Augusto sem deixar herdeiro e também Tibério sem deixar herdeiro, subiu ao trono Cláudio um maníaco sexual que morreu envenenado e então subiu ao trono um jovem de 17 anos: Nero que mandou eliminar a mãe convenceu sua esposa a suicidar e matou a segunda esposa. Após a cidade de Roma ter sido incendiada e a culpa ter caído sobre Nero ele não exitou em colocar a culpa sobre os cristãos. Muitos foram mortos, queimados, crucificados, mas esta não foi considerada uma perseguição por motivos religiosos. Dreher começa a nos apresentar Tolerância e Perseguição no governo de Domiciano que começava a se proclamar “Senhor e Deus” exigindo grandes saudações e sacrifícios. Trajano, um governador que queria Paz e Ordem foi mais tolerante e dizia que os cristãos não deveriam responder por acusações anônimas. Muitas eram as acusações e mesmo sabendo da inocência, para não parecer favorável aos cristãos muitos morreram no governo de Trajano. Aqueles que morreram confessando a fé foram considerados como Mártires pela igreja. A Crise do Império e da Igreja começou com a morte de Marco Aurélio. Depois de uma grande expansão da fé cristã a igreja começou a ser perseguida e assim muitos sacrifícios, subornos começaram surgir. O clero foi atacado e os bens da igreja confiscados. Diocleciano tolerou o cristianismo a princípio, mas depois iniciou uma eliminação radical do cristianismo destruindo salas, trazendo desemprego, obrigando a entregar os livros e encerrando em cadeias os clérigos. Quando já não havia mais lugares nas cadeias as mortes iniciaram. Entretanto Diocleciano e todos os demais entenderam que o movimento não podia ser destruído e cinco dias antes de sua morte seguindo o testamento de Galério, Diocleciano assinou o edito que revogava todas as más atitudes em relação aos cristãos.

     No capítulo 13 Dreher fala sobre a Igreja Imperial, sobre a ascensão de Constantino e sua meta em ser o único governante do império. O sonho e um império, um imperador e uma igreja estavam prestes a ser uma realidade. Constantino, após a guerra com Maxêncio torna-se o imperador do Ocidente. O imperador Constantino junto com seu cunhado o Imperador Licínio, fazem do culto divino suas principais preocupações. A igreja livre iniciava uma nova era. A igreja pensava ter um imperador cristão. Constantino concordava que um Estado sem religião era algo inconcebível. Um monograma de Cristo foi estampado nos escudos dos soldados e, a igreja a cada dia acreditava mais na conversão de Constantino. Era o segundo Moisés o escolhido de Deus e mesmo com todas as mortes realizas pelas mãos de Constantino a igreja não podia enxergar os fatos apenas um grande imperador.

Quem é Jesus? Os cristãos tinham as definições dadas por Pedro e por Paulo como suficientes, mas para o imperador não era. Assim eles foram obrigados a formular que era o Cristo e tiveram que fazer teologia. Ário era conhecido do mundo teológico e tornou-se presbítero em Alexandria, cidade onde as decisões político-eclesiásticas eram tomadas. O jovem diácono Anastácio lanço-se contra Ário e a discussão, pois o Egito em chamas. Assim o imperador convocou todos os bispos para uma reunião em sua residência de verão (Nicéia) e as viagens foram costeadas pelo império. Em 20 de maio de 325 realizou-se a abertura do Sínodo, Concílio de Nicéia.

Os resultados da revolução de Constantino causou na história, trouxe muitas conseqüências negativas para a igreja, pois a igreja estava atrelada ao estado. A igreja passou a ter regalias no império. O domingo foi consagrado e a dada de nascimento de Jesus (06/01) foi alterada. Com a morte de Constantino e seus sucessores a igreja foi crescendo e deixando sua autonomia. Agora a igreja era imperial e um credo religioso estava estabelecido.

No capítulo XIV Dreher começa a falar sobre o surgimento do papado. Fala sobre as diversas lendas em que a igreja estava envolvida, do episcopado de Pedro e dos prodígios e brigas dentro da igreja. Aponta Granciano como o Imperador que deu ao bispo da igreja o título de autoridade eclesiástica máxima no Ocidente. Temos o surgimento do governador Ambrósio que foi consagrado a bispo e foi um dos criadores do hino latino-cristão. Não há muitos documentos de como viviam as igrejas nesta época. Falar de religião era coisa só para a alta sociedade visto ter a fé se tornado imperial, estatal. Isto a cada dia fazia a igreja se parecer mais com o mundo. Era uma igreja morna, ser crente era só ter uma alegoria. Foi aí que algumas peças de roupas, a cruz que Jesus foi crucificado, espinhos começaram a fazer parte da igreja. O número de relíquias começava a aumentar e olhar para estas relíquias era aumentar a fé. Assim a crença de que estes objetos podiam fazer milagres começou aparecer. Todo o poder dos santos agora estava nas imagens e Maria já não era simplesmente a mãe de Jesus era a imaculada, a virgem aquela que era a mãe de Deus e quem podíamos clamar. Encontramos ainda neste capítulo Agostinho, pessoa inteligente que se alegrava com a ciência. Certa vez foi levado a ler a bíblia por Ambrósio e as palavras o marcaram profundamente levando a uma conversão sincera.  Transformou sua casa paterna em convento e ali batiza muitas crianças. Deparou-se com Pelágio durante a história e isto gerou conflitos sobre o pecado e a graça. Agostinho ainda escreveu muitos escritos que tiveram grande significado para a igreja latina.

Qual o rico que se salva? Esta foi uma das temáticas que, na preocupou a fé na Igreja antiga. As palavras de Jesus ao jovem rico influenciaram fortemente os pais da igreja que, de modo errado pregava que os ricos não poderiam se salvar. Herma teve diversas visões e na terceira o que lhe foi mostrado, uma torre que se levantava sobre as águas, o fez ter alguns entendimentos sobre a riqueza e a pobreza. Tiago também falava contra os ricos e pregava que eles podiam ser salvos na condição de deixarem suas riquezas totalmente de lado. Tertuliano dizia que Deus justificava os pobres e condenava os ricos. Clemente em seu escrito: Qual o rico que pode ser salvo?  Tentava despertar nova esperança no coração dos ricos, a esperança de salvação e repartição dos bens, e a cada discurso Clemente se distanciava mais dos ensinamentos de Jesus. Jesus oferecia um convite a auxiliar os pobres e como poderia alguém auxiliar alguém não tendo nada?  Muitos pais da igreja no século IV se pronunciaram quantos as propriedades privadas e o acúmulo dos ricos, pois aquilo que era de todos virou algo privado e negociável. Basílio seguia a linha de que a igreja podia exigir dos ricos a ajuda nos trabalhos sociais e deixou de pedir esmolas. Suas exigências eram consideradas utópicas. Gregório de Nazianzo dizia aos ricos para serem como no início (tenham tudo em comum) e João Crisóstomo o grande economista seguia a mesma linha lembrando como vivia a igreja primitiva. Afirmava que, a riqueza de Abraão e a de Jó eram uma dádiva de Deus e não tinha sido adquirida injustamente.  Mesmo não tendo suas idéias aceitas vemos nele um exemplo de filho da Igreja antiga. Enfim a maioria dos teólogos entendia tudo como uma dádiva de Deus e intocável. Assim a igreja caminhou com as esmolas.

No final da História da Igreja antiga identificamos algumas características. O ocidente diluía as lutas e permitia um surgimento do papado e no Oriente as rivalidades cresciam nos ditos dos patriarcas. Temos o uso da eucaristia e a prática de tornar herege qualquer doutrina que negasse a perfeita união de Deus e do Homem. Nos deparamos também com Cirilo, um homem que nasceu para ser imperador que após tomar posse do trono, matou muitos judeus e influenciou o Imperador Teodósio II a convocar um Sínodo.  Nos deparamos também o 2º, 3º e 4º Concílio Imperial, neste, foi escrito um novo credo apostólico. O fim do império foi marcado pelo Imperador Justino que ordenou que todos fossem batizados e tornou a certidão de batismo importante, convocou o 5º Concílio ecumênico e tentou reconciliar as igrejas monofisitas e não teve sucesso. 

 

NOTAS A IGREJA PRIMITIVA NO IMPERIO ROMANO.CHURCH HISTORY,MARTIN N. DREHER,2000 

 

     SECULO PRIMEIRO FONTE EUSEBIO DE CESAREIA

   HISTORIADOR DA IGREJA ANTIGA DOS PRIMEIROS      SECULOS.

Da morte de João e de Felipe

 

Sobre João, quanto ao tempo, também já foi dito; mas quanto ao lugar de seu corpo, indica-se na carta de Polícrates, bispo da igreja de Éfeso, que foi escrita para o bispo de Roma, Victor. Junto com João menciona o apóstolo Felipe e as filhas deste nos seguintes termos:

"Porque também na Ásia repousam grandes luminares que ressuscitarão no último dia da vinda do Senhor, quando virá dos céus com glória em busca de todos os santos: Felipe, um dos doze apóstolos, que repou­sa em Hierápolis com duas filhas suas que chegaram virgens à velhice, e a outra filha, que depois de viver no Espírito Santo, descansa em Éfeso; e também há João, o que se recostou sobre o peito do Senhore que foi sacerdote portador do pétalon, mártir e mestre; este repousa em Éfeso."

Isto há sobre a morte destes luminares. Mas também no Diálogo de Caio -de quem já falamos pouco acima -, Proclo - contra quem é dirigida a disputa -, coincidindo com o exposto, diz sobre a morte de Felipe e de suas filhas o seguinte:

"Depois deste houve em Hierápolis, a da Ásia, quatro profetisas, as filhas de Felipe. Ali estão seus sepulcros e o de seu pai."

5.      Assim diz Proclo. E Lucas, nos Atos dos Apóstolos, menciona as filhas de Felipe, que então viviam em Cesaréia da Judéia junto com seu pai, e que haviam sido agraciadas com o dom da profecia; diz textualmente o que segue: Viemos a Cesaréia e entramos na casa de Felipe o evangelista - pois era um dos sete - e permanecemos em sua casa. Tinha ele quatro filhas virgens, que eram profetisas.

6.      Depois de haver descrito sobre o que chegou ao nosso conhecimento acerca dos apóstolos e dos tempos apostólicos, assim como dos escritos sagra­dos que nos deixaram, e inclusive dos que são controversos, mas que na maioria das igrejas muitos lêem em público, e dos que são inteiramen­te espúrios e alheios à ortodoxia apostólica, continuemos avançando em nossa narrativa.

 

De como sofreu o martírio Simeão, bispo de Jerusalém

 

Depois de Nero e Domiciano, conta uma tradição que, sob o imperador cuja época estamos agora investigando, voltaram a ocorrer perseguições contra nós, parcialmente e por cidades, devido a levantes populares. Nesta época, sobre Simeão, o filho de Clopas, do qual já dissemos que foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sabemos que terminou sua vida no martírio.

Testemunha disto é aquele mesmo Hegesipo, de quem já utilizamos diferentes passagens. Ao falar de alguns hereges, acrescenta claramente que por esse tempo, efetivamente, o mencionado Simeão teve que sofrer uma acusação e que durante muitos dias foi maltratado de muitas maneiras por ser cristão, e que depois de deixar admiradíssimos o juiz e os que o acompanhavam, alcançou um final semelhante à paixão do Senhor.

Mas nada melhor do que ouvir o próprio escritor, que relata isto mesmo textualmente como segue:

"A partir disto, evidentemente alguns hereges acusam Simão, o filho de Clopas, por ser descendente de Davi e cristão, e assim sofre martírio na idade de cento e vinte anos, sob o imperador Trajano e o governador Ático."

O mesmo autor diz que inclusive os próprios carrascos foram presos quando se procuraram os descendentes da tribo real dos judeus, já que também eles o eram. Com um pouco de cálculo pode-se dizer que tam­bém Simeão viu e ouviu pessoalmente o Senhor, baseando-se na longa duração de sua vida e na menção que o texto dos evangelhos faz de Maria de Clopas, de quem já se demonstrou que Simeão era filho.

O mesmo escritor diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, de nome Judas, sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em Cristo sob Domiciano, como já referimos anteriormente. Escreve o seguinte:

6.      "Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Igreja como mártires e como mem­bros da família do Salvador. Quando em toda a Igreja se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Simão, filho de Clopas, foi denun­ciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos, inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus cento e vinte anosE mandaram crucificá-lo."

Depois disto o mesmo autor, explicando o referente aos tempos indicados, acrescenta que efetivamente, até aquelas datas a Igreja permanecia virgem, pura e incorrupta, como se até esse momento os que se propunham corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que existiam, ocultavam-se em escuras trevas.

Mas quando o coro sagrado dos apóstolos alcançou de diferentes maneiras o final da vida e desapareceu aquela geração dos que foram dignos de escutar com seus próprios ouvidos a divina Sabedoria, então teve início a confabulação do erro ímpio por meio do engano de mestres de falsa doutrina, os quais, não restando nenhum apóstolo, daí em diante já a descoberto, tentaram opor à pregação da verdade a pregação da falsamente chamada gnosis.

 

De como Trajano impediu que se perseguisse os cristãos

 

Tão grande foi realmente a perseguição que naquele tempo estendeu-se em muitos lugares contra nós, que Plínio Segundo, notável entre os governa­dores, inquieto pela multidão de mártires, relata ao imperador sobre o exces­sivo número dos que eram executados por sua fé, e no mesmo documento adverte que nunca foram surpreendidos cometendo nada ímpio ou contrário às leis, se não for pelo fato de levantarem-se à aurora para entoar hinos a Cristo como a um Deus, mas que adulterar e cometer homicídios e crimes do mesmo tipo também era proibido para eles, e que em tudo agem conforme as leis.

A resposta de Trajano foi promulgar um decreto do seguinte teor: que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse. Graças a isto extinguiu-se parcialmente a perseguição, que ameaçava apertar terrivelmente, mas nem por isso faltaram pretextos aos que queriam fazer-nos mal. Algumas vezes eram as populações, outras as próprias autoridades locais que preparavam os assédios contra nós, de forma que, ainda que sem perseguições manifestas, acenderam-se focos parciais, segundo as provín­cias, e grande número de crentes combateram em diversos gêneros de martírio.

O relato foi tomado da Apologia latina de Tertuliano, mencionada mais acima, traduzido, é como segue:

"Mesmo assim, encontramos que foi proibido até que nos persigam. Efetivamente, Plínio Segundo, governador de uma província, depois de condenar alguns cristãos e depô-los de suas dignidades, assustado por seu número e já não sabendo o que lhe restava fazer, consultou o imperador Trajano, alegando que, exceto por não quererem adorar os ídolos, nada de ímpio havia encontrado neles. Informava-lhe também o seguinte: que os cristãos se levantavam à aurora e cantavam hinos a Cristo como a Deus e que, para manter seu conhecimento, era-lhes proibido matar, cometer adultério, cobiçar, roubar e coisas parecidas. A isto Trajano respondeu que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse." Também isto ocorreu neste tempo.

 

De como o quarto a dirigir a Igreja de Roma é Evaristo

 

1. Dos bispos de Roma, no terceiro ano do imperador anteriormente cita­do, Clemente terminou sua vida depois de transmitir seu cargo a Evaristo e de haver estado no total nove anos à frente do ensinamento da palavra divina.

 

De como o terceiro a dirigir a de Jerusalém é Justo

 

1. Mas, quando Simeão morreu do modo como relatamos, o trono do episcopado de Jerusalém foi recebido em sucessão por um judeu chamado Justo, que era um dos inúmeros que, procedendo da circuncisão, havia 

 

Sobre Inácio e suas cartas

 

Brilhava por este tempo na Ásia Policarpo, discípulo dos apóstolos, a quem as testemunhas oculares e os ministros do Senhor tinham confiado o episcopado da igreja de Esmirna.

Ao mesmo tempo adquiriram notoriedade Papias, bispo da igreja de Hierápolis, e Inácio, o homem mais célebre para muitos ainda hoje, segundo a obter a sucessão de Pedro no episcopado de Antioquia.

Uma tradição refere que este foi trasladado da Síria à cidade de Roma para ser alimento das feras, em testemunho de Cristo.

Ao ser conduzido através da Ásia, sob a vigilância cuidadosa dos guardiães, dava ânimo com suas falas e exortações às igrejas de cada cidade onde faziam parada. Primeiramente exortava-os a que sobretudo se guardassem das heresias, que precisamente então começavam a pulular, e estimulava-os a segurar-se solidamente à tradição dos apóstolos, que, por estar ele já a ponto de sofrer o martírio, achava necessário pôr por escrito para fins de segurança.

E foi assim que, achando-se em Esmirna, onde estava Policarpo, escreveu uma carta à igreja de Éfeso, mencionando Onésimo, seu pastor; outra à de Magnesia, a que está sobre Meandro, mencionando igualmente o bispo Damas, e outra à de Trales, cujo chefe era então Políbio, segundo diz.

Além destas, escreveu também à igreja de Roma uma carta em que expõe sua súplica para que não intercedam por ele, para não privá-lo do martírio, sua sonhada esperança. Em apoio ao que dissemos, será bom citar algumas passagens das citadas cartas, ainda que brevíssimas:

Escreve pois, textualmente:

"Desde a Síria até Roma venho lutando com feras por terra e por mar, de noite e de dia, atado a dez leopardos, isto é, um grupo de soldados que ficam piores com o bem que se lhes faz. Mas com seus maus-tratos torno-me mais e mais discípulo. Mesmo assim, nem por isso estou justificado.

"Oxalá pudesse eu usufruir das feras que me estão preparadas! Espero encontrá-las bem ligeiras para comigo. Chegarei até a adulá-las para que me devorem rapidamente e não me façam o que fizeram a alguns, que por temor não tocaram, e se fazem de preguiçosas e não querem, eu mesmo as forçarei.

Perdoai-me. Eu sei o que me convém. Agora estou começando a ser discí­pulo. Que nenhuma coisa visível ou invisível tenha ciúme de que eu alcance a Jesus Cristo. Fogo, cruz e manadas de feras, dispersão de ossos, destroçamento de membros, trituração do corpo todo e tormentos do diabo venham sobre mim, contanto somente que eu alcance a Jesus Cristo."

Isto escrevia da cidade mencionada às igrejas que enumeramos. Mas achando-se já longe de Esmirna, desde Troasse põe-se a conversar, por escrito mesmo, com os de Filadélfia e com a igreja de Esmirna, e em par­ticular com Policarpo, que a presidia. Reconhecendo este como homem verdadeiramente apostólico e porque ele mesmo era pastor legítimo e bom, confia-lhe seu próprio rebanho de Antioquia e pede-lhe que se ocupe dele com solicitude.

Ele mesmo, escrevendo aos de Esmirna e citando passagens não sei de onde, discorre sobre Cristo com estas palavras:

"Quanto a mim, sei e creio que mesmo depois da ressurreição permanece em sua carne, e quando se aproximou dos que rodeavam Pedro disse-lhes: 'Tomai e apalpai-me, e vede que não sou um espírito incorpóreo.' Na mesma hora eles o tocaram e creram."

12.    Também Irineu conhece seu martírio e faz menção de suas cartas quando diz assim:

"Como disse um dos nossos, condenado às feras por seu testemunho em favor de Deus, 'sou trigo de Deus e pelos dentes das feras sou moído para ser encontrado como pão puro.'

13.    E Policarpo também faz menção disto na carta que se diz ser dele, dirigida
aos Filipenses, quando diz textualmente:

"Exorto-vos pois todos a obedecer e exercitar toda a paciência, a que vistes com vossos olhos não somente nos bem-aventurados Inácio, Rufo e Zózimo, mas também em outros dos vossos, e no próprio Paulo e nos demais após­tolos, persuadidos de que não correram em vão, mas na fé e na justiça, e de que já estão no lugar que lhes é devido, junto ao Senhor, com o qual padeceram. Porque não amaram este século, mas aquele que morreu por nós e por nós também ressuscitou, por obra de Deus." E acrescenta logo:

"Vós e Inácio escrevestes-me para que, se alguém fosse à Síria, levasse também vossas cartas. Isto farei quando encontrar ocasião favorável, eu mes­mo ou alguém que eu envie e que será também embaixador de vossa parte.

As cartas de Inácio que ele enviou e todas as outras que tínhamos conosco, vo-las envio, como haveis pedido; seguem anexas à presente carta. Delas podereis tirar grande proveito, já que estão cheias de fé, de paciência e de toda edificação concernente a nosso Senhor."

Isto é o que se refere a Inácio. Depois dele Heros recebeu a sucessão do episcopado de Antioquia.

 

Dos evangelistas que ainda então se distinguiam

 

1. Entre os que eram famosos neste tempo, achava-se também Codratos, sobre o qual uma tradição refere que sobressaía em carisma profético, junta­mente com as filhas de Felipe. Também eram célebres então, além des­tes, muitos outros que tiveram o primeiro lugar na sucessão dos apóstolos. Estes magníficos discípulos de tão grandes homens edificavam sobre os fundamentos das igrejas deixados anteriormente em cada lugar pelos apóstolos. Aumentavam mais e mais a pregação e semeavam por toda a extensão da terra habitada a semente salvadora do reino dos céus.

Efetivamente, muitos dos discípulos de então, tocados na alma pela palavra divina com um amor muito forte à filosofia, primeiramente cumpriam o mandamento salvador repartindo seus bens entre os indigentes, e depois empreendiam viagem e realizavam trabalho de evangelistas, empenhando sua honra em pregar aos que ainda não haviam ouvido a palavra da fé e em transmitir por escrito os divinos evangelhos.

Estes homens nada mais faziam que deitar os fundamentos da fé em alguns lugares estrangeiros e estabelecer outros como pastores, encarregando-os do cultivo dos recém-admitidos, e em seguida mudavam-se para outras regiões e outros povos com a graça e a cooperação de Deus, já que por meio deles continuavam realizando-se ainda então muitos e maravilhosos poderes do Espírito divino, de forma que, desde a primeira vez que os ouviam, multidões inteiras de pessoas recebiam em massa com ardor em suas almas a religião do Criador do universo.

Sendo-nos impossível enumerar pelo nome todos os que na primeira geração de apóstolos foram pastores e inclusive evangelistas nas igrejas de todo o mundo, é natural que mencionemos por seus nomes e por escrito apenas aqueles dos quais se conserva a tradição até hoje graças a suas memórias da doutrina apostólica.

 

Da carta de Clemente e os escritos que falsamente lhe atribuem

 

Não cabe dúvida, portanto, de que tais são Inácio, em suas cartas cuja lista fornecemos, e Clemente na carta por todos admitida, que escreveu em nome da igreja de Roma à de Corinto. Nela Clemente expõe muitos pensamentos da Carta aos Hebreus, e inclusive utiliza textualmente algumas passagens da mesma, mostrando assim com toda claridade que este escrito não é recente.

Por isso pareceu natural catalogá-lo entre os demais escritos do apóstolo. Porque Paulo praticou por escrito com os hebreus valendo-se de sua língua pátria, e alguns dizem que a carta foi traduzida pelo evangelista Lucas, mas outros afirmam que foi o próprio Clemente,

o que talvez seja mais verdadeiro pelo fato de ambas, a Carta de Clemente e a Carta aos Hebreus, conservarem um caráter estilístico semelhante, além de não se diferenciar muito o pensamento de um e outro escrito.

Deve-se saber ainda que há uma segunda carta que se diz de Clemente, mas não sabemos que seja conhecida como a primeira, já que nem os antigos a utilizaram, tanto quanto sabemos.

E muito recentemente alguns trouxeram à luz, dizendo que são dele, outros escritos, verbosos e longos, que contêm os diálogos de Pedro e Apion. Destes escritos não se encontra a menor menção entre os antigos, nem mesmo conservam puro o caráter da ortodoxia apostólica. Conseqüentemente fica claro qual é o escrito aceito de Clemente. Também se falou dos de Inácio e de Policarpo.

 

Dos escritos de Papias

 

1.   Diz-se que são cinco os escritos de Papias, sob o título de Explicações das palavras do Senhor. Irineu os menciona como os únicos escritos de Papias; assim diz:

"Isto também atesta por escrito Papias, que foi ouvinte de João, companheiro de Policarpo e varão dos antigos, no quarto livro dos que escreveu, porque efetivamente tem cinco livros escritos."

Isto é o que diz Irineu. O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram, estas são suas palavras:

"Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com as interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade. Porque eu não me comprazia como outros com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; nem tampouco com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que trazem na memória os (mandamentos) que receberam pela fé da parte do Senhor e nascem da própria verdade.

E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíte­ros, eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qual­quer outro dos discípulos do Senhor, porque eu pensava que não aprovei­taria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."

5.      Aqui seria bom fazer notar também que ele enumera duas vezes o nome de João. O primeiro coloca na lista com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, sendo evidente que se refere ao evangelista; já ao outro João, depois de cortar o discurso, coloca-o com outros, fora do número dos apóstolos, antepondo Aristion e chamando-o claramente de presbítero.

De forma que também isto demonstra que é verdade a história dos que dizem que na Ásia houve dois com este mesmo nome, e em Éfeso dois sepulcros, dos quais ainda hoje se afirma que são, um e outro, de João. É necessário prestar atenção a estes fatos, porque é provável que fosse o segundo - se não se prefere o primeiro - o que viu a Revelação (= Apocalipse) que corre sob o nome de João.

Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos de discípulos destes, enquanto que de Aristion e de João o Presbítero ele diz ter sido ouvinte direto. Efetivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições.

E não se diga que por nossa parte é inútil o dito. Mas é justo adicionar às palavras de Papias já citadas outros ditos seus com os quais se refere a algumas coisas estranhas e outros detalhes que, segundo ele, chegaram-lhe pela tradição.

Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse mesmo tempo, faz menção de haver recebido um relato mara­vilhoso da boca das filhas de Felipe. Narra efetivamente a ressurreição de um morto ocorrida em seu tempo e, como se fosse pouco, outro fato porten­toso referente a Justo, apelidado Barsabás, pois aconteceu que este bebeu uma poção mortal sem que, pela graça do Senhor, sofresse qualquer dano.

Depois da ascensão do Salvador, os sagrados apóstolos puseram este Justo junto com Matias e oraram sobre eles para que a sorte completasse seu número em lugar do traidor Judas; conta-o o livro dos Atos da seguinte maneira: E puseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E orando sobre eles disseram.

O próprio Papias conta também outras coisas como tendo chegado a ele por tradição não escrita, algumas estranhas parábolas do Salvador e de sua doutrina, e algumas outras coisas ainda mais fabulosas.

Entre elas diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milênio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico.

E aparece como homem de muito escassa inteligência, segundo se pode supor por seus livros. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escrito­res eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antigüidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qual­quer outro que manifeste professar idéias parecidas.

Em sua própria obra Papias transmite ainda outras interpretações das pala­vras do Senhor recebidas de Aristion, mencionado acima, assim como também outras tradições de João o Presbítero. A elas remetemos a quan­tos queiram instruir-se. Agora nos vemos obrigados a acrescentar às suas palavras anteriormente citadas uma tradição acerca de Marcos, o que escreveu o Evangelho, que vem exposta nos termos seguintes:

"E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas, como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitia seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como as recordava. E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo."

Isto é o que conta Papias sobre Marcos. Referente a Mateus, diz o seguinte: "Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia."

O mesmo escritor utiliza testemunhos tomados da primeira carta de João, e igualmente da de Pedro, e expõe também outro relato de uma mulher acusada de muitos pecados ante o Senhor, que está contido no Evangelho dos hebreus. Que conste também isto, além do que já havia exposto