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introdução das cartas de PAULO
introdução das cartas de PAULO

INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS DE PAULO

 

Ao leitor casual do Novo Testamento, pareceria que os Evangelhos foram escritos primeiro. Isto simplesmente pareceria lógico, já que o movimento cristão se iniciou com a vida e o ministério do Senhor Jesus Cristo. Na realidade, contudo, os Evangelhos foram escritos alguns anos depois que a mais antiga literatura do movimento cristão apareceu: as epístolas. Dos vinte e sete livros do Novo Testamento, pode-se observar que vinte e um, talvez vinte e quatro, podem ser chamados de epístolas ou cartas. Os títulos de vinte e um indicam uma carta de alguém para alguém (por exemplo — "Epístola de Paulo aos Romanos"), de alguém ("Epístola de Tiago"), ou para alguém ("A Epístola aos Hebreus"). O terceiro Evangelho e Atos, ambos, têm declarações introdutórias que caracterizam uma carta. O Apocalipse tem muitos aspectos de uma carta, mas ele, provavelmente, pertence à classe de literatura denominadaapocalíptica. Assim como não teria havido nenhuma carta sem o Jesus histórico, certamente não teria havido necessidade de um Evangelho escrito, se o poder e a influência do Cristo ressurreto já não tivessem sido conhecidos e sentidos na vida daqueles que formavam a comunidade cristã antiga. Foi para essas comunidades primitivas que as cartas, os depósitos literários mais antigos da Igreja, foram escritas e tiveram tamanha influência sobre a Igreja emergente.

 Jesus, como os outros mestres famosos do mundo antigo, não deixou escritos. A mais antiga literatura que o cristianismo tem é a que foi escrita por homens que foram seus seguidores, e a literatura mais antiga foi escrita como cartas a congregações específicas, com problemas especí­ficos. Essas cartas foram escritas desde cerca de 45 d.C. até o final do primeiro século. O propósito de cada carta foi ajudar no crescimento espiritual de pequenos grupos de cristãos espalhados pelo Império Romano. Cada carta teria sido levada por um irmão de confiança até seu destino, lida na assembleia e depois guardada, para futura referência e uso. Às vezes a carta seria compartilhada com igrejas irmãs. Frequentemente, cópias seriam feitas, de maneira que outras igrejas pudessem também ter um benefício permanente das instruções. A carta seria na forma de rolo e poderia ser guardada facilmente com quaisquer outras cartas ou porções do Velho Testamento que a igreja fosse o bastante afortunada de possuir. As igrejas primitivas preferiam, contudo, a comunicação oral do ensino apostólico à forma escrita. Eusébio preservou as palavras de Papias como tendo dito: "Pois eu não considerava que obtive tanto proveito dos conteúdos dos livros quanto da fala de uma voz viva e presente" (H.E., III, 39). Com o passar do tempo, todavia, o prestígio desses escritos primitivos dos apóstolos aumentou, e as gerações posteriores de cristãos voltaram-se para esses escritos primitivos como sendo autoridade em doutrina e prática. Essa aceitação foi especialmente acelerada quando a primeira e a segunda gerações de crentes morreram. As igrejas cristãs então começaram a dar maior importância aos escritos autênticos do testemunho e ensino apostólico, tanto ao testemunho do Jesus histórico quanto às implicações teológicas e éticas do impacto de se tornar um seguidor do Cristo ressurreto.

 

FORMA LITERÁRIA 

CARTA OU EPÍSTOLA? 

A escrita de cartas há muito fora usada como um meio de comunicação. Contudo, foi durante a época da Pax Romana que a escrita de cartas se tornou uma importante forma de comunicação. Foi devido ao vasto Império Romano que, durante o tempo da formação do Novo Testamento, havia um excelente sistema de estradas por todo o mundo ocidental. Essas estradas estavam sob constante proteção do governo romano e permitiam viagem relativamente segura entre as principais cidades do Império. Roma não tinha correio público, mas os mensageiros, tanto particulares quanto governamentais, podiam viajar com alguma garantia de chegar a seu destino. A forma de comunicação escrita era necessária tanto no governo como no comércio. Era apenas natural que as famílias e amigos dispusessem deste meio de, um ao outro, fazerem conhecidos seus negócios. As cartas particulares formam uma grande parte dos manuscritos antigos que foram encontrados pelos arqueólogos modernos.

 As cartas não somente eram usadas para a comunicação oficial, comercial ou particular. A carta era também usada para fins de propaganda. "Cartas abertas" eram escritas para informar o público acerca de certos itens dignos de nota. Algumas dessas tinham o efeito dos modernos "boletins públicos." A palavra grega para estes "anúncios públicos", (proegra/fh), foi usada por Paulo em Gálatas 3:1,para indicar a natureza pública da proclamação da morte do Senhor Jesus Cristo. Cícero, um dos escritores romanos de cartas mais prolíficos (c. 106 a.C.), fazia uma distinção entre as cartas que escrevia para uso particular e aquelas para uma leitura mais pública. Ele escreveu: "Vocês veem, eu tenho uma maneira de escrever o que acho que será lido por aqueles a quem envio minha carta, e outra maneira de escrever o que acho que será lido por muitos" (citado em R.P. Martin, New Testament Foundations, II, p. 242),

 Adolf Deissmann (Lighth from the Ancient East — Luz do Oriente Antigo, 1910) usou as palavras de Cícero, para demonstrar uma diferença definida entre as formas de uma "carta genuína" e uma "epístola". Ele procurou mostrar que uma "carta genuína" era pessoal e dirigida a uma pessoa referente a um problema da situação específica. Não haveria abso­lutamente nenhum pensamento acerca de ser feita uma leitura mais extensiva, a não ser por aqueles a quem a carta estava endereçada. "Epístolas", contudo, eram dispositivos literários com uma audiência maior de leitores em mente. A "epístola" era escrita sob o pretexto de ser uma "carta" pessoal, com a finalidade expressa de ser publicada. Isto quer dizer que o autor, enquanto endereçava a carta a uma pessoa ou entidade específica, não estava tanto escrevendo para essa pessoa ou entidade quanto estava usando a forma para fazer conhecido ao mundo seu argumento. Este gênero de escrita ou composição literária é deno­minado "epistolar". Deissmann, com esta teoria, procurou mostrar que as "Epístolas" do Novo Testamento, e especial as de Paulo, eram, na verdade, "cartas particulares", e não "epístolas". É de maneira geral aceito hoje que Paulo não escreveu conscientemente neste sentido técnico. Ele escreveu para pessoas ou igrejas específicas, com problemas especí­ficos. Contudo, vê-se facilmente que as "cartas" de Paulo demonstram a autoridade apostólica consciente, que torna os conteúdos normativos para igrejas e pessoas de outras áreas e épocas. As "cartas" são bem construí­das, para demonstrarem um plano cuidadosamente elaborado. Elas são "cartas particulares" quanto ao tom, ao espírito e ao propósito; contudo, ao mesmo tempo, elas são obras-primas de composição. A extensão média das cartas particulares naquela época era de cerca de noventa palavras, e a epístola tinha a média de 200 palavras. A carta mais curta de Paulo, Filemom, tem 335 palavras, e a mais extensa, Romanos, 7.101. A média de Paulo é de cerca de 1.300 palavras para todas as suas cartas. Neste sentido, as cartas de Paulo não podem incidir dentro da categoria normal de uma carta regular. Os teores de suas cartas pressupõem algo além de uma carta particular normal. Deve ser acrescentado que os escritos de Paulo têm toda característica de uma "carta particular", mas a universalidade dos conteúdos fez com que eles fossem classificados sob o termo técnico de composições literárias conhecidas como "epístolas".

 

MÉTODO DE COMPOSIÇÃO 

O secretário profissional entrou em proeminência durante a época do elevado interesse nas comunicações pessoais e comerciais. Nas famílias mais abastadas e em casas comerciais, provavelmente um escravo bem instruído seria o "secretário particular". Normalmente, contudo, a maior parte das cartas era escrita por um escriba profissional, chamado amanuense. Se a carta era um tanto extensa, oamanuense provavelmente colocaria o ditado numa forma de taquigrafia e posteriormente o transcre­veria numa forma mais requintada. O remetente então colocaria sua assinatura e encarregaria um mensageiro, através de quem a carta seria enviada. Se o mensageiro fosse um amigo de confiança, talvez o remetente lhe daria alguma outra informação ou instrução para entrega oral pessoal (ver Ef 6:21,22; Cl 4:7,8). 

A carta usual começaria com o nome do remetente e um título que o identificaria ao receptor, cujo nome também apareceria na saudação introdutória. Então seguiria a saudação normal de "alegria" ou "graça" (os judeus usavam o termo "paz"). Uma oração de graças e petição pelo receptor seria então escrita. Depois do corpo da carta, as saudações finais seriam escritas pela mão do remetente, se possível. Como o secretário público era Comumente pago pelo número de linhas, consistindo de dezesseis a vinte letras, a maioria das cartas eram bem curtas. A tinta era geralmente de tipo inferior e tinha que ser molhada constantemente. O papel era de papiro,numa forma enrolada. O amanuense escrevia no rolo de papiro e o cortaria no número de "páginas" necessárias. As cartas de uma página seriam, então, enroladas e dobradas, depois amarradas e seladas com cera.

 

A IMPORTÂNCIA DE PAULO 

É impossível colocar-se demasiada ênfase na vida e obra de Paulo quanto ao seu efeito sobre o cristianismo. Paulo é o autor de cerca da metade do Novo Testamento. Dos vinte e sete livros do Novo Testamento, pelo menos treze foram escritos por este único homem, e quanto aos quatorze livros restantes, Paulo tem grande influência sobre Lucas (que escreveu os dois volumes de Lucas-Atos) e de algum modo está por trás da Epístola aos Hebreus. Quando se reconhece que a maioria de suas cartas foram escritas antes de qualquer um de nossos Evangelhos canônicos, pode-se prontamente ver que Paulo, através de suas cartas, exerceu grande influência sobre o movimento cristão primitivo inteiro. Embora suas cartas tenham sido escritas para localidades e pessoas específicas, os problemas de que ele tratou eram universais em caráter e em princípio. O conselho que ele dava e suas interpretações teológicas e éticas dos ensinos do Senhor Jesus Cristo tornaram-se doutrinas básicas do cristia­nismo. Embora tenha havido outros homens de grande influência na formação da direção do cristianismo, nenhum exerceu maior influência que Paulo de Tarso.

 

UMA CRONOLOGIA DA VIDA DE PAULO 

O que se conhece acerca da vida de Paulo encontra-se somente em Atos e em seus escritos antigos, conforme preservados no Novo Testamento. Assim, muito pouco se conhece acerca de Paulo antes de seu aparecimento em Atos 7:58. Para se ter informação sobre seus primeiros anos, é necessário colher-se os poucos dados disponíveis do Novo Testamento e interpolar-se nestes dados o que se conhece acerca da época em que Paulo viveu, um rapaz judeu da diáspora que recebera treinamento rabínico em Jerusalém.

 A palavra que Lucas usou para apresentar Paulo a seus leitores em Atos 7:58 pode referir-se a qualquer pessoa do sexo mas­culino de até quarenta anos de idade. Isto indicaria que Paulo nasceu próxi­mo ao início da era cristã. O pai de Paulo, judeu da tribo de Benjamim (Fp 3:5) e fariseu (At 23:6), era cidadão romano que vivia no importante centro metropolitano de Tarso, na Cilícia, Ásia Menor. A cidade era um centro de educação, superado no tempo de Paulo somente por Atenas e Alexandria. Como seu pai era cidadão romano, Paulo herdou essa cidadania. Dentro do círculo da família, ele teria recebido suas primeiras instruções religiosas de seus pais e, um pouco mais tarde, teria frequentado a escola da sinagoga local, como qualquer criança judia. Talvez ele também tenha frequentado uma das muitas universidades de Tarso, para obter uma educação mais formal nos princípios de retórica, lógica e filosofia. Isto, contudo, é somente conjetura baseada na maneira pela qual Paulo demonstrou, em suas cartas, sua familiaridade com a argu­mentação filosófica vigente. Ele tinha dois nomes dados, um em latim (Paulus), que denotaria sua cidadania legal romana, e o outro em hebraico (Saulo), que seria usado na família e nos círculos judaicos. O nome em grego é uma transliteração do nome latino, e não uma tradução do nome hebraico. Dos irmãos e irmãs de Paulo, sabe-se somente que ele tinha uma irmã morando em Jerusalém na ocasião de sua prisão lá (At 23:16).

 Em certa época, nos anos iniciais de Paulo, ele foi enviado a Jerusalém para estudar a lei rabínica, sob a orientação do bem conhecido Mestre Gamaliel (At 22:3). Pareceria que Paulo estava em Jerusalém durante o ministério ativo e a ocasião da morte de Jesus. Contudo, Paulo não dá certeza se viu Jesus nos dias em que esteve em carne (II Co 5:16). Houve muita discussão acerca de se Paulo foi casado alguma vez. Pelo fato de que era necessário um rabi ser casado e era uma vergonha um adulto não ser casado, é mais provável que Paulo fora casado. Contudo, porque não há nenhuma referência em suas cartas acerca de uma esposa, é lógico pressupor-se que ela morrera antes da perseguição ativa, de Paulo, da igreja, conforme registrado em Atos 8. Alguns interpretaram as palavras de Paulo em Atos 26:10 "...dei o meu voto contra eles quando os matavam" — como significando que Paulo fora um membro do Sinédrio. Estas palavras dificilmente significam nada mais que Paulo concordava com o julgamento do conselho. Um "mancebo" (At 7:58) dificilmente pertenceria a um conselho de "anciãos" (At 5:21). Em nenhuma parte, em suas cartas, Paulo sugere que tenha sido membro da corte suprema judaica. Atos 9:1,2 e 22:5 apresentam Paulo como sendo mais um funcionário que membro do Sinédrio.

 Em Atos, Paulo aparece pela primeira vez na ocasião da morte de Estevão. Foi o zelo farisaico de Paulo pelas "tradições dos pais" que o levou a um conflito severo com os seguidores de Jesus (Fp 3:5-9). Ele era um dos líderes, e, provavelmente, o mais ardoroso, na persegui­ção inicial da igreja pelos líderes religiosos judeus. Quando os crentes fugiram de Jerusalém, Paulo pediu e recebeu permissão do sumo sacerdo­te para procurar e prender os cristãos que ele esperava encontrar em Damasco (At 9:1,2). Como fariseu leal e consciencioso, Paulo realmente pensava que estivesse fazendo a Deus um serviço ao tentar destruir a nova seita blasfema (At 22:3; 26:9; ver João 16:2, onde Jesus havia predito tal ação).

 A conversão de Paulo na estrada para Damasco deve ter sido vista por Lucas como um dos mais importantes acontecimentos do cristianismo primitivo. Há três narrativas deste evento em Atos: uma narrada por Lucas (9:3-19) e duas por Paulo (22:6-16; 26:12-18). Embora haja algumas variações em cada uma das narrativas, estas podem ser explica­das pelo propósito de cada narrativa e a audiência para a qual cada uma foi pretendida. O elemento importante é que a experiência na estrada de Damasco transformou Paulo de um perseguidor fanático da igreja em seu mais ardente e capaz defensor e propagador.

 

De Gálatas (1:17,18) sabe-se que Paulo passou algum tempo em Damasco, foi para a Arábia e retornou a Jerusalém depois de três anos. Ele foi recebido com suspeita pelos irmãos de Jerusalém, até que Barnabé o aceitou e apresentou aos apóstolos (At 9:26,27). Uma trama dos judeus helenizantes contra sua vida fez a igreja persuadi-lo a deixar Jerusalém. Ele assim o fez, e foi para sua cidade de Tarso (At 9:28-30). Dos anos passados em Tarso nada se sabe. Possivelmente uns dez anos foram passados lá. Esses anos são chamados os "anos de silêncio" do ministério de Paulo.

 Lucas registra que Barnabé, enviado pela igreja em Jerusalém a Antioquia da Síria, foi a Tarso para obter a ajuda de Paulo em seu trabalho entre os gentios de Antioquia (At 11:25). Atos 11:27-30 também registra uma "visita na época da fome" a Jerusalém por Paulo e Barnabé, que não é mencionada em mais nenhuma parte no Novo Testamento. Os anos de fome ocorreram nos dias de Cláudio César (41:54 d.C.) e por volta da época da morte de Herodes Agripa I (44 d.C). Há vários problemas críticos sobre a harmonização de Atos 11-12 com Gálatas 2. Neste ponto pressupõe-se que Gálatas 2 se refere à viagem de Paulo a Jerusalém, conforme apresentada em Atos 15.

 Depois de terem retornado de Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados para fazerem o que é Comumente chamado a "Primeira Viagem Missionária" (At 13:1-14:28). Esta viagem de fundação de igrejas foi limitada à Ilha de Chipre e às regiões da Ásia Menor sul-central, conhecidas como Panfília, Pisídia, Licaônia e Lícia. Isto foi identificado por W. Ramsay, como parte da província romana da Galácia. Ao retornarem a Antioquia, para relatar sobre seu trabalho, Atos expõe o problema que os levou à Jerusalém, conforme Atos 15. Este mesmo acontecimento é apresentado em Gálatas 2:1 como tendo acontecido quatorze anos após a saída apressada de Paulo daquela cidade, para Tarso. Atos 15 e Gálatas têm tantos dados em comum que pouca dúvida pode haver de as duas passagens se referirem à mesma ocorrência. Supondo-se que as referências de Paulo são das viagens que ele fez a Jerusalém, para consultar os apóstolos lá, na ocasião, é mais provável que a visita de Atos 11-12 não foi mencionada em Gálatas. Tendo obtido a aprovação da igreja em Jerusalém, sobre seu trabalho entre os gentios Paulo e Barnabé retornaram a Antioquia e passaram mais algum tempo lá (At15:35). Este escritor crê que foi durante sua estadia em Antioquia antes da Segunda Viagem Missionária que Paulo escreveu a Epístola aos Gálatas.

 Na Segunda Viagem Missionária (At 15:36-18:22), Paulo e Silas visitaram as igrejas anteriormente estabelecidas e viajaram paraTrôade. Impedidos, pelo Espírito Santo, de evangelizarem mais na Ásia Menor, eles atravessaram para a Europa e fundaram igrejas na Macedônia e em Acaia. Quando esteve em Corinto (Acaia), Paulo entrou em contato com Priscila e Áqüila, judeus cristãos que haviam recentemente sido expulsos de Roma por Cláudio. O edito de expulsão foi ordenado no nono ano do reinado de Cláudio (cerca de 49d.C). Foi de Corinto que Paulo escreveu as duas cartas à igreja de Tessalônica (na Macedônia). Depois de dezoito meses em Corinto, Paulo foi acusado por judeus descrentes perante Gálio, o novo pro cônsul romano. Gálio chegou a Corinto por volta de 51 d.C, para assumir suas funções. Paulo foi inocentado das acusações trazidas contra ele e, após passar um pouco mais de tempo em Corinto, viajou, via Éfeso e Jerusalém, para Antioquia da Síria, chegando na primavera de 52 d.C.

 A narrativa da Terceira Viagem Missionária é transferida quase que inteiramente para o ministério de três anos de Paulo em Éfeso (At 19). Quando em Éfeso, Paulo escreveu pelo menos três cartas à igreja em Corinto: uma carta perdida (referida em I Co 5:9), a I Coríntios canônica, e uma carta "angustiosa" (referida em II Co 2:4; 7:8). De II Coríntios (12:14; 13:1), sabe-se que Paulo fez uma rápida visita a Corinto e voltou a Éfeso. Deixando Éfeso após o tumulto, Paulo foi para Trôade e depois para a Macedônia. Lá ele escreveu II Coríntios. prosseguindo para Corinto, Paulo escreveu Romanos, na antecipação de visitar Roma em seu caminho para a Espanha, depois de levar uma oferta aos santos pobres de Jerusalém (Rm 15:22-28). A Epístola aos Romanos teria sido escrita durante o inverno de 55-56 d.C.

 Em Jerusalém, Paulo foi preso e, a fim de salvar sua vida, foi enviado ao procurador Romano em Cesaréia (At 23:12-35). Em Cesaréia,ele foi julgado perante Félix, o procurador de cerca de 51-57 d.C. A datação da procuradoria de Félix é um dos itens mais indefiníveis nos estudos do Novo Testamento. Supõe-se, nesse livro, que Félix foi chamado de volta por Nero em 57 d.C, e Festo tomou seu lugar naquele ano. Atos 24:27 afirma que Félix manteve Paulo em prisão domiciliar por dois anos. Seguindo-se à chegada de Festo, tais eram as circunstâncias, que Paulo alegando a prerrogativa de cidadão romano, apelou para a corte de César. No outono de 57 d.C, a perigosa viagem de inverno até Roma se iniciou, chegando-se lá após grande apuro na primavera de 58 d.C. (At 27:1-28:14). Lucas não relata em Atos o resultado do julgamento perante Nero, mas ele dá a entender que, após dois anos de confinamento, Paulo foi posto em liberdade (At 28:30), por volta do ano 60 d.C. Durante os dois anos em Roma, Paulo escreveu as Epístolas da prisão: Filemom, Colossenses, Efésios e Filipenses. 

Com o encerramento de Atos, qualquer história de maior atividade de Paulo deve vir ou de seus escritos ou dos pais antigos da Igreja. Clemente de Roma (por volta de 96 d.C.) escreveu que Paulo foi solto e pregou até "as extremidades do Ocidente". Para um romano, isto só poderia significar Espanha, a Península Ibérica. Das Epístolas Pastorais, sabe-se que Paulo voltou para o Oriente, passando por Creta, Éfeso, Trôade e Macedônia, mas não, necessariamente, nessa ordem. Provavel­mente, da Macedônia ele escreveu I Timóteo, tendo enviado Timóteo anteriormente a Éfeso. Ou da Macedônia ou de Corinto, Paulo escreveu a Epístola a Tito, que ele havia deixado em Creta. Dos historiadores romanos, sabe-se que, em 19 de julho de 64, Roma foi incendiada, e, para transferir a suspeita de sua pessoa, Nero pôs a culpa nos cristãos. Porque Paulo, um notável líder da Igreja, havia sido julgado uma vez perante Nero, pensa-se que Nero ordenou sua prisão e retorno a Roma, para julgamento. Foi durante este segundo aprisionamento em Roma que II Timóteo foi escrita. Uma tradição antiga afirma que Paulo foi martirizado durante o ano do incêndio de Roma. A evidência para esta tradição é mais forte que a sugestão de Paulo e Pedro, ambos, terem sido mortos no ano da morte de Nero (68 d.C.). Portanto, Paulo foi decapitado pelas autoridades romanas conforme se supõe em 29 de junho de 65.

 Deve ser reconhecido que, por causa de dados conflitantes entre os historiadores antigos e o uso de pelo menos três sistemas de calendários diferentes, a maior parte das datas é, no máximo, só aproximada. As de precisão razoável são: a morte de Herodes Agripa I (44 d.C), o decreto de Cláudio, expulsando os judeus de Roma (49 d.C), a designa­ção de Gálio (51 d.C), o incêndio de Roma (64 d.C), e a morte de Nero (9 de junho de 68). Mediante estas datas, uma história razoavelmente precisa da vida de Paulo pode ser construída:

 

A.D.1 .........................   Nascimento

33-34  .......................   Conversão

45 ..............................  Visita a Jerusalém pela época da fome

46-48 ......................... Primeira Viagem Missionária

49................................ Conferência de Jerusalém (dezessete anos após sua conversão)

49-52.........................   Segunda Viagem Missionária

52-56.........................   Terceira Viagem Missionária

56-57.........................   Prisão em Jerusalém e dois anos na prisão em Cesaréia

57-58.........................   Viagem a Roma

58-60.........................   Primeiro aprisionamento em Roma

60-64.........................   Viagem a Espanha, Creta, Macedônia e Acaia

64-65.........................   Prisão, segundo aprisionamento em Roma e morte

 

O NÚMERO E CLASSIFICAÇÃO DAS CARTAS DE PAULO 

As Cartas Perdidas de Paulo — Em uma das mais antigas cartas de Paulo, ele escreveu acerca de seu hábito de escrever (II Ts 3:17). A não ser que este item de informação se refira somente a Gálatas e I Tessalonicenses, todas as cartas anteriores, de Paulo, sejam lá quantas tenham sido, perderam-se para nós. De I Coríntios 5:9, sabe-se que Paulo escrevera a carta mais antiga àquela igreja. Talvez uma parte dessa "carta perdida" esteja preservada em II Coríntios 6:14-7:1, embora nem todos os estudiosos estejam de acordo com esta ideia. Também se sabe de II Coríntios 2:4 e 7:8 que Paulo escrevera ainda outra carta a Corinto. Alguns estudiosos sentem que II Coríntios 10-13 é uma parte dessa "carta angustiosa". Paulo também menciona em Colossenses 4:16 uma carta aos laodicenses. Alguns acham que a Efésios Canônica é essa carta; outros creem que ela seja Filemom. A maioria, contudo, crê que a carta à igreja em Laodicéia está perdida. O que é certo é que Paulo escreveu muito mais do que está preservado no Novo Testamento.

 As Cartas Existentes de Paulo — Na maioria das traduções modernas, quatorze, das vinte e uma cartas, são atribuídas a Paulo. Os nomes e ordem são: Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses, I e II Timóteo, Tito,Filemom e Hebreus. Os textos gregos modernos têm como título, para estas quatorze cartas, somente a preposição "a", seguida pelo nome do receptor.

 A Ordem de Composição — É lamentável que a ordem canônica das cartas de Paulo não seja cronológica. A presente ordem é basicamente a de extensão e se é escrita a uma igreja ou a um indivíduo. Romanos é a mais extensa e Filemom a mais curta. As nove primeiras são dirigidas a sete igrejas diferentes, e as quatro últimas, a três indivíduos diferentes. Por causa de problemas críticos, Hebreus é colocada por último no corpus paulino, embora alguns dos manuscritos gregos mais antigos a tenham entre Romanos e I Coríntios. Uma ordem cronológica talvez mostrasse mais claramente os problemas encontrados por uma igreja que emergia e indicaria o padrão teológico em desenvolvimento, de Paulo e da Igreja. O método a seguir, de agrupamento das cartas, é baseado na narrativa contida em Atos e em informação colhida das próprias cartas. Este agrupamento não é conclusivo, mas é usado para mostrar o acordo geral entre os estudiosos do Novo Testamento, numa aproximação ao estudo do Novo Testamento.

 

1.  Epístolas escritas durante a Segunda Viagem Missionária (49:52 d.C): I e II       Tessalonicenses, de Corinto. 

2.  Epístolas escritas durante a Terceira Viagem Missionária (52-56 d.C): I Coríntios, de Éfeso; II Coríntios, da Macedônia; Gálatas e Romanos, de Corinto.

 3.  Epístolas escritas de Roma durante o primeiro aprisionamento romano (58-60 d.C): Efésios, Filipenses, Colossenses, Filemom. 

4.  As Epístolas Pastorais (62-65 d.C): I Timóteo, da Macedônia; Tito, da Macedônia ou de Corinto; II Timóteo, de Roma, pouco antes da morte de Paulo.

 Outra maneira de classificação é ver-se a ordem cronológica como representando ênfases teológicas especiais. A correspondência tessalonicense lida com escatologia; as cartas da Terceira Viagem Missionária tratam, primariamente da soteriologia; as cartas da prisão acentuam a cristologia; as pastorais têm a eclesiologia como a ênfase dominante. Este agrupamento teológico não é conclusivo, porque muitas das cartas contêm todas estas doutrinas; mas a ênfase teológica principal de cada uma é observada.

 Deve-se ressaltar, todavia, que muitos estudiosos do Novo Testamento, incluindo este escritor, creem que Gálatas foi escrita de Antioquia da Síria, antes da Segunda Viagem Missionária. Outros sentem que Efésios foi escrita muito mais tarde, por um discípulo de Paulo, como introdução a uma coleção das cartas de Paulo. Alguns acham que, de algum modo, Paulo está por trás da Epístola aos Hebreus como autor, dando ao amanuense completa liberdade em sua composição e publicação, esta última tendo ocorrido após a morte de Paulo e antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C.

 A Preservação e Coleção das Cartas de Paulo — Num estudo em profundidade, das cartas de Paulo, conclui-se que ele escreveu tanto como pastor quanto como "mestre dos gentios" (I Tm 2:7). A maioria de suas cartas existentes foi escrita para situações específicas; contudo, Paulo foi capaz de distinguir entre a ordem do Senhor e seu próprio conselho pessoal (I Co 7:6, 25, 40). Algumas de suas cartas parecem ser dirigidas a uma audiência mais ampla, ao invés de a um grupo específico. A Epístola aos Efésios é basicamente deste tipo. Contudo, mesmo nesta, ele escreveu com a consciência de sua chamada como apóstolo. Paulo cria possuir autoridade, e que sua palavra era de importância, quer para situações locais quer para uma audiência mais universal. Nem todas as suas cartas, todavia, foram suficientemente universais em sua aplicação, e muitas deixaram que se perdessem. A referência em Apocalipse 3:16 à apostasia da igreja em Laodicéia pode indicar que a carta a essa igreja, referida em Colossenses 4:16, não foi preservada por essa razão. Pela época de II Pedro (68 d.C), contudo, "todas as cartas de Paulo" estavam sendo aceitas em paridade com "outras escrituras". Seria de grande interesse e importância saber-se o que "todas as cartas de Paulo" e as "outras escrituras" abrangem, mas seria apenas conjetura, a esta altura, na pesquisa bíblica. 

Embora Clemente de Roma e Inácio de Antioquia conhecessem algumas das cartas de Paulo, a coleção concreta e existente mais antiga é o Cânon de Marcião, de cerca de 140-150 d.C. Esta lista inclui uma coleção editada de dez cartas de Paulo (em ordem: Gálatas, I e II Coríntios, Romanos, I e II Tessalonicenses, Laodicenses (Efésios), Colossenses, Filipenses e Filemom). As Pastorais foram, provavelmente, rejeitadas pelo fato de Marcião ter sido um gnóstico. O Fragmento Muratoriano (cerca de 180 d.C.) inclui as Pastorais nas treze epístolas de Paulo, Hebreus não estando na coleção. O mais antigo manuscrito grego (P 46 ) das epístolas de Paulo que foi preservado data de cerca do fim do segundo século. Este manuscrito, pelo fato de colocar Hebreus entre Romanos e I Coríntios, indica Paulo como sendo o autor de Hebreus. II Tessalo­nicenses, Filemom e as Pastorais estão ausentes do manuscrito preserva­do, mas a ausência poderia ser devida à possível perda das últimas folhas, que conteriam estas cinco cartas.

 É impossível fixar-se uma data para a primeira coleção completa das epístolas de Paulo. O que é certo, contudo, é que há ampla evidência, do final do primeiro século e início do segundo, de que as cartas de Paulo circulavam largamente e eram estimadas como autoridade em doutrina. A história da preservação e colecionamento destas cartas perdeu-se para nós. Contudo, o processo deve ter-se iniciado cedo conforme está evidente na declaração contida em II Pedro 3:15,16, e porque a coleção foi aceita pelo final do segundo século.

 

METODOLOGIA 

Numa introdução como a que este volume pretende ser, é necessário focalizar-se a atenção sobre os problemas críticos literários e históricos. Existem, naturalmente, problemas particulares para cada carta e grupo de cartas. As ligações entre Colossenses, Filemom e Efésios dificilmente podem ser negligenciadas. Muitos são os problemas acerca da correspon­dência dos Coríntios, e as Pastorais apresentam problemas críticos inteira­mente próprios.

 A ordem cronológica não foi determinada com nenhuma certeza, e, portanto, em várias introduções, varia grandemente. Para facilitar, ao leitor, o autor seguiu a ordem canônica

FONTE EBDAREIABRANCA