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sete selos do apocalipse CAP.6 - 8.1
sete selos do apocalipse CAP.6 - 8.1

 

      Os SETE SELOS6.1—8.1

 

Chegamos agora a três séries de julgamentos: os Sete Selos (caps. 6—7), as Sete Trombetas (caps. 8—11) e as Sete Taças (caps. 15—16). A escola de interpretação histórico-contínua (historicista), encontra nisso um retrato de suces­sivos ciclos de julgamentos durante essa época. Provavelmente, uma melhor perspectiva seria entendê-los como ciclos concêntricos de julgamento, descrevendo basicamente a mesma coisa, mas com figuras simbólicas diferentes. Como sempre, o número sete indica inteireza. É importante observar que o sétimo selo desemboca nas sete trombetas e a sétima trombeta desemboca nas sete taças. Assim, as três séries estão intimamente liga­das umas às outras.

 

Os sete selos têm sido chamados de “Cenário da História de Sofrimento”. Arrepiamo-nos ao pensar nos julgamentos que sobrevirão a este mundo farto de pecado.

 

 

O Primeiro Selo: Conquista (6.1,2)

 

 

Quando o Cordeiro abriu o primeiro selo do rolo, João ouviu como em voz de tro­vão (1). Essa era a voz alta de um dos quatro animais (“criaturas viventes”).

 

Os primeiros quatro rolos formam uma série. Cada um é introduzido por um chama­do em alta voz de uma das quatro criaturas viventes, seguido do aparecimento de um cavalo e um cavaleiro. Uma sugestão definida então é dada quanto ao que ele simboliza.

Vem e vê deveria ser apenas “Vem!”. As palavras E vê não estão no melhor texto grego, aqui ou nos versículos 3, 5 e 7. Alguns escribas evidentemente entenderam isso como um chamado a João para vir e ver o que iria acontecer. Fausset comenta: “É mais provável que seja o clamor dos redimidos ao seu Redentor: “Vem liberta a criatura em agonia da escravidão da corrupção”. O sentido correto provavelmente é o que Simcox apresenta: “O sentido completo da frase é que cada uma das criaturas viventes, alternadamente, convoca um dos quatro cavaleiros”.

 

A abertura do primeiro selo revela um cavalo branco; e o que estava assen­tado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso e para vencer (2).

 

Num primeiro momento, o significado disso parece óbvio: o cavaleiro do cavalo bran­co é Cristo (cf. 19.11-16). Esse é o ponto de vista de Lange. Ele escreve: “O triunfo isolado de Cristo, como apresentado aqui, tem se prolongado através do Triunfo da Igreja; ele aparece como uma formação de hostes vitoriosas em cavalos brancos”. Fausset concor­da com isso. O mesmo ocorre com Lenski, que identifica o cavaleiro como a Palavra de Deus e acrescenta: “O portador, o cavalo, é branco, que é a cor de santidade e do céu”.

 

Mas o contexto parece não permitir essa interpretação. Swete diz: “Uma visão do Cristo vitorioso seria inapropriada na abertura de uma série que simboliza derrama­mento de sangue, fome e pestilência. Em vez disso, temos aqui a figura de um militaris­mo triunfante”. Semelhantemente, Love diz: “Por isso, uma vez que guerra, fome e morte são resultados de uma conquista, o ‘branco’ aqui deve ser a vitória, não de pureza, mas de uma conquista egoísta e luxuriosa”. Erdman apresenta um ponto de vista um pouco diferente: “O primeiro representa os períodos de paz concedidos, na providência de Deus, sob o Império Romano, e a ser repetido diversas vezes na história do mundo”. Foi a conquista romana que trouxe paz.

 

O Segundo Selo: Guerra (6.3,4)

 

Dessa vez o cavalo é vermelho (4). O significado disso é claramente indicado pelo que segue. O cavaleiro do cavalo vermelho recebeu poder para que tirasse a paz da terra e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada — simbolizando uma grande destruição. Claramente, o vermelho representa um imenso derramamento de sangue.

 

O Terceiro Selo: Fome (6.5,6)

 

O terceiro cavalo era preto (5). O cavaleiro tinha em suas mãos uma balança. O simbolismo disso é imediatamente explicado: Uma medida de trigo por um dinhei­ro; e três medidas de cevada por um dinheiro (6). A medida era pouco mais de um litro, que era “a média diária de consumo de um trabalhador”. Um dinheiro era um denarius, que, pelo que tudo indica, representava o salário de um dia (Mt 20.2). Isso significava que o preço da fome era tão alto que levaria tudo que um homem ga­nhasse só para alimentar a si próprio, se comesse trigo. Por outro lado, ele poderia comprar três quartos de cevada — a comida das pessoas pobres — e ter o suficiente para uma família pequena.

 

À proclamação de preço é acrescentada uma admoestação: e não danifiques o azeite e o vinho. Esse seria o azeite de oliva e suco de uva fermentado. Swete observa: “Trigo e cevada, óleo e vinho, formavam a dieta básica da Palestina e da Ásia Menor”.

 

O significado provável dessa advertência é explicado por Charles. Ele escreve: “De­vido à falta de cereais e à superabundância de vinho, Domiciano emitiu um édito [...] que nenhuma vinha nova deveria ser plantada na Itália, e que a metade das vinhas nas províncias deveria ser destruída”. Mas Suetônio registra o fato que o decreto imperial causou um alvoroço tão grande nas cidades asiáticas que ele precisou ser revogado. Em vez disso, foi imposto um castigo para aqueles que deixassem de cultivar as suas vinhas! Charles acha que João está aqui registrando um protesto contra essa atitude egoísta: “Consequentemente, ele prediz uma época difícil, em que os homens terão azeite e vinho em abundância, mas sofrerão da falta de pão”. É possível que o decreto de Domiciano tenha sido o motivo das palavras aqui.

 

O Quarto Selo: Morte (6.7,8)

 

Agora aparece um cavalo amarelo (8). A palavra grega é chloros, que significa um “verde descorado”. Swete comenta: “encontramos essa palavra na Ilíada de Homero (vii. 464) para “pálido de medo”. Swete comenta: “O cavalo ‘descorado’ ou ‘pálido’ é um símbo­lo de Terror, e seu cavaleiro uma personificação da Morte [...] com quem segue — quer no mesmo ou num outro cavalo ou a pé, o autor não para de dizer ou mesmo de pensar — em seu companheiro inseparável, o Hades”.

 

Mas havia um limite para o estrago do ceifeiro severo, a Morte, e o celeiro avarento, O Hades. Eles têm poder para destruir a quarta parte da terra. O tempo do julgamen­to final ainda não havia chegado.

 

Os dois algozes matam usando quatro métodos: espada [...] fome [...] peste [...] (a palavra grega evidentemente significa “peste” ou “pestilência” aqui e com frequência na LXX) [...] feras da terra. Há uma referência óbvia a Ezequiel 14.21: “Porque assim diz o Senhor JEOVÁ: Quanto mais, se eu enviar os meus quatro maus juízos, a espada, e a fome, e as nocivas alimárias, e a peste”. Os termos gregos são os mesmos nas duas passa­gens, em que apenas a ordem dos dois últimos é invertida. Feras selvagens multiplicam-se e tornam-se mais ferozes em tempos de fome e pestilência.

 

A visão dos quatro cavaleiros em abrir os primeiros quatro selos encontra um para­lelo impressionante em Zacarias 6.1-3. Ali o profeta vê quatro carros puxados por cava­los que eram respectivamente vermelhos, pretos, brancos e grisalhos e fortes. Aqui um dos cavalos é branco, os outros vermelho, preto e verde pálido, respectivamente. Como Swete observa: “O Apocalipse toma emprestado somente o símbolo dos cavalos e suas cores e em vez de colocar os cavalos em cangas diante dos carros ele coloca um cavaleiro em cada um deles em quem o interesse da visão é centrado”.

 

Qual é a aplicação desses primeiros quatro selos? Representando a interpretação preterista, Swete encontra aqui o militarismo e a obsessão pela conquista que era característica do Império Romano daquela época, repetida com frequência na história desde então.

 

Típico daqueles que defendem a interpretação historicista, Barnes entra em mais detalhes. O primeiro selo representa um período de prosperidade e conquista com uma duração de cerca de 90 anos depois que o Apocalipse foi escrito (i.e, até 180 d.C.). Basean­do-se em grande parte no livro Decline and Fali ofthe Roman Empire (Declínio e Queda do Império Romano) de E. Gibbon, Barnes descreve esse período com grandes detalhes. O segundo selo representa os 92 anos após o assassinato de Commodus em 193 d.C., quando não menos de 32 imperadores e 27 pretendentes mantiveram o império em um estado de guerra civil constante. O terceiro selo simboliza um período de impostos opres­sivos e restrições severas à liberdade do povo. Barnes aplica o quarto selo ao período que vai de 248 até 268d.C., quando a espada, a fome e as pestes, de acordo com Gibbon, causaram a morte da metade da população do império.

 

A interpretação futurista entende que esses selos se referem a julgamentos terríveis sobre a humanidade no fim dessa era. Por exemplo, Kuyper diz que “o que está sendo apresentado aqui precede o final imediato de todas as coisas, a vinda do Anticristo e o retorno do Senhor”.

 

O Quinto Selo: Martírio (6.9-11)

 

A abertura do quinto selo revelou debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram (9). Não há aqui criaturas viventes nem uma voz clamando: “Vem”. O significado dessa mu­dança é observado por Swete: “Com o quinto selo, a Igreja vem a luz, em relação à sua perseguição e sofrimento [...] A quebra do quinto selo interpreta a época da perseguição e mostra sua relação com o plano divino na história”. Não precisa de muita imaginação para constatar que isso poderia se aplicar igualmente à perseguição romana aos cristãos (preterista), às várias perseguições de verdadeiros crentes ao longo da era da Igreja, especialmente pela igreja católica romana (historicista), e também aos mártires da Grande Tribulação no final desta era (futurista). Concordar com uma dessas teorias não exclui­ria sua verdade em relação às outras. A posição sensata aparentemente é aceitar todas as interpretações dessa passagem como válidas e significativas.

 

Debaixo do altar é talvez uma referência ao fato de que o sangue da oferta pelo pecado deveria ser derramado “à base do altar do holocausto” (Lv 4.7). “O altar em estu­do aqui é o correlativo do Altar do Holocausto, e as vítimas que foram oferecidas sobre ele são os membros mortos como mártires da Igreja, que seguiram seu Cabeça no exemplo da sua morte sacrificial”.

 

A linguagem da última parte desse versículo é semelhante à linguagem em 1.9, que encontra eco novamente em 12.11, 17; 19.10; 20.4. A repetição de por (dia, por causa de) sugere duas causas do martírio. Essas testemunhas fiéis eram mortas por causa da sua confissão no único e verdadeiro Deus, em contraste com o politeísmo e adoração ao imperador daqueles dias, e do seu testemunho de Jesus como o único Senhor e Salvador. O Martírio de Policarpo relata que pouco antes desse venerável bispo ser morto em 156 d.C., ele foi impelido pelo pro cônsul romano a salvar a sua vida ao fazer duas coisas: 1) “Jure pelo nome de César [...] e diga: ‘Fora com aqueles que negam os deuses”; 2) Desonre a Cristo”. A resposta de Policarpo tem sido citada com frequência: “Oitenta e seis anos o servi e Ele nunca me tratou injustamente. Como posso agora blasfemar contra meu Rei que me salvou?”.

 

Há muitas advertências na Palavra de Deus de que o martírio pela fé vai novamente se tornar comum no fim dos tempos. Precisamos orar pelo mesmo espírito de coragem que foi mostrado pelos antigos mártires da Igreja.

 

As almas debaixo do altar clamavam (aoristo, somente uma vez) com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra (10). Dominador não é o termo comum kyrios, masdespotes (cf. déspota). Esse é um título para Deus na Septuaginta e duas vezes no Novo Testamento (Lc 2.10; At 4.24). Ele também é usado para Cristo duas vezes (2 Pe 2.1; Jd 4). Aqui não está claro se o termo é empregado para Deus ou para Cristo. As palavrasverdadeiro e santo são usadas para Cristo em 3.7.

 

O clamor por vingança tem causado uma certa consternação nos cristãos atuais. Mas Swete nota que “a santidade e verdade do Supremo Mestre requer o castigo de um mundo responsável pelas suas mortes. As palavras somente afirmam o princípio da re­tribuição divina, que proíbe o exercício da vingança pessoal”.

 

Para cada mártir foi dada uma veste branca (stole, sing.) simbolizando pureza e vitória. Essa palavra grega é encontrada outra vez em 7.9, 13-14. O termo repre­senta uma roupa longa que era um tipo de um símbolo de status. Essas vítimas do martírio eram, na verdade, vencedores. Foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seusconservos e seus irmãos que haviam de ser mortos como eles foram. Sua espera será um repouso e será por um período curto. Quando os propósitos de Deus estiverem com­pletos, virá o fim.

 

O Sexto Selo: O Fim dos Tempos (6.12-17)

 

O primeiro sinal do fim que pode ser observado é um grande tremor de terra (12). Esse aspecto provavelmente é um eco de Ageu 2.6-7 (LXX): “Porque assim diz o SE­NHOR dos Exércitos: Ainda uma vez, daqui a pouco, e farei tremer os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca; e farei tremer todas as nações”. A última frase sugere que a referên­cia não é somente a um terremoto físico, mas também a revoluções raciais, políticas e sociais. É interessante observar que terremoto é seismos e “farei tremer” é seiso.

 

Outros terrores são indicados: e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue. Essa citação é semelhante à de Joel 2.31: “O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR”.

 

Outros fenômenos são observados: E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte (13). A linguagem é a de Isaías 34.4: “E todo o exército dos céus se gastará [...] e todo o seu exército cairá como cai a folha da vide e como cai o figo da figueira”.

 

A sentença que omitimos dessa citação de Isaías: “e os céus se enrolarão como um livro” é similar à próxima frase de Apocalipse: E o céu retirou-se como um livro que se enrola (14). O autor acrescenta a seguinte predição: e todos os montes e ilhas foram removidos do seu lugar. Sempre haverá uma discussão se essa linguagem deve ser entendida literal ou figuradamente. Mas por que não as duas formas? Como no caso de 2 Pedro 3.10-12, a idade atômica abriu os nossos olhos para o fato de que uma linguagem tão severa, há muito tempo taxada como uma expressão poética de uma ima­ginação fértil, pode se cumprir com uma exatidão horrível.

 

Nessa visão terrível dos últimos dias, João viu homens de todas as camadas da sociedade (são mencionadas sete classes), de reis a escravos, se esconderem nas caver­nas e nas rochas das montanhas (15). Eles diziam aos montes e aos rochedos para que caíssem sobre eles (cf. Os 10.8) e os escondessem do rosto daquele que está as­sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro (16). Que paradoxo impressionante: a ira do Cordeiro! Alguém disse que a ira de Deus é o amor de Deus represado pela desobediência do homem, até que seja emanado no julgamento justo.

 

O motivo de procurar se esconder é claro: porque é vindo o grande Dia da sua ira; e quem poderá subsistir? (17). Já ocorreram muitos dias do julgamento de Deus sobre o pecado e homens pecaminosos. Mas o grande Dia da sua ira — uma combina­ção de “o dia do Senhor” (Jl 2.11, 31. Zc 1.14) e o “dia da ira do Senhor” (Sf 1.15,18; 2.3) — ainda está por vir. Excederá em muito qualquer coisa de que se tem notícia.

 

Interlúdio: Os Servos de Deus São Selados (7.1-17)

 

O capítulo 7 forma um tipo de interlúdio entre o sexto e o sétimo selos. A abertura do sétimo selo (8.1) revela as sete trombetas. Assim, essas duas séries de sete estão interligadas.

 

Este capítulo divide-se naturalmente em duas partes, como é indicado pela frase E, depois destas coisas, vi nos versículos 1 e 9. O que João viu foi a Igreja Militante na terra (vv. 1-8) e a Igreja Triunfante no céu (vv. 9-17).

 

a.       Os cento e quarenta e quatro mil são selados (7.1-8). João viu quatro anjos que estavam sobre os quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem contra árvore alguma(1). Os julgamentos de Deus precisavam ser retidos por um período. Cada um dos quatro anjos estava parado em um dos quatro cantos da terra — significando as quatro direções da bússola — retendo (segurando firme, mantendo sob controle) os quatro ventos da terra, simbolizando os julgamentos que estavam prestes a ocorrer. Nenhum furacão deveria varrer a terra ou o mar, nem derrubarárvore alguma.

 

João então viu outro anjo subir da banda do sol nascente (2) — literalmente “que subia do nascente do sol” (ARA). Ele tinha o selo do Deus vivo. selo “é aqui o anel de sinete [...] que o monarca Oriental usa para dar validade a documentos oficiais ou para marcar sua propriedade”. Paulo usa essa figura diversas vezes (2 Co 1.22; Ef 1.13; 4.30). Talvez o paralelo mais próximo no Novo Testamento seja 2 Timóteo 2.19: “Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus”. O simbolismo aqui em Apocalipse está provavelmente relacionado com o texto de Ezequiel 9.3-4, em que um homem vestido de linho e levando um tinteiro de escrivão recebe a ordem de marcar um sinal na testa de todos os justos em Jerusalém. Aqueles que não tinham essa marca deveriam ser mortos.

 

Os quatro anjos foram advertidos: Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que hajamos assinalado na testa os servos do nosso Deus (3). O uso de nosso Deus sublinha o fato de que tanto santos quanto anjos servem o mesmo Senhor.

 

O número selado era cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos dos filhos de Israel (4). Mas o que representam exatamente os cento e quarenta e quatro mil? Essa é uma pergunta que tem recebido inúmeras respostas. Alguns entendem que o número indica o remanescente eleito de Israel (cf. Rm 11.5). Outros acham que se trata dos cristãos judeus. Afigura cento e quarenta e quatro mil não deve ser tomada literal­mente, mas simbolicamente. Ela representa aqueles que “foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro” (14.4). O número (12 x 12 x 1.000) significa uma multidão grande e completa. Provavelmente, o melhor ponto de vista seja aquele que diz que os cento e quarenta e quatro mil representam “todos os fiéis”. Esse parece ser o caso pela descrição dos cento e quarenta e quatro mil em 14.1-5.

 

Na lista das doze tribos (vv. 5-8) aparece um problema: Por que Dã é omitida? Em diversas listas do Antigo Testamento (Nm 1.5-15,20-43; 13.4-15) o nome de Levi é deixa­do fora — “Mas os levitas, segundo a tribo de seus pais, não foram contados entre eles” (Nm 1.47). Isso ocorria porque eles eram separados para um serviço sagrado especial. Para que o número continuasse sendo doze, a tribo de José era dividida em duas tribos, Efraim e Manassés. Eles são mencionados separadamente aqui, em que José (8) está no lugar de Efraim.Levi (7) é incluído.

 

Isso continua deixando em aberto a questão da omissão de Dã. Essa tribo está fal­tando nas listas genealógicas de 1 Crônicas 2.3—8.40. O mesmo ocorre com Zebulom, por alguma razão desconhecida.

 

Foi sugerido que Dã é deixado fora porque essa era a primeira tribo a enveredar pelo caminho da idolatria (Jz 18). Os antigos escritos rabínicos ressaltam a apostasia de Dã. O Testamento dos Doze Patriarcas (uma obra pseudepigráfica) sugere uma aliança entre Dã eBelial.

 

Duesterdieck diz: “O simples motivo de a tribo de Dã não ser citada está no fato de que ela já tinha sido extinta muito antes do tempo de João”. Mas, evidentemente, o mesmo ocorreu com as outras dez tribos do norte.

 

A explicação mais antiga, endossada amplamente pelos antigos Pais da igreja, foi primeiro oferecida por Irineu (segundo século). Ele entendia que Dã foi omitida porque o Anticristo deveria emergir dessa tribo (cf. Jr 8.16). Charles insiste que “essa tradição da origem do Anticristo é pré-cristã e judaica”.

 

A ordem das tribos conforme relacionadas aqui, tem evocado considerável discussão. Depois de mencionar Judá e Manassés, Charles afirma: “As tribos restantes são relaciona­das em ordem completamente ininteligível”. Swete apresenta uma explicação mais lógi­ca: “A ordem apocalíptica começa com a tribo da qual Cristo veio [...] e então continua para a tribo do filho primogênito de Jacó, que encabeça a maioria das listas do AT. Em seguida vêm as tribos localizadas no Norte, interrompidas pela menção de Simeão e Levi, que em outras listas geralmente seguem Rúben ou Judá; enquanto as tribos de José e Benjamim são mencionadas por último”. Ele acrescenta: “Essa organização parece ter sido sugerida em parte pela ordem de nascimento dos patriarcas e em parte pela situação geográfica das tribos”. J. B. Smith traz uma apresentação lógica ao colocar os nomes em pares, em vez de em triplas como são encontradas na versificação das nossas Bíblias.

 

b.      A multidão dos redimidos (7.9-17). João viu uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas (9) parada diante do trono no céu. As vezes, somos tentados a sentir que somente algumas pessoas estão servindo o Senhor. Mas o total de redimidos de todos os tempos e todas as nações é uma multidão incontável.

 

Eles trajam vestes brancas — símbolo de pureza e vitória — e levam palmas nas suas mãos, como fez a multidão alegre na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Jo 12.13). Swete habilmente observa: “Acena de Apocalipse 7.9ss. antecipa a condição final da humanidade redimida. Semelhantemente à Transfiguração antes da Paixão, ela pre­para o vidente a enfrentar o mal que está por vir”.

 

A multidão dos redimidos clama: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro (10). Aqui, como ocorre com frequência no Novo Testamento, Cristo é adorado junto com o Pai. Todos os anjos, os vinte e quatro anciãos, e as qua­tro criaturas viventes se unem na adoração (v. 11). O relato do louvor (v. 12) é sétuplo, como em 5.12. Cada um dos sete itens leva o artigo definido no texto grego, enfatizando-os individualmente.

 

Um dos anciãos (13) ofereceu-se para explicar a visão a João (cf. 5.5). Ele primeiro fez uma pergunta dupla acerca daqueles que estavam trajando vestes brancas: quem são e de onde vieram? João respondeu: Senhor, tu sabes (14) — literalmente: “tu tens conhecimento” (tempo perfeito). Então vem a explicação: Estes são os que vieram de grande tribulação — literalmente: “Estes são os que estão vindo de grande tribulação”. Essa frase tem levado ao nome “A Grande Tribulação”, por um breve período (três anos e meio ou sete anos), no fim dos tempos. Muitas vezes fala-se que a referência aqui é aos chamados “santos da tribulação” que são salvos durante a Grande Tribulação. Em certo sentido, todos os cristãos precisam passar “por muitas tribulações” (At 14.22). Mas, no fim dos tempos haverá um período de muita aflição que bem poderia ser entendido como a Grande Tribulação (cf. Dn 12.1). Essa continua sendo uma pergunta aberta, se, de fato, a referência aqui deveria ser restrita aos santos desse breve período.

 

Os redimidos são descritos como aqueles que lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. A ideia das vestes serem literalmente lavadas para se tornarem brancas no sangue é paradoxal. Mas essa não é uma linguagem literal. Toda a história da salvação é um paradoxo, em que muitos intelectuais sofis­ticados têm tropeçado. O fato continua o mesmo: a única forma de salvação é aceitar humildemente a expiação provida pelo Filho de Deus, que derramou o seu sangue para todos os pecadores.

 

Somente os lavados pelo sangue podem ficar diante do trono de Deus (15) e des­frutar da sua presença para sempre. Eles o servem de dia e de noite no seu templo. O céu é um lugar de descanso, mas não de preguiça ou inatividade. Templo não é hieron, usado para o tempo em Jerusalém, mas naos, “santuário”. No antigo Tabernáculo e no Templo posterior somente os sacerdotes e levitas podiam entrar no santuário. Mas agora todos os crentes são sacerdotes e podem servir no santuário. Swete observa: “O ‘templo’ é aqui a Presença divina, compreendida e desfrutada”. Ele faz essa aplicação prática para o presente: “Mas a visão de adoração incessante é compreendida somente quando a vida em si é entendida como um serviço. A consagração de toda vida para o serviço de Deus é um alvo para o qual nossa adoração presente aponta”. Na última frase do versículo 15 ele comenta: “O serviço perpétuo encontrará seu estímulo e sua recompensa na visão perpétua daquele que é servido”.

 

O Eterno, que está assentado sobre o trono, os cobrirá com a sua sombra. O verbo é skenosei — literalmente, “estenderá a tenda ou tabernáculo”. Somente João usa essa palavra. Apocalipse 21.3 é semelhante à declaração empregada aqui. Em João 1.14 o termo é usado para a Encarnação: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós”. A vinda de Cristo para a terra preparou o caminho para todos que aceitassem a sua salvação e desfrutassem da presença de Deus para sempre no céu. Assim, essa parte da frase pode ser traduzida da seguinte forma: “E aquele que está assentado no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo” (NVI).

 

A bem-aventurança dos redimidos é descrita mais adiante da seguinte maneira: Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calma alguma cairá sobre eles (16). A linguagem desse versículo e uma boa parte do próximo versículo são tomadas por empréstimo de Isaías 49.10: “Nunca terão fome nem sede, nem a calma nem o sol os afligirão, porque o que se compadece deles os guiará e os levará mansamen­te aos mananciais das águas”. E, assim, nós lemos: porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida (17). Há uma reflexão aqui não só de Isaías 40.11 e Ezequiel 34.23, mas também do amado Salmo 23. Somente Cristo é a Água da Vida (cf. Jo 4.14).

 

O capítulo termina com a bela promessa: e Deus limpará de seus olhos toda lágrima. Isso é repetido em 21.4. Swete observa: “Na verdade, todo o episódio de 7.9-17 tem eco nos últimos dois capítulos do livro, onde o clímax aqui introduzido é descrito de forma mais completa”.

 

Os capítulos 6 e 7 apresentam contrastes marcantes. Richardson observa: “O sexto capítulo conclui com uma pergunta: ‘quem poderásubsistir?’ O capítulo sete dá a respos­ta”. São os salvos e selados pelo sangue de Cristo. Da combinação encontrada no capítu­lo 7 ele diz: “Vitória e alegria por meio de luta e tribulação é a mensagem desse livro”.

 

c.       O Sétimo Selo: Silêncio (8.1)

 

Quando o sétimo selo foi aberto, fez-se silêncio no céu quase por meia hora; isto é, por um breve período. Aparentemente, esse era o silêncio da apreensão, a calma súbita antes da tempestade. McDowell sugere: “As multidões do céu são para­lisadas e ficam mudas enquanto olham extasiadas para o Cordeiro enquanto ele move a sua mão para quebrar o último selo do rolo que ele havia tomado da destra de Deus”. Richardson chama esse momento de “um silêncio de ‘suspense e tremor’, uma pausa dramática; um silêncio de reverência, expectativa e oração”. Charles é um pouco mais específico: “Os louvores das ordens mais elevadas dos anjos no céu são silenciados para que as orações de todos os santos sofredores na terra possam ser ouvidas diante do trono. Suas necessidades são de maior importância para Deus do que toda a salmodia do céu”.

 

Bibliografia Ralph Earle,comentatario do apocalipse 2000  www.ebareiabranca.com

 

 

A selagem dos mártires (Ap 7:1-8).

 

Consideremos os fatos abaixo enumerados, conforme os encontramos nas Escrituras, em favor da ideia que a igreja terá de atravessar a Grande Tribulação:

 

1.      O livro de Apocalipse foi escrito para confortar à igreja sob perseguição. Historicamente, isso se aplicava aos próprios dias do autor sagrado, à perseguição movida por Domiciano e pelos imperadores que se seguiram, cujos atos foram antecipados. Profeticamente, porém, isso se aplica à igreja que viverá na terra nos tempos do anticristo, o qual promoverá a mais cruel de todas as perseguições religiosas que o mundo já terá visto ou poderá ver. Ver a igreja ausente durante esse tempo é negar o propósito mesmo com que este livro foi escrito.

 

2.      Os mártires do trecho de Ap 6:9-11 têm de ser mártires cristãos, já que será somente perto do fim do período da Grande Tribulação que Israel será salva como uma nação. O vidente João não escreveu este livro a fim de consolar os mártires de Israel; escreveu para uma igreja perseguida, que já contava com muitos mártires sob Nero. Domiciano foi apelidado «segundo Nero», e o Apocalipse foi escrito durante o tempo de Domiciano, pouco antes do fim do primeiro século de nossa era. Por conseguinte, foi para «mártires cristãos» que João escreveu. Eles é que aqui pedem vingança a Deus, contra a ímpia Roma. Estão em foco mártires cristãos, que terão sofrido sob os selos segundo a quarto, e que farão o mesmo clamor contra o anticristo; e esse é o aspecto «profético» do trecho de Ap 6:9-11.

 

3.      Porém, antes do golpe final da Grande Tribulação, ou melhor, antes de desencadear-se a «ira» de Deus, no julgamento inaugurado pela vinda de Cristo (ver Ap 4:17), os mártires serão selados, e, portanto, aceitos na presença de Deus, de tal modo que a ira divina não poderá atingi-los prejudicialmente. O capítulo que temos à nossa frente descreve isso. Esse capítulo garante-nos que o martírio e todas as temíveis provações da Grande Tribulação não poderão prejudicar àquele que está firme em Cristo. Seu propósito é indestrutível, a despeito da ira do homem. Os mártires em potencial serão selados, e, portanto, protegidos de todo o dano, até que chegue o momento, dentro da vontade de Deus, de oferecerem o seu sacrifício. Se fosse da vontade de Deus, alguns crentes ou mesmo todos eles, seriam capazes de desafiar ao anticristo, até ao fim mesmo da Grande Tribulação. Mas a verdade é que os crentes, em vastos números, sofrerão o martírio (ver Ap 6:9-11 e 7:9). Observemos quão avantajado é o número deles. É impossível que pudesse continuar havendo na terra tão «inumerável» companhia de crentes, se a igreja tivesse de ser arrebatada antes da Grande Tribulação. A «selagem» protegerá os corpos deles enquanto Deus assim quiser fazê-lo: mas, principalmente, a ideia dessa selagem é que estarão protegidos da ira de Deus, que se seguirá imediatamente à Grande Tribulação, bem como estarão protegidos da ira de Deus que será desfechada durante a Grande Tribulação, a qual meramente será predição daquela ira maior que se seguirá. Seja como for, esse grupo representa o Israel espiritual, protegido em meio aos horrores da Grande Tribulação, e não retirados do meio dela.

 

4.      Tudo isso pode ser confrontado com o trecho de Mt 24:29-31. Será somente «após a tribulação» que os anjos serão enviados para recolher os eleitos, de uma à outra extremidade dos céus, de uma à outra extremidade da terra. Esses estarão «selados» até que tenha lugar esse recolhimento; e isso só terá lugar «após a tribulação daqueles dias». É impossível ver aqui a nação de Israel, já convertida, como se fosse ela, exclusivamente, quem está focalizada no quadro, embora seja verdade que a conversão de Israel antecederá à batalha de Armagedom por um bom tempo. Contudo, o trecho de Ap 7:9 e ss. certamente descreve a igreja cristã. Nesta passagem, o «Israel espiritual», embora inclua judeus convertidos, certamente é a igreja cristã. Do ponto de vista do vidente João, somente o Israel espiritual pode estar em foco; porém, do ponto de vista profético, a nação de Israel, futuramente convertida a Cristo, provavelmente também está em foco. O vidente João, ao exaltar os mártires cristãos, chama-os de «Israel espiritual». Porém, embora ele não pudesse saber disso em seus dias, uma vez que a nação de Israel se converta, sem dúvida haverá a selagem dos mártires em potencial entre eles, de tal modo que possam escapar ao poder do anticristo. A exposição abaixo aborda o problema que indaga se o Israel espiritual ou a nação de Israel é que está aqui em foco, ou se ambos são focalizados neste ponto. A maioria dos intérpretes da herança da literatura cristã tem opinado que está em pauta o Israel espiritual, de princípio a fim.

 

Certo número de intérpretes supõe que o trecho de Ap 7:1-8 fala da nação literal de Israel, ao passo que os versículos nono em seguida, desse mesmo capítulo, falam dos cristãos gentílicos, ou seja, da igreja. Outros acreditam que o mesmo grupo —a igreja— está em pauta, embora apresentada sob diferentes condições e perspectivas. Outros eliminam totalmente a possibilidade da igreja estar presente, preferindo pensar apenas na nação literal de Israel, que então terá se convertido a Cristo, uma vez que a igreja já foi arrebatada, supostamente devido ao testemunho de Israel. Esse último ponto de vista é de origem relativamente recente, dentro da história dos estudos escatológicos, não sendo aprovado pela herança geral da literatura cristã dos séculos. Tal posição moderna idealiza o arrebatamento da igreja antes da tribulação, o que é ponto de vista extremamente duvidoso, embora se tenha tornado popular em certas esferas do protestantismo evangélico de nossa época. Também supõe, essa posição, que a nação de Israel, uma vez que a igreja tenha sido arrebatada, passará a prestar testemunho ao mundo, quase desde o início da tribulação predita. Mas isso é altamente improvável, ou melhor, impossível, porque Israel, como nação, só se converterá nos estágios finais da Grande Tribulação, e não nos seus primeiros desenvolvimentos.

 

Conforme se dá com outras porções do Apocalipse, há um grande número de interpretações acerca deste sétimo capítulo. Apesar de não sermos capazes de dar resposta a muitas das questões que então se apresentam, porque somente o cumprimento dos acontecimentos preditos fornecerá a resposta exata para tudo, cremos que podemos fornecer um quadro geral do que é aqui tencionado.

 

O sétimo capítulo é considerado um parêntesis por muitos eruditos, como se fosse uma pausa entre o sexto e o sétimo selos. Mas outros estudiosos veem aqui certos aspectos do sexto selo, ainda sob consideração. O trecho de Ap 6:17 promete a ira divina contra os rebeldes. Este sétimo capítulo mostra que essa ira não poderá descarregar-se contra os selados, os quais estão justificados em Cristo. Este capítulo, pois, representa uma interrupção no ritmo e no estilo do sexto capítulo. Mas é ponto relativamente destituído de importância se o mesmo faz parte ou não da descrição do sexto selo.

 

O principal problema que envolve o capítulo à nossa frente é a identificação dos cento e quarenta e quatro mil. Isso é discutido de modo breve mais acima, e mais amplamente nas notas expositivas sobre o quarto versículo deste capítulo, onde são expostas as principais opiniões dos intérpretes. O que quer que digamos sobre os cento e quarenta e quatro mil, este capítulo certamente retrata a igreja de Cristo durante a Grande Tribulação, sofrendo sob a ferocidade do anticristo, o qual promoverá a pior perseguição religiosa de todos os séculos.

 

7:1         Depois disto vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sabre o mar, nem contra arvore alguma.

 

«...Depois disto...» Essas palavras são um artificio literário do autor sagrado, a fim de identificar uma mudança de assunto ou o desenvolvimento do mesmo assunto. Algumas vezes a expressão aparece em forma plural, «depois destas coisas», e às vezes em forma singular, como aqui. Os manuscritos minúsculos 1, 27, 30, 33, 47 e os latinos g e n apresentam aqui o plural, no grego, «tauta»; mas sem dúvida isso é secundário. A forma singular aparece aqui nos mss Aleph, acp, 046 e na maioria das versões.

 

«...vi...» Em visão

 

Esperaríamos uma descrição sobre o «sétimo» selo, mas a narrativa faz

uma pausa a fim de dizer-nos como os verdadeiros crentes, durante a Grande Tribulação, serão ou protegidos, ou então, como, a despeito do seu martírio, não serão atingidos pela ira de Deus. Esses são os que podem «resistir» no dia da ira do Senhor, sem sofrerem qualquer dano. Pouco ou nada importa se considerarmos este sétimo capítulo como a continuação da descrição sobre o sexto selo, ou se o considerarmos como um parêntesis, uma interrupção na narrativa dos selos.

 

«...em pé...» Trata-se de uma visão. Pois nenhum anjo é grande bastante para dar a impressão que está apoiado sobre o globo terrestre. Quando há tal simbolismo na Bíblia, como podemos presumir em dizer que a interpretação «simbólica» ou «mística» prejudica nosso entendimento sobre o Apocalipse? Bem pelo contrário, se sempre tentarmos interpretar este livro literalmente, nossa compreensão deste livro será fatalmente distorcida, porquanto o Apocalipse certamente é um documento de natureza «mística», devendo ser interpretado como tal. Somente a prosaica mente ocidental é que procura interpretar um livro místico de forma literal «sempre quepossível», conforme dizem alguns eruditos. A consulta das «fontes informativas» do Apocalipse, especialmente das fontes informativas dos vários apocalipses do período helenista, nos convencerá que devemos ter extremo cuidado com a interpretação literalista. Como exemplo, disso, em Ap 8:8, há um «monte» que atinge incendiado o mar, o qual poderíamos identificar de imediato como um cometa que atingirá o oceano, ou seja, um objeto físico literal. Ao assim dizermos, teremos simbolizado toda a questão, porquanto um meteorito não é um monte. E assim teremos preservado um objeto literalmente físico, como se estivesse aqui em foco. Então, ao consultar outra literatura apocalíptica, como se vê em I Enoque 18:13, onde há uma cena similar, poderíamos pensar estar confirmada essa interpretação literal. Mas, prosseguindo até I Enoque 21:3 e 108:3-6, descobriremos que esse monte é, na realidade, um anjo caído, isto é, um dos sete que cairão no mar, por terem sido expulsos por Deus dos lugares celestes, devido à sua desobediência. A terra estremecerá ante a vinda desses anjos. Talvez, então, nesse caso, o «oceano» represente as nações. Em outras palavras, o ensino pode ser que anjos caídos, ou poderosos seres demoníacos, estão sendo enviados para vexar os homens, e isso como castigo devido àquilo que os homens merecem. Quão diferente é essa interpretação daquela outra que vê aqui um meteorito a mergulhar em algum de nossos oceanos! Outrossim, a tentativa de interpretarmos o Apocalipse de maneira literal, «sempre que possível», com facilidade nos desviará para longe da verdade.

 

«...quatro anjos...» Consideremos os pontos abaixo, a esse respeito:

 

1.      O termo «anjo» pode implicar em seres angelicais literais, dotados de alguma missão especial a ser realizada na terra. O terceiro versículo deste capítulo mostra que eles têm missões de juízo a efetuar. Esses anjos tiveram de ser entravados por um outro anjo, «...que subia do nascente do sol...» (no segundo versículo). Supomos, pois, que aquilo que têm de fazer deve ser incorporado dentro do sétimo selo, talvez os juízos das «trombetas», porquanto aquilo que são impedidos de fazer (no terceiro versículo) é mais ou menos paralelo àquilo que é realmente feito (em Ap 8:7); e, de modo geral, no restante das trombetas, porquanto trarão «dano contra a terra». É possível que esses quatro anjos pertençam ao número dos sete anjos que farão soar as trombetas, mas não se pode afirmar isso com confiança absoluta. São em número de «quatro» porque exercem controle sobre as «quatro extremidades» da terra e sobre os «quatro ventos». Em cada caso, todavia, o número «quatro» fala de algo completo. A terra «inteira», pois, está debaixo do controle desses anjos, até ao ponto que Deus lhes determinar.

 

2.      Outros eruditos creem que o termo «anjo», neste caso, simboliza as operações de Deus, de sua providência, nada tendo a ver com seres celestes literais.

 

3.      É possível que o autor sagrado aluda aqui aos «quatro anjos da natureza», as forças naturais que controlam o meio ambiente terrestre, sob direção divina.

 

4.      Alguns eruditos supõem que esses anjos são maus, forças espirituais malignas que invadirão a terra nos últimos dias; mas certamente essa interpretação erra totalmente o alvo, ainda que aquela invasão também seja predita na Bíblia.

 

5.      As interpretações históricas veem aqui quatro impérios mundiais; mas estão equivocadas, sem dúvida alguma.

 

Pouca dúvida pode haver que a alusão é ao trecho de Zc 6:5, «...os quatro ventos do céu...» Isso pode ser comparado aos quatro seres viventes de Ap 4:6,7, e aos quatro cavaleiros.

 

«...quatro cantos da terra...» Os antigos pensavam que a terra fosse quadrada, e, portanto, dotada de quatro cantos. Os filósofos gregos jônicos (600 A.C.) modificaram isso, pensando ser a terra um disco; mas a maioria dos antigos, desde os tempos babilônicos, aceitava a ideia de uma terra com «quatro cantos». O vidente João contempla a terra do alto de seu ponto visionário, vendo a terra como um plano retangular, havendo um imenso anjo de pé sobre cada um de seus cantos. É indagação inútil se o vidente João cria ou não em uma terra quadrada. Sem dúvida ele assim cria, mas isso em nada prejudica a mensagem de sua visão, ainda que inclua o que agora é uma ideia cosmológica obsoleta. É tão inútil isso como tentar «modernizar» o autor sagrado, e supor que, enquanto ele escrevia, usando ideias antigas, ele mesmo sabia melhor do que elas. A questão inteira, sobre o que o vidente João pensava sobre o formato da terra, não tem peso algum para a fé, pelo que é inútil a discussão sobre a mesma, positiva ou negativamente.

 

A expressão quatro cantos, inteiramente à parte do fato se expressa ou não o formato da terra, diz-nos que esses anjos controlam a terra inteira, de todo o ponto de vista, de todos os ângulos, até ao ponto onde Deus lhes dá permissão. Portanto, podem provocar vastos juízos, se assim lhes for dado fazer. E quando soarem as trombetas, assim realmente farão; por enquanto, porém, são impedidos de agir, até que sejam selados os mártires em perspectiva.

 

«...para que nenhum vento soprasse sobre a terra...» Os anjos que se acham nos quatro cantos da terra, conservam presos os quatro ventos. Não lhes é permitido soprar e nem destruir. Também se vê nas cosmologias babilônica e outras da antiguidade, a ideia que seres angelicais ou espirituais, controlam os quatro ventos, mantendo-os sob controle desde o seu posto, nos quatro cantos da terra. Assim sendo, o vidente João uma vez mais se utiliza de uma expressão da cosmologia antiga, a qual agora nos é estranha, mas que não o era para os leitores originais do Apocalipse. Em Dn 7:2,3, vemos os quatro ventos do céu irrompendo sobre o mar, provocando destruições imensas. É óbvio que esses ventos não são literais, e, sim, alguma força cósmica e espiritual, que tem o poder de produziracontecimentos horrendos sobre a face da terra, mediante forças humanas e sobre-humanas.

 

Assim, pois, se insistirmos em uma interpretação «literal», fazendo com que esses ventos sejam quatro ventos literais, estaremos nos afastando da verdade. No Apocalipse Siríaco de Pedro, há uma advertência da parte de Deus, no sentido que quando ele soltar os quatro ventos, haverá saraiva antes do vendaval, um fogo consumidor diante do vento sul, enquanto montanhas e rochas serão partidas pelo meio pelo vento ocidental. Mas nada é dito ali sobre o quarto vento. No Apocalipse do Pseudojoão 15, a promessa de Deus é que os quatro ventos deixarão o mar limpo de todo o pecado. Por igual modo, nas Perguntas de Bartolomeu 4:31-34, aos quatro anjos será dado o poder de restringir aos quatro ventos, para não liberarem sua força destruidora sobre a terra. De modo bem geral, pois, o versículo ensina-nos que Deus controla a terra inteira; que os seus juízos são administrados como e quando ele quiser, e através dos instrumentos e eventos que melhor lhe agradarem. Outrossim, ele restringe seus julgamentos a fim de proteger os seus servos. Além desse significado geral, é perfeitamente possível que nada mais seja aqui ensinado, e que os objetos da visão, como os anjos, os quatro cantos e os quatro ventos, sejam apenas imagens necessárias para dar-nos um quadro interessante, mas que não têm qualquer significado literal ou metafísico. O número «quatro», entretanto, retém seu simbolismo de algo «completo». A terra inteira, com todos os seus acontecimentos, são controlados pela providência divina.

 

Outras ideias sobre o primeiro versículo do sétimo capitulo:

 

1.      Notemos que os ventos não poderão soprar sobre a «terra», o «mar» ou as «árvores», em que o número «três» entra em ação. Esse é o número divino. Assim, por conseguinte, Deus se relaciona à terra, e esta, finalmente, estará totalmente vinculada ao Senhor. De maneira geral, a terra (a parte seca), o mar (as águas) e as árvores (a vegetação) representam as várias condições existentes em nosso globo terrestre literal, que podem sofrer dano dos ventos (ou julgamentos) de Deus.

 

2.      Este versículo, tal como grande parte do Apocalipse, diz-nos claramente que Deus pode intervir e realmente fará intervenção na história humana. Os homens se destruiriam totalmente se Deus assim não fizesse. Mas uma intervenção divina devolverá aos homens o bom senso. O novo ciclo, o milênio, seguir-se-á aos terríveis juízos da Grande Tribulação. Alguns desses sofrimentos serão produzidos pelos homens, mas outros procederão de levantes naturais da natureza, e outros virão de uma direta intervenção divina. Isso expressa aposição do «teísmo», a ideia que o Criador continua presente conosco, pois faz intervenção e castiga ou galardoa aos homens. Em contraste com isso, o «deísmo» afirma que o criador se divorciou do seu próprio universo, deixando que as leis naturais o governassem em seu lugar, pelo que também não faria intervenção direta e nem estaria interessado em galardoar ou punir aos homens.

 

3.      Deus protegerá certo número de mártires em potencial, a fim de que sejam testemunhas por toda a terra e desafiem com sucesso ao anticristo. Lembremo-nos do caso de Jó. Deus o protegeu, até onde lhe pareceu melhor. Nenhum dos esquemas de Satanás conseguiu prejudicá-lo de modo contrário à vontade divina. O nono versículo deste capitulo mostra-nos que haverá um imenso número de mártires, embora isso venha a suceder por permissão de Deus. Os mártires receberão privilégios espirituais especiais, conforme se vê em Ap 6:9-11; e a ira de Deus não os atingira. Portanto, na realidade, serão tanto protegidos como altamente privilegiados. Todas as obras de Deus são boas, e eventualmente haveremos de perceber isso. Nesse ínterim, as provações demonstrarão que muito podemos sofrer com elas.

 

4.      «O desentendimento chega a proporções fantásticas quando alguém se propõe a interpretar literalmente a símbolos alegóricos, e quando, por outro lado, a explicação regular dessas figuras alegóricas é denominada de interpretação alegórica. Com igual justiça, poder-se-ia dizer que o ‘semeador’ do decimo terceiro capitulo de Mateus, e um semeador literal, e que devemos interpretar espiritualmente a sua pessoa, como uma exposição alegórica. Por mais abortivas que sejam quase todas as interpretações de tais figuras alegóricas, assim sucede porque não dão suficiente importância para a chave que lhes é oferecida pelo estilo de expressão poética e profético-simbólico» (Lange, in loc.). Esse autor, ao assim falar, quer dizer que devemos interpretar simbólica ou alegoricamente livros como o Apocalipse, os quais nos transmitem sua mensagem nesse estilo. O fato que muitas interpretações falsas são apresentadas por esse método não e contrário ao fato que a verdadeira interpretação deve, sem dúvida alguma, provir desse método. Deixar de compreender isso é ignorar a tradição inteira da literatura apocalíptica, a qual, até onde as expressões dizem respeito, forma a base deste livro.

 

5.      Há interpretações alegóricas que provavelmente estão equivocadas, no tocante a este versículo: a. O mar seriam as nações, e a terra seria Israel: b. o mar seria a Europa e a terra seria a Ásia, ao passo que as árvores seriam a Áfri­ca; c. as árvores seriam os poderes elevados e a grama seria as autoridades secundárias. Essas interpretações estão equivocadas porque podem chegar à mensagem correta sem entrarmos em particulares ridículos.

 

6.      Também não devemos tentar ver aqui a luta entre o paganismo, a heresia ou Roma, por um lado, e os ministros do evangelho e a igreja, por outro lado. Antes, temos aqui um quadro sobre a ira de Deus, que espera atingir a terra inteira, visando especialmente os que se mostram rebeldes contra Deus.

 

7.      O vento sacode e derruba por terra os figos temporãos, fora da estação certa, produzindo assim uma contradição da natureza (verAp 6:13). Assim também os juízos de Deus, os ventos, têm o poder de produzir muitas formas de catástrofes contra os homens que rejeitam o seu devido destino em Cristo.

 

8.      «Quem pode resistir?» (Ap 7:17). Aqueles que estão solidamente fixados no solo do evangelho de Cristo são aqueles que serão selados, e, portanto, resistirão aos ventos do juízo divino. Diz o trecho de Jr 49:36,37: «Trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro ângulos do céu, e os espalharei na direção de todos estes ventos. ...farei vir sobre os elamitas o mal o brasume da minha ira, diz o Senhor...» (Isso também pode ser comparado ao trecho de Dn 7:2: «Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o Grande Mar»), «Mas essas tempestades não surgirão, para sacudir uma única folha, enquanto não estiver completa a selagem dos servos de Deus» (Carpenter, in loc.).

 

7:2         E vi outro anjo subir do lodo do sol nascente, tendo o selo do Deus vivo; e clamou com grande voz aos quatro anjos, a quem fora dado que danificassem a terra e o mar,

 

«... outro anjo que subia do nascente do sol...» Há uma cena similar a esta, em II Baruque 6:4 - 8:1. Ali há quatro anjos que estão prestes a incendiar a cidade de Jerusalém, com o propósito de impedir que caia na idolatria, devido à influência dos babilônios. Um quinto anjo veio impedi-los em suas intenções, até que objetos sagrados fossem retirados do templo. Então a cidade foi incendiada. Por igual modo, aqui, o quinto anjo impede que quatro outros lancem terrores sobre a terra. É de presumir-se que os juízos das trombetas sejam esses terrores, os quais, tal como no segundo livro de Baruque, finalmente tiveram permissão de ocorrer, mas não sem que primeiro alguns propósitos divinos fossem realizados.

 

Identificação do quinto anjo, o refreador. 1. Alguns estudiosos pensam que o próprio Cristo está aqui em foco. 2. Mas outros pensam em algum ser angelical literal, guiado por ordem de Cristo. 3. Outros supõem que esse anjo é totalmente simbólico, representando a providência de Deus, que dispõe de muitos meios e métodos de operação.

 

«...nascente do sol...» O grego é aqui literalmente traduzido, embora seja mais provável que esteja em foco apenas o «oriente». Não sabemos dizer por que razão essa direção específica foi indicada. Talvez a ideia seja que assim como o sol nasce e inaugura um novo dia, renovando as esperanças, assim também, em meio aos mais aterrorizantes juízos, haja alguma esperança na providência de Deus, que faça o sol brilhar sobre os favorecidos do Senhor.

 

«...grande voz...» Uma expressão favorita do vidente João, expressando uma «mensagem autoritária», que chama a atenção e realiza tudo quanto tenciona fazer. Isso pode ser comparado aos trechos de Ap 5:2,12; 6:10; 7:10; 8:13; 10:3; 12:10; 14,7,8,15,18 e 19:17.

 

«...tendo o selo do Deus vivo...» Esse anjo tem a tarefa de «selar» aos cento e quarenta e quatro mil, a fim de protegê-los dos horrores desfechados pelo anticristo, os quais são aplicados no terceiro versículo. Não nos é revelado que tipo de «selo» será esse. O trecho de Is 44:5 menciona a «inscrição» do nome de Yahweh sobre as mãos dos fiéis, para identificá-los como pertencentes a ele. (Ver um paralelo disso em Ap 14:1. E talvez este versículo também seja um paralelo). Esse é um dos tipos de selos. II Esdras 6:5 mostra-nos como os fiéis foram selados antes da criação, a fim de assegurar sua bem-aventurança durante os tempos messiânicos. A passagem de Ez 9:1-8 ,encerra cena similar a esta, quando seis anjos são retratados como preparados para destruir os habitantes de Jerusalém, quando então um sétimo anjo fá-los estacar por um momento, a fim de «assinalar as testas» dos justos, a fim de não serem prejudicados. E em Salmos de Salomão 15:8, os justos recebem uma marca sobre a testa, a fim de serem preservados das pragas, da fome, da espada e da pestilência, julgamentos que serão lançados contra os ímpios. No Talmude (Shabbath 55a) os justos são marcados a tinta, ao passo que os ímpios trazem a marca de sangue, impressa sobre eles. O trecho de II Esdras 2:38 é o mais próximo paralelo que existe da presente passagem, onde aparecem «confessores» ou «testemunhas», assinalados de tal modo que permanecem até ao final de grandes provações, sem sofrerem dano.

 

Esse selo, essa marca na terra, é o equivalente contrário da marca da besta, no que diz respeito aos justos, ao passo que a marca do anticristo identifica os seguidores de uma religião e de um sistema político iníquos. (Ver Ap 13:16 e 14:9 acerca disso).

 

«...Deus vivo...» Temos aqui um título frequente de Deus, no A.T. e nos escritos judaicos helenistas, salientando o fato que Deus é a única deidade verdadeira, em contraste com os «ídolos mortos» ou «imaginários», que não têm vida, e portanto, não têm poder. O Deus vivo confere vida aos homens, a saber, a sua própria modalidade de vida, de tal modo que os remidos virão a participar da imagem e natureza do Filho (ver Rm 8:29).

 

Sobre o Deus vivo, no N.T., ver Jo 6:69; At 14:15; Rm 9:26; II Co 3:3; 6:16; I Ts 1:9; 4:10; 6:17; Hb 3:12; 9:14; 10:31; 12:22.

 

Outras ideias sobre o segundo versículo:

 

1.      Alguns eruditos pensam que esse «selo» representa o batismo em água. Apesar de ser verdade que o batismo é, por assim dizer, um selo, porquanto nos identifica com a morte e a ressurreição de Cristo, transmitindo-nos os benefícios de ambas—pelo que seria símbolo de tal transmissão, é impossível ver como o batismo poderia estar em pauta aqui. Notemos que essa selagem separa os «mártires em potencial», e não todos os crentes. Portanto, não pode estar em pauta o batismo na água, porquanto o batismo não visa somente esse grupo especial.

 

2.      Vários intérpretes veem nesse «selo» a certeza especifica de que os mártires serão imortais, não podendo ser prejudicados espiritualmente pelos terrores do anticristo, isentos de qualquer dano provindo da ira de Deus (ver Ap 6:17). Isso significaria que não serão necessariamente preservados do martírio. Por algum tempo serão testemunhas, desafiando ao anticristo. Se forem mortos, isso não lhes trará nenhuma consequência adversa à alma. Mas outros estudiosos pensam estar em foco a preservação física dos mártires, como algo, pelo menos, incluído. Esses resistiriam aos sucessivos esforços dos malignos poderes do anticristo, até que a segunda vinda de Cristo houver de libera-los de sua tarefa.

 

3.      A bênção preservadora virá do oriente. Será dada por meio do Sol da Justiça, que traz cura em suas asas, segundo se lê em Ml 4:2.

 

4.      Outros intérpretes veem nesse símbolo o sinal da «cruz», aposta na testa dos mártires. O sinal real e sagrado, no livro de Ezequiel, é a cruz ou letra «T», símbolo da vida. No Testamento de Salomão, um espirito maligno declara que enfrenta a destruição vinda da parte do Messias, e que pode ser derrotado por qualquer um que traga o número do Messias inscrito em sua testa.

 

5.      As palavras «do nascente do sol», isto é, o oriente, na opinião de alguns, indicaria a Palestina, que fica a oriente da ilha de Patmos. Assim poderia estar em foco o próprio «Cristo», que como homem nasceu na Palestina, sendo ele o anjo que instruiu os outros quatro anjos a agirem antes da hora. Mas essa interpretação parece um tanto fantasiosa.

 

6.      Em meio às trevas e dos juízos iminentes, a Luz brilha no oriente. Isso simbolizaria a esperança eterna. O trecho de II Tm 2:19menciona duas inscrições possíveis do selo, ou, pelo menos, o que elas significam: «O Senhor conhece os que lhe pertencem»; e: «Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor». Esse é o firme fundamento de Deus. Os antigos atribuíam poderes mágicos às marcas secretas, selos e inscrições. Mas não há qualquer arte mágica no selo de Deus, mas tão-somente esse selo pode realizar a tarefa que lhe é determinada, por causa do poder divino que esta por detrás do mesmo.

 

7.      Alguns intérpretes forçam o presente texto, comparando-o com outros escritos que mencionam selos, conferindo ao versículo a ideia da predestinação dos eleitos. Trata-se de uma doutrina bíblica, embora ela nunca se verifique às expensas do livre-arbítrio humano. Ambas essas ideias fazem parte das Escrituras. O presente texto não parece estar relacionado ao tema da eleição.

 

7:3         dizendo: Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as Arvores, até que selemos na sua fronte os servos do nosso Deus.

 

Este versículo reitera, essencialmente, o que dizem o primeiro e o segundo versículos deste capítulo.

 

«...Não danifiqueis...» (Ver as notas expositivas sobre essas áreas distintivas no primeiro versículo deste capítulo). É provável que o autor sagrado tencionasse fazer uma descrição completa dos elementos terrestres, as áreas de terras, as áreas marítimas e as áreas de vegetação, e não de áreas geográficas específicas como a Europa, a Ásia e a África, conforme alguns têm proposto. Os juízos que sobrevirão (quando do soar das trombetas) afetarão a terra inteira, bem como todas as áreas ocupadas pelo homem e pelos demais seres da terra. Os «quatro ventos» trarão os desastres necessários.

 

«...até selarmos...» Essa questão é amplamente discutida nas notas expositivas sobre o versículo anterior.

 

«...suas frontes...» Isso também é discutido no segundo versículo. O «nome de Deus», a «cruz» ou outro sinal qualquer, como o «número do Messias», etc., será escrito na testa dos referidos santos e em sua «mão direita», se este versículo é paralelo aos trechos de Ap 13:16 e 14:9.

 

«...servos...» Tradução mais exata seria «escravos». Não há motivo para esse termo ser aqui suavizado. Os discípulos de Deus são escravos, por estarem totalmente sujeitos à sua vontade, não tendo vida própria, exceto aquilo que os ajuda a cumprirem o alvo de sua existência.

 

Nos tempos antigos, os escravos eram «marcados a fogo», isto é, recebiam o «selo» de seus respectivos senhores. Os escravos que eram guardiães dos templos pagãos, ou mesmo os não-escravos que se devotavam especialmente a algum deus ou culto, com frequência eram marcados com o nome dessa divindade, ou com algum símbolo místico de seu culto. Ptolomeu IV Filopater ordenou que os judeus alexandrinos fossem marcados com uma folha de hera, o sinal de Dionísio, conforme se vê em III Macabeus 2:29. Filo, em de Monarch,repreende os judeus que se permitiram marcar dessa maneira, sem importar quanto lhes custou resistir a tal marca. É a práticas como essas que o vidente João alude; e os leitores originais do livro teriam compreendido perfeitamente o que está envolvido. Existirão algumas pessoas, como os mártires em potencial e as «testemunhas» do período da Grande Tribulação que obterão dedicação absoluta à causa de Cristo, nada havendo que possa separá-los do amor de Deus, que cumprirá neles todos os propósitos divinos relativos àquela época em particular.

 

Significados desse selo. Isso pode ser melhor percebido através dos pontos seguintes:

1. Proteção, do dano físico ou do dano espiritual, incluindo a ira de Deus (ver Ap 6:17).

2. Segurança, em meio ao período da Grande Tribulação, mas também na vida eterna.

3. Proteção contra os poderes demoníacos, que ajudarão ao anticristo em suas tentativas de sujeitar todos os homens a si mesmo, apagando da terra a memória do Deus vivo. O que tiver de suceder, durante o julgamento das trombetas, deixará isso claro. Ver também o caráter satânico do poder do anticristo, no décimo terceiro capítulo deste livro.

4. A passagem de Ap 13:15 pode indicar que essa proteção será espiritual, e não física; e alguns intérpretes defendem exatamente esse ponto de vista. Todos esses «mártires em potencial» serão, de fato, martirizados. Alguns conseguirão sobreviver por mais tempo do que outros; mas todos sucumbirão (ou, pelo menos, praticamente todos). Não obstante, estarão todos seguros em Cristo. Isso é o que o «selo» lhes garante.

5. Essa selagem preservará os mártires da apostasia espiritual, o que sempre é uma grave ameaça, em tempos de profunda tensão e pressão religiosa.

 

Outras ideias sobre o terceiro versículo.

 

1.      Os homens podem olvidar-se de Deus, ou abandonar a confiança nele, em meio às tempestades de perseguição. Uma das lições espirituais deste versículo é que isso não é necessário, pois quando a fé é profunda, isso nos assegura a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio às piores tempestades. A essência da fé verdadeira é que ela é tão firme que pode manter sua firmeza quando todas as nossas circunstâncias externas contribuem para destruir essa certeza. A fé consiste da outorga da própria alma aos cuidados de Cristo, em que todo valor e preciosidade estão concentrados no outro mundo. A fé é um dos aspectos do fruto do Espirito, Gl 5:22, ou seja, um produto do desenvolvimento espiritual. O indivíduo cujo desenvolvimento espiritual é superficial, sucumbirá em tempos difíceis, porque a sua fé também será, necessariamente, superficial.

 

2.      Não será fácil alguém ousar crer, quando o anticristo passar a promover a pior de todas as perseguições religiosas da história, algo que não terá sido igualado nem mesmo nos tempos de Nero e de Domiciano. Nos e nossos filhos viveremos naqueles dias, o que é pensamento extremamente solene!

 

3.      O selo aposto na testa dos eleitos de Deus pode ser comparado aos trechos de Êx 28:36-38 e Ez 9:4.

 

4.      Nem um único cristão pereceu na destruição de Jerusalém, no ano 70 D.C. Por conseguinte, nisso temos uma lição no sentido que Deus pode preservar aos homens em meio às mais conturbadas situações.

 

5.      No A.T., os «servos» de Deus são seus escravos. Os justos são, automaticamente, «escravos de Deus», porquanto toda vida e existência tem origem e alvo na pessoa de Deus. O simbolismo inteiro do décimo quarto capitulo deste livro é extraído do A.T., tal como se dá com grande parte do Apocalipse. E isso é mesclado, aqui e ali, com pontos extraídos da literatura judaica helenista.

 

6.      A «selagem» é garantida pelo poder espiritual, pelo poder do Espírito de Deus. Ele nos provê proteção e salva do poder do hades e da morte. Entendemos que Deus habita conosco mediante o seu Espírito Santo. Portanto, todas as suas promessas, que foram feitas por estarmos associados como filhos de Deus com o Filho, deverão cumprir-se devidamente.

 

7:4         E ouvi o número dos que foram assinalados com o selo, cento e quarenta o quatro mil de todas as tribos dos filhos do Israel:

 

Chegamos agora à dificílima questão da identificação dos cento e quarenta e quatro mil. Há três posições extremadas, que mencionaremos em primeiro lugar, que são as de menor probabilidade de estarem com a razão:

 

1.      A mais ridícula de todas as interpretações, que tem surgido em várias eras da história eclesiástica, é aquela que faz alguma «seita», «grupo» ou «denominação» de Cristãos ser aquela companhia. Dessa forma os homens se têm glorificado estupidamente a si mesmos.

 

2.      É também extremada a posição daqueles que pensam que os cento e quarenta e quatro mil representam exclusivamente a nação de Israel. Isso ignora totalmente a base histórica deste livro, pois, sem dúvida alguma, o vidente João visualizava os «mártires em potencial» como membros da igreja cristã, como o «Israel espiritual».

 

3.      Por igual modo, é extremada a posição dos que pensam estar aqui em pauta somente a igreja, o Israel espiritual. Há muitas predições bíblicas que indicam a futura restauração de Israel, como nação, em que ela se converterá totalmente a Cristo (ver Rm11:26). Os místicos contemporâ­neos predizem a conversão da nação de Israel nos fins do nosso século XXI, quando o sinal da cruz aparecer no firmamento (que seria o sinal do Filho do homem), o que dará início à intervenção divina que livrará a nação israelita de adversários esmagadoramente superiores em número, que a estarão ameaçando de total extinção. É razoável supormos que após esse acontecimento, Israel se torne testemunha da verdade cristã, subsequente à Terceira Guerra Mundial mas antes da batalha do Armagedom, a qual fará parte ainda de uma outra guerra (subsequente àquela que levará Israel à conversão). Supõe-se que primeiramente haverá a Terceira Guerra Mundial e depois, Armagedom (4a Guerra mundial), na primeira quarta parte do século XXI. Então se seguirá o milênio. Em algum ponto desses acontecimentos uma boa parte da nação de Israel será selada e virá a pertencer ao número dos cento e quarenta e quatro mil, sendo eles testemunhas de Cristo acerca daquele período de agonia.

 

4.      Conjecturamos, pois, que o número «144.000» é simbólico, e não literal, envolvendo alguns elementos da igreja gentílica e outros da convertida nação de Israel, que serão instrumentos especiais da graça de Deus durante o período de Grande Tribulação, como testemunhas, embora não venham a ser necessariamente preservados do martírio, conforme parece indicar o trecho de Ap 13:15, e onde se tem a impressão que nenhum deles escapará ao martírio.

 

5.      O nono versículo deste capítulo pode aludir a um grupo de mártires à parte dos cento e quarenta e quatro mil. Ou então poderia estar ali em foco o mesmo grupo de pessoas, embora sob uma descrição diferente. Todavia, o fato que se trata de uma multidão «incontável», mostra que estão em pauta mais do que os cento e quarenta e quatro mil, embora certamente estejam inclusos naquele número. Os mártires serão mais do que o número específico de cento e quarenta e quatro mil, sendo que esse número determinado tem algum propósito especial divino para a época da Grande Tribulação. Ou então os cento e quarenta e quatro mil são um número que «simboliza» a companhia inteira dos mártires. (Ver o ponto «oitavo», mais abaixo).

 

6.      Rejeitamos aquela interpretação que faz dos cento e quarenta e quatro mil algum «grupo seleto» de crentes, extraídos dentre todas as eras da história da igreja. Pois pertencem aos últimos dias tão-somente.

 

7.      Historicamente falando, o vidente João deve ter tido em mente a igreja cristã. Isso poderia ser entendido de dois modos diversos: 1. Seriam judeus cristãos, que haveriam de sofrer martírio durante o tempo dos imperadores romanos. 2. Ou seria o «Israel espiritual», sem qualquer tentativa de dividir a igreja em judeus e gentios. A última dessas posições é a mais provável e correta. Portanto, supomos que se o vidente João fosse interrogado acerca do que ele quis dizer, responderia tratar-se do «Israel espiritual». Todavia, devemos encarar o texto também de acordo com seu aspecto profético. Desse modo, devemos incluir a nação literal de Israel, em conjunção com a igreja cristã, como testemunha em favor de Cristo, naqueles horrendos tempos do fim que logo nos alcançarão.

 

8.      O vidente João pode ter tido em mente o número de mártires que será preenchido antes do segundo advento de Cristo. (Ver Ap6:11 sobre esse conceito). Os cento e quarenta e quatro mil, pois, representariam um número místico, dotado de algum sentido simbólico, ao referir-se sobre a companhia dos mártires do fim, embora, em seu número real, em muito excedessem aos cento e quarenta quatro mil. Parece que tal cifra indica a multiplicação dos «doze» por «doze», e então por «mil», dando a ideia de «número completo». Acerca do número «doze» Lange, em sua introdução, na página 15, declara: «Doze (3 X 4), número do mundo espiritual; portanto, número do ‘alicerce’, da ‘medição’ e da ‘consumação’ do reino de Deus. Número da plenitude das manifestações carismáticas, bem como número da restauração terminada. Número real e celestial de algo terminado». Esse raciocínio se adapta bem ao conceito do número «necessário» de mártires, conforme se vê em Ap 6:11.

 

Há ainda outros pontos de vista sobre o simbolismo desse número, a saber:

 

1.      De acordo com alguns, esse número se derivaria do conceito de «setenta», que simbolizaria a totalidade de Israel (ver Gn 46:27); ou se derivaria da igreja, representada em seus líderes (ver o décimo capítulo do evangelho de Lucas; e comparar com as setenta nações do décimo capítulo do livro de Gênesis). A «forma mais completa» poderia ser «setenta e dois», mas a forma mais completa desse simbolismo seria representada por 72 X 1000 X 2 = 144.000.

 

2.      O total de «doze mil», proveniente de cada tribo, simbolizaria igual participação nas graças e na proteção divinas por parte de cada tribo.

 

3.      O doze resulta da multiplicação de três por quatro, ou seja, a ideia divina multiplicada pela ideia da extensão mundial (porquanto quatro é o número simbólico da terra, segundo se vê nas notas expositivas acerca do primeiro versículo deste capítulo). Doze multiplicado por doze, portanto, implicaria em fixidez e número completo. O número mil subentende um mundo perfeitamente permeado pelo ser divino, conforme se verá no «milênio» (ver o vigésimo capítulo deste livro). Pois mil também representa este mundo («dez», ver Ap 13:1), já que é o número «dez» elevado à sua «terceira» potência (pela força divina).

 

4.      Alguns estudiosos abandonam toda a ideia de um simbolismo particular, e aludem aos cento e quarenta e quatro mil apenas como um «grande número representativo»; e o nono versículo deste capítulo talvez represente exatamente isso.

 

5.      O número «doze» representaria testemunho e autoridade: doze patriarcas, doze apóstolos. Portanto, a multiplicação de doze por doze representaria o testemunho especial daqueles futuros e privilegiados mártires.

 

6.      Há também os intérpretes que supõem que o número «doze» representa a igreja inteira, por meio dos seus principais representantes, os apóstolos.

 

Esses cento e quarenta e quatro mil serão as mesmas pessoas que aquelas que figuram no décimo quarto capítulo do Apocalipse? Cremos que sim, por motivos ali expostos (ver sobre Ap 14:1), embora não possamos afirmá-lo de maneira dogmática.

 

Outras ideias sobre o quarto versículo:

 

Quanto ao «Israel espiritual», ver Tg 1:1; I Pe 1:1; Rm 9:6 e Gl 6:16.

 

1.      O vidente João já tinha mostrado que ele considerava a igreja como o «Israel espiritual». (Ver Ap 2:9; 3:9,12 e 21:9 e ss.).

 

2.      O Senhor conhece aqueles que lhe pertencem. Todos eles estão numerados, e serão selados. A esses serão dadas missões especiais, bem como o poder espiritual para cumprirem as mesmas.

 

7:5         da tribo de Judá havia doze mil assinalados; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gado, doze mil;

 

Comentários gerais sobre a natureza e as peculiaridades dessa lista das tribos da nação de Israel:

 

É possível que a ordem de menção das tribos não se revista de qualquer significação especial, com a possível única exceção do lato que a tribo de Judá é citada em primeiro lugar, provavelmente devido ao fato que dessa tribo é que proveio o Senhor Jesus, quanto à carne. (Ver Ap 5:5 e Hb 7:14). O A.T. encerra vinte listas diferentes das tribos, e nenhuma ordem específica é ali seguida. (Quanto às várias listas de tribos, no A.T., ver Gn 35:22 e ss.;46:8 e ss., 49; Éx 1:1 e ss.; Nm 1:2; 13:4 e ss.; 26:34; Dt 27:11 e ss.; 33:6 e ss.; Js 13 - 22; Jz 5; I Cr 2 - 8; 12:24 e ss.; 27:16 e ss. e Ez 48). Charles (in loc.) supõe que a desordem da lista que aqui temos se deveu a uma «deslocação» de versículos. Ele propôs que os versículos sétimo e oitavo deste capítulo encabeçassem a lista, e que então deveriam ser postos os versículos cinco e seis. Se assim realmente fosse, então viriam primeiramente os filhos da primeira esposa de Jacó, Lia — Judá, Rúben, Simeão, Levi, Issacar e Zebulom; e então viriam os filhos de Raquel, a segunda esposa—José e Benjamim. Em seguida viriam os filhos da criada de Lia—Gade e Asser. E, finalmente, ao invés dos filhos da criada de Raquel—Naftali e Dã, teríamos aqui, por razões conhecidas somente pelo autor sagrado, Naftali e Manassés. Nesse caso, a ordem de apresentação é a seguinte: a. filhos de Lia; b. filhos de Raquel; c. filhos da criada de Lia; d. filhos da criada de Raquel. Isso, naturalmente, restauraria a ordem de apre­sentação das tribos, bem como o propósito aparente dessa lista. Todavia, tal remanejamento do trecho não encontra eco nem mesmo nos manuscritos mais antigos que se têm descoberto, não passando de uma conjectura, pois supõe algum erro primitivo no arranjo da lista. Certos estudiosos veem alguma finalidade nesse arranjo sem sentido, a saber, que não existe favor especial e nem ordem na graça que Deus conferirá aos mártires e testemunhas. A graça divina seria conferida a todos, indistintamente, sem respeitar qualquer condição ou ordem.

 

2.      A tribo de Dã foi excluída dessa lista. Irineu, escrevendo perto do fim do segundo século de nossa era, informa-nos sobre uma antiga tradição que supunha que o anticristo provirá dessa tribo (ver Contra Heresias, V.30.2). O Testamento de Daniel 5.6 (uma obra judaica pseudepígrafe) parece ensinar a mesma coisa. E já que esta última obra fora escrita antes do Apocalipse, é possível que o vidente João tivesse consciência dessa tradição. Além disso, Dã esteve associado com o maior de todos os pecados, o da idolatria, um dos sinais característicos do anticristo (ver Jz 18:30; Gênesis Rabbah 43:2; Targum de Jeremias 1, sobre Êx 17:8). E essa poderia seruma outra das razões por que a tribo de Dã não é aqui mencionada, como progenitora de um grupo selecionado de mártires.

 

3.      Efraim é excluído da lista e substituído por José. Supomos que o motivo disso é que a lista visa incluir os filhos de Raquel, talvez como esposa favorita de Jacó. Além disso, em uma lista assim, o nome de José é mais ilustre que o de Efraim. Outros estudiosos afirmam que Efraim deixara de existir como tribo separada, antes da produção do livro de Apocalipse.

 

4.      A eliminação do nome de Dã é compreensível, segundo o que é dito sob o segundo ponto acima; mas é difícil perceber-se por queManassés foi o escolhido para substituí-lo. Manassés foi o filho mais velho de José, nascido no Egito, cuja mãe foi Asenate, filha dePotífera. Talvez por ter sido o primogênito de José, seu nome, acima de qualquer outro, parece ter sido o mais apropriado para substituir a Dã. Alguns eruditos supõem que originalmente Dã se achava no texto sagrado, mas que, por inadvertência, foi substituído pelo nome similar «Man» (forma abreviada de Manassés); mas isso é altamente improvável, não tendo apoio nos manuscritos existentes do livro de Apocalipse.

 

5.      Seja como for, o número «doze» é retido aqui, e isso é um número representativo, indicando número «completo» e «representação» de um grupo, através de seus progenitores ou líderes. (Ver as notas expositivas, no quarto versículo deste capítulo, sobre a identificação dos «cento e quarenta e quatro mil»).

 

6.      Nessa substituição de uma tribo por outra, alguns eruditos veem a ilustração do fato espiritual que, devido à apostasia e o pecado, alguém antes favorecido pode vir a ser rejeitado e substituído. Assim é que o «Israel espiritual» substituiu ao Israel literal na dispensação da igreja. Portanto, aquele que pensa estar de pé cuide para que não caia. E que ninguém diga: «Tenho a Abraão por pai». Deus é capaz de suscitar filhos a Abraão destas pedra. Não é judeu quem o é externamente, na carne, mas aquele que o é internamente, no espírito (ver Rm 2:28,29).

 

7.      Notemos que cada tribo é aqui representada por doze mil testemunhas e mártires escolhidos. Não há favoritismo. A graça de Deus faz provisão igual para todos.

 

Notas sobre as tribos individuais:

 

Judá: Essa tribo é mencionada em primeiro lugar porque Cristo, o Messias, era dessa tribo. Judá foi o quarto filho de Jacó, por Lia (ver Gn 29:35, bem como o primeiro ponto, acima). Seu nome significa «louvor de Deus»; e é através do seu Filho maior que esse louvor se torna possível entre todas as nações. (Ver Gn 29:35). O louvor é apropriado para todos os verdadeiros discípulos de Cristo, especialmente para o grupo selecionado de mártires, que são representados por esse nome.

 

Rúben: Foi o primogênito de Jacó, por Lia. Mas, por causa de seu pecado, perdeu direito à primogenitura. Seu nome significa: «Eis o filho!» (ver Gn 29:32). Nisso se pode perceber certa lição espiritual, porque é ao Filho que nos convém contemplar. A instabilidade deRúbem encontrou cura no Filho maior de Israel, Jesus Cristo. Deus não repele aos instáveis, mas antes, oferece-lhes o remédio da transformação segundo a imagem de Cristo (ver Rm 8:29), mediante o poder espiritual (ver II Co 3:18 e Gl 5:22,23).

 

Gade: Seu nome significa «tropa» (ver Gn 30:11). Espiritualmente, talvez denote o número incomensurável dos santos, especialmente, no presente contexto, no caso do grupo de mártires selecionados. Esses são aqueles que Deus reservou para si mesmo, com finalidades precípuas, visando o bem-estar de toda a humanidade. Foi ele o sétimo filho de Jacó, através da criada de Lia, Zilpa.

 

7:6         da tribo do Aser, doze mil; da tribo do Naftali, doze mil; da tribo do Manassés, doze mil;

 

Asser: Seu nome significa «bendito» (ver Gn 30:13). Espiritualmente significa as bênçãos do Messias sobre todos os discípulos, mas, sobretudo, sobre os mártires e testemunhas do período de Grande Tribulação. Foi o oitavo filho de Jacó, por meio de Zilpa, criada deLia.

 

Naftali: Seu nome significa «lutas» (ver Gn 30:8). Espiritualmente, pode designar o conflito dos santos, mediante o que serão capazes de ser mais do que vencedores, e isso é especialmente veraz no que diz respeito às tremendas perseguições religiosas promovidas pelo anticristo. Naftali foi o quinto filho de Jacó, nascido de Bila, criada de Raquel.

 

Manassés: Foi o filho mais velho de José, nascido no Egito e de mãe egípcia, Asenate, filha de Potífera, sacerdote de On (ver Gn 41:51). Substituiu a Dã na lista, e o possível motivo disso é comentado nas notas sobre o quinto versículo deste capítulo, sob os pontos dois e quatro. Manassés significa «esquecimento» (ver Gn 41:51). Espiritualmente falando, isso talvez queira ensinar-nos a olvidar o que fica para trás, buscando novas vitórias em Cristo. Além disso, somos instruídos a esquecer as cebolas e os alhos do Egito, buscando exclusivamente o bem-estar que há em Cristo. Os mártires do período da Grande Tribulação terão de fazer isso se quiserem conquistar em tempos tão adversos. (Quanto a comentários gerais sobre essa lista, com a menção de peculiaridades, ver as notas expositivas sobre o quinto versículo deste capítulo).

 

7:7         da tribo de Simeão, doze mil; da tribo do Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil;

 

Simeão—Foi ele o segundo filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 29:33). Seu nome significa «audição». Espiritualmente, isso pode significar que devemos «ouvir» a fim de obedecer, e também que as ovelhas de Cristo ouvirão a sua voz e o seguirão, até mesmo sob as mais difíceis circunstâncias, como sucederá durante a Grande Tribulação, em que o anticristo martirizará a muitíssimos seguidores de Cristo.

 

Levi: Foi ele o terceiro filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 29:34). Seu nome significa «reunido», e, espiritualmente falando, isso pode indicar como o amor de Cristo nos confere união no bem-estar, de tal modo que nada é capaz de separar-nos do amor de Deus em Cristo. Isso será algo necessário quando o anticristo perpetrar suas violências ímpias e lançar o caos no seio da igreja, durante o período da tribulação. Nada pode separar-nos da graça de Deus, que opera por meio do amor (ver Rm 8:32 e ss.). A tribo de Levi era a tribo sacerdotal. Deus fez de nós reino e sacerdócio (ver Ap 1:6).

 

Issacar: Foi o quinto filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 30:17,18). Seu nome significa «salário» ou «recompensa». Talvez indique, espiritualmente falando, os benefícios e galardões que Deus confere aos seus servos, especialmente para os que se mostram fiéis em tempos difíceis.

 

7:8         da tribo do Zebulom, doze mil; da tribo do José, doze mil; da tribo de Benjamin doze mil assinalados.

 

Zebulom: Foi o sexto filho de Jacó, por meio de Lia. Seu nome significa «habitação» (ver Gn 30:20). Lia tinha a esperança que em face dela ter dado seis filhos a Jacó, que assim ela obteria o seu favor, e que ele continuaria a habitar com ela, favorecendo-a acima de Raquel. Cristo habita conosco e nos favorece, por meio do Espírito Santo, ao ponto de fazer de nós a própria habitação ou templo de Deus (ver Ef 2:21,22). Essa habitação nos transforma na própria imagem de Cristo (ver Rm 8:29 e II Co 3:18), de tal modo que compartilhemos de sua própria natureza e também da plenitude de Deus (ver Ef 3:19) vindo a participar da própria divindade (ver II Pe 1:4). E é desse modo que Deus vem habitar supremamente conosco, de modo a favorecer-nos. O Senhor se postará ao lado dos mártires, no período da Grande Tribulação, de tal modo que nenhum dano real e duradouro lhes poderá sobrevir.

 

José: José foi o décimo primeiro filho de Jacó, por meio de Raquel, sendo o primeiro filho desta (ver Gn 30:24 e 35:24). José foi o filho favorito e mais favorecido de Israel. Foi mimado por Jacó e Raquel; mas, quando foi vendido à servidão, por seus próprios irmãos mais velhos, conseguiu vencer em meio à adversidade, e Deus se postou a seu lado, fazendo redundar em bem o que pareceria ser para mal. Isso ele fará novamente no caso dos mártires do período da Grande Tribulação. O nome José significa «adição» (ver Gn 30:24). Seu nascimento retirou o opróbrio de Raquel, por não ter desistido de sua confiança de que Deus ainda lhe «adicionaria» outro filho, confirmando essa bênção. Portanto, as bênçãos de Deus são adicionadas e multiplicadas em nosso favor, a despeito de todo o opróbrio e de todas as adversidades.

 

Benjamin: Foi o filho mais novo de Jacó, nascido de Raquel, que faleceu ao dá-lo à luz. Após o desaparecimento de José, Benjamim obteve o favor especial de Jacó. Seu nome significa «filho da mão direita» (ver Gn 35:18). Isso simboliza a importância que Jacó atribuiu ao seu nascimento, pois assim ele obtivera um filho especial. Mas Raquel, quando já falecia, deu-lhe o nome de Benoni, que significa «filho de tristeza». O Senhor Jesus foi pintado segundo o significado de ambos esses nomes, porquanto ele é o Homem de Tristezas, mas também é o Filho especial de Deus, o Filho de seu Poder. Em Cristo, através de ambos esses aspectos, os mártires e testemunhas da Grande Tribulação aprenderão lições espirituais necessá­rias. Passarão por grandes tristezas, à semelhança de Cristo, mas triunfarão em Cristo, não obstante todos os sofrimentos.

 

 

 

Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo testamento,2010,+ ww.ebareiabranca.com V.1-8