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Apologética deter os falsos profetas (1)
Apologética deter os falsos profetas (1)

A Incumbência: Deter os Falsos Mestres (1.3-11)

 

 

Paulo começa a carta propriamente dita de um modo que não lhe é característico — sem as costumeiras ações de graças. De suas cartas anteriores, somente em Gálatas (fato bastante significativo) faltam as ações de graças. A ausência dessa expressão gratulatória aqui sustenta a observação já feita de que 1 Timóteo visa, realmente, o benefício da igreja tanto quanto do próprio Timóteo, ou ainda mais; o que está ocorrendo na igreja não é motivo para dar graças (dar graças em tudo?).

Ao invés, Paulo entra de imediato na ocasião e no propósito da carta. Em verdade, todas as questões cruciais que compõem a estrutura e conteúdo de 1 Timóteo estão exibidas no parágrafo inicial (vv. 3-7). A igreja corre grande perigo em virtude de alguns presbíteros que talvez se julguem mestres da lei (v. 7), mas, com efeito, ensinam outra doutrina (v. 3). Timóteo foi deixado em Éfeso para conter a maré. Ele não é o "pastor"; antes, foi deixado para atuar em nome de Paulo enquanto Paulo estiver ausente. Esta carta autorizará a Timóteo — perante a igreja — a opor-se àqueles enganadores e seus adeptos. Portanto, o palco está montado: A carta no seu todo é uma reação à presença dos falsos mestres.

 

1:3 A sentença inicial proporciona a ocasião da carta, acrescida de todos os "atores" significativos — Paulo, Timóteo, a igreja (implícita no em Éfeso), e os falsos mestres.

Embora não haja certeza quanto a se Paulo havia estado recentemente em Éfeso, isso parece estar implícito ao rogar a Timóteo que fique em Éfeso enquanto ele, Paulo, partia para a Macedônia. Mais adiante (3:14), ficamos sabendo que Paulo esperara ir para Éfeso em breve; contudo, no caso de demora (o que de fato aconteceu, dada a evidência de 2 Timóteo), Paulo queria que seu companheiro mais jovem tivesse "por escrito" o motivo para ele estar ali.

Os começos da igreja em Éfeso estão muito envoltos em mistério (At 18:19-21; 18:24 - 20:1), embora fique claro do relato de Atos, corroborado por referências passageiras em 1 Coríntios 16:8-9, 19, e 2 Coríntios 1:8-9, que se tratava de uma igreja paulina (talvez composta por muitas igrejas-lares; veja 1 Coríntios 16:19). Éfeso era ao mesmo tempo a capital da província e centro religioso da província da Ásia. Devido ao lodo que o entupia, no tempo de Paulo, o porto sofria declínio comercial; mas isto ainda era compensado, contudo, por sua importância passada e pela presença do seu templo de Artemis (Diana), uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo e atração turística que obviamente rendia não pequenos lucros líquidos aos audazes vendilhões de lembranças religiosas (At 19:23-41). O culto de Artemis refletia mistura (sincretismo) religiosa, mas basicamente era um rito de fertilidade oriental, com práticas sensuais e orgásmicas. A igreja efésia era muito importante na estratégia missionária de Paulo; daí sua preocupação em desarraigar o erro neste centro-chave.

Não há indício algum de que em qualquer das cartas a Timóteo alguns homens que ensinavam outra doutrina fossem elementos de fora, como no caso ocorrido na Galácia (Gl 2:4) e em Corinto (p.e., 2 Co 11:4, 12-15). De mais a mais, o discurso de despedida de Paulo aos presbíteros efésios, conforme registrado em Atos20:17-35, prediz com clareza que os "lobos cruéis" que "não pouparão o rebanho" serão alguns homens "dentre vós mesmos" (vv. 29-30). Portanto, que os falsos mestres talvez fossem presbíteros encontra apoio em diversos trechos de 1 Timóteo: o presumirem ser "mestres da lei" (v. 7), responsabilidade essa dos presbíteros (5:17; cp. 3:2); o fato de que foi Paulo quem citou e excomungou dois deles (1:19-20), e não a igreja, como em 2 Tessalonicenses 3:14 e 1 Coríntios 5:1-5; e o repetido interesse pelos presbíteros nesta carta, quer quanto à qualificação deles — sem mencionar deveres — em 3:1-7, quer quanto à disciplina a eles aplicada e evidente substi­tuição em 5:19-25.

A expressão traduzida por ensinassem outra doutrina aparentemente cunhada aqui e encontrada depois apenas em escritos cristãos, ao pé da letra significa "ensinar outras coisas", ou "ensinar novidades". É remanescente dos falsos mestres em Corinto, que pregavam "outro Jesus" e "outro evangelho" (2 Co 11:4; cp. Gl 1:6). Contudo, "outra doutrina" (novidades) não são trivialidades inocentes; são perversões claras do evan­gelho puro. A finalidade de Timóteo em permanecer ali era, pois, para advertires a alguns que não ensinassem outra doutrina.

 

1:4 Timóteo deve também ordenar aos mestres do erro que não se ocupassem com fábulas ou com genealogias intermináveis. Essas duas palavras, dentre as poucas encontradas nas cartas a Timóteo que dão alguma indicação do conteúdo das falsas doutrinas, colocam-se também dentre as mais enigmáticas. Conforme diz Kelly: "Elas chegam tantalizantemente, quase revelando o conteúdo da heresia"! Em 4:7 elas são de novo caracterizadas como "fábulas profanas de velhas". Fenômeno semelhante também surge em Creta, onde a expressão de Paulo é "fábulas judaicas" (Tt 1:14); as "genealogias" reaparecem numa lista que inclui "contendas e debates acerca da lei" (Tt 3:9).

Eruditos têm afirmado muitas vezes que essas palavras refletem o suposto caráter gnóstico da heresia, apoiado também por linguagem como " oposições da falsamente chamada ciência" (6:20) e pelas práticas ascéticas mencionadas em 4:3 (cp. 5:23). Assim, fábulas e genealogias são consideradas como referindo-se àscosmologias especulativas dos últimos gnósticos com seus sistemas de eões (seres espirituais) que emanam de Deus (o Pai de todos), como se encontra em Valentino. (Esta posição parece refletir-se na Bíblia Viva, que diz: "A idéia que eles têm de poder salvar-se por conseguir a proteção de uma cadeia interminável de anjos que leva a Deus".)

Mas os termos traduzidos por fábulas mythoi e genealogias (genealogiai) nunca são usados nas descrições desses sistemas gnósticos. Aparecem, contudo, regularmente no helenismo e no judaísmo helenístico referindo-se a tradições sobre origens dos povos. O termo mythoi nesta literatura quase sempre é usado em sentido pejorativo (como por todas as EP), para contrastar o caráter mítico de muitas dessas fábulas com a verdade histórica.

Portanto, dada a falta de qualquer consideração verdadeira em 1 e 2 Timóteo pelas bases caracteristicamente gnósticas, além do fato de que no v. 7 os erros se relacionavam de modo específico com a lei, é mais plausível que tais fábulas e genealogias intermináveis reflitam algum tipo de influência judaica, sem dúvida com alguns revestimentos helenísticos. Porém, não sabemos com precisão o que eram, embora tenha havido algumas sugestões (como as especulações que encontramos no Book of Jubilees ou em Questions and Answers on Gênesis, de Fílon, ou no Book of Biblical Antiquities de um pseudo-Fílon, e até mesmo na tradição hagádicajudaica [comentário ilustrativo sobre o AT]). Deve-se, por fim, admitir que não sabemos ao certo por que Paulo não nos deixou pistas suficientes.

O que sabemos com certeza é que ele condena ousadamente tais coisas, não tanto em função de seu conteúdo (embora tais fábulas não tenham relação alguma com a verdade [4:6-7; 2 Timóteo 4:4], mas porque esse ensino tem dois efeitos finais: (1) são " discursos vãos" (1:6; cp. 6:20; 2 Timóteo 2:16; 3:7), que (2) resultam em contendas e discór­dias (6:3-5; 2 Timóteo 2:14, 23).

É a absoluta futilidade disso tudo que molesta a Paulo neste ponto. Em verdade, a palavra traduzida por intermináveis talvez se refira à natureza "exaustiva, cansativa" daquele ensino. O que essas "fábulas e genealogias intermináveis" produzem é "especulações" (RSV; lit., "busca"), ou controvérsias (NIV e ECA). Dessa maneira, fábulas e genealogias são tédios intermináveis, que promovem especulações tolas, "cheias de som e fúria", mas "nada significando".

Além do mais, essas especulações nada têm que ver com o serviço de Deus o qual é na fé. A palavra traduzida por serviço, quando empregada em seu sentido literal, não figurado, refere-se à “administração" da casa de outrem (como em Lucas 16:2-4). Como metáfora, significa ou "uma mordomia confiada por Deus" (cp. 1Coríntios 9:17; Efésios 3:2), ou como na ECA e NIV, serviço de Deus, significando "providências de Deus para a redenção do povo". É mais provável que esta última seja a intenção, visto que a ênfase neste contexto não parece estar sobre a falha dos falsos mestres em exercer mordomia fiel, mas sobre o evangelho como serviço de Deus, baseado na fé, ou conhecido na fé, em contraste com a futilidade das "novidades", ou "outra doutrina".

 

1:5 Havendo dado a ocasião para escrever a carta (v. 3), e mais alguma reação ao que os presbíteros errados estão fazendo (v. 4), Paulo volta agora a ordenar (advertires) que eles parem (v. 3). O intuito deste mandamento, diz ele, é o amor. Talvez não seja esta uma afirmação geral a respeito do evangelho, em contraste com os erros; ao contrário, Paulo está dando o motivo específico para o envolvimento de Timóteo, a saber, suscitar o amor que procede de um coração puro. Os falsos mestres estão envolvidos em controvérsias (v. 4) e discursos vãos (v. 6) cheios de engano (4:1-2) que levam a discórdias e suspeitas (6:4-5). A finalidade de ordenar-lhes que parem é conduzir a igreja de volta ao resultado próprio do " serviço de Deus" baseado "na fé", a saber, o amor de uns para com os outros. (Observe quantas vezes aparecem juntos fé e amor nas EP como virtudes verdadeiramente cristãs: 1 Timóteo 1:14; 2:15; 4:12; 6:11; 2 Timóteo 1:13; 2:22; 3:10; Tito 2:2).

A graça cristã do amor brota de um coração puro, de uma boa consciência, de uma fé não fingida. Essas motivações para amar ficam em agudo contraste com as dos falsos mestres, que estão enganados e cheios de engano (4:1-2; 5:24; 2 Timóteo 2:26; 3:13; cp. 1 Timóteo 2:14; 5:15; 2 Timóteo 3:5-7), têm consciências " cauterizadas" (4:2), "vieram a naufragar na fé" (1:19).

Um coração puro reflete o pano de fundo bíblico de Paulo (Salmos 24:4; 51:10; cp. a bem-aventurança de Jesus, Mateus 5:8). O conceito de boa consciência deriva de seu meio ambiente helenístico. A consciência é a capacidade, ou sede, da consciência moral, comum a todas as pessoas (Romanos 2:15; 2 Coríntios 4:2). Em cartas anteriores de Paulo (somente Romanos, 1 e 2 Coríntios), a consciência arbitra as ações próprias — e as de outros (esp. 1 Coríntios 8-10). Mas também está claro que ela pode ser informada, quer pelo passado pagão da pessoa, quer pela presente existência em Cristo. Nas EP, o termo consciência é muitas vezes, como aqui, acompanhado de um adjetivo descritivo (boa, pura, cauterizada), implicando que a sede da tomada de decisão foi "purificada" por Cristo ou "cauterizada" ou "contaminada" por Satanás (veja disc. sobre 1 Timóteo 4:2 e Tito 1:15 -16). Deste contexto e de 1:19 fica claro que um coração puro e uma boa consciência são idéias sinônimas.

A qualificação da fé como não-fingida (sincera) é comparável à qualificação que Paulo dá ao amor em Romanos 12:9. Num sentido, nem fé nem amor podem ser assim qualificados. Ou você tem fé, ou amor, ou não tem. Mas a palavra fé tem amplo emprego em Paulo, variando desde "confiar em Deus" (o mais comum) passando por uma virtude cristã que se aproxima muito da idéia de "fidelidade" (p.e., 1 Tessalonicenses 3:6; 5:8, muito freqüente nas EP), até o conteúdo da crença cristã (p.e., Gálatas 1:23; também muito freqüente nas EP). Aqui, fé não-fingida refere-se à virtude cristã, significa confiar em que Deus está presente de verdade, em contraste com a natureza enganosa da “fé" dos mestres do erro.

 

1:6-7 Agora está claro que essas fontes do amor cristão estão expres­sas de modo que contrastem com os falsos mestres. Alguns, a saber, os falsos mestres se desviaram destas coisas (isto é, de "um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera"; cp. 1:19). O conceito de desviar-se de fé (ou a fé) repete-se nas EP, às vezes com este verbo (6:21; 2 Timóteo 2:18), mas também com diversos outros (rejeitado, ECA, 1:19; "apostatarão", 4:1; "se desviaram", 1:6; 5:15; 6:10; "recusar", 2 Timóteo 4:4). Esta apostasia por parte tanto dos presbíteros errados como de seus seguidores é a grande ênfase de 1 Timóteo.

Não somente se desviaram da verdadeira fé e integridade, mas em seu lugar se entregaram a discursos vãos. Isto repete os temas do tédio, e das controvérsias do v. 4. A palavra que representa discursos vãos é um composto de mataios ("vazio, vão") e logos ("discurso"). Este "discurso" é alhures caracterizado como "conversas vãs" e "falatórios inúteis" (6:20; 2 Timóteo 2:16).

Paulo tem uma designação final para os mestres do erro nesta arremetida inicial: Querem ser mestres da lei. Não é fácil determinar com precisão o que Paulo quer dizer por mestres da lei (no grego uma palavra composta: nomos, "lei"; didaskalos, "professor"). A palavra é estrita­mente cristã, usada por Lucas (5:17) para referir-se aos rabis, e a Gamaliel, em Atos 5:34. Aqui talvez seja um epíteto pejorativo (estão meramente assumindo o papel de rabinos judeus); porém, é mais prová­vel que seja uma descrição do que os falsos mestres desejavam, na realidade, ser mestres da lei (no sentido provável de intérpretes das leis, 4:3, e intérpretes especulativos das histórias e genealogias do AT a respeito dos começos, 1:4).

Em qualquer dos casos, eles não entendem nem o que dizem, como o próximo parágrafo elucidará (porque estão cheios de controvérsias e, de discursos vãos) nem o que com tanta confiança afirmam (o signi­ficado das Escrituras). Estão simplesmente "pontificando sobre o incognoscível". O tema da "ignorância" ou "tolice" dos heréticos se repetirá, nestas cartas (6:4,20; 2 Timóteo 2:23; Tito 1:15; 3:9; cp. 2 Timóteo 3:7).

 

1:8 O próximo parágrafo (vv. 8-11) parece digressão que leva a uma Segunda digressão (vv. 12-17; observe como os vv. 18-20 retomam o argumento dos vv. 3-7). Porém, no sentido típico paulino é uma digressão que confirma de modo significativo o ponto sob discussão. Em resposta ao uso impróprio que os falsos mestres fazem da "lei", Paulo lhes expõe o verdadeiro intento da lei, o qual, conforme expresso aqui, é que ela se destina aos ímpios.

Muito interessante é o fato de Paulo não lhes dizer como ou por que, a lei é para eles; mas, em Galatas 3:23-4:7 e em Romanos 7:7-25, ele já havia tratado desta questão e mencionado dois motivos: pôr um freio no pecado (Gálatas) e expressar a desesperada pecaminosidade dos pecado­res, levando-os a clamar pela misericórdia de Deus (Romanos). É pro­vável que o primeiro motivo é que estava na mente de Paulo, ao iniciar este parágrafo.

A sentença inicial evolui do v. 7. Os falsos mestres desejam ser mestres da lei, mas não sabem o que fazem. É claro que a intenção de Paulo aqui não é argumentar a favor de um uso correto, cristão, da lei. Em vez disso, ele está ressaltando a insensatez dos falsos mestres incluindo o fato de que eles nem sequer usam a lei. Que a lei é boa é repetição de uma assertiva feita em Romanos 7:12-13 e l6 (embora em contexto diferente). Fica implícito em ambos os casos que ela é boa, porque reflete verdadeiramente a vontade de Deus. Não obstante, con­forme ressalta Kelly, a lei não é o evangelho, mas permanece uma espécie de lei. Aqui, a "bondade" da lei relaciona-se com ser ela usada legiti­mamente, isto é, tratada como lei (tendo em mira os sem lei, v. 9) e não usada "ilegitimamente" como fonte de fábulas e genealogias interminá­veis, ou para práticas ascéticas.

 

1:9-10 Paulo continua descrevendo o que faz aquele que trata a lei como lei. O que é verdadeiro em se tratando da lei de Deus, tida como lei, é naturalmente verdadeiro em se tratando de todas as leis. Ela foi outorgada, não para o justo, mas para os transgressores e rebeldes os irreverentes e pecadores, os ímpios e profanos. Ao dizer que a lei não se destinava "ao justo", Paulo repisa um ponto já apresentado em Gálatas, ou seja, que os que têm o Espírito e produzem o fruto do Espírito entraram numa esfera de existência na qual a lei já não desempenha suas funções legais (Gálatas 5:22-23).

A menção de transgressores da lei, Paulo se lança a uma lista completa de tais pecadores. Listas de vícios como esta são típicas do apóstolo (veja, p.e., Romanos 1:29-31; 1 Coríntios 5:11; 6:9-10; Gálatas 5:19-21; e 2 Timóteo 3:2-4). O que nos espanta é que nenhum pecado singular é especificamente repetido nelas (nem nas três cartas anteriores). Em cada caso elas parecem catálogos ad hoc, embora também pareçam um tanto adaptadas aos contextos. Dos pecados relacionados nesta lista, os devassos e os sodomitas (v. 10) encontram-se nas listas anteriores (1 Coríntios 6:9). O mais chocante, porém, é a natureza bipartida do catálogo. Primeiro, há três pares de classificações gerais: transgressores e rebeldes, os irreverentes (sem respeito no íntimo) e os pecadores (exteriormente sem obediência), e os ímpios e profanos. Daí para a frente o catálogo tem uma coincidência notável com os Dez Mandamen­tos (do quinto ao nono), muitas vezes dando expressões mais grotescas desses pecados.

Assim, esses sem-lei são os parricidas, matricidas (quinto manda­mento; e homicidas (sexto mandamento); os devassos (lit., "fornicadores") e sodomitas, uma palavra que indica homossexualidade entre homens (sétimo mandamento); roubadores de homens (oitavo manda­mento). Tais coincidências dificilmente podem ser acidentais. Porém, qual é o motivo para essa lista figurar aqui? Certamente não é uma referência aos pecados dos falsos mestres, culpados de seus próprios pecados, mas de outros tipos. É muito provável que essa lista seja um reflexo consciente da lei mosaica, como lei, e expressa os tipos de pecados, para proibir os quais foi outorgada a lei. Este, diz Paulo, é o motivo por que Deus deu a sua lei, não para controvérsias ociosas e discursos vãos.

Paulo encerra esta lista de maneira semelhante a Romanos 13:9 é Gálatas 5:21, de modo que inclui os demais pecados também: para o que for contrário à sã doutrina. Mas neste caso as palavras de "encerramento" trazem Paulo de volta uma vez mais às advertências contra os falsos ensinos. A expressão sã doutrina aparecerá regularmente nessas cartas (6:3; 2 Timóteo 1:13; 4:3; Tito 1:9, 13; 2:2, 8). Trata-se de metáfora médica referente à saúde do ensino "conforme o evangelho" (v. 11) e se opõe a "ruins suspeitas" (6:4; NIV, "interesse doentio") dos praticantes do erro, cujo ensino "corrói como câncer" (2 Timóteo 2:17). Tal metáfora não se encontra anteriormente nos escritos de Paulo. Sua fonte, como dispositivo polêmico, com toda a probabilidade é contem­porânea dos filósofos itinerantes, que teriam sido conhecidos dos efésios. Que Paulo tenha emprestado tal metáfora não é mais surpreendente do que o uso que ele faz da metáfora do corpo, metáfora política contemporânea bem conhecida, em 1 Coríntios 12, ou o uso que ele faz de imagens do atletismo em 1 Coríntios 9:24-27 e nestas cartas (1 Timóteo 6:12; 2 Timóteo 2:5; 4:7-8). Nestas epístolas, a imagem do ensino sadio torna-se uma polêmica eficaz contra os enfermados falsos mestres. Porém, o cerne da metáfora não visa o conteúdo da doutrina; visa, antes, o comporta­mento. O ensino sadio leva ao comportamento cristão apropriado, ao amor e às boas obras; o ensino doentio dos heréticos leva a controvérsias, arrogância, abuso e discórdia (6:4).

 

1:11 Havendo mencionado o comportamento " contrário à sã doutri­na" , Paulo conclui descrevendo a verdadeira fonte e medida do ensino sadio. É aquela que está conforme o evangelho... de Deus. O evangelho, como boas novas de Deus, em contraposição às más novas da pecaminosidade grotesca da humanidade, é expressão favorita de Paulo para referir-se à atividade de Deus em Cristo Jesus a favor dos pecadores. A “sã doutrina" está de acordo com a mensagem do evangelho, tanto no conteúdo como no comportamento resultante; o ensino "doente" dos presbíteros transviados não está.

Ao mencionar o evangelho, Paulo faz duas explicações: ele é descrito como

1. o evangelho da glória do Deus bendito,

2. o qual me foi confiado.

O evangelho é, antes de tudo, o evangelho da glória do Deus bendito (lit. ) Este tipo de construção genitiva (frase com "de") é particularmente difícil de fazer sentido na língua portuguesa (e há mais ou menos quatorze possibilidades para o seu significado em grego). Embora a frase "da glória" muitas vezes seja usada de modo descritivo no NT (p.e., Efésios 1:17, "o Pai glorioso"; Colossenses 1:11, "seu glorioso poder"; ou veja GNB aqui," Deus glorioso e bendito"), é muito provável, neste caso, que a frase descreva, não o caráter do evangelho ("glorioso evangelho"), mas o seu conteúdo ("evangelho que manifesta a plena glória de Deus"). O evangelho que Paulo anuncia desvenda a "glória", ou majestade, do próprio Deus, aqui descrito como o Deus bendito. Esta última frase, encontrada também em 6:15, não significa tanto que atribuímos bem-aventurança a Deus, mas que toda a bem-aventurança reside nele e dele procede.

Este evangelho, que revela a verdadeira glória de Deus, conclui Paulo me foi confiado. Isto é tipicamente paulino. Mencionar o evangelho, a atividade graciosa de Deus a favor dos pecadores, muitas vezes significa mencionar seu próprio papel como beneficiário e servo, ou mordomo (cp. 1 Coríntios 9:17; Gálatas 2:7; Efésios 3:2; 1 Tessalonicenses 2:4). Porém, neste caso, talvez Paulo também queira fazer-nos voltar ao tema; central, a autoridade. Este tema é tão importante que será mais plenamente desenvolvido no próximo parágrafo.

Assim, o parágrafo conclui aparentemente a alguma distância do ponto onde começou, como ligeira digressão sobre o propósito da lei, o qual passou despercebido pelos mestres da lei. Contudo, esta breve excursão para mencionar o evangelho como a revelação da majestade de Deus e do relacionamento de Paulo com o evangelho não está muito longe de seu principal interesse — obstar a divulgação do falso ensino. E tendo chegado até aqui, Paulo agora se esmerará ainda mais, nova­mente não sem propósito contextual.(notasBibliografia CPADNEWS),

 

fonte www.avivamentonosul.com