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vocacionados ao ministerio
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DIREÇÃO, VOCAÇÃO E MINISTÉRIO

 

Se Deus tem um propósito para a vida de seu povo, e se é possível descobrir esse propósito, então nada mais importante para nós do que discerni-lo e realizá-lo. Com efeito, o apóstolo Paulo indicou ser esta a expec­tativa divina. "Somos feitura dele [de Deus]", afirmou ele, "criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." Ef 2.10. Por­tanto, se existem boas obras que Deus planejou e designou para nós — provavelmente antes de termos nascido — então nós precisamos descobrir quais são elas. Não é de admirar que Paulo tenha escrito mais adiante, na mesma carta: "Não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor". Ef 5.17.

 Na carta de Paulo aos Colossenses, ele ora também para que Deus os faça "transbordar de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiri­tual", Cl 1.9,  e menciona como Epafras "se esforça sobremaneira, continuamente... nas orações" por eles, e que eles deveriam conservar-se "perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus". Cl 4.12.

 Sempre que falamos em descobrir a vontade de Deus para as nossas vidas, é quase certo que três palavras vão apa­recer durante a conversa: "direção", "vocação" e "minis­tério". Cada uma delas tem um significado especial. "Di­reção" pressupõe que Deus quer nos dirigir; "vocação", que Deus nos chama; e "ministério", que ele quer que coloque­mos nossas vidas a seu serviço. Mas, ao mesmo tempo, o que há de comum nos três conceitos é que em cada um deles a iniciativa é de Deus e que cada um tem tanto um aspecto geral (que se aplica igualmente a todos nós) como um aspecto específico (que é diferente para cada um de nós). Isto se tornará mais claro à medida que prosseguirmos.

 Direção

 

Às vezes nós dizemos, com um suspiro: "Ah, se eu tivesse dez vidas!" Existe um mito de que os gatos têm sete vidas; mas nós, humanos, só temos uma e não podemos duplicá-la nem fazer réplicas de nós mesmos. Daí a necessidade de descobrirmos a vontade de Deus para essa única vida que ele nos deu.

 Mas antes de chegarmos ao ponto de descobrir a vontade de Deus é essencial que estabeleçamos uma distinção entre a sua vontade "universal" e a sua vontade "específica". A vontade universal de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para todo o seu povo; ela é a mesma para todos nós, em todos os lugares e em todos os tempos. Mas a vontade específica de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para pessoas específicas, em lugares especí­ficos e em tempos específicos. Sua vontade universal é que sejamos "conformes à imagem de seu Filho". Rm 8.29. A vontade de Deus para todos nós é que sejamos como Cristo; essa vontade não varia de discípulo para discípulo. Sua vontade específica, por sua vez, tem a ver com questões como a escolha de uma profissão ou de um companheiro para a nossa vida, ou como deveríamos gastar nossas energias, nosso tempo, dinheiro, feriados... Estas coisas diferem de uma pessoa para outra. Só depois de fazermos essa distin­ção essencial entre o "geral" e o "específico" é que esta­remos em condições de repetir a nossa primeira questão, que é como descobrir a vontade de Deus. Sua vontade "geral" ou "universal" está revelada na Escritura Sagrada. Não que esta contenha engenhosas soluções para os complexos problemas éticos do século XXI; mas ela contém princípios que podem ser aplicados a eles. Via de regra está curto dizer que a vontade de Deus para o povo de Deus encontra-se na Palavra de Deus.

 A vontade específica de Deus, porém, não se encontra na Bíblia. Não posso negar que uma vez ou outra Deus parece ter guiado certas pessoas por intermédio de um versículo específico extraído de seu contexto. Mas devo acrescentar que ele o faz em virtude de nossa fraqueza. Afinal, a Bíblia não é uma antologia de textos desvin­culados, mas, sim, uma revelação histórica, cumulativa. Nós não temos o direito de ignorar o seu sentido original a fim de obrigá-la a falar a nós. Mas o que a Bíblia contém mesmo são princípios que são relevantes a questões es­pecíficas. O casamento, por exemplo. A Escritura nos dá diretrizes gerais e preestabelece algumas questões. Ela nos diz que o matrimonio é o propósito desejável de Deus para os seres humanos e que o celibato é uma exceção, não a regra; que um dos seus propósitos primordiais ao instituir o casamento foi o companheirismo - portanto, esta é uma importante qualidade a ser buscada em um esposo ou esposa; que o cristão só é livre para casar-se com um cristão; e que o casamento (sendo um compro­misso de amor, monogâmico e heterossexual, para a vida toda) é o único contexto ordenado por Deus para as relações sexuais. Estas diretrizes gerais são claramente estabelecidas na Bíblia. Mas a Bíblia não diz a ninguém se Deus vai chamá-lo para casar-se ou para permanecer solteiro, nem com quem deverá casar-se (se for esta a sua opção).

 Mas como vamos descobrir a vontade específica de Deus, se ele não a revelar através da Escritura? Já que Deus é soberano e livre, eu acho que não nos cabe estereotipar a nossa resposta. No entanto, eu descobri cinco palavras que são guias seguros.

 Primeiro, cederNós precisamos ceder, ou dar lugar ao propósito de Deus na nossa vida. Uma vontade que não se rende é o mais sério de todos os obstáculos para se descobrir a vontade de Deus. Se Deus não revela a sua verdade a quem não está disposto a acreditar nela, ele tampouco a revela a quem não está disposto a fazê-la. Pelo contrário, ele "guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o seu caminho". Sl 25.9.

 Segundo, orarSimplesmente ceder, ou então entregar com desconfiança, não é suficiente. É preciso também esperar em oração e ser sustentado por ela. "Pedi, e dar-se-vos-á", Jesus ensinou. "Nada tendes, porque não pedis", acrescentou Tiago. Mt 7.7; Tg 4.2. Nosso Pai celeste não estraga os seus filhos. Ele não nos revela a sua vontade, a não ser que realmente queiramos conhecê-la e expressemos esse desejo em nossas orações.

 Terceiro, falarEmbora um dos fortes do cristianismo protestante seja a insistência no nosso "direito ao juízo privado", isto não significa que devamos tomar todas as nossas decisões sozinhos. Pelo contrário, Deus nos con­cedeu uns aos outros em sua família. Portanto, devemos ser humildes o suficiente para falar uns com os outros, inclusive os nossos pais, e buscar o seu conselho, pois "com os que se aconselham se acha a sabedoria". Pv 13.10. Que as nossas decisões sejam tomadas em grupo, assumidas com respon­sabilidade na rica comunhão em que Deus nos colocou.

 Quarto, pensarEmbora nós devamos ceder, orar e pedir conselho, nós sempre acabamos tendo de tomar decisões. Deus contrabalança as suas promessas de nos guiar com a sua proibição de que nos comportemos como cavalos e mulas, que não têm entendimento. Sl 32.8-9. Não vamos esperar que ele cumpra as suas promessas de nos guiar utilizando "freio e rédeas" (i.e. por meio da força) ou nos dando uma intuição irracional; ele nos guia por meio da mente que nos deu e que nos possibilita pesar cuidadosamente, em cada situação, os prós e os contras.

 Quinto, esperarÉ um erro apressar-se e ficar impaciente com Deus. Ele levou cerca de dois mil anos para cumprir sua promessa a Abraão no nascimento de Cristo. Levou oitenta anos preparando Moisés para o trabalho de sua vida. São necessários uns vinte e cinco anos para um ser humano chegar à maturidade. Portanto, se nós temos que tomar uma decisão dentro de um certo prazo, devemos fazê-lo. Mas, caso contrário, e se o caminho à nossa frente ainda é incerto, o mais sábio é esperar. Penso que o que Deus disse a José e Maria ao enviá-los ao Egito com o menino Jesus serve também para nós: "Permanece lá até que eu te avise." Mt 2.13. Em minha experiência, cometem-se muito mais erros por causa de precipitação do que de protelação.

 Vocação 

"Vocação" é uma das muitas palavras bíblicas cujo sentido tem mudado e se desvalorizado com o decorrer dos anos. No uso popular, ela tem a ver com nosso trabalho ou carreira. "Qual é a sua vocação?" é uma forma um tanto eloquente de perguntar a alguém qual é a sua profissão, e "treinamento vocacional" significa treinamento para um ramo específico. Na Bíblia, entretanto, "vocação" tem uma conotação muito mais ampla e mais nobre. Sua ênfase não é no aspecto humano (o que nós fazemos), mas sim no divino (o que Deusnos chamou a fazer). "Vocação" é uma palavra latina e significa "chamamento".

 No Novo Testamento o verbo grego equivalente a "cha­mar" ocorre cerca de 150 vezes, e na maioria dos casos refere-se a Deus chamando seres humanos. No Antigo Testamento, Deus chamou Moisés, Samuel e os profetas; no Novo Testamento, Jesus chamou os doze apóstolos e depois Saulo de Tarso. Hoje, embora nós não sejamos nem profetas nem apóstolos, ele ainda nos chama para o seu serviço. É maravilhoso o fato de que Deus se importa tanto conosco que nos chama pessoal e individualmente. Portan­to, Deus é "aquele que vos chama", P. ex. Gl 5.8; 1Pe 1.15; e nós somos "aqueles que são chamados segundo o seu propósito". P. ex. Rm 8.28; Hb 9.15.

 A questão que se nos depara é esta: de acordo com as Escrituras, para que é que Deus nos chama? Qual é a nossa vocação divina? Para responder esta questão acerca da "vocação", nós precisamos fazer uma distinção similar àquela que fizemos concernente à "direção", ou seja, entre o nosso chamado global ou "universal" e os nossos cha­mados "específicos". Nosso chamado global é o chamado de todo o povo de Deus e é, portanto, o mesmo. Nosso chamado específico é o de cada um de nós e é, portanto, diferente. Todos nós compartilhamos do mesmo chamado universal de Deus; cada um de nós recebeu de Deus um chamado específico diferente.

 chamado universal de Deus para nós não é tanto para fazer alguma coisa (um trabalho), mas para ser alguma coisa (uma pessoa). Embora ele nos chame para diferentes tarefas, como já veremos, primeiro ele nos chama para algo ainda mais significativo, isto é, para sermos discípulos de Jesus Cristo, para vivermos uma vida nova em sua nova sociedade e no mundo. Portanto, se alguém nos perguntar "Qual é a sua vocação?", nossa primeira resposta — aliás, a resposta certa — deveria ser: "Eu sou chamado para pertencer a Jesus Cristo". Rm 1.6. De fato, nós somos chamados a abraçar e desfrutar de todas as bênçãos que Deus nos reservou em Jesus Cristo: "... para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança". 1Pe 3.9. E que herança é essa? Ela tem muitas facetas.

 Primeiro, nós somos chamados para ter comunhão com Jesus Cristo. Isto é básico. Seu convite ainda é "vinde a mim" e "segue-me". Afinal Deus nos chamou "à comu­nhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor". 1Co 1.9. Assim como Cristo chamou os doze apóstolos para estarem "com ele", Mc 3.14, assim também ele nos chamou para o conhecermos e gozarmos de comunhão com ele. A vida eterna é conhe­cer a Deus e o seu Cristo, Jo 17.3, e nada pode tomar o lugar desta relação fundamental com ele.

 Segundo, nós somos chamados para a liberdade. "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade", escreveu Paulo aos Gálatas. Gl 5.13. O tipo de liberdade a que o apóstolo alude aqui é a liberdade da condenação da lei através do perdão de Deus e do fato de termos sido aceitos através de Cristo. É a libertação da culpa e de uma consciência culpada, a libertação que nos dá acesso a Deus como filhos e filhas adotivos seus. No entanto, não é liberdade para pecar ou liberdade das responsabilidades sociais. Pelo contrário, Paulo continua: "Porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros (lite­ralmente, 'sede escravos uns dos outros'), em amor." E o paradoxo que já vimos, de que só servindo é que nos tor­namos livres.

 Terceiro, nós somos chamados para a paz. "Seja a paz de Cristo o árbitro em vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo." Cl 3.15. A referência a "um só corpo" ajuda-nos a compreender o que Paulo queria dizer com isso. Aqui ele não está se referindo à paz de espírito, coração ou consciência, mas à paz (shalom) resultante da reconciliação uns com os outros na comunidade do reino de Cristo. Nós somos chamados não somente para perten­cer a Cristo, mas também para fazer parte do povo de Cristo.

 Em quarto lugar, nós somos chamados para a santida­de, 1Co 1.2, ou "chamados para ser santos". Rm 1.7. Já que o próprio Deus é santo, ele nos chama para que também sejamos santos. P. ex. 1 Pe 1.15; 1 Ts 4.7; 2 Tm 1.9. Para muita gente, infelizmente, "santidade" dá a falsa ideia de gente piedosa com uma aparência anêmica e um olhar distante, que parece ter-se desligado da vida. Mas a verdadeira santidade é uma semelhança com Cristo que é vivenciada no mundo real.

 

Emquinto lugar, nós somos chamados a testemunhar. "Vós, porém sois... povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." 1 Pe 2.9. Pedro está con­trastando aquilo que nós éramos antes com o que somos agora. Nós vivíamos nas trevas, mas agora estamos na luz. Nós não éramos povo, mas agora somos povo de Deus. Não tínhamos alcançado misericórdia, mas agora, sim. A de­dução lógica é que nós não podemos de maneira alguma guardar estas bênçãos para nós mesmos. Tendo sido cha­mados para a luz de Deus, nós somos inevitavelmente chamados para fazer brilhar a nossa luz.

 Em sexto lugar, nós somos chamados para o sofrimento. "Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados." 1 Pe 2.20-21. Pedro escreveu essa carta quando a hostilidade de Nero para com os cristãos começou a crescer e agourentas nuvens de perseguição se acumulavam no horizonte. A qualquer momento poderia irromper a tempestade. E daí, como os cristãos deveriam reagir se sofressem injustamente? A resposta de Pedro é muito franca. Eles tinham sido cha­mados para seguir o exemplo de Cristo, da não-retaliação. Muita gente fica chocada ao saber que sofrimento injusto é uma parte inevitável do chamado cristão. Mas o próprio Jesus nos advertiu sobre isso. "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim... Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros." Jo 15.18,20.

 Sétimo, nós somos chamados para glória. O chamado cristão é uma "vocação celestial". Hb 3.1; cf. Fp 3.14. "O Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar." 1 Pe 5.10. Sofrimento e glória estão constantemente ligados um ao outro no Novo Testa­mento. Foi por intermédio do sofrimento que Jesus entrou em sua glória, e conosco não há de ser diferente. Se nós participamos do sofrimento de Cristo, também participare­mos da sua glória. Rm 8.17. Portanto, o chamado de Deus não é apenas para esta vida; é também para passarmos a eterni­dade com ele no novo universo.

 Eis aqui, pois, o chamado global de Deus, desdobrado em sete aspectos. Deus chama a todos nós para Cristo, para a liberdade, a paz, a santidade, o testemunho, o sofrimento e a glória. Mais simplesmente, é um chamado para per­tencermos a Cristo no tempo e na eternidade, para amar­mos uns aos outros na paz de sua nova comunidade e para servirmos, testificarmos e sofrermos no mundo. É este o sentido fundamental da "vocação cristã". É a mesma coisa para todos nós, e nós somos exortados a viver uma vida digna dessa vocação. Ef 4.1.

 Se o nosso chamado universal (que é o mesmo para todos nós) é para sermos livres, santos e semelhantes a Cristo, nosso chamado específico (que é diferente para cada um de nós) tem a ver com os detalhes altamente individuais das nossas vidas. Vejamos o ensinamento de Paulo: "Cada um permaneça na vocação (literalmente, o 'chamado') em que foi chamado." 1 Co 7.20. Percebe-se imediatamente que o após­tolo usa a ideia de "chamado" em dois sentidos distintos. As palavras "em que fostes chamados" referem-se à con­versão da pessoa quando ouviu e obedeceu ao chamado universal de Deus. "A vocação" ("chamado") em que ele estava, por sua vez, é uma referência ao seu chamado es­pecífico quando da época da conversão. Essa situação, ou "vocação", é vista como algo para o qual Deus nos "chamou", algo que Deus "designou" para nós 1 Co 7.20,17. É o princípio geral que o apóstolo estabelece, repetindo-o três vezes, 1 Co 7.17,20,24, é que nós devemos "permanecer" nele. Ele dá três exemplos: nossa situação doméstica (casados ou solteiros), a situação cul­tural (judeus ou gentios) e a situação social (escravos ou livres). Para compreendermos o ensinamento de Paulo, nós precisamos entender o pano de fundo e o contexto. Parece que para os convertidos coríntios a vida em Cristo era uma novidade tão grande (ser "nova criatura") 2 Co 5.17 e emocionante, e tão radicalmente diferente do seu estado de não regene­rados, que eles pensaram que nada que fizesse parte da sua antiga vida poderia ser conservado; tudo tinha de ser re­pudiado.

 O casamento, por exemplo. Agora, que eles pertenciam a Cristo (esta parece ser a sua dúvida), como poderia uma obrigação contratual que antecedeu a conversão continuar válida após a conversão? Não seria tal relação "impura"? 1 Co 7.14. Paulo responde que não. E por que não? Porque a provi­dência de Deus abrange tanto a sua vida anterior como a vida posterior à conversão. Seu matrimónio, embora con­traído antes de eles se tornarem cristãos, era parte do "chamado" em que se encontravam quando Deus os cha­mou. Portanto, eles não tinham nenhum direito de repudiá-lo. Transformá-lo pela graça de Deus, sim; rejeitá-lo, não.

 Nós precisamos ter muito cuidado ao aplicarmos a nós mesmos este ensinamento. Paulo está formulando uma regra geral, não absoluta. Ele, por exemplo, tinha deixado de ser fariseu ao ser chamado para ser apóstolo de Cristo. Seme­lhantemente, os doze haviam desistido de pescar e recolher impostos quando foram chamados para ser apóstolos. E Paulo diz aqui que se um escravo tem alguma possibilidade de ganhar a sua liberdade, deveria fazê-lo. 1 Co 7.21. Nós também temos de estar abertos para a possibilidade de Deus nos estar chamando para fazer algo diferente. O que Paulo estava fazendo era reagindo a decisões impensadas e pre­cipitadas, a mudar só por mudar, e especialmente à ideia de que nada ocorrido antes da conversão e nada além da religião tem valor para Deus.

 Agora vamos deixar a Escritura e voltar-nos para a história, ver o que ensinaram os reformadores e os puri­tanos. Os reformadores insistiram em que todo cristão, seja homem ou mulher, tem um "chamado" divino. Eles esta­vam reagindo ao ensino do catolicismo medieval, de que os bispos, padres, monges e freiras tinham um chamado superior, por ser "religioso". Isso os reformadores rejei­taram, por considerá-lo "clericalismo" (separação entre clero e leigos) e "dualismo" (separar atividades "sagra­das", como a oração, de atividades "seculares", como governar uma casa ou trabalhar para viver). Eles afirma­vam que Deus se interessa pelo todo da nossa vida, e que ser fazendeiro, artesão, magistrado ou dona de casa era um chamado tão divino quanto ser "padre" ou "pastor". Lutero insistiu muito nisso:

 Aqueles que agora são chamados "espirituais", isto é, padres, bispos ou papas, não são, nem diferentes dos outros cristãos, nem superiores a eles; só que eles estão encarregados da palavra de Deus e dos sacramentos, que é o seu trabalho e ofício.

 Mas "as costureiras, os sapateiros, os pedreiros e car­pinteiros, os cozinheiros, hoteleiros, fazendeiros e todos os trabalhadores seculares" também foram "consagrados" como sacerdotes, cada um para "o trabalho e o ofício que lhe cabe".

 Além disso, todos devem se beneficiar e servir aos outros através do seu próprio trabalho ou profissão, de maneira que muitos tipos de trabalho possam ser feitos para o bem-estar corporal e espiritual da comunidade, assim como todos os membros do corpo servem uns aos outros (1 Co 12.14-26). Lutero, Weimarer Augsgabe (1883—), vol. 44, pp. 130—131.

 E, mais adiante: "servir a Deus não se restringe a um ou dois trabalhos, nem se resume a um ou dois chamados, mas está presente em todos os trabalhos e todos os cha­mados". Lutero, W. A., vol. 52, p. 124 "Mas o que eu quero fazer é estabelecer uma distinção entre os chamados e as profissões, a fim de que todo mundo possa ver para que Deus o chamou e cumprir com fidelidade e sinceridade os deveres de seu ofício no serviço de Deus." Lutero, W. A., vol. 46, p. 166

 

O que Calvino ensinou foi muito semelhante: 

O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres da vida, que zele pelo seu chamado... Portanto, para que a nossa estupidez e precipitação não acabe virando tudo de cabeça para baixo, ele designou deveres para todo homem, cada um em sua maneira particular de viver. E para que ninguém venha a transgredir impensadamen­te os seus limites, ele deu a esses vários tipos de vida o nome de "chamados". Portanto, cada indivíduo tem sua própria forma de viver designada pelo Senhor, como uma espécie de posto de sentinela, a fim de que ele não fique vagando sem rumo pela vida... E vem daí também uma singular consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser considerado deveras precioso aos olhos de Deus. Calvino, Instituías, III.x.6.

 Os puritanos desenvolveram ainda mais este tema. Por exemplo, William Perkins, que exerceu um influente mi­nistério em Cambridge, escreveu o Tratado das Vocações ou Chamados dos Homens, publicado em 1603. Eis aqui uma amostra de sua tese:

 O que um pastor de ovelhas faz ao cuidar de seu rebanho... é um trabalho tão bom diante de Deus quanto a ação de um juiz ao pronunciar uma sentença, ou de um magistrado ao fazer um decreto, ou de ministro ao pregar. Assim, pois, vemos que existe uma boa razão para procurarmos descobrir como todo homem pode desen­volver da maneira correta o seu chamado específico. William Perkins, A Treatise of the Vocations or Callings of Men, em The Work of William Perkins, The Courtenay Library of Reformation Classics, ed. Ian Breward (Sutton Courtenay Press, 1970), p. 458

 Um século mais tarde, e no outro lado do Atlântico, Cotton Mather, o puritano de Harvard, escreveu O Cristão e Seu Chamado (A Christian at his Calling, 1701). Segundo ele, todo cristão tem dois chamados — "um chamado universal" ("servir ao Senhor Jesus Cristo...") e "um chamado pessoal"("um trabalho específico mediante o qual se distingue a sua utilidade em comunidade"). Cotton Mather, A Christian at his Calling (1701), p. 37

 Além do mais, os dois chamados deveriam manter-se em equilíbrio, pois "um cristão em seus dois chamados é um homem em uma canoa remando para o céu... Se ele só se preocupar com um dos seus chamados, qualquer que seja ele, estará puxando o remo em um dos lados da canoa e acabará ficando à margem da bem-aventurança eterna." Ibid., pp. 37-38. É muito fácil criticar este tipo de ensinamento. Os reformadores e os puritanos eram pessoas do seu tempo e sua cultura, tanto quanto nós. Eles tinham uma visão estática e medieval da sociedade. Em sua reação contra as implicâncias revolucionárias de certos ensinos anabatistas, eles tendiam a resistir demais a mudanças. Às vezes a posição deles nos lembra a embaraçosa estrofe do conhecido hino: "All Things Bright and Beautiful".

 O rico em seu castelo,

O pobre em seu portão,

Deus fê-los nobre ou humilde,

Cada um em sua condição.

 Nós certamente não deveríamos usar o que a Bíblia ensina acerca dos "chamados" para fazer resistência a mudanças sociais.

 Paulo no primeiro século, os reformadores no século XVI e os puritanos no século XVII, todos parecem muito dis­tantes de nós. Mas, então, qual é o princípio em que devemos nos firmar hoje e que foi ensinado por Paulo e resgatado pelos reformadores e os puritanos? Acho que é o seguinte. Toda a nossa vida, tanto anterior à conversão como fora da religião, pertence a Deus e faz parte do seu chamado. Nós não devemos pensar que Deus só passou a se interessar por nós depois que nos convertemos, ou que agora ele só está interessado no cantinho religioso das nossas vidas.

 Consideremos a nossa vida antes da conversão. Qual era o nosso chamado, a vida que vivíamos quando Deus nos chamou? Se na ocasião da nossa conversão nós estávamos tomando conta de parentes idosos, não deveríamos abandoná-los agora. Se éramosestudantes, não temos o direito de abdicar de nossos estudos e abandonar o colégio ou a universidade. Se havíamos feito um acordo com al­guém, não temos o direito de rompê-lo. Se, quando Deus nos chamou, nós éramos músicos, artistas, atletas ou intelectuais, não devemos agora repudiar essas boas coisas que o bom Criador nos deu. Afinal, elas não eram aspectos acidentais da nossa vida. Elas eram parte integrante da providência de Deus, para a qual ele nos havia chamado e que ele havia designado para nós. A soberania de Deus abrange as duas partes da nossa vida. Ele não começou a agir em nós e através de nós a partir da nossa conversão, mas em nosso nascimento e mesmo antes de nascermos, em nossa herança genética, da mesma forma que mais tarde passaria a atuar em nosso temperamento, personalidade, educação e habilidades. E o que Deus fez de nós e nos deu antes de nos tornarmos cristãos, ele redime, santifica e transforma depois disso. Existe uma continuidade vital entre a nossa vida antes e depois de convertidos. Afinal de contas, embora sejamos hoje uma nova pessoa em Cristo, nós ainda somos a mesma pessoa que éramos por criação e que se fez nova em Cristo.

 Agora vejamos a nossa vida fora da religião. O Deus que muitos de nós adoramos é religioso demais. Aparentemen­te, nós achamos que ele só se interessa por livros, edifícios e cerimónias religiosas. Mas não é bem assim. Ele se preocupa conosco, nosso lar, nossa família e amigos, nosso trabalho e lazer, nossa cidadania e comunidade. Assim a soberania de Deus estende-se a ambos os lados e a todas as áreas da nossa vida. Nós não devemos marginalizar Deus, ou tentar espremê-lo para fora da nossa vida não religiosa. Lembremos que a nossa vocação (i.e. o chamado de Deus) inclui todas estas coisas. É nelas que vamos servir e glorificar a Deus.

 

Ministério 

Se queremos saber para onde Deus vai nos levar (direção) e para que ele vai nos chamar (vocação), podemos ter certeza de que isto tem relação com a melhor maneira em que podemos servi-lo (ministério). Além do mais, tal como vimos com as palavras "direção" e "vocação", também ao considerar a palavra "ministério" é preciso fazer uma distinção entre o seu significado mais amplo e o outro, mais limitado, entre a sua aplicação num sentido geral e o mais específico. Eis aqui três afirmações acerca do ministério.

 Primeiro, todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrar — ou melhor, para gastar suas vidas em minis­tério. Ministério não é um privilégio de uma pequena elite, mas de todos os discípulos de Jesus. Você com certeza notou que eu não disse que todos os cristãos são chamados para o ministério, mas para ministrar — diakonia, serviço. Nós fazemos um grande desserviço à causa cristã sempre que nos referimos ao pastorado como "o ministério". Ao usar­mos o artigo definido, damos a impressão de que o pastorado é o único ministério que existe, tal como os clérigos me­dievais, que consideravam o sacerdócio como a única (ou, pelo menos, o mais "espiritual") vocação que existe. Eu abandonei esta visão e, portanto, esta linguagem, há cerca de vinte e cinco anos, e agora convido os meus leitores, caso necessário, a juntarem-se a mim nesta penitência. Hoje, sempre que alguém diz em minha presença que "Fulano de Tal vai seguir o ministério", eu sempre pergunto com a maior inocência: "E mesmo? A qual ministério você está se referindo?" E quando meu interlocutor replica: "O mi­nistério pastoral", eu reclamo gentilmente: "Então por que você não disse logo?!" O fato é que a palavra "ministério" é um termo genérico; enquanto não lhe acrescentarmos um adjetivo, ela não terá especificidade.

 Voltemos à minha primeira proposição, de que todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrar. Como é que eu posso fazer uma declaração tão dogmática? Por causa de Jesus Cristo. Seu senhorio sobre nós tem uma dimensão vocacional. Já que ele é "o servo" por excelência, aquele que se doou sem reservas para o serviço de Deus e dos seres humanos, seria impos­sível ser seu discípulo sem procurar seguir seu exemplo de serviço. Ele pregou o reino, curou os doentes, alimentou os famintos, foi amigo dos que não tinham amigos, defendeu os oprimidos, confortou os enlutados, procurou os perdidos e lavou os pés dos apóstolos. Nenhuma tarefa era pesada demais e nenhum ministério desprezível demais para ele. Ele viveu sua vida e morreu sua morte em serviço inten­samente abnegado. E nós, não vamos imitá-lo? O mundo mede a grandeza pelo sucesso; Jesus a mede pelo serviço.

 Em segundo lugar, existe uma ampla variedade de mi­nistérios cristãos. É por isso que "ministério" significa "serviço", e há muitas e diferentes maneiras pelas quais nós podemos servir a Deus e às pessoas. Atos 6.1-4 provê uma sólida base bíblica para esta convicção. Uma dissensão étnica e cultural estava dividindo a igreja de Jerusalém. Os "judeus gregos" reclamavam contra os "judeus hebreus", dizendo que suas viúvas estavam sendo discriminadas na distribuição diária da comida. E aí os apóstolos acabaram se envolvendo nessa briga; ela estava ocupando uma grande parte do seu tempo e ameaçava desviá-los do seu papel de pregar e ensinar, o qual lhes havia sido designado por Jesus. Assim eles, sabiamente, convocaram uma reunião da igreja e disseram: "Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir [diakonein] às mesas." Então eles pediram à igreja que escolhesse sete homens para essa responsabilidade, enquanto que, acrescentaram os apósto­los, "quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério [diakonia] da palavra".

 É essencial notar que, tanto para distribuir a comida como para ensinar a palavra, o termo usado aqui é "mi­nistério" (diakonia). Na verdade, ambos eram ministérios cristãos, podendo ser ministério cristão de tempo integral, e ambos requeriam, para desempenhá-los, pessoas cheias do Espírito Santo. A única diferença é que uma atividade era ministério pastoral, e a outra, social. Não ocorre que uma fosse ministério e a outra, não; nem que uma fosse espiritual e a outra, secular; nem que uma fosse superior e a outra, inferior. Ocorria simplesmente que Cristo havia chamado os doze para o ministério da palavra e os sete pura o ministério das mesas.

 Eu mesmo, na qualidade de jovem cristão, cresci pensando nas diferentes vocações ou ministérios como se constituíssem uma hierarquia ou pirâmide. Lá em cima, empoleirado no topo da pirâmide, estava o missionário transcultural. Ele era o nosso herói, e ela, a nossa heroína. Ensinaram-me que se eu amasse a Cristo de verdade eu acabaria juntando-me às suas fileiras além-mar. Caso eu não fosse tão apaixonado assim, ficaria em casa e viraria pastor. E se a minha aspiração nem chegasse a tanto, eu provavelmente seria um doutor ou professor, enquanto que, se decidisse entrar no mundo dos negócios, política ou comunicações, eu não estaria muito longe de me perder! Por favor, ninguém me leve a mal. Ser pastor ou missio­nário é um privilégio maravilhoso, se Deus nos chama para isso.Mas é igualmente maravilhoso ser um advogado, industrial, político, gerente ou assistente social, ser um filmador, um jornalista ou uma dona de casa cristã, se Deus nos chama para isso. Conforme Romanos 13.4, um oficial de estado (seja ele um legislador, magistrado ou policial) é tão "ministro de Deus" (diakonos theou) quanto um pastor. O que precisamos rejeitar é a hierarquia; é a pirâmide que temos de demolir.

 Obviamente, ainda existe uma premente necessidade de missionários autênticos, homens e mulheres que se carac­terizem sobretudopela humildade — por exemplo, a humil­dade de abdicar do imperialismo cultural e identificar-se com outra cultura, a humildade de trabalhar sob a lide­rança de uma igreja nacional, a humildade de servir às necessidades que o próprio povo sente (sejam elas sociais ou evangelísticas) e a humildade de confiar no Espírito Santo como o seu principal comunicador. Ver O Evangelho e a Cultura (ABU e Visão Mundial, 1983) especialmente o capítulo 6: "Procura-se: Mensageiros Humildes do Evangelho!". A evangelização continua no topo da agenda da igreja. Há também uma grande necessidade de pastores para ensinar a Palavra de Deus.

 

Ao mesmo tempo, é gritante a necessidade de cristãos, tanto homens como mulheres, que vejam o seu trabalho diário como seu ministério cristão prioritário e que estejam decididos a impregnar o seu contexto secular a fim de ganhá-lo para Cristo.

 Precisamos de cristãos envolvidos em negócios e na indústria, que priorizem o "serviço ao público" como o alvo principal de sua declaração "missionária", que sejam ousados em fazer experiências nas áreas de relações de trabalho, participação dos trabalhadores e divisão de lucros, e que admitam a sua responsabilidade de, juntamente com a auditoria fiscal, realizar também uma "auditoria social" na sua empresa.

 Precisamos de políticos cristãos que identifiquem as grandes injustiças de sua sociedade, recusando-se a ser coniventes com elas, e que tenham como objetivo assegurar mudanças legislativas seguras, por mais tempo que isso lhes custe.

 Precisamos de economistas cristãos que encontrem uma maneira de controlar a inflação e ao mesmo tempo reduzir o desemprego.

 Precisam-se cineastas cristãos que produzam, não ape­nas filmes explicitamente cristãos ou evangelísticos, mas também filmes saudáveis que, indiretamente, transmitam valores cristãos individuais e familiares, honrando e glo­rificando, assim, o nome de Cristo.

 Precisamos de mais médicos cristãos que, em cooperação com teólogos da moralidade, encarem os desafios da ética médica e desenvolvam formas de conservar a visão da pessoa humana e da família humana que é característica única do cristianismo.

 Precisam-se professores cristãos dedicados que, tanto nas escolas cristãs como nas seculares, considerem como privilégio servir aos seus alunos, ajudando-os a desenvol­verem plenamente o potencial que Deus lhes deu.

 E precisamos de mais assistentes sociais cristãos que, em sua preocupação com os deficientes da mente e do corpo, crianças vítimas de abuso, drogados, vítimas da AIDS e outros, combinem os mais recentes tratamentos médicos e o cuidado social com o amor cristão, a oração de fé e o apoio da igreja.

 Em terceiro lugar, o ministério específico para o qual Cristo nos chama é provavelmente determinado pelos nossos dons. Ou seja, o principal fator na decisão quanto ao trabalho da nossa vida é, provavelmente, que tipo de pessoa somos nós, a partir da criação e redenção de Deus. Deus não cria ao acaso; ele não nos deu dons naturais para serem desperdiçados. Deus não é, tampouco, um redentor aciden­tal, para nos conceder dons que vão ser desperdiçados. Pelo contrário, ele quer que os dons que nos deu sejam discernidos, cultivados e exercitados. Ele certamente não nos quer frustrados (pelo fato de os nossos dons ficarem ociosos), mas sim realizados (porque estamos usando os nossos dons).

 Eu acho perfeitamente compatível com as nossas dou­trinas cristãs da criação e da redenção nós dizermos a nós mesmos: "Eu sou uma pessoa única. (Isto não é con­vencimento. É um fato. Se cada floco de neve e cada folhinha de grama não tem paralelo, quanto mais cada ser humano!) Minha unicidade deve-se à minha herança genética, minha personalidade e ao temperamento que herdei, minha ascendência (meus pais), minha formação e educação, meus talentos, inclinações e interesses, meu novo nascimento e meus dons espirituais. Pela graça de Deus eu sou quem sou. Portanto, como é que eu, sendo essa pessoa única como Deus me criou, posso me gastar no serviço de Cristo e do seu povo, de forma tal que nada que ele me deu seja des­perdiçado e tudo que ele me deu seja aproveitado?"

 Pode ser que haja exceções a este princípio, mas esta me parece ser a pergunta certa que cada um de nós deve fazer a si mesmo. E assim, ao tentarmos avaliar-nos com ho­nestidade, não com orgulho nem com falsa modéstia, nossos pais e os amigos que mais nos conhecem são os que mais chance têm de nos ajudar.

 Todas as três palavras que acabamos de considerar (direção, vocação e ministério) têm a ver com a vontade de Deus para as nossas vidas e como descobri-la. Concluindo, deixe-me antecipar dois temores que meus leitores podem estar sentindo, e tentar tranquilizá-los.

 Primeiro, não há necessidade alguma de se temer a vontade de Deus, por medo de que ela seja difícil. Certos cristãos parece que imaginam que quanto maior a chance de alguma coisa ser desagradável, mais provável é que ela seja a vontade de Deus! Mas Deus não é um bicho-papão, sempre pronto para estragar as nossas vidas; ele é o nosso Pai, comprometido com o nosso bem-estar e decidido a nos dar apenas o que é para o nosso bem. "Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos", disse Jesus, "quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?". Mt 7.11. Nós podemos ter certeza de que a vontade de Deus é "boa, perfeita e agradável". Rm 12.2.

 Segundo, ninguém precisa temer que nunca descobrirá a vontade de Deus. Não temos razão alguma para preocupar-nos ou ficar nos queixando, ou para cairmos num estado de tensão nervosa ou passarmos noites em claro devido à ansiedade. Parece muito estranho, mas uma das lembranças mais antigas da minha infância, quando eu não devia ter mais que seis ou sete anos, é a de minha mãe entrando no meu quarto para dizer boa-noite. Eu sempre a incomodava com a mesma pergunta angustiada: "Mamãe, o que eu vou ser quando eu crescer?" Ela sempre me respondia que eu não precisava me preocupar, pois quando chegasse a hora eu iria saber. E agora, mais de sessenta anos depois, com a sabedoria adquirida pelo tempo, eu sei que ela estava certa e que todas aquelas apreensões infantis eram desnecessárias. Nós temos toda razão para confiar que a vontade do nosso Pai é boa e que se pode descobri-la. Ele temmeios e maneiras de nos mostrar o que ele quer que façamos. A principal condição é que nós mesmos quei­ramos, com sinceridade, discernir a sua vontade, a fim de realizá-la.

 

FONTE Bibliografia John R W Stott

FONTE www.avivamentonosul.blogspot.com.br