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desafio de ser cristão
desafio de ser cristão

 

DESAFIOS COMO CRISTÃOS NESTA SOCIEDADE

 

Os Desafios éticos do apostolo Paulo

 

Dedicação verdadeira, base de toda á ação moral (Rm12-1,2)

 

Havendo terminado as grandes considerações doutrinárias da fé cristã, e tendo concluído as mesmas apresentando o seu ponto de vista sobre a filosofia da história, agora dá início à segunda grande divisão desta epístola, que versa sobre a «conduta cristã ideal», ou seja, a ética cristã, o cristianismo prático. Temos nesta seção aquilo que se espera da parte do crente em Cristo, quanto ao seu comportamento diário, o qual desfruta das bênçãos espirituais e privilégios celestiais mencionados na seção anterior de Romanos.

 

Deve-se observar que esse plano é seguido pelo apóstolo dos gentios também em outras de suas epístolas. Por exemplo, a epístola aos Efésios divide-se em uma seção doutrinária (caps. 1-3) e em uma seção ética e prática (caps. 4-6). A epístola aos Colossenses também está similarmente dividida: Seção doutrinária (caps. 1-2); seção prática (caps. 3-4). Isso não quer dizer, entretanto, que as seções práticas das epístolas paulinas não contenham matéria doutrinária, porque a verdade é que até ali o apóstolo expõe doutrinas; de modo geral, entretanto, essa divisão das epístolas paulinas serve de característica da apresentação cristã do apóstolo Paulo. Seja como for, a transição da seção «doutrinária» para a seção das «exortações práticas» é bem marcada, como algo perfeitamente natural para esse apóstolo. Não obstante, a transição é ainda mais abrupta e óbvia na epístola aos Romanos do que em qualquer dos outros escritos paulinos. (Ver também as divisões «práticas», que aplicam aos problemas individuais e locais os ensinamentos das respectivas seções doutrinárias anteriores, em I Ts 4:1; II Ts 3:6 e Gl 5:1,2).

 

A seção prática desta epístola aos Romanos, embora dirigida às necessidades particulares da igreja cristã de Roma, também é suficientemente geral para ter aplicação universal, aos crentes de todos os séculos. Nas epístolas aos Coríntios, por exemplo, essas exortações visam mais especificamente as necessidades dos discípulos cristãos de Corinto, sendo mais particulares do que no caso da epístola aos Romanos. É possível que a superioridade moral dos romanos sobre os coríntios, de modo geral, tenha levado Paulo a entrar menos decididamente nos problemas específicos, levando-o a apresentar um ponto de vista mais generalizado sobre a natureza da ética cristã, conforme o que seria de esperar em qualquer comunidade religiosa cristã. Assim sendo, a maioria das exortações de Paulo, na epístola aos Romanos, são de natureza geral, resultantes de suas reflexões sobre as grandes doutrinas que ele acabara de expor, mostrando como essas doutrinas deveriam ter um sentido pessoal profundo para os crentes em Cristo. Não pretendia o apostolo observar os problemas morais específicos da congregação cristã em Roma. (O décimo terceiro capítulo, mui provavelmente, faz exceção a isso, porquanto ali ele aborda qual deve ser a nossa atitude para com os governantes civis, o que, na cidade de Roma, certamente era um problema premente, onde os cristãos eram mártires em potencial por causa de sua fé, pois com freqüência a sua posição em favor de Cristo parecia ser uma afronta ao culto imperial, que cultuava a pessoa do próprio imperador, o que equivalia à traição contra o estado).

 

Há uma idéia central que parece atravessar toda a seção prática desta epístola, ou seja, paz e unidade na igreja cristã, em todas as relações, internas e externas, entre crente e crente e incrédulo, como indivíduos, como comunidades e como nações. O fato de que os homens são chamados aos pés de Cristo, a fim de serem modelados segundo a sua imagem, serve de razão suficiente para que se tornem capazes de viver harmoniosamente uns com os outros, desfrutando de tranqüilidade espiritual até mesmo neste mundo agitado. Tendo abordado essa questão da paz e da unidade, embora sem dúvida isso fosse uma exortação universalmente necessária, o apóstolo Paulo, no trecho de Rm 14:1-15:12, parece estar referindo-se a alguma perturbação específica da paz cristã, existente na igreja cristã de Roma. Porém, até mesmo nesse caso, as questões são abordadas de maneira geral, sem alusões específicas a indivíduo algum, em contraste com a maneira de Paulo abordar essas mesmas questões, em outras de suas epístolas.

 

«Os princípios éticos cristãos se relacionam à revelação cristã. As relações em que nos encontramos é que determinam os nossos deveres; e as novas relações nas quais fomos colocados, tanto no tocante a Deus como no tocante aos outros homens, mediante a fé em Jesus Cristo, têm uma nova moralidade que lhes é correspondente. Existe aquilo que se denomina ética cristã, com um alcance, uma delicadeza e um colorido todo seu. Não há aqui qualquer exposição formal sobre esse tema, embora talvez encontremos aqui a mais profunda exposição sobre a questão que ha em todo o N.T. Esta seção, pois, é uma ilustração compreensiva sobre essas relações, com boa variedade de particularidades. Paulo inicia, em Rm 12:1 e s., com uma exortação geral, que cobre a vida cristã inteira. Desse ponto ele parte para o espírito e a atitude que deveriam caracterizar os crentes como membros da sociedade a que pertencem, demorando-se especialmente na exposição das graças cristãs da humildade e do amor (ver Rm 12:3-21). No capítulo seguinte, o apóstolo discute os deveres do indivíduo para com os seus superiores civis legais (ver Rm 13:1-7); os deveres para com o próximo, enfeixados no amor que cumpre a lei (ver Rm 13:8-10); e também discute a urgente necessidade da santificação, em vista da «parousia (ver)» ou segundo advento de Cristo. Já no décimo quarto capítulo o apostolo entra em um assunto diferente, que aparentemente se revestia de interesse peculiar para os cristãos de Roma, naquela época. Trata-se de uma daquelas questões em que os direitos da liberdade cristã precisam acomodar-se às necessidades sociais criadas pelas fraquezas dos irmãos, numa exposição que se estende desde o primeiro versículo desse capítulo até ao décimo terceiro versículo do capítulo quinze, onde termina a seção 'prática' desta epístola». (James Denny, in loc).

 

«Novamente podemos conjeturar a existência de uma pausa, de uma longa pausa, a fim de deliberar sobre o trabalho de Paulo e Tércio. Geralmente falando, temos chegado ao fim do conteúdo dogmático e por assim dizeroracular desta epístola. Temos ouvido os grandes argumentos da retidão, da santificação e da redenção final. Temos acompanhado a exposição da misteriosa incredulidade e da restauração determinada para a nação escolhida, um tema que podemos ver, ao olharmos de volta, em perspectiva, essa epístola inteira, como alvo que tem uma profunda e sugestiva conexão com aquilo que foi dito antes; porquanto a experiência de Israel, em relação à vontade soberana e à graça de Deus, está plena de luz, lançada sobre a experiência da alma. Em seguida, na ordem da apresentação, aparece a brilhante seqüência desse poderoso antecedente, dessa complexa mas harmoniosa massa de fatos espirituais e de ilustrações históricas sobre a vontade e os caminhos do Centro eterno. A voz do apóstolo Paulo é ouvida novamente; e ele chega a falar solidamente sobre a mensagem divina do dever, da conduta e do caráter».

 

«Como que de alguma fenda, na face de colinas rochosas, flui o pleno e puro riacho nascido nas profundezas, que corre sob o sol e os céus, através de grandes prados e paralelamente aos lares sedentos dos homens. Assim também aqui, dos mistérios mais profundos da graça, flui a mensagem de todo o dever santo. O crente, cheio do conhecimento de um amor eterno, é ensinado não a sonhar, e, sim, a servir, tendo todas as misericórdias de Deus como seu grande motivo ».

 

«Nos dias presentes, em muitas seções da nossa cristandade, tem aparecido um notável reavivamento do desejo de aplicar a verdade salvadora à vida diária, conservando os crentes sempre relembrados que não somente esperam pelos céus, mas que devem viajar em direção ao mesmo, passo a passo, na vereda da santidade prática e vigilante...»

 

«Nesse ínterim, que Deus proíba que esses 'ensinamentos sobre a maneira de viver' sejam jamais transmitidos, pelos pais, pelos pastores, pelos mestres-escolas, pelos amigos, se antes de tudo não tenham sido experimentados pela própria alma desses instrutores, em sua própria vida diária. Ai de nós se mostrarmos, de maneira convincente e conquistadora, qual a ligação entre a salvação e a santidade, ao mesmo tempo que não andamos prudentemente (ver Ef 5:15) nós mesmos, nos detalhes de nossa conduta diária.

 

«O fruto é mais do que á flor e a folha; é a própria coisa por causa da qual a árvore existe. Nós, os que cremos, fomos 'escolhidos' e 'determinados' para produzir muito fruto (ver Jo 15:26), fruto abundante e duradouro. O Mestre eterno passeia pelo seu jardim com o propósito específico de verificar se essas árvores produzem fruto. E o fruto que ele espera encontrar não é nenhuma coisa visionaria; é a vida de serviço santo, prestado a ele e aos nossos semelhantes, em seu nome». (Moule, in loc).

 

12:1:   Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

 

É bem provável que nenhum outro versículo bíblico tenha sido mais freqüentemente utilizado, na igreja cristã, no que tange às questões de santidade e de dedicação pessoal, do que este, usualmente em vinculação com o versículo seguinte. O trecho de Rm 12:1,2, é como o de «Jo 3:16» da ética cristã.

 

«...Rogo-vos...» Visto que o apóstolo Paulo mostrava-se intensamente interessado sobre essa questão, e visto que o «viver para Cristo» era a razão consumidora de sua própria vida, ele «roga» aqui, aos outros crentes, que levem tão a sério como ele a questão da doutrina cristã vinculada à conduta cristã diária. Essa mesma fórmula, incluindo a palavra «pois», nos trechos de Ef 4:1; I Tm 2:1 e I Co 4:16. O vocábulo aqui usado, «rogo», em sua forma verbal, significa «encorajar», «exortar», «pleitear insistentemente», o que tem o sentido de fazer um apelo sério e ardoroso. Em sua forma substantivada, é usado para indicar uma «exortação», um «encorajamento», umapelo, uma «solicitação», embora algumas vezes também signifique «consolo» ou «conforto». Neste texto, porém, o primeiro sentido é o que está em foco.

 

Paulo, na sua posição de apóstolo dos gentios e de revelador da fé cristã, tinha o direito e o dever de chamar a nossa atenção para as exigências da vida cristã, de lembrar-nos que nenhum indivíduo realmente possui a Jesus como seu Salvador se também não conta com ele como seu «Senhor», tal como ele já havia declarado dogmaticamente em Rm 10:9,10. Essas duas idéias simplesmente não podem ser separadas. Na presente seção o apóstolo haverá de mostrar-nos como agirá o indivíduo que tem Jesus como seu Senhor. Paulo haverá de mostrar-nos o que significa contar alguém com a presença habitadora do Espírito Santo no íntimo, do ponto de vista da vida prática diária.

 

«Rogo-vos... Que palavra espantosa, quando proveniente de Deus! Quando proveniente do Deus contra o qual temos pecado, e sob cujo julgamento nos encontrávamos! Que palavra dirigida a nós, os crentes, uma raça de pecadores que tão recentemente estava em inimizade contra Deus. Rogo-vos! — Paulo recebera autoridade, da parte de Cristo, para ordenar-nos tal coisa, conforme ele chegou a dizer a Filemom: '...ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém...' Compete-nos dar ouvidos atentos a esse nosso apóstolo, que com freqüência cobria de lágrimas as páginas sobre as quais escrevia. Conforme também ele disse sobre o seu ministério: 'De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos...'» (Newell, in loc).

 

«Sabemos que os homens profanos, a fim de satisfazerem à carne, aproveitam-se ansiosamente de qualquer coisa que as Escrituras digam concernente à bondade infinita de Deus; e os hipócritas, por semelhante modo tanto quanto podem, obscurecem maliciosamente o conhecimento das mesmas, como se a graça de Deus houvesse extinguido o desejo de terem uma vida piedosa, tendo aberto a audácia da porta para o pecado. Esta exortação (a de Rm 12:1,2), entretanto, ensina-nos que enquanto os homens não aprenderem realmente o quanto devem à misericórdia de Deus, jamais o adorarão com sentimentos verdadeiros, e nem serão eficazmente estimulados a temê-lo e obedecê-lo». (Calvino, in loc).

 

«...pois...» Visto que Paulo não nos diz especificamente a que porção do material apresentado antes por ele é que ele aludia, é impossível para nós determinar, com certeza absoluta, a que idéia ou seção ele agora vincula a sua «aplicação prática». Várias idéias têm sido ventiladas, conforme a lista enumerada abaixo:

 

1.      É possível que haja a ligação dessa seção prática com o último pensamento da seção dos capítulos nono a décimo primeiro, isto é, com a doxologia, bem como com os elevados pensamentos ali contidos. (Ver Rm 11:33-36). Essa doxologia consiste da exclamação de Paulo, ante o pensamento de como o Senhor tem preparado a redenção para todos os homens (ver Rm 11:32), no que Deus exibiu uma sabedoria e um conhecimento que ultrapassam a toda a compreensão humana, porquanto todas as coisas procedem dele (ele é a fonte originária), «por meio dele» (ele é o meio eficaz) e «para ele» (ele é o alvo) de toda a existência e vida. Por causa dessa elevadíssima mensagem, «pois», é que nós temos a obrigação de lhe sermos supremamente dedicados.

 

2.      Mas outros estudiosos preferem vincular essa seção prática diretamente ao trigésimo segundo versículo do décimo primeiro capítulo, que serve de uma espécie de sumário de tudo quanto Paulo tencionou expor nos capítulos primeiro a décimo primeiro desta epístola aos Romanos.

 

3.      Ainda existem outros que vinculam essa seção prática com a seção didática inteira da epístola, a saber, com o material dos capítulos primeiro a décimo primeiro.

 

4.      Ainda outros eruditos supõem que em vista dos capítulos nono a décimo primeiro serem, na realidade, uma unidade separada do restante desta epístola, a qual poderia com facilidade ser destacada, sem com isso afetar a seqüência contida nos capítulos oitavo ao décimo segundo, Paulo estaria baseando esta seção prática sobre o que dissera nos capítulos primeiro a oitavo, reiterando as idéias ali existentes.

 

5.      O mais provável, entretanto, é que o apóstolo Paulo não esteja fazendo qualquer referência específica a qualquer seção particular da porção anterior da epístola, mas antes, esteja fazendo uma conexão bem geral com toda a grandiosa idéia da redenção humana, que consiste na combinação de todas as idéias dos onze capítulos anteriores a este, na presente epístola. Nesse caso, como que Paulo estaria exortando: «Rogo-vos, por causa de tudo quanto vos tenho mostrado em relação à 'redenção humana'». Todas as proposições doutrinárias anteriores desta epístola, portanto, teriam alguma vinculação com o tema desta «seção prática»; e, desse modo, Paulo teria alicerçado toda a presente seção com a totalidade da porção anterior da epístola aos Romanos.

 

«...pelas misericórdias de Deus...» Ao usar aqui o vocábulo «misericórdias», Paulo não se refere às bênçãos diárias da vida humana, embora essas bênçãos também sejam um reflexo das misericórdias divinas; mas a sua alusão particular é às misericórdias espirituais, que ele já havia esboçado na seção anterior de sua epístola aos Romanos, a saber, a salvação dos crentes, em seus múltiplos aspectos. A misericórdia divina, que Paulo havia demonstrado ser inerente ao «sistema da graça», conforme a sua exposição do mesmo, está aqui em foco, onde cada conceito pertinente é visto em separado, motivo pelo qual ele emprega aqui a palavra no plural, «misericórdias». (Com isso pode-se comparar o trecho de II Co 1:3, onde Deus é chamado de «Pai de misericórdias»). Assim, pois, Paulo se utilizou das várias demonstrações das «compaixões divinas» para com os homens, a fim de impressionar estes últimos com a necessidade e com a excelência emocional da vida diária moldada segundo os desígnios e mandamentos do Senhor; porquanto, mediante essas misericórdias divinas, os homens aprendem que os desejos que Deus nutre em favor deles são benignos, beneficentes e misericordiosos, sendo todos tendentes à sua redenção e glória eternas.

 

A palavra misericórdia também é encontrada na forma singular, nas páginas do N.T. (Ver Cl 3:12). A forma plural evidentemente representa um hebraísmo, através da Septuaginta, que penetrou assim no N.T., porquanto no hebraico esse termo aparece regularmente no plural, provavelmente como meio de elevar o conceito, o que era um artifício perfeitamente comum no hebraico antigo. No caso desse vocábulo, raramente se encontra a forma singular. A forma plural é perfeitamente natural aqui, porque expressa a multiplicidade das doutrinas expostas na seção anterior, que expressam a graça divina.

 

Paulo, pois, referia-se às seguintes «misericórdias»;

1.      A misericórdia da justificação. Rm 3:24,28.

2.      A misericórdia da identificação dos crentes com Cristo, na experiência que é o batismo espiritual. Rm 6:3.

3.      A misericórdia da reconciliação. Rm 5:10.

4.      A misericórdia da graça superabundante. Rm 5:20,21.

5.      A misericórdia da permanência do Espírito Santo no íntimo dos remidos. Rm 8:9.

6.      A misericórdia da eleição divina. Rm 8:28,29.

7.      A misericórdia da segurança eterna. Rm 8:39.

8.      A misericórdia da glorificação final. Rm 8:29,30.

9.      A misericórdia da herança que possuímos em Cristo. Rm 8:17.

10.    A misericórdia do fato que todos os decretos divinos são benéficos para os homens, pois o seu alvo final é a redenção humana, e isso em grande escala. Rm 11:32.

 

Existem muitos outros aspectos da misericórdia divina, que poderiam ser enumerados nesta lista; mas esses aspectos servem de exemplos.

 

«...apresenteis...» Trata-se de um vocábulo que veio a adquirir o sentido técnico de «apresentar um sacrifício». (Comparar com Josefo, AntiqIV. vi.4). Literalmente significa «pôr de lado», isto é, reservar para algum propósito particular. Pode-se perceber seu uso no trecho de Lc 2:22, onde é usado em conexão com a apresentação dos convertidos a Cristo, por parte de Paulo. Mediante o uso desse termo, bem como mediante o emprego da palavra «...sacrifício...», que igualmente aparece neste versículo, o apóstolo lembra-nos o sistema de sacrifícios do A.T. Do mesmo modo que os sacrifícios eram preparados e dedicados à adoração a Deus, assim também os remidos devem reputar-se. A dedicação total do ser fica aqui subentendida. (Ver as notas mais abaixo sobre os «sacrifícios», bem como os comentários concernentes ao «voto do nazireado», que ilustra bem a idéia que Paulo fazia sobre a dedicação da vida do crente ao Senhor).

 

«...corpos...» O emprego dessa palavra não indica, certamente, que Paulo pensava que somente o corpo, e não também a alma, pode ser corrompido e usado erroneamente, ou que somente o corpo pode ser oferecido como oferta apropriada a Deus, como se isso não se estendesse igualmente ao espírito. Antes, ele lança mão do termo «corpo» a fim de indicar a ação total do ser humano mortal, porquanto é o corpo que deve ser empregado no serviço a Deus, por ser o mesmo o veículo de expressão do homem mortal. Nenhuma alma se dedica realmente a Deus, a menos que seu corpo também seja consagrado. Indiretamente, pois, Paulo nega aqui a idéia gnóstica que dizia que o corpo é a sede ou princípio do pecado, ao passo que a alma é pura, e que, com a morte do corpo, a alma é liberada finalmente do pecado. Antes, o apóstolo deixa claro que muito importa o modo como usamos o nosso corpo, porquanto isso serve de excelente indicação sobre o estado da alma.

 

A alma pura, entretanto, garante o uso apropriado do corpo, o qual, nesse caso, serve de instrumento ou veículo no serviço ao Senhor, embora o impulso espiritual e intelectual parta realmente da alma. Várias interpretações têm sido atribuídas à palavra «corpo», aqui usada:

 

1.      Seria uma designação figurada da própria personalidade humana, correspondente à figura simbólica da «oferta», porquanto as ofertas consistiam de «corpos», especialmente no caso das ofertas queimadas, que provavelmente são as ofertas aqui em vista. Essa interpretação é parcialmente correta. Pois certamente é a «personalidade inteira» que é salientada neste caso, e «corpo» sem dúvida tem aqui esse sentido.

 

2.      Porém, os corpos, em sentido literal e real, também devem ser enfatizados, porquanto o corpo é aquele instrumento que tão facilmente pode ser usado para o bem ou para o mal; e usualmente os homens mortais empregam-no para o mal. O apóstolo Paulo frisa aqui, pois, a debilidade da natureza humana, deixando entendido que essa dedicação deve envolver até mesmo o veículo físico do corpo, porque, de outra maneira, não haverá dedicação autêntica e profunda. Pois nenhuma alma (de homem mortal) pode realmente dedicar-se a Deus, enquanto o corpo estiver entregue aos pecados, às concupiscências e aos interesses próprios deste mundo.

 

3.      Outros estudiosos preferem pensar que a palavra «corpo», neste caso, refere-se à natureza sensual do homem, que o impulsiona na direção do pecado; mas, apesar desse pensamento necessariamente ter de ser incluído nesta interpretação, não é essa a idéia central do termo, neste caso.

 

Essa idéia geral de Paulo pode ser comparada com o conceito que ele fazia de si mesmo, como servo de Cristo,ou melhor, escravo de Cristo (segundo uma tradução mais literal), em Rm 1:1. Os escravos eram possuídos por seus senhores enquanto se encontrassem vivos em seus corpos físicos, sendo obrigados a cumprirem todas as ordens dos mesmos, pois eram controlados pela vontade de seus senhores. Todavia, a utilidade do corpo é necessária para a servidão. Com isso também podemos confrontar nosso presente estado de moralidade, em que a dedicação do corpo é uma medida necessária para que haja a dedicação total da nossa personalidade ao Senhor.

 

O corpo é considerado como instrumento da vontade. (Ver os trechos de Rm 6:13,19 e II Co 5:10. Ver também Rm 7:5,23). A nós é ordenado que glorifiquemos Deus «no corpo» (ver I Co 6:20; ver também Fm 1:20 e II Co 4:10). Pode haver, pois, o «corpo do pecado», isto é, o corpo ainda controlado pelo princípio do pecado, o que torna o indivíduo, em sua personalidade inteira, escravo do pecado. (Ver Rm 6:6 e Cl 2:11). Por semelhante modo, há o corpo controlado pela justiça, o que indica algo sobre a pureza da alma, que indica a pessoa essencial, pois usamos aqui a palavra alma como sinônimo de «espírito». O homem é, essencialmente, um ser espiritual; porém, na qualidade de ser mortal, precisa contender com o corpo mortal que possui, resolvendo se o usará para o bem ou para o mal.

 

«...por sacrifício vivo...» Essa expressão é usada juntamente com o verbo «apresenteis», a fim de lembrar-nos o sistema judaico de sacrifícios, a fim de obtermos boa idéia sobre a natureza absoluta da dedicação espiritual que Deus requer de nossa parte. É evidente que, nas páginas do A.T., os «sacrifícios» de todas as espécies, e, sobretudo as «ofertas queimadas», que mui provavelmente estão em foco neste versículo, eram totalmente entregues, com o propósito de adorar e servir a Deus. Nesses sacrifícios, havia um período de preparação para os animais que seriam sacrificados. Tinham de ser de certa idade, de elevada qualidade física, tendo de passar por certos preparativos preliminares.

 

Os sacrifícios não tinham vontade própria, e sua única razão de existência era que servissem para cumprir seu uso como sacrifício. Assim sendo, devemos pensar sobre a «totalidade» e sobre o «caráter absoluto» do serviço que nos compete prestar a Deus, envolvendo o sacrifício espiritual da personalidade inteira. Não pode haver qualquer tentativa de dar a Deus um «segundo lugar», porquanto nenhum sacrifício estava dependente de categorias ordinais, para sua existência. Pelo contrário, Deus é tudo, e a dedicação deve ser total.

 

«Como pode o corpo tornar-se um sacrifício? Que os olhos não contemplem o mal; e isso importa em sacrifício. Que a língua não profira nenhuma vileza; e isso será uma oferta. Que as mãos não operem o que é pecaminoso; e isso equivale a um holocausto. Mais do que isso, ainda, tudo isso ainda não é bastante, pois, acima disso, devemo-nos esforçar ativamente em favor do bem; as mãos dando esmolas, a boca bendizendo aqueles que nos amaldiçoam, e os ouvidos sempre prontos a dar atenção a Deus». (Crisóstomo).

 

«As ofertas queimadas eram um símbolo da vida inteira, com todas as suas faculdades, a qual deve ser consumida no fogo do senhorio divino, visando seu serviço e sua glória». (Lange, in loc).

 

«...vivo...» Em que sentido? De conformidade com os três pontos alistados abaixo:

1.      Em oposição aos «sacrifícios abatidos», que prestavam seu serviço mediante a morte.

2.      Pois o crente presta seu serviço a Deus através de sua vida consagrada. Isso nos faz lembrar de Sócrates, cuja ética dizia que a vida santa consiste em morrer diariamente. Primeiramente, enfatizamos o nosso lado «espiritual», negando os apetites do corpo. Em segundo lugar, devemos ser como homens que estão prestes a morrer, por estarem as nossas mentes voltadas totalmente para valores mais elevados, mediante os quais também nós vivemos, não nos deixando guiar pelos valores da carne.

3.      Também devemos libertar de tal maneira nossos espíritos que prestemos ao Senhor o serviço apropriado, sem os empecilhos das limitações mortais e pecaminosas.

 

Os sacrifícios judaicos subentendiam em matança; os sacrifícios cristãos subentendem em sua atividade e uma vida contínuas; porém, assim como nos ritos judaicos todas as cerimônias precisam ser cumpridas, a fim de que os sacrifícios fossem aceitáveis aos olhos de Deus, assim também, nos sacrifícios cristãos, nossos corpos devem ser santos, sem mancha ou mácula.

 

«...santo...» Uma das principais, se não mesmo a principal característica do «sacrifício» a que somos aqui convidados, sem a qual todos os movimentos e atividades são inúteis e sem significado, «...o altar será santíssimo: tudo o que o tocar será santo» (Êx 29:37). Outro tanto deve suceder no caso do crente que sobe ao altar do serviço de Deus. Podemos dar atenção à mensagem do trecho de Mt 5:48: «Portanto, sede vós perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste». Esse é o grande alvo, e eventualmente será atingido por todos os crentes verdadeiros. Em outras palavras, a própria santidade de Deus será transmitida aos remidos, de tal modo que eles serão santos como o próprio Senhor. Mediante a santificação, os homens dão início agora à santificação e à transformação segundo a imagem de Cristo, adquirindo gradualmente a natureza moral do Filho de Deus. Essa transformação moral, por sua vez, provoca e acompanha a transformação «metafísica», mediante a qual os crentes vão adquirindo a própria natureza de Cristo, participando de sua divindade, conforme nos ensina o trecho de II Pe 1:4. (Ver também as passagens de Jo 6:48 e Rm 8:29, que falam sobre esse tema geral).

 

«...agradável a Deus...» Embora algumas versões digam aqui «aceitável», na verdade o original grego diz aqui «agradável», «satisfatório». Uma vez mais somos relembrados sobre particularidades do sistema judaico de sacrifícios, porquanto, ali, os sacrifícios tinham de ser santos, sem qualquer defeito físico. Não fosse a existência dessa qualificação, e um sacrifício qualquer não era aceitável ao culto divino. (Com essa idéia podemos comparar o trecho de II Co 5:9, onde o apóstolo fala do esforço dos crentes de sermos agradáveis ao Senhor, quer «presentes» (isto é, vivos como seres mortais) quer «ausentes» (isto é, já com o Senhor, em Espírito). E isso é o que terá valor, quando do juízo efetuado ante o tribunal de Cristo (ver II Co 5:10), onde os remidos serão julgados acerca do uso que fizeram de seu corpo, para efeito de recebimento ou não dos galardões, e não para efeito de salvação ou perdição.

 

É possível que Paulo tivesse querido dar a entender que os sacrifícios do A.T., mesmo quando satisfaziam a todas as exigências legais, não eram plenamente aceitáveis aos olhos de Deus, porque somente o oferecimento da vida e do corpo dos crentes, em sacrifício, é que poderia agradar ao Senhor realmente. (Ver Sl 51:16,17). Os verdadeiros sacrifícios oferecidos a Deus, portanto, devem ser «vivos», «santos» e «agradáveis», porque somente atendendo a essas especificações é que o crente individual terá feito tudo quanto lhe é exigido. Isso significa que pouquíssimos são os sacrifícios agradáveis a Deus, oferecidos entre os crentes professos dos nossos dias.

 

«...que é o vosso culto racional...» Algumas versões dizem aqui, «vosso culto espiritual». Vários sentidos podem ser compreendidos no tocante à palavra «racional», a saber: 1. «racional», 2. «razoável» e 3. «espiritual». A raiz desse termo, no original grego, vem da palavra «logos», que significa o princípio divino da razão universal. A idéia simples de «racionalidade», pois, é por demais limitada; mas igualmente limitado é o conceito de «razoabilidade», que dá a entender que tudo que Paulo contemplava era algo de acordo com a nossa razão, que nos capacita a perceber por qual razão Deus requer essas qualidades de nós. Pelo contrário, o serviço cristão deve ser caracterizado por aquilo que é «divino», tal como essa palavra era correntemente usada nos tempos de Paulo, no vocabulário das religiões misteriosas. O termo «espiritual», portanto, é uma tradução melhor do que a palavra «racional».

 

O culto espiritual, pois, é nossa adoração apropriada, a qual se caracteriza pela «infusão de qualidades divinas». É bem provável que Paulo também teria entendido assim a nossa adoração. Essa adoração, portanto, é aquela inspirada pelo Espírito Santo, conforme também lemos em Rm 8:26,27. Também é provável que Paulo tencionasse fazer aqui um contraste com os sacrifícios próprios do A.T. Nenhum sacrifício verdadeiramente «espiritual» era possível de conformidade com o sistema legal, porque se tratava de sacrifícios de animais, que não poderiam jamais ser «infundidos de qualidades divinas».

 

É verdade que o culto cristão também é «razoável» e «racional». Contudo, é muito mais do que isso. O sistema de sacrifícios do A.T. era mecânico e simbólico, e não verdadeiramente espiritual. O homem é um ser espiritual, que pode ser ajudado pelo Espírito Santo a oferecer ao Senhor essa forma de adoração. Com isso se pode comparar o trecho de I Pe 2:5, onde os crentes são chamados de «casa espiritual», capazes de oferecerem «sacrifícios espirituais», os quais são aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo, numa declaração que virtualmente duplica aquilo que Paulo expressa aqui. Não obstante, a palavra usada pelo apóstolo Pedro, aqui traduzida por «espiritual», não é a mesma palavra empregada por Paulo neste versículo. Também é possível, além disso, que Paulo tivesse querido contrastar a forma espiritual da adoração cristã com o culto idólatra, num confronto perfeitamente apropriado para chamar a atenção dos crentes que habitavam em Roma.

 

12:2:   E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

 

A palavra «...conformeis...» indica a modelagem segundo um determinado padrão, em que uma coisa toma a forma de outra, adquirindo o seu caráter, mediante alguma influência ou poder exterior. Significa «moldar de conformidade com». É possível que o verbo «conformar-se» (no grego, schemaseja contrastado com o vocábulo grego «morphe», que é a raiz da palavra que pode ser traduzida por «transformar», indicando algo que Sanday eHeadlam disseram (in loc): «Não adoteis a moda externa e fugidia deste mundo, mas sede transformados em vossa própria natureza». Pelo menos as palavras podem adquirir esse sentido: a primeira, o sentido de uma forma externa passageira, e a outra o sentido de uma transformação profunda e essencial.

 

Quanto a isso também se pode examinar o artigo de Lightfoot, publicado no vol. iii.1857, pág. 114, Phil., 125, no Journal of Classical and Sacred Philologyonde ele declara: «Diz ele (Paulo), não mudeis a moda, mas 'sede transformados'; e isso a fim de mostrar que os caminhos do mundo são uma moda, mas que a virtude não é uma moda, e, sim, uma espécie real de 'forma', dotada de beleza natural toda sua, que não tem necessidade das complicações e modas das coisas externas, as quais, nem bem aparecem, logo se transformam em nada. Porquanto todas essas coisas, antes mesmo de virem à luz, já começam a dissolver-se. Por conseguinte, se não nos demorarmos em lançar fora a moda externa, não demoraremos também a adquirir a forma interna».

 

A palavra aqui usada, no original grego, e traduzida por «transformai-vos», é a mesma palavra empregada emMt 17:2, onde a cena da transfiguração do Senhor Jesus é descrita. A passagem de II Co 3:18 também contém esse vocábulo, onde lemos que «...com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito». Esse é o melhor de todos os comentários possíveis sobre o sentido desse termo, bem como acerca da profunda realidade espiritual que o mesmo expressa. Essa transformação, pois, visa a natureza essencial do crente individual, e não apenas sua aparência externa. Essa transformação é segundo os moldes da «imagem de Cristo», o que se processa de «glória em glória», ou seja, de um estado glorioso para outro. O seu alvo final é a perfeição absoluta, quando os remidos haverão de participar da imagem moral e metafísica do Senhor Jesus.

 

Considere: 1. Os eleitos compartilharão da imagem e natureza do Filho (Rm 8:29); 2. A plenitude (natureza e atributos) de Deus (Ef 3:19); 3. E tudo isto através do poder do Espírito Santo (II Co 3:18). 4. Sem a santidade de Deus implantada no indivíduo, estas maravilhas espirituais seriam impossíveis porque nada disto é o produto do sistema-mérito-na-lei.

 

Essa transformação, segundo os moldes da natureza moral e metafísica

de Cristo, permitirá que os remidos escapem da modelagem segundo este «...mundo...» Essa palavra, aqui utilizada por Paulo, não é a palavra grega «kosmos», que significa o mundo físico, o mundo dos homens, e, sim, é o termo grego «aeon», que indica «era» ou «época», o que envolve tudo quanto caracteriza tal época. Os vários sentidos possíveis dessa palavra, «aeon», são os seguintes:

1.      Um tempo extremamente longo, a eternidade, tanto a passada como a futura. (Ver Josefo, Guerras dos Judeus 1:12; Gn 6:4 e At 15:18).

2.      A era presente, simplesmente como uma idéia temporal, embora, por extensão, também indique o «estado de coisas» que caracteriza a época presente ou qualquer outra época da história. O «estado de coisas» que assinala o período de tempo ou as condições que prevalecem durante determinada época, dando a entender o caráter geral dessa época. (Ver Mt 13:22 e Rm 12:2).

3.      O mundo material, conforme se vê em Hb 1:2.

4.      As condições naturais do homem, o mundo e o seu caráter. Assim é que esse vocábulo é utilizado em I Co1:20, onde encontramos a menção da «sabedoria do mundo».

5.      Algumas vezes, essa palavra é utilizada para referir-se à era vindoura, no sentido do «período messiânico», quando se instaurará o governo messiânico à face da terra. (Ver Josefo, Antiq., 18,287; Mc 10:30; Lc 18:30 e II Clemente 19:4).

6.      O mundo, como um conceito espacial. (Ver Sabedoria de Salomão 13:9; 14:6 e 18:4).

7.      Há, finalmente, um uso pessoal, em que a palavra «aeon» aparece como um ser espiritual, ou mesmo como uma era vista em sentido pessoal. (Ver Ef 3:9; e talvez também Cl 1:26 e Ef 2:2, além de Mesomedes1,17).

 

Dentre esses vários usos do vocábulo grego «aeon», o mais provável é que Paulo se utilizava dele conforme a segunda dessas sete possibilidades acima. A «era presente» se caracteriza por uma série de condições, qualidades, costumes, padrões morais e espirituais, degradações, estados maléficos, etc, que não estão de acordo com a idéia divina de bondade e moralidade, e, quando muito, são valores espirituais bem inferiores. Ora, a «era presente», considerada em seu conjunto, pode ser uma poderosa influência negativa sobre os crentes, de tal modo que eles sejam meramente produtos de seu ambiente, totalmente parecidos e conformados aos que não se dizem «convertidos» ou regenerados, que nem pensam em serem transformados segundo a imagem de Cristo. Essa conformação com a «era presente» se tornou tão comum entre os «crentes» que quase não se pode mais estabelecer a distinção entre a igreja cristã e o mundo. A igreja exibe suas modas mundanas no vestuário, na música, nos maneirismos, nos padrões morais, nas ambições, nos alvos e nos costumes diários. Paulo, entretanto, queria que os membros da igreja cristã se tornassem cidadãos autênticos daquela outra era, daquele outro mundo, que existe acima do nosso.

 

Sobre este mundo, esta nossa «era», diz Newell (in loc), em interessante comentário: «...Satanás desenvolveu esta fatal ordem mundial, com a sua filosofia (a explicação do homem sobre todas as coisas, embora uma explicação que se modifique com a passagem do tempo); com a sua ciência (sempre procurando eliminar o elemento sobrenatural); com o seu governo (onde o homem exalta a si mesmo); com suas diversões (adaptadas a apagarem da mente as grandes realidades da vida); e com suas religiões (que visam abafar a consciência humana e eliminar todo o temor do juízo). O Espírito (Santo), por meio do apóstolo Paulo, rogava aos santos que não se deixassem amoldar a essa ordem satânica das coisas...»

 

«Uma das ameaças mais persistentes contra a vida consagrada é a atração exercida pelo meio ambiente em que vivemos. Ao nosso derredor os homens organizam a sua vida diária de maneira que dão a entender que Deus está morto, ou, pelo menos que Deus pode ser ignorado com toda a segurança. O próprio vocábulo, transformai-vos, dá-nos a entender o processo gradual mediante o qual nosso estado de alerta é desarmado, porque é mediante estágios imperceptíveis que vamos aquiescendo ante as coisas exigidas pelo mundo. A sociedade humana, de acordo com a sua organização, apartada de Deus, impõe sobre nós os seus próprios padrões, e gradualmente vamos passando a pensar e a agir segundo os seus ditames. No cristianismo dos nossos dias não existe maior fraqueza do que o fato que tão grande número de membros de igrejas evangélicas aceita, sem qualquer discussão, a atmosfera dominante, intelectual e social de nossa época. Os corrosivos do secularismo têm corroído as impressões feitas pela graça divina. Deveríamos viver em nossos dias com o poder de uma vida ressurreta; bem pelo contrário, contentamo-nos em nos amoldar às convenções ditadas pela nossa sociedade. Esse fato deveria parecer-nos suficientemente melancólico por si mesmo; porém, a natureza fugidia e transitória deste mundo duplica a melancolia da situação. Somos ameaçados pelo perigo de irmos sendo gradualmente modificados, para entrarmos em conformidade com algo que não pode perdurar». (Gerald R.Cragg, in loc).

 

«...pela renovação da vossa mente...» Essa «renovação» é de caráter espiritual, assumindo o aspecto de «reforma», em que as faculdades mentais e espirituais—as faculdades imateriais do indivíduo—são afetadas para melhor. Isso é mais do que a renovação «intelectual», porquanto também deve ser ação da própria alma ou espírito, a verdadeira essência intelectual do ser humano.

 

«A mente é renovada pela novidade do Espírito, e do íntimo o impulso transformador passa a transfigurar a totalidade da vida». (Philip Schaff, no Comentário de Lange).

 

Deus é intelecto puro, o «nous» dos gregos (que significava a «mente», para eles), o «nous» do universo, o grande ser imaterial. O homem também possui intelecto, cuja espiritualidade é derivada da espiritualidade infinita de Deus. A «...mente...», palavra empregada neste texto e usada constantemente no vocabulário da filosofia grega. a começar por Anaxágoras, reveste-se da idéia de «espiritualidade», e não apenas da idéia de «intelectualidade». Portanto supomos, paralelamente a vários intérpre­tes, que o presente versículo fala mais do que sobre as qualidades intelectuais, dando a entender que mais do que essas faculdades ainda precisam ser transformadas pelo poder de Deus. Na realidade, é a própria alma ou espírito que terá de passar por essa renovação do Espírito, o que, naturalmente, incluirá o processo e as qualidades intelectuais. E assim o «intelecto» humano não mais será escravo ante as influências de um mundo ímpio, embora o sentido da passagem seja mais profundo que esse.

 

Os Elementos Dessa Renovação

 

1.      Quando do arrependimento, o homem é libertado do domínio do pecado, passando a ter uma nova concepção da vida e seu significado (ver Jo 3:3).

2.      Na santificação, o homem não somente se vai despindo do poder do pecado, mas também vai adquirindo as virtudes espirituais positivas de Deus. Tal homem vai caminhando pelo novo caminho, compartilhando da mente de Cristo, ao invés de ser dominado pela mente carnal. (Ver «santificação», em I Ts 4:3; e sobre a «mente de Cristo», em I Co 2:16).

3.      Essa operação renovadora, naturalmente, é realização do Espírito (ver II Co 3:18 e Gl 5:22), pois é algo divino, e não alguma operação humana. O caminho de Deus é místico, e não legal ou sacramental. Noutras palavras, tal obra é realizada através de um contacto com o sobre-humano, conforme a definição básica do misticismo.

4.      Essa renovação é fomentada pelo emprego dos meios de desenvolvimento espiritual: O estudo da Bíblia; a dedicação da mente às questões espirituais através do uso das Escrituras, e outros livros espirituais; a oração, que é a comunhão direta com Deus (ver Ef 6:18); a meditação (que é quando Deus fala intuitivamente com os homens); a santificação (pois sem santidade não pode haver qualquer desenvolvimento cristão); a prática da lei do amor (as boas obras), pois o amor é a comprovação da espiritualidade e se deriva do próprio novo nascimento (ver Jo 4:7,8); e o uso dos dons espirituais, que tende por conduzir-nos na direção de nossa perfeição (ver Ef 4:11 e ss.).

 

«...para que experimenteis...» A palavra aqui traduzida por «...experimenteis...» tem sido traduzida também por «proveis», «façais real», «conheçais certamente» ou «tenhais um conhecimento fidedigno de»; porém, a verdade é que deve mesmo significar conhecimento experimental, e não apenas a consciência intelectual. Significa por à prova. E, apesar do conhecimento fazer parte integrante, a experiência faz parte integrante do que aqui é dito, pois faz parte inerente deste pensamento. Mediante a renovação do ser espiritual inteiro do homem, podemos provar e pôr a teste a boa, aceitável e perfeita vontade de Deus. Somente desse modo, através da renovação do íntimo, segundo foi esclarecido mais acima, é que podemos realmente experimentar a «vontade» de Deus na presente existência.

 

«O indivíduo regenerado prova, mediante o veredito de sua consciência, a vontade de Deus, por haver sido despertado e iluminado pelo Espírito Santo». (Meyer, in loc).

 

«...vontade de Deus...» Não o atributo divino da vontade, que controla a todas as coisas, a parte volitiva de Deus; mas antes, a «coisa desejada», o «curso correto da conduta», conforme Deus vê as coisas. Esse correto curso de ação deve ser de qualidade «...boa...», como também «...agradável...» e «...perfeita...» Trata-se de um alvo elevadíssimo que é posto à nossa frente. Nenhum homem mortal, entretanto, pode jamais atingi-lo, embora alguns tenham chegado mais perto do grande alvo do que outros.

 

Alguns intérpretes pensam que os adjetivos «boa», «agradável» e «perfeita», modificam diretamente o substantivo «vontade». Isso é possível, embora a maioria dos estudiosos prefira pensar que a construção da frase deve ser:«...para que experimenteis a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito». Mas, mesmo fazendo desses adjetivos outros substantivos de oposição, esses três vocábulos devem ser compreendidos como qualificações davontade de Deus, ou seja, aquilo que o Senhor deseja que os homens sejam e façam. Assim o significado da frase redunda na mesma coisa, ainda que, gramaticalmente, seja expressa de forma levemente diferente.

 

Bibliografia R. N. Champlin,COMENTARIO DO NOVO TESTAMENTO 2000

 As advertências do apostolo João

 

Comunhão com Deus mediante a separação do mundo (1 Jo 2:12-17)

 

Mesmo sem levar em conta que uma heresia licenciosa era combatida, o autor sagrado sem dúvida estaria ansioso por lembrar a seus leitores originais (que eram gentios) acerca das exigências morais da fé cristã. Mas, visto que os falsos mestres gnósticos tinham feito da imoralidade uma parte de suas práticas religiosas, as advertências tornam-se aqui mais incisivas e urgentes. Os gnósticos supunham que o destino de toda a matéria é ser destruída. Criam eles que a matéria é o próprio princípio do pecado. Dado que o corpo participa da matéria, finalmente chegaria a ser aniquilado. O abuso contra o corpo, mediante o ascetismo ou a degradação moral era, na opinião deles, a maneira de cooperar com o sistema do mundo nesse propósito de destruir o corpo, pelo que tal abuso seria desejável, e não digno de objeção. As epístolas neotestamentárias aos Colossenses, as epístolas pastorais e as epístolas joaninas foram escritas para combater a imoralidade ou o ascetismo «oficiais» que os mestres gnósticos tinham introduzido no cristianismo.

 

A tese do autor sagrado, na seção que se segue, apresenta os seguintes argumentos: Vossos pecados foram perdoados, ó crianças «jovens, na realidade ou a congregação geral); e vós, pais (anciãos, líderes, membros mais idosos da congregação geral), tendes «conhecido» a Cristo (e a seu Pai) desde há muito, tendo chegado a vencer o maligno, mediante vossa lealdade a Cristo. E haveríeis agora de reverter tudo isso, deixando-se arrastar pela doutrina dos gnósticos? Deveríeis saber que ninguém pode amar ao mundo e suas atrações, e amar a Deus, ao mesmo tempo. Essas coisas, que há no mundo, e que os gnósticos vos encorajam a buscar, participando da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida, não pertencem a Deus, mas são elementos de um mundo ímpio. Numa coisa, pelo menos, os gnósticos tinham razão: o mundo passará, com todas as suas concupiscências; mas estavam equivocados ao pensar que podemos destruir ao mundo cooperando com o mesmo. Antes, o alvo é fazer a vontade moral de Deus; e somente assim é que o indivíduo permanecerá para sempre. Não vos enganeis quanto a isso. Não podeis sobreviver à destruição da matéria cedendo às suas demandas. Isso também prejudica a alma, e não somente ao corpo. O homem essencial é passível de corrupção, e não apenas o homem externo.

 

E o autor sagrado continuava a apresentar seus argumentos: Já conheceis a verdade. O que tendes feito, seguindo a ética cristã autêntica, é correto. Não vos deixeis enganar pela versão pagã e popular do «conhecimento» e da «moral», que os falsos mestres impingem à igreja. A nova moralidade é meramente a «antiga imoralidade», com sanção religiosa oficial.

 

2:12:   Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados por amor do seu nome.

 

«...Filhinhos...» É usado aqui o diminutivo «teknon», Istoé «teknia», que poderia ser mais literalmente traduzido por «criancinhas». (ver Jo 13:33; I Jo 2:12,28; 3:7,18; 4:4 e 5:21 quanto a outros usos desse termo). Seu intuito é acrescentar certo tom de ternura à mensagem; é sinal de estima, da parte do idoso João, um pai da igreja, para seus filhos espirituais, os quais, portanto, são filhos de Deus. Talvez assinale certa condescendência da parte do autor sagrado, pois ele reputava o crente comum como «pequena criança na fé». Ele ansiava por ajudar a essas crianças espirituais. Elas eram tenras e inexperientes, precisando da mão ajudadora de um pai que pudesse ajudá-las a resistirem e evitarem às tentações lançadas pelo mundo hostil e pelos falsos mestres.

 

Irineu relata como o idoso apóstolo João, já decrépito de corpo, tinha de ser praticamente carregado para as reuniões. Ali, com freqüência, ele se dirigia aos crentes chamando-os de «criancinhas». Há uma história familiar, que talvez seja lendária, que envolve João e um jovem convertido, que se tornara ladrão. João seguiu o jovem até ao seu esconderijo; e o jovem, ao vê-lo, começou a fugir, correndo. Esquecendo-se momentaneamente de sua avançada idade, João pôs-se a correr atrás dele, clamando: «Õ meu filho, por que foges de mim, teu pai? Tu está armado, mas eu sou um velho sem defesa! Tem pena de mim! Meu filho, não temas! Ainda há esperança para ti. Quero apresentar todo o caso, pessoalmente, a Cristo. Se for necessário, morrerei por ti, como Cristo morreu por nós. Pára! Acredita! Cristo é quem me mandou aqui». (Essa história é contada, na íntegra, no Commentary on John, de Godet, primeiro volume, pág. 58). Ainda que não passe de uma lenda, sem dúvida reflete com exatidão a natureza compassiva do apóstolo João, bem como suas relações paternais para com a igreja. A referência original a essa história se acha na História Eclesiástica de Eusébio (iii.23), pelo que se trata de narrativa antiquíssima, que talvez envolva um incidente real por detrás da mesma.

 

Antes o autor sagrado já usara o «nós» editorial, mas agora volta à primeira pessoa do singular. Desse modo, e por tê-los chamado de «criancinhas», ele tornou mais pessoal a sua mensagem. As «...cousas...» se referem à mensagem que vem em seguida. Que ninguém se aproveite da graça divina como desculpa para pecar; o problema do pecado é adequadamente solucionado em Cristo: há vitória sobre o pecado; o evangelho exige essa vitória, longe de encorajar ao pecado. Essa mensagem, naturalmente, repousa sobre as conclusões lógicas daquilo que ele já dissera no primeiro capítulo desta epístola. Alguns estudiosos, porém, pensam que esse termo alude ao conteúdo desta epístola inteira, o que é possível. Seja como for, naquilo que antecede imediatamente e naquilo que se segue imediatamente, temos os elementos essenciais da epístola, o autor sagrado mostrava que o evangelho é poderoso para conferir vitória moral a todos os níveis de idade, e que todos os níveis de idade precisam dele.

 

Irineu distingue várias fases da vida, através das quais Cristo Jesus teria passado também, deixando-as santificadas para Deus. Nisso ele se tornou o Mestre perfeito «de todos». «Pois ele veio para salvar a todos, por meio de si mesmo—todos, digo, que através dele nascem de novo para Deus—infan­tes, crianças, meninos, jovens e homens idosos». (Contra as Heresias, II.22.4). É possível que esse comentário reflita algo da presente passagem, adicionando alguma elaboração.

 

Notemos que o décimo segundo versículo usa o termo «teknia» (criancinhas) tal como se vê no primeiro versículo. Mas o décimo terceiro versículo altera isso para «apidia», que pode ser um simples sinônimo. Ou talvez isso foiescolhido a fim de emprestar um termo distintivo ao «grupo dos jovens», ao passo que o «filhinhos», no décimo segundo versículo, seria uma designação geral, que indicaria todos os membros da igreja. Não há maneira certa de solucionar esse pequeno quebra-cabeça; e nem é importante a sua solução. É óbvio que, de modo geral (sem importar quantos grupos de idade sejam distinguidos), o autor sagrado tenciona mostrar que um crente, sem importar se é idoso ou jovem, sem importar as tentações que tenha de enfrentar, mediante a lealdade a Cristo e ao mundo inteiro, pode ser vitorioso. A juventude, pois, não é necessariamente um tempo em que semeamos semente má, embora alguns pensem que é inevitável que assim aconteça, no caso de jovens. Mas a verdade é que o evangelho transforma pessoas de qualquer grupo de idade.

 

«...os vossos pecados são perdoados...» O evangelho tem sido eficaz quanto ao perdão dos pecados; e também se mostra eficaz quanto à santificação. Mas, caso alguém não esteja sendo santificado, por efeito do evangelho, é duvidoso que esse alguém tenha sido justificado e convertido, antes de tudo. Não pode haver salvação verdadeira sem o processo santificador, conforme se aprende em II Ts 2:13 e Rm 6:22. Na vida cristã, temos «fruto para santificação»; e o alvo ou finalidade desse processo é a vida eterna. (Ver em I João 1:9, acerca do «perdão dos pecados»; At 2:38; Rm 3:25 e 4:7).

 

«...por causa do seu nome...» Cristo está em foco. (Ver Jo 16:2). Por quê? Porque fomos «aceitos no amado» (ver Ef 1:6); porque fomos comprados pelo sangue expiatório de Cristo (ver I Jo 2:1); porque Cristo exerce uma advocacia continua em nosso favor(ver I Jo 2:1). O «nome» de Cristo apresenta essas verdades para nós. Seu nome indica a sua pessoa, a sua expiação e a sua missão espiritual em nosso favor. Estamos misticamente associados com Cristo (ver I Co 1:4), pelo que sua morte e ressurreição se têm tornado reais para nós, através da operação do Espírito Santo (ver Rm 6:3). Cristo nos separa do mundo, fazendo-nos morrer para o mundo, e vice-versa; e nos dá uma vida nova e celestial (o batismo espiritual). Deus perdoa os pecados de seus filhos, em face da virtude dos méritos e da missão de Cristo.

 

Conforme diz Brooke (in loc), sobre essa expressão: «A origem dessa frase provavelmente se encontra na doutrina vetotestamentária de que Deus se mostra continuamente benévolo para com Israel. A despeito da rebeldia deles, assim era, por causa de seu nome. Isso pode ser comparado, especialmente, com Ez 20:8,9: 'Mas rebelaram-se contra mim, e não me quiseram ouvir... O que fiz, porém, foi por amor do meu nome...' Ou com Ez 36:22: 'Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome...' No entanto, essa expressão adquiriu um significado um tanto diferente, nas mãos do autor sagrado. Também poderíamos comparar isso com certo paralelo rabínico: 'Os sábios dirão: Por amor ao seu nome ele tratou com eles' (Melchita, Ex 14:15,29b)».

 

A experiência da salvação pode começar em «conversão súbita»; mas continua e é confirmada por um contínuo desenvolvimento espiritual. A fé religiosa cresce. A fé religiosa pode agir como um remédio para a alma pervertida, obtendo efeito imediato. Mas também serve de nutrição que leva o homem a desenvolver-se sem cessar. A conversão não é a salvação inteira, mas somente o primeiro passo de volta a Deus. Deve ser seguida pela santificação: e esta será seguida pela glorificação. Porquanto a glorificação envolve o sermos «cheios de toda a plenitude de Deus» (ver Ef 3:19), haverá de ser um processo eterno, porquanto Deus é infinito.

 

A consciência de pecado e da necessidade de um remédio são o começo da conversão. O autor sagrado apela para a validade da experiência da conversão como meio de inspirar a presente e necessária experiência de santificação.

 

O autor sagrado iniciara esta epístola falando muito sobre «comunhão». Ele continua a falar sobre esse tema, embora não empregue mais esse vocábulo. A comunhão com o mundo arruína a comunhão com Deus.

 

«...eu vos escrevo...» No grego é o tempo presente. Isso é preservado no décimo terceiro versículo (escrevendo aos «pais»), e, novamente, aos «jovens». Mas no décimo quarto versículo é usado o «aoristo», quando o autor sagrado retorna aos «filhinhos». Essa mudança de tempo verbal tem deixado os intérpretes perplexos. É possível que oaoristo seja o «aoristo epistolar». Em outras palavras, o autor sagrado escreve do ponto de vista de seus leitores. Quando recebessem e lessem esta epístola, a «escrita» teria ficado no passado. E assim o autor, antecipando isso, escreveu usando o passado. Mas os aoristos epistolares são melhor traduzidos no presente, porquanto na realidade refletem uma situação presente. Não é provável que o uso do aoristo dê a entender que o autor tenha escrito para seus leitores antes, ou o «evangelho de João» ou qualquer outra epístola que não chegou até nós. O uso de verbos no presente, e então, subitamente, no aoristo, provavelmente se deveu a um acaso de composição, sem qualquer sentido especial.

 

2:13:   Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que é desde o principio. Jovens, eu vos escrevo, porque vencestes o Maligno.

 

«...Pais...» Seriam os homens «mais idosos» da congregação, e não particularmente os oficiais ou «presbíteros» da igreja, embora, naturalmen­te, os «anciãos» fossem eleitos dentre os homens de mais idade. Os «pais» da congregação tinham reconhecido Cristo como o Pai, o Antigo de Dias, e lhe tinham dado lealdade. Tinham a responsabilidade de ensinar essa mesma lealdade aos membros mais jovens da igreja cristã. Já tinham conhecido a Cristo de modo mais profundo do que os membros mais jovens. Porventura haveriam agora de abdicar dessa responsabilidade, tentados que eram pelos mestres falsos?

«...conheceis...» Os homens mais idosos eram homens de maior experiência, pelo que seu «conhecimento» sobre as questões espirituais produziria fruto na vida diária. Não era muito provável que os falsos mestres conseguissem tirá-los do reto caminho. O autor sagrado contava com a firmeza da experiência deles, bem como com o profundo conhecimento que tinham, o que bastava para preservá-los do gnosticismo.

 

Conhecimento espiritual. Consideremos os pontos seguintes: 1. Não é meramente «intelectual», com o aumento do número de proposições teológicas compreendidas, embora isso seja um subproduto do conhecimento espiritual. 2. E algo «experimental», isto é, vem através da experiência espiritual. 3. É de natureza «mística», porquanto o verdadeiro conhecimento espiritual «ilumina». (Ver Ef 1:17). 4. Envolve o «conhecer a Cristo» (ver Fp 3:10), o qual é o Homem Ideal, em cuja imagem estamos sendo transformados. 5. Além disso, envolve o «conhecer o próprio eu», porque, na medida em que vamos sendo transformados na imagem de Cristo, chegando a compartilhar de toda a plenitude de Deus (ver Ef 3:19) e da «natureza divina» (ver II Pe 1:4), passamos a ver «Deus em nós mesmos». E assim conhecemos a Deus pela observação daquilo que ele faz em nós e por nós. (Ver II Pe 1:2 quanto a notas expositivas adicionais sobre a significação do termo «conhecimento», nas páginas do N.T.).

 

«...aquele que existe desde o principio...» Deus Pai, ou mesmo Deus Filho, podem estar em foco aqui. Supomos que o Filho é o objeto desse conhecimento; mas pouquíssima diferença faz quanto ao ponto de vista que tomamos, porque, conhecer ao Filho é conhecer, ao mesmo tempo, ao Pai. (Ver Jo 17:3: «E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste»). Por isso mesmo, «Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai» (I Jo 2:22,23). «...todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus... Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus» (I Jo 4:2,15).

 

As palavras «...desde o principio...» não significam «desde o começo da proclamação da mensagem cristã» (ou «desde o começo da encarnação do Filho de Deus»), e, sim, «desde a eternidade passada». A declaração fala da eternidade de Cristo, ou seja, de sua divindade. «No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus» (Jo 1:1). Cristo«...era desde o princípio...» (I Jo 1:1). E nós temos ouvido falar de Jesus Cristo, temo-lo visto com nossos próprios olhos, e sabemos da glória que ele nos trouxe. Cristo é a Palavra da Vida.

 

O «Logos preencarnado» deve ser identificado com o homem Jesus de Nazaré. Há certa fusão de identidade. (Ver I Jo 4:2 e ss. a esse respeito). Os gnósticos negavam a humanidade apropriada do Logos. Pensavam que Jesus apenas foi temporariamente controlado por algum «aeon» ou emanação angelical. Na realidade, porém, o Logos exaltado fundiu-se com a humanidade no homem Jesus, tendo-se tornado o Homem ideal, em cuja imagem estamos sendo seguramente transformados. O Logos é muitíssimo mais que um mero «aeon». Cristo é muito mais exaltado do que os gnósticos imaginavam. O trecho de Cl 1:15-19 constitui a resposta do apóstolo Paulo à degradação dos gnósticos quanto à pessoa de Cristo.

 

«..Jovens...» Os membros mais jovens da congregação estão aqui em foco, a «mocidade». Há vitória na mocidade. Ninguém precisa chegar à idade avançada e esperar que suas paixões se aquietem, a fim de obter a vitória moral. Os jovens são dotados de vigor e força, bem como de grande energia. É tradicional que os jovens empreguem esses poderes naturais na busca pelas paixões e vantagens deste mundo. O autor sagrado, entretanto, diz aqui que certos jovens crentes empregavam essas energias na batalha em prol da verdade, com o resultado que tinham derrotado ao «maligno», isto é, Satanás, o inimigo da alma humana. (Isso pode ser comparado com I Jo 3:8-10 e com Jo 8:44). A história, segundo certo ponto de vista, é a narrativa de como as forças do bem e do mal lutam pela lealdade dos seres inteligentes. A vontade de Deus é que todos os seres inteligentes, dotados de livre-arbítrio, venham a saber, por experiência própria, que o seu caminho é o melhor. Mas é preciso longuíssimo tempo para convencer disso os homens, pelo que também o processo histórico é tão prolongado. O autor sagrado mostra aqui aos jovens crentes que lhes é possível derrotarem a Satanás. Portanto, a vitória contínua é possível; e ele os exorta a isso.

 

«...vencido...» Esses crentes eram «vencedores». Antes, tinham sido pagãos; sabiam o que isso significa; tinham seguido os padrões morais distorcidos do paganismo. No entanto, dentro da fé cristã, se tinham tornado vencedores. (Isso pode ser comparado com Jo 16:33). O simbolismo da «vitória» é característico da mensagem do livro de Apocalipse e desta primeira epístola de João. (Ver isso também em Ap 2:7,11,26; 12:11; 21:7; I Jo 2:14; 4:4 e 5:4,5). A metáfora tencionada é a de uma luta, de uma batalha. Nada menos do que isso pode outorgar-nos a vitória sobre o pecado. O inimigo é real e poderoso. É mister uma amarga luta para subjugá-lo definitivamente.

 

2:14:   Eu vos escrevi, meninos, porque conheceis o Pai. Eu vos escrevi, pais, porque conheceis aquele que é desde o principio. Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e já vencestes o Maligno.

 

«...Filhinhos...» Temos aqui o termo grego «paidia», e não «teknia», como no décimo segundo versículo. Provavelmente isso indica um «grupo de idade» e não todos os crentes, que já tinham sido chamados de «filhinhos». Mas a alteração de um termo grego para outro, nesse caso, é apenas um artifício literário. O vocábulo grego «teknon» usualmente indica um filho por geração natural, ao passo que o termo «pais» indicava qualquer tipo de filho, por geração natural ou por adoção. No entanto, com freqüência os dois vocábulos eramintercambiavelmente usados. Seja como for, não está em pauta qualquer diferença sutil de significado nessa mudança, exceto, talvez, que o autor sagrado aqui se dirige a um grupo de idade, ao invés de dirigir-se à igreja inteira, cujos membros são antes também chamados de «filhinhos», conforme já dissemos.

 

«...escrevi...» No aoristo, no grego; provavelmente trata-se do «aoristo epistolar». (Ver as notas expositivas a esse respeito, no décimo segundo versículo, especialmente sobre o tempo de «escrevo» e «escrevi»). O autor sagrado não estava aludindo a alguma outra epístola que enviara a seus leitores, como, por exemplo, o evangelho de João ou alguma epístola anterior a esta, que não chegou até nós.

 

«...porque conheceis o Pai...» No décimo terceiro versículo o autor escreve aos «pais», encorajando-os a darem continuidade à sua fiel expressão cristã, já que tinham «conhecido» aquele que era desde o princípio, a saber, Cristo Jesus, o Filho de Deus. Agora ele escreve aos jovens, porquanto conheciam a Deus Pai. O conhecimento de Deus, sem importar por qual grupo de idade, tem um desejável efeito transformador do caráter humano. (Ver o versículo anterior quanto a notas expositivas sobre o que está envolvido nesse «conhecimento»). Os filhos sabem o que é a autoridade de seus pais; mas agora são relembrados acerca da autoridade do Pai celestial. Desde seus primeiros anos tinham recebido a disciplina da fé cristã. Essa disciplina é a de um Pai amoroso, pessoal e vital. Em certo sentido, todos os homens são filhos de Deus; mas os crentes se tornam autênticos «filhos espirituais» do Pai, quando chegam a «conhecer» a Deus. Fica suposto que antes de prestarem lealdade a Cristo, os homens não conhecem a Deus. A prova de que alguém conhece a Deus é a ação moral correta, mesclada com a lealdade devida a Cristo, como Senhor.

 

«...pais... porque conheceis aquele que existe desde o principio...» Temos aqui a reiteração da primeira porção do décimo terceiro versículo, onde esses conceitos são comentados. Calvino supunha uma repetição desnecessária, neste ponto, ou seja, uma interpolação. Porém, nenhum manuscrito existente evidencia isso. O mais provável é que o próprio autor sagrado repetiu seu pensamento, para efeito de maior ênfase.

 

«..Jovens... porque sois fortes...» O autor sagrado adorna a idéia que já tinha apresentado no décimo terceiro versículo. A mocidade tem uma força natural. A força espiritual é dada àqueles que habitam e permanecem na «Palavra» (a mensagem cristã, operante por ter sido acolhida). Pelo poder assim obtido, os jovens crentes se tornam espiritualmente fortes; portanto a força espiritual é adicionada à energia física. Aqueles jovens crentes eram fortes em ambas essas categorias. Desse modo, estavam qualificados a unir-se na batalha em prol da verdade, e o resultado disso foi que tinham obtido a vitória sobre o maligno. O autor sagrado agora passa a advertir seus leitores a que não empregassem suas forças naturais na busca pelo mundo e suas concupiscências (ver os versículos quinze a dezessete deste capítulo). Se cedessem ao mundo, ficariam «fracos», pois a liberdade para pecar, na realidade, é a pior forma de servidão, pois escraviza a alma, e não meramente o corpo.

 

O termo «...palavra...», aqui usado, é o evangelho e suas exigências morais, o qual é pintado como um elemento que «disciplina» é «canaliza» as energias. A inquirição espiritual requer forças, resolução firme e busca anelante. Os jovens são encorajados pela disciplina do evangelho a dirigirem suas forças na direção daquilo que é digno.

 

Este versículo pode ser comparado com o que se lê, em Cl 3:16, acerca da «palavra de Cristo que nos vem habitar no íntimo», e que ensina e admoesta.

 

2:15:   Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.

 

(Isso pode ser comparado com o que se lê em Cl 3:1-3, que diz: «Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as cousas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas cousas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus»). Todos seguimos aquilo que amamos; desejamos aquilo que nos agrada; uma pessoa pode cultivar os desejos mundanos até que sua alma seja cativada pelo mundo.

 

Identificando-nos Com Cristo

 

1.      O trecho de Cl 3:1 e ss., faz-nos lembrar de nossa identificação com Cristo. Ora, Cristo está nos lugares celestiais. Portanto, busquemos os lugares celestiais! Isso produzirá um reflexo em tudo quanto somos e fazemos. Deixemos para um lado os interesses pelas coisas terrenas. Vivamos para o mundo vindouro.

 

2.      O trecho de Rm 6:1 e ss., faz-nos lembrar que estamos identificados com Cristo, em sua morte e ressurreição. O Espírito Santo exerce influência sobre nós, levando-nos a rejeitar o pecado e a viver para a retidão. Ele domina o pecado que está em nós. E faz a vida de Cristo manifestar-se em nós. Fazemos parte da nova comunidade e vivemos como estrangeiros e peregrinos nesta terra.

 

3.      O cristianismo, assim sendo, é muito mais que uma nova filosofia. Antes, é uma intervenção divina. Isso tem produzido algum bem em tua vida? Essa pergunta pode ser respondida segundo a medida em que a intervenção divina tiver se tornado real em sua vida. É óbvio que Deus interveio na história da humanidade através de Cristo. Quão óbvio é que ele já interveio em sua vida, através de Cristo?

 

«...não ameis o mundo... » Primeiro e grande mandamento—amar a Deus de todo o coração e de todas as forças (ver Mt 22:37). Trata-se de um alvo elevadíssimo, que pode ser atingido em parte enquanto o homem ainda está em seu estado mortal, mas sempre através da comunhão mística com o divino. Assim é que a alma ascende para contemplar a beleza que é Deus; e, nessa contemplação, o homem ama. Mas aquele que contempla, e em seguida ama ao mundo, automaticamente torna-se incapaz de amar a Deus. Esses são princípios contrários, e ninguém pode amar e servir, ao mesmo tempo, a Deus e ao mundo. Os mestres gnósticos, em sua licenciosidade, tinham chegado a amar ao mundo, embora professassem estar separados do mesmo. Supunham inutilmente que suas almas não seriam afetadas, embora seus corpos fossem mergulhados na lama do mundo, tal como o ouro não pode ser corrompido quando é mergulhado na lama. O autor sagrado mostra que o «amar ao mundo» incapacita o indivíduo para amar verdadeiramente a Deus. Nesse indivíduo não habita o amor de Deus. Ele já entregou seu coração a um rei estranho, tornando-se escravo deste último.

 

«...mundo...» Consideremos os pontos seguintes: 1. Não está aqui em foco o mundo físico e seus muitíssimos objetos. O autor sagrado não nos convida aqui a não mais apreciarmos a natureza e sua beleza, e nem a abandonarmos as coisas físicas por si mesmas. 2. A referência não é à ordem geral da criação, o «mundo dos universos». 3. Nem refere-se ele à «humanidade», que algumas vezes é chamada também de «mundo». Pois o próprio Deus ama esse «mundo». 4. Antes, seu uso é «ético» e «metafísico». Ele aponta, em parte, para o mundo que se corrompeu com «vícios, blasfêmias e a atitude que se olvida de Deus». Mas também aponta para o «sistema do mundo», incluindo o cósmico (e não meramente o terreno), que é a revolta contra Deus. Esse sistema cósmico está sob o poder do «maligno» (ver o décimo terceiro versículo). Quando alguém ama aos vícios deste mundo, torna-se escravo deste sistema mundano. O décimo sexto versículo enumera os elementos do mundo que são prejudiciais à espiritualidade. As concupiscências carnais, as imoralidades, as perversões de toda a sorte; a concupiscência dos olhos, as muitas tentações que vêem mediante a «vista», mediante a «contemplação» das vantagens terrenas, como as riquezas, a fama, os prazeres, etc; e o orgulho da vida, que torna o homem egoísta, que o faz dirigir sua vida para si mesmo, em que o «eu» se torna o seu deus.

 

O mundo haverá de passar. Os mestres gnósticos ensinavam isso; e o autor sagrado concordava com eles ao menos nisso. Mas o indivíduo só pode «permanecer para sempre» se estiver cumprindo a vontade de Deus. Isso se consegue através da dedicação ao mundo eterno, e não ao mundo presente. (Pode-se comparar esse conceito com a mensagem de II Co 4:18). Compete-nos «contemplar» as coisas que são eternas, porquanto as coisas temporais não se adaptam às necessidades da alma eterna.

 

O autor sagrado queria que soubéssemos que há um profundo abismo entre o bem e o mal, entre o que é espiritual e o que é carnal, entre o que é celestial e o que é terreno. Os gnósticos ignoravam essa diferença para seu próprio detrimento. Toda a alma deve escolher a Deus ou ao mundo; o amor a Deus ou o amor ao mundo; e a prova será dada pela conduta moral. É impossível salientarmos em demasia o imperativo moral do evangelho.

 

«Os homens não podem viver sem terem escolhido, consciente ou inconscientemente, alguma realidade a que dão sua devoção final. Devem amar e realmente amam a alguma coisa. Recusar-se a fazer uma escolha já é fazer escolha. Podem oferecer sua devoção final a Deus, ao diabo, ao mundo, às riquezas, ao estado, a um partido político, à verdade, à beleza ou a seus próprios desejos inferiores. Mas a vida exige decisão, e a vida cristã exige tomada de posição. Entretanto, uma vez feitas, as decisões precisam ser constantemente reafirmadas. A situação que os mais idosos enfrentam são as mesmas decisões que enfrentamos: há pessoas que são criadas como crentes, mas seu entusiasmo arrefece, sua religião se torna nominal, as obrigações morais tornam-se opressivas, as distinções agudas entre as práticas cristãs e as práticas pagãs não mais são observadas. Em tal situação, o dualismo fundamental do evangelho deve ser asseverado: 'Não ameis ao mundo... amai... ao Pai'» (Hoon, in loc).

 

«...se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele...» Essa declaração é similar à do Senhor Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas» (Mt 6:24). A alma não é suficientemente grande para estar dividida em sua dedicação, parte a Deus e parte ao mundo, ao mesmo tempo. Esses princípios são naturalmente antagônicos. A alma que está dividida contra si mesma eventualmente cairá debaixo de seu próprio peso, e em seu caso a inquirição espiritual ficará estagnada ou mesmo será destruída. O «amor do Pai» deve ser interpretado como «amor ao Pai», e não meramente o amor que ele nos confere, dirigindo-nos para as realidades espirituais. O primeiro e grande mandamento da lei está em foco. Esse amor do Pai, porém, fora pervertido na forma de ascetismo, de esclerosamento para com a justiça social e de atitudes doentias para com o sexo. Os homens têm a idéia que a mera privação física é, automaticamente, amar àsrealidades espirituais. Naturalmente, isso não é verdade, e a própria privação pode ter sido transformada emum outro deus. O amor do Pai libera o amor ao próximo, pois o amor ao próximo, é, na realidade, uma forma de amor a Deus, segundo se vê em Mt 25:35 e ss. Portanto, o amor a Deus nos «envolve» no mundo; mas na capacidade de servir aos outros, e não em capacidade egoísta, em que só procurássemos cumprir nossos desejos pessoais. Não se pode louvar à virtude enclausurada. O amor a Deus exige que nos interessemos pelos outros, que sejamos servos de todos. Mas isso não significa que nos devemos deixar arrastar pelos vícios do mundo.

 

«É impossível amar ao mundo e coexistir isso com o amor a Deus; é impossível a coexistência entre a luz e as trevas». (Filo).

 

«Os males, Teodoro, nunca poderão desaparecer; pois sempre restará alguma coisa que se mostra antagônica ao bem. Não tendo lugar entre os deuses, no céu, necessariamente pairam ao redor da natureza terrena e nesta esfera mortal. Por conseguinte, devemos fugir da terra para os céus tão rapidamente quanto possível; e fugir é tornarmo-nos como Deus, até onde isso é possível. E tornarmo-nos como Deus é tornarmo-nos santos, justos e sábios». (Taeteto, 176, Platão).

 

«...quando nos ocupamos com o vão amor do mundo, fazemos voltar todos os nossos pensamentos e afetos noutra direção; essa vaidade, antes de tudo, deve ser arrancada de nós, a fim de que o amor de Deus reine em nós. Enquanto nossas mentes não forem purificadas, a doutrina anterior (não amemos ao mundo, mas a Deus) poderá ser repetida por cem vezes, mas sem qualquer efeito: seria como derramar água sobre uma esfera; não se pode recolher ali uma única gota, porque não há lugar côncavo que retenha a água». (Calvino, in loc).

 

O Verdadeiro Amor

 

1.      O amor vem de Deus, pois Deus é amor (ver I Jo 4:7,8). Se o amor de Deus estiver em nós, isso expelirá de nossas vidas o amor pelo mundo, com seus alvos, suas tentações e seus interesses.

2.      O amor é cultivo do Espírito (ver Gl 5:22), sendo também a base de todas as virtudes espirituais. O amor fornece a base para a santidade e a bondade.

3.      No processo de nossa transformação segundo a imagem de Cristo, vamos obtendo a sua natureza moral. Quão inútil é este mundo, e quão vazias são as suas vantagens! Aquele em quem Cristo tocou jamais poderá ser o mesmo novamente, pois os céus são agora o seu verdadeiro lar.

4.      Portanto, aqui devemos agir como estrangeiros e peregrinos (ver I Pe 2:11).

 

2:16:   Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo.

 

«...mundo...» Acerca de como o termo «mundo» deve ser compreendido nestes versículos, ver as notas expositivas no versículo anterior.

 

O autor sagrado passa agora a enumerar os elementos «prejudiciais» que há no mundo, aos quais não podemos amar; ou então mostra aquele «tipo de mundo» que não pode ser amado pelos discípulos de Cristo. É um mundo caracterizado pela concupiscência, pelos desejos carnais, pelo orgulho, pela busca egoísta dos próprios interesses.

 

«...concupiscência...» O termo grego «epithumia» é repetido por duas vezes neste versículo. Trata-se do termo ordinário para indicar «desejo» de qualquer espécie. O contexto em que essa palavra é usada define seu tipo. Com freqüência era termo usado em sentido intensivo, isto é, «ansiar», «anelar», «desejar ardentemente». E também era usado com um sentido negativo, quando tinha o sentido de «paixão maculadora», de «concupiscên­cia carnal».

 

Os filósofos estóicos pensavam que os desejos, cumpridos ou não cumpridos, levam a uma teia mais complexade desejos. Os desejos se multiplicariam, sem a possibilidade de satisfação final. O resultado final seria afutilidade. Por conseguinte, seria mais sábio eliminar totalmente os desejos, ao invés de alimentá-los.

 

«...da carne...» O autor sagrado salienta agora, diretamente, os «apetites sensuais», os desejos da carne e pela carne. Os gnósticos licenciosos (em contraste com os ascetas) pensavam que poderiam ajudar ao sistema do mundo na destruição do corpo, a prisão da alma, através de abusos contra o mesmo, mediante excessos e perversões sexuais. Pensavam que, assim fazendo, em nada se corromperia sua alma, mas antes, seria preparada para a fuga para longe do corpo, a sede do pecado. Os escritores do N.T. sempre tomaram a posição que o corpo físico não é mau por si mesmo, mas tão-somente vítima fácil do princípio do pecado, que parte do coração, do homem interior. Outrossim, a consagração ao Senhor inclui necessariamen­te o corpo, pois é nosso veículo de expressão neste nível terreno da existência. Isso se vê claramente em Rm 12:1,2: «Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus». Alem disso, no sexto capítulo da primeira epístola aos Coríntios, Paulo lamenta o uso errôneo do corpo físico, que é «templo» do Espírito Santo. Visto ser seu templo, dificilmente pode ser usado para a prática dos vícios pagãos, permitindo-se que as concupiscências egoístas ali residam. Afirma ali Paulo: «Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo» (I Co 6:18). Paulo dá a entender que os pecados praticados contra o corpo, através da sensualidade exagerada e depravada, são piores que os pecados ordinários; exercem um efeito especialmente daninho, corrompendo ao templo de Deus. Os não-regenerados é que se deixam arrastar por tais anelos profanos (ver I Pe 2:11 e Ef 2:3). O indivíduo regenerado deve estar acima dessas coisas. (Os trechos de Gl 5:21 e Ef 5:5 mostram que nenhum praticante dos vícios poderá herdar o reino divino).

 

O N.T. adverte-nos contra a mentalidade que pensa que o homem é um mero animal. Apesar de seu corpo ter um funcionamento orgânico animal, contudo, ali reside uma alma eterna. A espiritualidade da alma, sua busca para retornar ao «habitat» que lhe convém à natureza, é algo imensamente entravado pelos abusos contra o corpo. A biologia natural reduz o homem à química e à endocrinologia, e a psicologia naturalista vê o comportamento humano como mero reflexo de um animal a seu meio ambiente. Mas o N.T. insiste que o homem é muito mais do que isso; e, por ser o homem, essencialmente, um espírito, embora aprisionado no corpo, é responsável ao mundo eterno e espiritual. Será considerado responsável por aquilo que tiver feito no corpo e por meio do corpo. Mas os homens, esquecidos das dimensões superiores de seu próprio ser, se têm reduzido a simples animais, passando a agir como eles.

 

«A publicação dos relatórios Kinsey (Sexual Behavior in the Human Male, Philadelphia, W.B. Saunders Co., 1948 e Sexual Behavior in the Human Female, Philadelphia, W.B. Saunders Co. 1953) refletem as devastações operadas pelo conceito animalesco do sexo na moral e nos costumes norte-americanos. Parece que os padrões da moralidade sexual, entre os norte-americanos, aproximam-se daqueles que prevaleciam na civilização romana, no período de sua decadência». (Hoon, in loc).

 

Meditemos, entretanto, no que sucedeu no terreno dos costumes sexuais no mundo inteiro, desde 1953. Aqueles relatórios não fariam corar nem mesmo a uma avó de nossos dias. Consideremos uma sociedade em que ate mesmo a propaganda de um automóvel requer apelos de natureza sexual. Consideremos até que ponto temos ficado degradados quando a virgindade de uma jovem menina é zombada como um fenômeno social comparável ao dos que cortam o cabelo bem rente ou a Billy Graham, conforme afirmou a revista «Time», edição de julho de 1973. Aquele que se reduz ao nível animal terminará por colher a retribuição própria de um animal.

 

Consideremos os antigos gnósticos, que se «intrometiam» pelas casas e cativavam mulherinhas carregadas de diversas concupiscências. Ensinavam que as mulheres cristãs deveriam abusar do próprio corpo, dizendo que isso fazia parte do sistema ético cristão.

 

«...concupiscência dos olhos...» A concupiscência dos olhos pode ser incluída na concupiscência anterior, como uma de suas subcategorias. A visão, especialmente no caso do homem, é o portão de desejos ilícitos. Mas a concupiscência dos olhos envolve mais que isso, incluindo grande variedade de satisfações. O cativeiro da alma pelo «aspecto externo» das coisas; a preocupação exagerada pela própria aparência e posição; o gosto excessivo pela exibição; o anelo pelo que é vulgar; a distorção do senso natural da beleza, mediante o amor ao grotesco. Plínio queixava-se que os romanos «não sendo capazes de tornar belos os seus valores, tornavam-nos gigantescos» (conforme se via nas estátuas, nos edifícios e nos monumentos públicos).

 

O livro apócrifo Testamento de Ruben (capítulo segundo) alista sete espíritos de engano, um dos quais é o «senso da visão do que se origina o desejo». (Isso pode ser comparado com Ez 20:7,8). Por igual modo, Jesus também advertiu contra a vista como instrumento de tentação (ver Mt 5:27-29). Alguns intérpretes acreditam que o pecado da «cobiça» é o mais destacado nesta expressão. O olho observa o que lhe é agradável, levando a mente a cobiçar. O resultado é o desejo intenso. O olho jamais se satisfaz (ver Ec 1:8), e quanto mais obtemos, mais queremos.

 

Notemos que os vários «desejos» mencionados sempre desviam o homem de Deus. O mundo eterno e seus valores são ignorados quando tornamos este mundo o objeto de nossos desejos.

 

«...soberba da vida...» Os homens fazem do próprio «eu» um deus; gastam tudo quanto possuem, dinheiro e energias, para o próprio «eu». Esquecem-se do princípio do amor, do serviço que deveria ser feito em favor do próximo. Buscam apenas a glorificação própria; são pessoas de natureza fanfarra, paroleira e bazofeira.

 

O termo grego aqui usado é «alazoneia», «pretensão», «arrogância», «jactância». Os homens buscam exaltação nas riquezas e na posição social, como também de numerosos outros meios, talvez em supostas «realizações espirituais», pois o orgulho pode ter muitas manifestações sutis. Maomé dizia: «Que tenho eu com os confortos desta vida? O mundo e eu—que conexão há entre nós? De fato, o mundo não é diferente de uma árvore para mim: quando o viajor descansa sob sua sombra, passa adiante».

 

Existe aquela paixão egoísta de viver acima dos outros e com conforto e lazer excessivos. Essa paixão conduz a várias formas de ostentação, de impropriedades nas vestimentas e na maneira de viver.

 

Essa é a «...vida de vanglória de presunção, de desejo pelo louvor e pela deferência, pelo deleite de ser considerado importante, de exercer autoridade sobre outros, de estar em primeiro plano; todas as vaidades vazias da moda e dos costumes, dos títulos e ofícios; de uniformes e posição, das pequenas imposturas esnobes nas quais coisas os homens caem... Não lhes importa que... perante Deus, nada disso tenha qualquer valor. O perverso e pequeno 'ego' quer que subamos no palco, saracoteando, agitando-nos e fazendo poses». (H.H.Farmer, The Healing Cross, págs. 183-184).

 

Os diversos pecados que aparecem neste versículo são tão latos naquilo que deixam entendido que virtualmente incorporam, potencialmente, todos os pecados, tal como as tentações que Jesus sofreu incluíram todas as gamas possíveis.

 

«...não procede do Pai, mas procede do mundo...» O décimo quinto versículo mostrara que há grande abismo entre Deus e o mundo, e que ninguém pode amar a ambos ao mesmo tempo. Agora fica claro que esses vários pecados e concupiscências têm uma origem mundana. Deus nunca nos tentará a nos ocuparmos com qualquer deles. Até mesmo os gnósticos professavam querer retornar a Deus. Contudo praticavam pecados debilitantes, que o mundo lhes acenava. Não somos todos gnósticos? (Sim, pelo menos nesse particular). Cristo veio a fim de dar-nos o remédio para tudo isso. Ele veio do Pai; trouxe a mensagem vinda do outro mundo. Isso inclui o «imperativo moral». O homem é um espírito, localizado neste plano terreno, na prisão do corpo físico, porque o merece. Contudo, o seu destino é muitíssimo mais elevado do que isso. Todavia, jamais atingirá tal destino, enquanto estiver amando ao mundo. É mister que busque aquele nível de existência que se faz compatível com a sua natureza «espiritual». A grande dificuldade que temos, ao fazer isso, é a prova de quanto temos decaído.

 

«...do Pai...» É o Pai celeste que nos trata como seus filhos. Mas estes são filhos pródigos, que se foram para um país distante. Eles lhes enviou sua mensagem de amor, entretanto. Mas, diferentemente do filho pródigo da parábola bíblica (ver o décimo quinto capítulo do evangelho de Lucas) ainda não gastaram todo o seu dinheiro e continuam gastando o que possuem com prostitutas e com uma vida pecaminosa. Mas chegará o tempo, ou neste mundo ou em algum mundo espiritual, quando lhes faltarão todos os recursos pessoais. Então haverão de lembrar-se do Pai, desejando retornar a ele. Não foi o Pai que implantou neles os desejos pelas coisas mundanas; isso eles adquiriram quando se afastaram para longe dele. Mas a alma ainda se lembra da «pátria celestial», do mundo dos céus. A alma continua desejando retornar para ali. Nesse ínterim, os homens se espojam neste mundo quais animais irracionais.

 

«Portanto, aquele que sempre vive ocupado com os desejos e ambições, buscando-os anelantemente, temopiniões mortais, e, no que concerne ao homem, é um ser mortal, porque só dá valor à sua porção mortal. Mas aquele que se tem voltado para o amor do conhecimento e da verdadeira sabedoria, estando treinado a pensar que essas são a porção imortal e divina do homem, se tiver chegado à verdade, necessariamente, até onde a natureza humana é capaz de chegar à imortalidade, será imortal; e isso porque sempre dá valor ao poder divino, e, possuindo em seu interior a divindade, bem organizada, tem uma vida perfeita e divina». (Platão,Timeu, 90).

 

Comentários gerais de Adam Clarke (in loc.) sobre esta passagem: «A concupiscência da carne. São os desejos sensuais e impuros, que buscam satisfação em mulheres, bebidas fortes, petiscos e coisas similares. Concupiscência dos olhos. Desejos desordenados por tudo quanto é excelente, como vestimentas principescas, casas esplêndidas, móveis da melhor qualidade, equipamento caro, quinquilharias e decorações de toda a sorte. Soberba da vida. Busca pelas honrarias, pelos títulos, pela estirpe, pelos antepassados ilustres, pelas conexões de família, pelos cargos importantes, pelo conhecimento de pessoas de posição, e coisas similares. Nenhuma dessas ligações desordenadas vêm de Deus ou conduzem a ele. Pertencem a este mundo; aqui começam, florescem e terminam. Deixam a mente depravada, afastam-nos da busca pelas realidades divinas e deixam o indivíduo totalmente incapaz para desfrutar das realidades espirituais».

 

«Somente aquele que nasceu de Deus se volta para Deus; mas aquele que pertence a este mundo se volta para o mundo; as fontes do amor a Deus e do amor ao mundo são irreconciliavelmente distintas». (Faucett, in loc).

 

2:17:   Ora, o mundo passa, e a tua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.

 

«...o mundo passa...» As vantagens que os desejos terrenos visam, sem importar como tiverem sido adquiridas, devem perecer, tal como o mundo, finalmente, também passará. Os gnósticos ensinavam que a matéria haverá de perecer, afinal, juntamente com o mundo. Mas daí não tiravam a lição moral necessária, a saber, que nós, na qualidade de seres espirituais, não devemos tolerar em nós mesmos os vícios mundanos, mas antes, nos devemos separar deles, «...não atentando nós nas cousas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas» (II Co 4:18). Nossa preocupação, pois, deveria ser a nossa transformação segundo a imagem do eterno Cristo, de um estado de glória para outro, a fim de nos tornarmos semelhantes ao Homem ideal. (Ver I Co 3:18).

 

A destruição desta terra física talvez demore longo tempo. Mas uma coisa é certa, até onde estamos envolvidos—o fim de todas as coisas virá dentro em breve. Não poderá continuar sendo, por muito tempo, o «habitat» que ocupamos.

 

«...vontade de Deus...»Na presente epístola, isso significa, antes de tudo, reconhecer a Jesus como nosso Salvador e Senhor; reconhecendo que o plano divino da salvação deve ter nele o cumprimento, em contradição à mensagem gnóstica, que estipulava muitos mediadores angelicais e salvadores secundários. Além disso, cumpre-nos reconhecer que as boas novas de Deus envolvem um imperativo moral; portanto, há uma «vontade moral de Deus», que denunciará e rejeitará o amor do mundo e seus vícios, descritos nos versículos quinze e dezesseis. O «filho» que reconhece e cumpre a vontade de Deus, tal como o Pai, permanecerá para sempre. Essa promessa não é apenas a de «vida perene», o que se dará com todos os homens; antes, teremos o mesmo «tipo de vida» que Deus Pai possui. Essa vida é «necessária», isto é, não pode deixar de existir; e também é «independente», ou seja, não depende de outra para continuar, tal como Deus é sua própria causa e seu próprio sustentador. A «vida eterna», é uma «modalidade de vida», e não apenas «vida sem fim».

 

Deus é o pináculo e a origem de toda a vida; compartilhará com os homens de sua própria natureza e atributos (ver Ef 3:19; Cl 2:10 e II Pe 1:4). Assim, pois, os homens terão uma «forma de vida» superior à dos anjos. A «forma de vida» do homem será aquele tipo de vida que há também no Deus-homem, porquanto estamos destinados a participar da própria natureza e imagem de Cristo (ver Rm 8:29; II Co 3:18 e Ef 1:23). Possuidores dessa «forma de vida», permaneceremos para sempre, compartilhando do tipo de eternidade que tem o próprio Deus Pai. Encaminhamo-nos para esse alvo elevadíssimo cumprindo, agora, a «vontade de Deus». Isso exige, antes de tudo, que reconheçamos o seu Cristo, seu meio de vida; em seguida, requer que nos deixemos permear pela própria natureza moral de Cristo (ver Gl 5:22,23). É dessa maneira que chegamos a rejeitar o amor do mundo.

 

Existe algo no interior do homem que busca o que é eterno. O homem sente-se perturbado pelo pensamento de uma transição sem significado, de uma série de eventos caóticos para outra. Por isso é que Isak Dinesen, «Sevem Gothic Tales», à pág. 182, diz: «Quero estudar astronomia... porque não posso mais suportar o pensamento do tempo. Parece-se com uma prisão para mim, e penso que se pudesse livrar-me dele, inteiramente, sentir-me-ia feliz». O homem intui que pertence à eternidade; o homem nasceu para a eternidade, e busca a mesma.

 

«Deus faz oposição ao mundo, e a—imortalidade da vida eterna faz oposição à condenação que sobrevêm àquele que ama ao mundo... Somente na proporção em que o homem se apega a Deus é que pertence à ordem da imortalidade. Tudo quanto não estiver dentro da vontade de Deus simplesmente 'passará', isto é, morrerá... aimortalidade pode ser subentendida na experiência de quem cumpre a vontade de Deus em sua vida diária.Nesse sentido, a imortalidade só será dada a quem tiver morrido fisicamente; trata-se de um aspecto da vida eterna, a qual podemos desfrutar desde agora». (Hoon, in loc).

 

«Aquele que continua fazendo a vontade de Deus 'permanece para sempre', em meio ao fluxo das coisas transitórias». (Robertson, in loc).

 

«A fixidez e a duração eternas pertencem somente àquela ordem de coisas, bem como àqueles homens, que estão em inteiro acordo com a vontade de Deus» (Alford, in loc). O primeiro capítulo da epístola aos Efésios mostra que, finalmente, todas as coisas se centralizarão em torno de Cristo, como Senhor, obtendo nele a sua significação; e que somente assim é que as coisas poderão ser eternas. Esse é o mistério da vontade de Deus. Eventualmente, Cristo será «tudo para todos» (ver Ef 1:23), e isso proporcionará fixidez e continuação eternas para tudo.

 

«Nenhuma pessoa razoável pode colocar suas afeições naquilo que, em sua essência, é perecível, pois o que é perecível é desapontador». (Sinclair, in loc). Eventualmente, Deus porá novamente em ordem os juízos de valores de toda a sua criação.

 

«Todos esses objetos de desejo (como aqueles dos versículos quinze e dezesseis), finalmente mostrar-se-ão insatisfatórios, por causa de seu caráter transitório». (Brooke, in loc).

 

Emanuel Kant assegurou-nos que o «homem moral» tem em si mesmo a consciência de sua própria eternidade; não precisa de qualquer outra prova. O autor sagrado afirma a mesma coisa. Aquele que faz a «vontade moral de Deus» permanece para sempre.

 

«Não o que é transitório, mas o que é permanente; não o que é fugidio, mas o que é constante; não a morte, mas a vida, é a conclusão de toda a questão. A vida cristã não é um espasmo inicial, seguido por uma dispepsia crônica». (Alexander, in loc).

 

«A corrente das coisas temporais sai varrendo tudo. Mas, qual árvore acima da correnteza, surgiu nosso Senhor Jesus Cristo. Ele quis plantar-se, por assim dizer, sobre o rio. Estás sendo levado em rodopios pela correnteza? Agarra-te na madeira. O amor do mundo está te levando correnteza abaixo? Agarra-te em Cristo. Por tua causa ele se tornou temporal, para que pudesses tornar-te eterno. Pois ele foi feito temporal a fim de permanecer para sempre. Une teu coração à eternidade de Deus, e será eterno juntamente com ele». (Agostinho).

 

Bibliografia R. N. Champlin,COMENT. DO NOVO TESTAMENTO 2000