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historia da igreja primitiva N.10
historia da igreja primitiva N.10

 

 

                            Policarpo Discípulo do apóstolo João

Policarpo, de cuja morte falamos no primeiro capítulo, servia de modelo de fé e de devoção às congregações de Ásia Em sua juventude ele acompanhou ao apóstolo João e aprendeu a seus pés. Evidentemente, João mesmo o ordenou como bispo da congregação em Esmirna. 2 Se é correto que “os anjos” das sete igrejas de Apocalipses se referem aos bispos das igrejas então “o anjo” da igreja em Esmirna possa ter sido o mesmo Policarpo. (Veja-se Apocalipse 1.20 e 2.8.) Se é assim, que grato é notar que o Senhor Jesus Cristo não repreendeu em nada à igreja de Esmirna.

Policarpo viveu até uma idade de pelo menos 87 anos. Foi martirizado ao redor do ano 155 d.C. I

Irineu—Elo importante com os apóstolos Uno dos discípulos pessoais de Policarpo foi Irineu, quem depois se mudou a França como missionário. Quando o bispo da congregação em Lyon foi morto numa onda de perseguição, Irineu foi chamado para tomar seu lugar. A igreja em todo mundo elogiava a Irineu como homem justo e piedoso. Como discípulo de Policarpo, quem a sua vez era discípulo do apóstolo João, Irineu serve como elo importante com a época dos apóstolos Foi martirizado cerca do ano 200.

 

O MARTÍRIO DE POLICARPO 

                                     Policarpo (69 – 159)

Sobre sua infância, família e formação, não temos informações precisas, contudo há documentos históricos sobre ele. Graças a alguns testemunhos fidedignos, podemos reconstruir sua personalidade. Foi discípulo do apóstolo João, amigo e mestre de Ireneu, tendo ainda conhecido Inácio, sendo consagrado bispo da igreja de Esmirna. Quanto aos seus escritos, a única epístola que restou desse antigo pai da igreja é sua Carta aos Filipenses, exortando-a a uma vida virtuosa de boas obras e à firmeza na fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Seu estilo é informal, com muitas citações do Velho e Novo Testamento, faz 34 citações do apóstolo Paulo, evidenciando que conhecia a carta de Paulo aos Filipenses, bem como outras epístolas. Todavia temos também o testemunho de Eusébio e Ireneu 5, relatando a intimidade de Policarpo com testemunhas oculares do evangelho. Segundo Tertuliano, Policarpo teria sido ordenado bispo pelas mãos do próprio apóstolo João.

O martírio de Policarpo

O martírio de Policarpo é descrito um ano depois de sua morte, em uma carta enviada pela Igreja de Esmirna à Igreja de Filomélio. Este registro é o mais antigo martirológio cristão existente. Diz a história que o procônsul romano, Antonino Pius, e as autoridades civis tentaram persuadi-lo a abandonar sua fé em sua avançada idade, a fim de alcançar sua liberdade. Ele, entretanto, respondeu com autoridade: “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um crente!”

A carroça atirada por cavalos rodava pelas ruas empedradas da antiga cidade de Esmirna. O prisioneiro podia ouvir os gritos do gentio enlouquecido dentro da areia romana. Os cachorros da rua seguiam à carroça, ladrando loucamente. Meninos curiosos, com olhos cheios de emoção, corriam-se a um lado para dar-lhe passo. E caras sem número se assomavam curiosas às janelas. Detendo-se afora dos altos muros da areia, o guarda sacou ao prisioneiro da carroça como se fosse um vulto de lixo. Não lhe importou que as pernas do prisioneiro ficassem lesadas. Já faz semanas que o povo fazia questão de que este homem fora preso e executado. Mas não tinha aparência de malfeitor este ancião delicado, com cara enrugada. Seu cabelo e barba eram brancos, como as nuvens no céu mediterrâneo aquela tarde. O prisioneiro entrou na areia, coxeando. E as novas correram de uma pessoa a outra que este era Policarpo, o criminoso vil cuja morte tinham vindo ver.

Seu delito, qual era?

Era o líder naquela cidade de uma seita supersticiosa, a seita conhecida pelo nome cristão. O ancião, guiado por soldados, acercou-se ao procônsul romano, enquanto o gentio gritava sua aprovação. Queriam ver sangue esta tarde. Mas a cara do procônsul se ruborizo. Era este o criminoso perigoso a quem queriam dar morte?

O procônsul se inclinou para adiante e falou baixinho ao ancião prisioneiro. —O governo romano não quer perseguir aos anciãos. Só jura pela divindade de César e te porei em liberdade. —Isto não posso fazer.—Então só grita: “Abaixo com os ateus”, e bastará. (Já que os cristãos não tinham nem deuses nem templos, muitos criam que eram ateus.) Com grande acalma o prisioneiro deu a volta e assinalou para o gentio que gritava por sua morte. Então, olhando para o céu, gritou a toda voz: —¡Abaixo com os ateus!

O procônsul ficou desconcertado ao ver a resposta do prisioneiro. Este tinha feito o que se lhe mandou, mas não da maneira esperada. Não satisfaria ao gentio louco que seguia gritando por sua morte. O procônsul queria pôr em liberdade a este ancião, mas tinha que aplacar a gente. —¡Amaldiçoa a Jesus cristo! —ordenou.

Por uns momentos Policarpo olhou fixamente ao rosto severo do procônsul. Depois falou com acalma: - Por oitenta e seis anos servi a Jesus, e ele nunca me fez mal algum. Como, pois, poderei amaldiçoar o meu Rei e Salvador?

Entretanto, a multidão se impacientava mais. Queriam sangue, e o procônsul o sabia. Tinha que fazer algo. —Jura pela divindade de César —lhe instou outra vez.Mas o prisioneiro contestou sem demorar:—Já que você aparenta não saber quem sou, permita-me ajudar-lhe. Digo sem vergonha que sou um cristão. Se você deseja saber que crêem os cristãos, assinale uma hora, e eu com gosto se o direi.

O procônsul se agitou. —Não me tens que persuadir a mim. Persuade a eles-disse, assinalando para a multidão impaciente. Policarpo deu uma olhada ao tumulto que enchia a areia.

Tinham vindo para ver a diversão de sangue. Isso queriam nada menos. —Não baratearei os ensinos de Jesus ante tais pessoas.Agora o procônsul se enojou.—Não sabes que tenho a meu poder os animais ferozes? ¡Os soltarei de imediato se tu não te arrependas destas necedades!—Muito bem. Solte-os replicou Policarpo, sem medo—. Quem ouviu jamais de do que uma pessoa se arrependesse do bom para andar em atrás do mau?O procônsul costumava vencer ainda aos criminosos mais fortes com suas ameaças, mas este ancião mais bem o vencia a ele. Sua cólera montava. —Bem, se os leões não te dão medo, ouve-me. ¡Te queimarei vivo se não amaldiçoas a Jesus Cristo agora mesmo!Cheio do Espírito Santo, Policarpo contestou com gozo e valor: - Me ameaça você com um fogo que se apaga depois de uma hora. Não sabe que virá um fogo eterno, o fogo de juízo reservado para os ímpios? Por que esperar mais? Faça comigo o que vai fazer.

O procônsul não tinha querido que saísse desta maneira. O tinha querido conquistar a esta velha. Tinha esperado ver-lhe de joelhos rogando por misericórdia. Mas o prisioneiro… o ancião… tinha conquistado ao procônsul. E este se recostou em sua cadeira elegante, humilhado e enfurecido.

Mandou heraldos a diferentes lugares na vasta areia para anunciar o que Policarpo tinha dito. Quando se anunciou o último desafio de Policarpo, uma onda de fúria correu pela multidão ¡Isto fariam! O que eles tinham querido desde o princípio. Com gritos agudos, saltaram de suas cadeiras e correram pelos corredores Lançaram-se para as portas que davam às ruas Correndo loucamente, procuraram lenha onde quer. Saquearam as lojas. Entraram até nos banhos públicos e roubaram a lenha de ali. E se apressaram para voltar à areia, carregados com lenha para prender o fogo. Amontoaram a lenha ao redor da pira preparada, à qual os soldados já fincavam as mãos e as pernas de Policarpo.

Mas ele falou com confiança aos soldados: - Deixem-me bem como estou. O que me fortalece contra o fogo me ajudará a permanecer nele sem que me assegurem. Depois de permitir que Policarpo orasse, os soldados prenderam o fogo.1.

Ao queimar a Policarpo, o povo de Esmirna cria que oporiam no esquecimento e que a desprezada seita dos cristãos se acabaria. Como o procônsul que tinha esperado intimidar a Policarpo, assim cria o povo que os cristãos se intimidariam e esqueceriam sua fé. ¡Que engano! Resultou tudo o contrário. Em vez de intimidar-se pela morte de Policarpo, seu líder, os cristãos cobraram mais ânimo. E seu número aumentou. Paradoxalmente, o que os romanos não podiam fazer, a igreja mesma depois fez. Hoje em dia, o nome de Policarpo descansa no esquecimento, e o cristianismo daquele então não existe.

  

Policarpo morreu mártir naquele tempo, (a data do martírio, que Eusébio, na Crónica, coloca em 177, é fixada na época de Antonino Pio) enquanto a Ásia era assolada por grandíssimas perseguições. Julgo absolutamente necessário contar o relato da sua morte, conservado ainda hoje por escrito.

 Existe, com efeito, a carta dirigida às dioceses da região em nome da Igreja de que ele  estava à frente, que assim diz a seu respeito:

"A Igreja de Deus que reside em Esmirna à Igreja de Deus que reside em Filomélio e a todas as dioceses da santa Igreja católica espalhadas em todo o lugar. Multipliquem-se a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e do nosso Senhor Jesus Cristo. Escrevemo-vos, irmãos, a propósito daqueles que sofreram o martírio e do bem-aventurado Policarpo, que com o seu martírio como que selou e concluiu a perseguição".

Portanto, antes da história de Policarpo, nela se narram as dos demais mártires, descrevendo a firmeza por eles mostrada perante os tormentos. Diz-se, com efeito, que os espectadores presentes no circo  ficaram pasmados a vê-los: lacerados pelos flagelos até às veias e artérias mais profundas, ao ponto que se chegou a ver até as partes mais escondidas deles; estendidos sobre abrolhos e pontas aguçadas; e por fim, após ter sofrido toda a espécie de suplício e tortura, eram dados de comer às feras. Contam que se destacou em particular o corajoso Germânico, que superou com a graça divina o medo inato da morte física. 

E enquanto o procônsul queria dissuadi-lo, alegando a sua idade e suplicando-lhe, já que era ainda tão jovem e estava na flor dos anos, que tivesse piedade de si mesmo, ele não hesitou e com coragem atraiu a fera sobre si, quase obrigando-a e excitando-a, para que o libertasse quanto antes desta vida injusta e iníqua. Perante a nobre morte deste, a multidão inteira ficou estupefacta pela coragem do pio mártir e pelo valor de toda a estirpe cristã, e começou a gritar em uníssono: "Fora com os ateus! Busque-se Policarpo!". A tais gritos seguiu-se um grande tumulto, e um tal, frígio de estirpe, de nome Quinto, que tinha chegado recentemente da  Frígia, vendo as feras e todos os outros suplícios que o ameaçavam, desanimou e cedeu, renunciando por fim à salvação. O texto da supracitada carta refere que ele se apresentou em tribunal juntamente com outros, mais por presunção, que por devoção: a sua queda ofereceu portanto a todos um claro exemplo de como não se deviam enfrentar semelhantes riscos sem convicção. Assim morreram estes homens.

Quanto ao mui admirável Policarpo, ao ouvir estas coisas primeiramente permaneceu calmo, mantendo-se firme e íntegro como sempre, e quis ficar na cidade, mas depois obedeceu aos companheiros que lhe rogavam e suplicavam que se afastasse, e retirou-se para uma herdade não longe da cidade, onde viveu com poucos companheiros, não fazendo mais, noite e dia, que perseverar nas orações ao Senhor. Orando, invocava e implorava a paz para as Igrejas de toda a terra, como tinha sempre sido seu hábito. Três dias antes da sua detenção, teve de noite uma visão, e viu o travesseiro que estava por debaixo da sua cabeça incendiar-se subitamente e consumir-se. Ao que acordou e explicou imediatamente a visão aos presentes, embora sem predizer o futuro e anunciar claramente aos companheiros que devia morrer por Cristo na fogueira. Visto que aqueles que tinham sido encarregados dele, o procuravam  com grande zelo, constrangido pelo afecto e pelo apego dos irmãos, diz-se que se transferiu para uma outra herdade; e aqui, pouco depois, sobrevieram os seus perseguidores e prenderam dois servos que encontraram ali. Por um deles vieram a saber, torturando-o, o esconderijo de Policarpo. 

Chegados lá a horas tardias, encontraram-no a repousar num sotão, de onde lhe teria sido possível passar para uma outra casa, mas ele não quis e disse: "Seja feita a vontade de Deus". Tendo sabido da sua presença, como refere o relato, desceu e falou com eles com um rosto dulcíssimo e tão alegre, que a esses, que nunca o tinham conhecido antes, pareceu ver um milagre, quando observaram esse homem de idade avançada pelo porte venerando e calmo, e se admiraram de tanta preocupação para prender um semelhante velho. Sem demoras ele mandou preparar imediatamente uma mesa para eles e os convidou para um abundante almoço, depois pediu-lhes uma hora somente, para orar em paz. Concederam-lha e ele, levantando-se, orou cheio da graça do Senhor, ao ponto que os presentes, ouvindo-o orar, ficaram estupefactos e muitos deles lamentaram que um velho tão venerando e pio estivesse para ser morto. O escrito que lhe diz respeito continua textualmente assim:

"Quando terminou a oração, após ter recordado todos aqueles que tinha encontrado, pequenos e grandes, ilustres e desconhecidos, e a inteira Igreja católica espalhada no mundo, chegando a hora de ir, puseram-no sobre um jumento e levaram-no para a cidade, um sábado de festa. Encontraram-no o irenarca Herodes e seu pai Niceta, os quais, fazendo-o subir para a sua carroça, sentaram-se perto dele e procuraram convencê-lo, dizendo: "Que mal há em dizer: César senhor, e em sacrificar para salvar-se?". Ele primeiro não respondeu, depois, dado que eles insistiam, disse: "Não pretendo fazer o que me aconselhais". Então, não conseguindo persuadi-lo, dirigiram-lhe palavras torpes e o fizeram descer tão apressadamente, que saindo da carroça feriu-se na canela, mas ele, sem se voltar, como se não tivesse sentido nada, prosseguiu a pé apressadamente e de bom grado, e foi conduzido ao estádio.

 Aqui o clamor era tão grande, que ninguém poderia fazer-se ouvir. Mas à entrada de Policarpo no estádio uma voz desceu do céu: "Sê forte, Policarpo, e comporta-te como um homem!". Ninguém viu quem falava, mas muitos dos nossos que estavam presentes ouviram essa voz . Enquanto era conduzido, houve um  grande tumulto por parte de quantos tinham ouvido que Policarpo tinha sido preso. Chegando à frente, o procônsul perguntou-lhe se era Policarpo, e visto que ele o confirmou, tentou persuadi-lo a abjurar dizendo: "Respeita a tua idade", e outras coisas semelhantes que costumam dizer, como: Jura pelo génio de César, arrepende-te, diz: 'Fora com os ateus! Então Policarpo, olhando com o rosto sério a multidão que estava no estádio, agitou para ela a mão e gemendo levantou os olhos ao céu, e disse: "Fora com os ateus!". Mas o procônsul insistia: "Jura, e te deixarei ir. Insulta Cristo". Policarpo respondeu: "Sirvo-o há oitenta e seis anos e não me fez algum mal: como posso blasfemar o meu rei, aquele que me salvou?". E o outro insistia: "Jura pelo génio de César". Então Policarpo disse: "Se te iludes que eu jure pelo génio de César, como dizes fingindo não saber quem sou eu, ouve bem: eu sou cristão. E se quiseres conhecer a doutrina do Cristianismo, concede-me um dia e fica-me a ouvir". 

Respondeu o procônsul: "Convence o povo!". E Policarpo: "A ti estimei digno de um discurso, porque nos ensinaram a tributar aos magistrados e às autoridades instituídas por Deus a honra que lhes compete, se isto não nos trouxer dano, mas estes não merecem ouvir a minha defesa". Retomou o procônsul: "Tenho feras. Entregar-te-ei a elas, se não mudares de ideias". Respondeu Policarpo: "Chama-as. Não mudaremos de opinião para ir do melhor para o pior, enquanto é belo passar do mal para a justiça". E o outro: "Far-te-ei domar pela fogueira, se não te importam as feras, a menos que tu mudes de ideias". E Policarpo: "Tu ameaças um fogo que queima um momento e pouco depois se apaga, porque não conheces o fogo do juízo que virá e da punição eterna reservada aos ímpios. Mas por que demoras? Faz vir o que quiseres". Dizendo estas e muitas outras coisas ainda, se encheu de coragem e de alegria, e o seu rosto se encheu de graça, assim que não só não se assustou com as palavras lhe dirigidas, mas foi antes o procônsul a ficar comovido, e mandou um arauto ao meio do estádio anunciar três vezes: Policarpo confessou ser cristão. Assim que o arauto o anunciou, toda a multidão de pagãos e de Judeus habitantes em Esmirna gritou com grande voz  e com ira incontível: "Este é o mestre da Ásia, o pai dos Cristãos, o destruidor dos nossos deuses, aquele que ensina a muitos a não sacrificar e a não adorar". Assim dizendo, gritaram e pediram ao asiarca Filipe para que soltasse um leão contra Policarpo, mas ele respondeu  que não lhe era permitido visto que o espectáculo das feras tinha acabado. Então puseram-se todos a reclamar com grande voz que  Policarpo fosse queimado vivo. Devia assim cumprir-se a visão do travesseiro que lhe apareceu enquanto orava, quando o viu arder, e virado para os fiéis que estavam com ele, profetizou: "Devo ser queimado vivo". O que aconteceu quase antes que fosse dito, já que a multidão recolheu  imediatamente das oficinas e das termas madeira e faxinas, e se entregaram a esta tarefa com brio sobretudo os Judeus, como era seu hábito. Assim que a fogueira ficou pronta, após ter tirado sozinho todas as roupas, solto o cinto, começou a tirar também as sandálias, coisa que antes nunca fazia por si, porque todo o fiel procurava fazê-lo para ser o primeiro a tocar a sua pele: por causa da sua santidade, foi de facto honrado em tudo ainda antes da velhice. Portanto se lhe puseram logo à volta os materiais preparados para a fogueira. Quando foram para pregá-lo, disse: "Deixai-me assim. Porque aquele que me concede suportar o fogo, me concederá também resistir firme na fogueira sem necessidade dos vossos pregos". Então não o pregaram, mas o amarraram. Postas as mãos atrás das costas, foi amarrado, como um carneiro escolhido de um grande rebanho em holocausto aceito a Deus todo-poderoso, e disse: "Pai do teu amado e bendito Filho Jesus Cristo, por meio do qual te conhecemos, Deus dos anjos e das potestades, te bendigo por me teres julgado digno deste dia e deste  momento, fazendo-me participante, no número dos mártires, do cálice do teu Cristo para a ressurreição da alma e do corpo na vida eterna e na incorruptibilidade do Espírito Santo. Possa eu hoje ser acolhido entre eles diante de ti num sacrifício cevado e agradável, como tu mesmo me preparaste e manifestaste e levas agora a cumprimento, Deus veraz e leal. Por isso eu te louvo também por todas as coisas, te bendigo, te dou glória por meio do pontífice eterno Jesus Cristo teu Filho dilecto, e por seu meio seja a glória a ti em união com Ele no Espírito Santo agora e sempre nos séculos vindouros, amen".

"Pronunciado o amen e terminada a oração, os encarregados acenderam o fogo, e enquanto lavrava uma grande chama assistimos a um milagre, nós a quem foi dado ver e que fomos conservados para contar aos outros o que aconteceu. O fogo, com efeito, tomou a forma de abóbada, como uma vela de barco inchada pelo vento, e circundou o corpo do mártir, que estava no meio dele não como carne que queimava, mas como ouro e prata sendo refinados numa fornalha. E nós sentimos um odor intenso como o perfume de incenso ou de outros aromas preciosos. Aqueles malvados, por fim, vendo que o fogo não conseguia consumir o seu corpo, ordenaram a um confector (o executor, aquele que na arena 'acabava' com o lutador ou a fera já ferida) ir cravar uma espada nele. Feito isto, saiu uma tal quantidade de sangue dele, que o fogo se apagou e toda a multidão pasmou com uma tão grande diferença entre os não crentes e os eleitos, um dos quais foi certamente o maravilhoso Policarpo, mestre apostólico e profético nosso contemporâneo, bispo da Igreja católica de Esmirna: toda a palavra que saiu da sua boca se cumpriu e se cumprirá. Mas o Maligno, rival astuto, adversário da estirpe dos justos, vendo a grandeza do seu martírio, a sua conduta desde sempre irrepreensível, a coroa da incorruptibilidade de que estava cingido, o prémio incontestável obtido, agiu para que pelo menos o seu cadáver não fosse recolhido por nós, malgrado muitos desejassem fazê-lo para ter consigo o seu santo corpo. Alguns sugeriram, por conseguinte, a Niceta, pai de Herodes e irmão de Alce, que suplicasse ao governador para que não entregasse o seu corpo, 'por temor' disse 'que se ponham a venerar este, esquecendo o Crucificado'. Disseram isto aconselhados e instigados pelos Judeus, que nos espiavam quando estávamos para tirá-lo da fogueira, porque não sabem que nós nunca poderemos abandonar nem Cristo, que sofreu a paixão para a salvação daqueles que no mundo inteiro são salvos, nem venerar algum outro. Porque a Ele, nós o adoramos enquanto Filho de Deus, ao passo que os mártires, os amamos justamente enquanto discípulos e imitadores do Senhor por causa do seu  insuperável  amor pelo seu rei e mestre. Queira o céu que também nós possamos ser companheiros e condiscípulos deles! O centurião, então, vendo a contenda provocada pelos Judeus, fez colocar o cadáver no meio, segundo o seu  hábito ordenou queimá-lo.

notas fonte (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro IV 15,1-43)

                     Justino—Filósofo convertido em evangelista

                                        (100-170 D.C)

 

Durante a vida de Policarpo, um filósofo jovem chamado Justino empreendeu uma viagem espiritual em busca da verdade. O costumava andar num campo solitário que olhava para o Mar Mediterrâneo para meditar. Um dia enquanto andava ali viu que um ancião caminhava depois dele. Desejando a solidão, Justino se deu volta e olhou bruscamente ao ancião intruso. Mas o ancião não se molestou. Mais bem começou a conversar com Justino.Ao aprender que Justino era filósofo, o ancião lhe fez perguntas indagados , perguntas que punham à luz o esvazio da filosofia humana. Anos depois, Justino contou as recordações daquele encontro, escrevendo: “Quando o ancião tinha terminado de falar estas coisas e muitas mais, foi-se, exortando-me a que meditasse no que tinha falado. Desde então não o vi, mas de imediato uma chama se acendeu em minha alma. Inundou-me um grande amor pelos profetas e os amigos de Cristo. Depois de reflexionar mais no que o ancião metinha dito, dei-me conta de do que o cristianismo era a única filosofia verdadeira e valiosa.”3Ainda depois de converter-se ao cristianismo, Justino sempre se punha sua túnica de filósofo para dar a conhecer que ele tinha achado a única filosofia verdadeira. Em verdade, ele se converteu em evangelista para os filósofos pagãos. Dedicou sua vida a aclarar o significado do cristianismo aos romanos cultos. Suas defesas escritas aos romanos são as apologias cristãs mais antigas que existem.

Justino se demonstrou evangelista capacitado. Converteu a muitos romanos à fé cristã, tanto cultos como incultos. Ao fim, um grupo de filósofos, tramando sua morte, mandaram-lhe prender. Justino escolheu morrer antes de negar a Cristo. Foi martirizado para o ano 165. Depois de sua morte, foi conhecido por muitos como Justino o mártir.Flávio Justino Mártir, nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século, e morreu mártir no ano 170. Depois de ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas – peripatética, estóica, pitagórica – em busca da verdade para a solução do problema da vida, abandonando o platonismo, último estágio da sua peregrinação filosófica. O amor à verdade levou-o, pouco a pouco, a rejeitar os sistemas filosóficos pagãos e a converter-se ao Cristianismo. Em sua época foi o mais ilustre defensor das verdades cristã contra os preconceitos pagãos.
 Embora leigo, é considerado o primeiro dos Pais Apologista da Igreja, logo depois dos primitivos Pais Apostólicos, tendo dedicado sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. Em Roma, abriu uma escola para o ensino da doutrina cristã, e ainda nesta cidade dedicou-se ao apostolado, especialmente nos meios cultos, nos quais se movimentava com desembaraço. Escreveu muitas obras, mas somente três chegaram até nós: duas Apologias – contra os pagãos – e um Diálogo com o judeu Trifão. Sofreu o martírio por decapitação, depois de ter si.