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arminianismo historia e doutrina
arminianismo historia e doutrina

 

 


                                                            HISTORIA DO ARMINIANISMO

 

Jacó Armínio (James Arminius, Jacob Harmenszoon; 10 de outubro de 1560 - 19 de Outubro de 1609) foi um teólogo neerlandês que sistematizou a predestinação restrita. A partir de 1603 também foi professor de teologia da Universidade de Leiden.

Armínio era um distinto pastor e professor holandês, cuja formação teológica havia sido profundamente calvinista. De fato, boa parte de seus estudos ocorreram em Genebra, sob direção de Theodore Beza, o sucessor de João Calvino nessa cidade. Voltando aos Países Baixos, ocupou um importante púlpito em Amsterdão e logo sua fama se tornou grande. Devido a sua fama e ao seu prestígio como estudioso da Bíblia e da teologia, os dirigentes da igreja de Amsterdão lhe pediram que refutasse as opiniões do teólogo Dirck Koornhet, que havia atacado algumas das doutrinas calvinistas, particularmente, no que se referia à predestinação.

Com o propósito de refutar Koornhet, Armínio estudou seus escritos e dedicou-se a compará-los com as escrituras, com a teologia dos primeiros séculos da igreja e com vários dos principais teólogos protestantes. Surge a predestinação restrita mais ocasionada pelo lívre-arbítrio humano, do que ocasionada pela vontade soberana de Deus. Diverge, portanto, da predestinação incondicional (calvinista) que ensina a salvação humana depende de uma "eleição absoluta e soberana" - que depende exclusivamente de Deus: a vontade do homem fica excluída.


Arminianismo


O Arminianismo é um sistema teológico baseado nas idéias do pastor e teólogo reformado holandês Jacob Harmensz, mais conhecido pela forma latinizada de seu nome Jacobus Arminius. No inglês, é usualmente referenciado como James Arminius ou Jacob Arminius. Em português, seu nome seria Jacó Armínio.

Embora tenha sido discípulo do notável calvinista Teodoro de Beza, Armínio defendeu uma forma evangélica de sinergismo (crença que a salvação do homem depende da cooperação entre Deus e o homem), que é contrário ao monergismo, do qual faz parte o calvinismo (crença de que a salvação é inteiramente determinada por Deus, sem nenhuma participação livre do homem). O sinergismo arminiano difere substancialmente de outras formas de sinergismo, tais como o pelagianismo e o semipelagianismo, como se demonstrará adiante. De modo análogo, também há variações entre as crenças monergistas, tais como o supra-lapsarianismo e o infra-lapsarianismo.

Armínio não foi primeiro e nem o último sinergista na história da Igreja. De fato, há dúvidas quanto ao fato de que ele tenha introduzido algo de novo na teologia cristã. Os próprios arminianos costumavam afirmar que os pais da Igreja grega dos primeiros séculos da era cristã e muitos dos teólogos católicos medievais eram sinergistas, tais como o reformador católico Erasmo de Roterdã. Até mesmo Philipp Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero na reforma alemã, era sinergista, embora o próprio Lutero não fosse.Armínio e seus seguidores divergiram do monergismo calvinista por entenderem que as crenças calvinistas na eleição incondicional (e especialmente na reprovação incondicional), na expiação limitada e na graça irresistível:
* seriam incompatíveis com o caráter de Deus, que é amoroso, compassivo, bom e deseja que todos se salvem;
* violariam o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem;
* levariam à conseqüência lógica inevitável de que Deus fosse o autor do mal e do pecado;


Contexto Histórico


Para se compreender os motivos que levaram à aguda controvérsia entre o calvinismo e o arminianismo, é preciso compreender o contexto histórico e político no qual se inseriam os Países Baixos à época.De acordo com historiadores, tais como Carl Bangs, autor de "Arminius: A Study in the Dutch Reformation (1985)", as igrejas reformadas da região eram protestantes, em sentido geral, e não rigidamente calvinistas. Embora aceitassem o catecismo de Heidelberg como declaração primária de fé, não exigiam que seus ministros ou teólogos aderissem aos princípios calvinistas, que vinham sendo desenvolvidos em Genebra, por Beza. Havia relativa tolerância entre os protestantes holandeses. De fato, havia tanto calvinistas quanto luteranos. Os seguidores do sinergismo de Melanchthon conviviam pacificamente com os que professavam o supralapsarianismo de Beza. O próprio Armínio, acostumado com tal "unidade na diversidade", mostrou-se estarrecido, em algumas ocasiões, com as exageradas reações calvinistas ao seu ensino.

Essa convivência pacífica começou a ser destruída quando Franciscus Gomarus, colega de Armínio na Universidade de Leiden, passou a defender que os padrões doutrinários das igrejas e universidades holandesas fossem calvinistas. Então, lançou um ataque contra os moderados, incluindo Armínio.De início, a campanha para impor o calvinismo não foi bem sucedida. Tanto a igreja quanto o Estado não consideravam que a teologia de Armínio fosse heterodoxa. Isso mudou quando a política passou a interferir no processo.

À época, os países baixos, liderados pelo príncipe Maurício de Nassau, calvinista, estavam em guerra contra a dominação da Espanha, católica. Alguns calvinistas passaram a convencer os governantes dos Países Baixos, e especialmente o príncipe Nassau, de que apenas a sua teologia proveria uma proteção segura contra a influência do catolicismo espanhol. De fato, caricaturas da época apresentavam Armínio como um jesuíta disfarçado. Nada disso foi jamais comprovado.

Depois da morte de Armínio, o governo começou a interferir cada vez mais na controvérsia teológica sobre predestinação. O príncipe Nassau destituiu os arminianos dos cargos políticos que ocupavam. Um arminiano foi executado e outros foram presos. O conflito teológico atingiu tamanha proporção que levou a Igreja a convocar o Sínodo Nacional da Igreja Reformada, em Dort, mais conhecido como o Sínodo de Dort, onde os arminianos, conhecidos como "remonstrantes", tiveram a oportunidade de defender seus pontos de vista perante as autoridades, partidárias do calvinismo. As discussões ocorreram em 154 reuniões iniciadas em 13 de novembro 1618 e encerrada em 9 de maio de 1619, cujo o assunto era a predestinação incondicional defendida pelo calvinismo e a predestinação condicional defendida pelo arminianismo. Os arminianos acabaram sendo condenados como hereges, destituídos de seus cargos eclesiásticos e seculares, tiveram suas propriedades expropriadas e foram exilados.

Logo que Maurício de Nassau morreu, os calvinistas perderam o seu poder na região e os arminianos puderam retornar ao país, onde fundaram igrejas e um seminário, o qual até hoje existe na Holanda (Remonstrants Seminarium).Em síntese, as igrejas protestantes holandesas continham diversidade teológica, à época de Armínio. Tanto monergistas quanto sinergistas eram ali representados e conviviam pacificamente. O que levou a visão monergista à supremacia foi o poder do Estado, representado pelo príncipe Maurício de Nassau, que perseguiu os sinergistas.
Para Armínio e seus seguidores, sua teologia também era compatível com a reforma protestante. Em sua opinião, tanto o calvinismo quanto o arminianismo são duas correntes inseridas na reforma protestante, por serem, ambas, compatíveis com o lema dos reformados sola gratia, sola fide, sola scriptura.


Diferentes Correntes


A exemplo do que ocorre com outras correntes teológicas, tais como o calvinismo, as crenças arminianas não são homogêneas. As idéias originalmente desenvolvidas por Armínio foram sistematizadas e desenvolvidas por inúmeros sucessores e profundamente alteradas por outros. Embora todos eles sejam considerados arminianos, divergem em alguns pontos cruciais. O teólogo reformado Allan Sell introduziu a distinção entre os "arminianos do coração" e os "arminianos da cabeça".


Arminianos do coração


São classificados como tal os teólogos que continuaram a trilhar os mesmos passos de Armínio, ou seja, sua teologia é perfeitamente compatível com as idéias por ele defendidas. Entre os inúmeros arminianos do coração, podem ser citados:

* Os Remonstrantes: cerca de 45 ministros e teólogos dos países baixos que deram continuidade ao desenvolvimento da teologia de Armínio. Seu principal representante é Simon Episcopius (1583-1643). Outro nome importante é o do conhecido cientista político Hugo Grotius (1583-1645). Os últimos remonstrantes afastaram-se substancialmente das linhas traçadas por Armínio e deram origem ao "arminianismo da cabeça" (vide adiante).
* Século XVIII: o principal nome que desponta nessa época é o de John Wesley (1703-1791), que se declarava arminiano e defendeu o arminianismo da acusação de heterodoxia e de heresia. Embora a teologia de Wesley seja compatível com o arminianismo original, apresenta alguns acréscimos importantes, tais como o perfeccionismo wesleyano, com o qual nem todos os arminianos concordam, e algumas aparentes contradições, em razão da falta de rigor teológico utilizado em sua linguagem, muito mais de pregador do que de teólogo. Além de Wesley, merecem destaque John Fletcher (1729-1785) e Richard Watson (1781-1833).
* Século XIX: Thomas Summers (1812-1882), William Burton Pope (1822-1903), John Miley (1813-1895).
* Século XX: H. Orthon Wiley (1877-1961), Thomas Oden (embora não aceite ser chamado de arminiano, sua obra é totalmente compatível com o arminianismo clássico. Prefere o rótulo de "paleo-ortodoxo", já que apela para o consenso dos primeiros pais da Igreja). Dale Moody, Stanley Grenz, Howard Marshall.


Arminianos da Cabeça


São considerados "arminianos da cabeça" os que abandonaram alguns dos princípios basilares da teologia arminiana clássica, tal como a crença no pecado original e na depravação total. Aproximaram-se do semipelagianismo e até do pelagianismo, negando a salvação pela graça, pilar da reforma protestante. Posteriormente, a teologia de alguns sofreu fortes influências do iluminismo, recaindo em universalismo, arianismo e em vertentes da teologia moderna liberal.

A maior parte dos críticos do arminianismo cometem o equívoco de tomar a parte pelo todo, considerando que todos os arminianos são "da cabeça", sem discernir as profundas diferenças entre as várias correntes arminianas. Tal equívoco é semelhante ao de considerar que todos os calvinistas são hiper-calvinistas ou que todos sejam supralapsarianos. Talvez por isso, o arminianismo seja tão freqüentemente associado ao semipelagianismo.

Entre os conhecidos arminianos da cabeça, destacam-se:


* Remonstrantes: alguns dos últimos remonstrantes passaram a defender posições mais próximas do semipelagianismo do que do arminianismo, afastando-se do arminianismo clássico. O principal nome dessa época é Philipp Limborch (1633-1712). Muitos opositores do arminianismo, na realidade, baseiam suas críticas nas idéias de Limborch, como se fossem iguais às de Armínio.
* Século XVIII: John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1705-1787).
* Século XIX: o nome de maior destaque é o do avivalista Charles Finney (1792-1875), cuja teologia é fortemente pelagiana.



                                      LIDERES ARMINIANOS

                                         Simon Episcopius

 

EPISCOPIUS, (Simon,) cujo nome verdadeiro era Bisscop, nasceu em Amsterdã em 1583. Após passar por escolas de latim em Amsterdã, foi, em 1602, estudar em Leiden, onde conheceu Arminius pessoalmente, e absorveu suas opiniões. Ele tratou desse teólogo em sua extrema doença, e teve muitas reuniões com ele sobre religião e o estado da Igreja. Foi ordenado na Holanda em 1610, e se tornou ministro de uma povoação perto de Roterdã. Foi um dos deputados na reunião realizada em Haia em 1611 diante dos estados da Holanda entre seis ministros remonstrantes ou arminianos e seis ministros anti-remonstrantes.

Em 1612 foi escolhido professor de teologia em Leiden no lugar de Gomarus. O partido arminiano, do qual ele agora era considerado como o dirigente, era impopular tanto com as autoridades eclesiásticas como as civis, e também com o povo. Os ministros que seguiam suas opiniões enfrentavam o desalento de seus irmãos e do governo, e ocasionalmente suas vidas estavam em perigo por causa da fúria popular. O sínodo de Dort, em 1618, recusou tolerar uma associação com os arminianos, expulsou-os da assembléia, destituiu-os de suas funções, e fez com que fossem banidos dos territórios da nação. Episcopius foi para Antuérpia, e mais tarde para a França; mas em 1626, estando os tempos mais favoráveis, retornou para a Holanda, se tornou ministro da igreja remonstrante em Roterdã, e, em 1634, reitor da universidade remonstrante em Amsterdã, em cujo cargo permaneceu até sua morte. Morreu em 1643. Sua vida foi publicada por Limborch em Amsterdã em 1701, e é uma obra de grande interesse. Foi ele quem primeiro sistematizou, sob um sistema uniforme, as opiniões de Arminius, e sua erudição e talento lhe concedeu um lugar próximo ao de fundador do grupo. Ele escreveu muitas obras sobre a diferença entre os arminianos e os calvinistas, e entre os protestantes e a igreja romana. Suas obras foram reunidas e publicadas em Amsterdã, 1665-1671, e em Leiden em 1678.

Hugh James Rose, em A New General Biographical Dictionary, Vol VII, p. 243-4.

1643. Ano da morte de SIMON EPISCOPIUS, um hábil teólogo holandês. Ele adotou as doutrinas de Arminius em relação à predestinação, o que o expôs a muita perseguição e censura, e finalmente levou ao seu banimento da nação: mais tarde recebeu permissão para retornar, e se tornou ministro da igreja remonstrante. Sua morte, acontecendo no momento de um eclipse lunar, foi considerada como um símbolo da partida do mais brilhante ornamento da igreja.

Joel Munsell, em The Every Day Book of History and Chronology, p. 133.

Tradução: Paulo Cesar Antunes-    Fonte: Arminianismo.com

                           Hugo Grócio (Hugo de Groot)arminio

 

Hugo Grócio (Delft, domingo de Páscoa, 10 de abril de 1583 – Rostock, 28 de agosto de 1645), ou Huig de Groot ou ainda Grotius, foi um jurista holandês. Era filho de Jan de Groot, curador da Universidade de Leyden.

Sua obra mais conhecida é De jure belli ac pacis (Das leis de guerra e paz, 1625), no qual aparece o conceito de guerra justa e do direito natural. Foi também um filósofo, dramaturgo e poeta.

Menino prodígio, começou a compor versos aos oito anos e com 11 anos entrou para a Universidade de Leyden, estudar Direito. Doutourou-se em 1598, em 5 de maio, na Universidade de Orleans, ao acompanhar a uma missão diplomática à França Johan van Oldenbarnevelt (advogado, então Primeiro Ministro dos Países Baixos Unidos. Henrique IV , rei da França, comentou que Grotius, que tinha 15 anos, era o verdadeiro “milagre da Holanda.”

Em 13 de dezembro de 1599 passou a trabalhar como jurista em Haia. Tornou-se historiador em latim dos assuntos de seu país e praticou direito com os mercadores e comerciantes da Companhia das Índias Ocidentais e com van Oldenbarnevelt. Em 1604 se tornou conselheiro legal do Príncipe Maurício de Nassau.

Publicou anonimamente em 1606 Mare Liberum, em que defendia a internacionalidade das águas oceânicas, surgido numa época de conflitos em relação ao comércio marítimo, entre a Inglaterra (que se opunha às idéias de Grotius, e defendia a soberania sobre as águas ao redor das ilhas britânicas) e a Holanda.

Nos últimos meses de 1604 e no início de 1605 escreveu De Jure Praedae (Sobre a lei do Apresamento). Em 1607 foi nomeado Procurador Geral e Primeiro Fiscal Público dos tribunais da Holanda, Zelândia e Frísia do Oeste. Em 1608 casou com Maria van Reigersberch (de quem nasceram quatro filhos e três filhas).

Em 1613 foi promovido a Governador da cidade de Rotterdam, o que lhe dava assento nos Estados da Holanda e nos Estados Gerais dos Países Baixos Unidos. Em 1617 tornou-se membro do Comitê de Conselheiros do Partido Arminiano. Em agosto surgiu um conflito entre os Estados Gerais (arminianos) e a Holanda (logo Calvinista).

Em 1618, após um inesperado golpe de Estado calvinista, foi preso com van Oldenbarnevelt e Rombout Hoogerbeets (pensionário de Leyden) em nome dos novos Estados Gerais. Havia apoiado o parlamento holandês e van Oldenbarnevelt em sua disputa com Maurício de Nassau, e com a ascensão deste último, acabou preso. Em 1619 um tribunal especial de 24 juízes julga os prisioneiros políticos, sentenciando à morte Van Oldenbarnevelt (executado em 13 de maio de 1619) e Grotius e Hoogerbeets à prisão perpétua no castelo de Loevestein. Em 1620 um julgamento complementar declarou que Grotius é culpado de traição (laesa majestas). Vendo-se perdido, com ajuda da mulher realizou uma fuga espetacular (escondendo-se numa arca de livros) e escapou para Amsterdam e de lá para Paris. (O Rijksmuseum de Amsterdam e o museu Het Prinsenhof de Delft alegam possuir a arca em seu acervo.)

Em Paris, em 1625, foi publicado seu De Jure Belli Ac Pacis, que o consagra como o “Pai do Direito Internacional.” Depois de 1631, voltou à Holanda, em desafio à sua condição de prisioneiro fugido, e praticou mesmo advocacia em Amsterdam. Ofereceram-lhe ser Governador Geral da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais na Ásia.

Sua vida permaneceu aventurosa pois em 1632 foi prometida a quantia de 2000 guildes como prêmio por sua cabeça, obrigando-o a fugir em abril para Hamburgo, na Alemanha, onde passará três anos. Em 1634 foi nomeado pelo conde Axel Oxenstierna Embaixador da Suécia em Paris. Começou a trabalhar em Paris em 1635, ajudando a negociar um tratado para dar fim à Guerra dos Trinta Anos. Ficou ali até ser chamado de volta em 30 de dezembro de 1644 por carta da Rainha Cristina. Deixou Paris com a família, partindo para Estocolmo, mas em agosto seu navio naufragou no Báltico e teve que aportar em Lubeck em outro barco, oito dias depois, dadas as severas tempestades. Morreu de exaustão em Lubeck, na Alemanha. Sua palavras finais teriam sido: “Mesmo tendo compreendido muitas coisas, nada realizei.”

Um dos teóricos do direito natural do século XVI tardio e início do século XVII, Hugo Grotius definiu o direito natural como um julgamento perceptivo no qual as coisas são boas ou más por sua própria natureza. Com isso rompia com os ideais calvinistas pois Deus não mais seria a única fonte ou origem de qualidades éticas. Tais coisas que por sua própria natureza eram boas estavam associadas com a natureza do homem. Ora, a República Holandesa tinha sido fundada com base em princípios de tolerância religiosa mas se tinha tornado uma teocracia calvinista. Como humanista e patriota holandês, Grotius teve problemas com o calvinismo. Tais disputas diziam respeito a leis internacionais da guerra e a questões de paz e justiça. Famoso por suas teorias sobre o direito natural, foi sobretudo considerado grande teólogo. Embora escrevesse ocasionalmente sobre o cristianismo e a religião, sua intenção era escrever sobre direito independentemente de suas opiniões religiosas.

Os trabalhos em que descreve sua concepção do direito natural são De Jure Praedae (Comentário sobre a lei do apresamento e botim) e De Jure Belli ac Pacis (Sobre a Lei de Guerra e Paz). Este último, publicado em 1625, é uma versão aumentada do primeiro, mas só foi publicado em 1868, quando professores da Universidade de Leyden descobriram o manuscrito. Entretanto, seu Capítulo 12 foi publicado separadamente em 1609 como De Mare Liberum (Sobre a Liberdade dos Mares). De Mare Liberum discute os direitos de Inglaterra, Espanha e Portugal a governar os mares. Se tais países pudessem legitimamente governar e dominar os mares, os holandeses estariam impedidos de navegar às Índias Ocidentais. O argumento de Grotius é que a liberdade dos mares era um aspecto primordial na comunicação entre os povos e nações. Nenhum país pode monopolizar o controle do oceano dada sua imensidade e falta de limites estabelecidos.

Pouco depois, Grotius se envolveu com disputas com os calvinistas, pois sua posição era contrária à predestinação e o Calvinismo e defendia a causa do livre arbítrio. Não deixou de argumentar mesmo em público que o Calvinismo poderia acarretar perigos políticos e religiosos para o Protestantismo em geral. Tentou imaginar uma fórmula para a paz que não chocasse contra o Calvinismo, mas falhou e acabou até preso.

Segundo ele, todo direito devia ser dividido entre o que é divino e o que é humano. Distingue entre as leis primárias e as leis secundárias da natureza. As primeiras, são leis que expressam completamente a vontade divina. As segundas, são leis e regras dentro do âmbito da razão. Grotius discute a guerra como modo de proteger os direitos e punir os erros. É um dos modos do procedimento judicial. Embora a guerra possa ser considerada um mal necessário, é necessário que seja regulada.

 A guerra justa, aos olhos de Grotius, é uma guerra para obter um direito. Discute três meios de se resolver uma disputa pacificamente: o primeiro é a conferência e a negociação entre dois rivais ou contestantes. O segundo método é chamado compromisso ou um acordo em que cada um dos lados abandona certas exigências e faz concessões. O terceiro é por combate ou por tirar a sorte. Para Grotius, seria melhor por vezes renunciar a alguns direitos do que tentar exigi-los pela força. No que se refere a barganha e mediação, sustenta que em cada um dos métodos acima é da maior importância escolher um juiz com caráter e decência. Discute os métodos de conseguir paz e no final obter alguma forma de justiça, e diz: “Porque a justiça traz paz de consciência enquanto a injustiça causa tormento e angústia… A justiça é aprovada, e a injustiça condenada, pela concordância comum dos homens bons.” (Prolegomena)

Para Grotius as leis morais deviam se aplicar tanto ao indivíduo quanto ao Estado. Embora fosse conservador em suas opiniões, suas idéias sobre guerra, conquista e a lei da natureza continuaram a ser bem consideradas e expandidas por filósofos mais liberais como John Locke em seus Two Treatises on Civil Government (1689). Locke concorda com Grotius ao usar o artifício analítico de um estado da natureza existente antes do governo civil e ao declarar que o poder e a força não criam direito e ainda que guerras justas têm por finalidade preservar direitos.

Grotius ajudou a formar o conceito de sociedade internacional, uma comunidade ligada pela noção de que Estados e seus governantes tem leis que se aplicam a eles. Todos os homens e as nações estão sujeitos ao direito internacional e a comunidade internacional se mantém coesa por acordos escritos e costumes. 

Fonte: Wikipédia - Fonte: Arminianismo.com

 

 

                                 João Guilherme de La Flechère  

 

No estudo que fizemos de João Wesley dissemos que não havia sido primeiramente teólogo e sim evangelista, e que sua principal fonte de pregação era o Novo Testamento. Quando recrudesceu a controvérsia sobre o principal ponto teológico que os dividia em calvinistas e arminianos, como duas correntes metodistas paralelas, João Wesley teve de lançar mão de João Guilherme de La Flechère, ou João Fletcher como era conhecido, que aparecera no cenário metodista quando o movimento já havia tomado grande impulso na Inglaterra.

A razão pela qual o movimento metodista nunca se distinguiu como sistema teológico é que seu principal interesse havia sido o de despertar a consciência evangélica daqueles que nominalmente se diziam cristãos e de levar a mensagem do Evangelho aos que não tinham conhecimento. Para cumprir com tal propósito, o mais importante era a exposição que se pudesse fazer das Escrituras. Para João Wesley um sistema particular de doutrina era coisa secundária, segundo o que ele mesmo escrevera sobre a natureza do crente metodista:

“São estes os princípios e práticas de nossa seita, os traços do verdadeiro metodista… Se alguém diz: ‘Mas esses são apenas os princípios fundamentais comuns da fé cristã!!!’ É precisamente isso o que quero dizer… Rogo a Deus que tu e todos os homens saibam que eu e todos os que pensam como eu, recusamos veementemente ser diferençados dos demais homens por algo que não sejam os princípios comuns do cristianismo… Por estes sinais, por estes frutos de uma fé viva, tratamos de distinguir-nos do mundo crente… Mas dos verdadeiros cristãos, de qualquer denominação, desejamos ansiosamente não distinguir-nos em absoluto… É teu coração sincero como o meu o é para ti? Não te pergunto outra coisa. Se assim é, dá-me a mão… Amas e serves a Deus? Isto basta. Aperto tua destra em sinal de comunhão.”[1] 

 

Em sua “Pequena História do Povo Chamado Metodista,” Wesley diz o seguinte sobre seu achado de La Flechère:

“Dia 13 de 1757. Achando-me em estado de fraqueza, em Snowfields, orei a Deus para que, se lhe parecesse bem, me enviasse ajuda para minhas capelas. Assim o fiz. E tão logo terminei de pregar, veio o Sr. Fletcher, que havia sido recentemente ordenado presbítero (da Igreja Anglicana) e se apressou em chegar à capela com a intenção de ajudar-me, supondo que eu estivesse só. Quão maravilhosos são os caminhos do Senhor! Quando minha força física declinava e nenhum clérigo na Inglaterra estava em condições ou pronto para ajudar-me, enviou-me ajuda das montanhas da Suíça e verdadeiro companheiro em todo sentido! Onde poderia eu ter encontrado outro igual?”

O fundador do metodismo tinha esperança de que esse homem, que Deus lhe havia deparado de maneira tão providencial, viria a ser seu sucessor na direção do movimento. Por aquela época Wesley se encontrava um tanto quanto desalentado quanto a seu estado físico e julgou que não viveria muito tempo mais. Estava buscando alguém que pudesse ocupar seu posto se ele chegasse a faltar. Não obstante ele sobreviveria a João de La Flechère, que era de constituição física muito mais precária que Wesley.

Embora a João de La Flechère não o sucedesse na direção, foi-lhe muito útil na luta que precisou sustentar para defender o ponto de vista arminiano perante seus opositores calvinistas. Dessa maneira, o metodismo produziu um grande teólogo sem que este realmente escrevesse um tratado de teologia como a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino ou “As Instituições Cristãs” de Calvino. Limitou-se a defender uma doutrina que lhe pareceu mais afinada com o ensino que o cristianismo primitivo ministrava segundo o testemunho do Novo Testamento.

João Guilherme de La Flechère não nasceu na Inglaterra. Viu a luz em Nyon, pequeno povoado não muito longe de Genebra, Suíça, quase às margens do lago Leman, no dia 12 de setembro de 1729. Descendia de uma família da Sabóia francesa. Estudou na Universidade de Genebra e se distinguiu como aluno estudioso. Havia pensado fazer-se pastor da Igreja Reformada da Suíça, mas por questões de consciência recusou finalmente entrar. O que obstou a que ele desse tal passo foi o credo calvinista. Repugnava a sua consciência crer que Deus, para sua glória, houvesse desde a fundação do mundo decretado a perdição de muitos seres humanos. Renunciou a sua vocação ministerial por esse motivo e foi a outro extremo, abraçando a carreira militar. Não durou muito essa determinação, e logo viu que ali nunca prosperaria, visto como tinha ânimo demasiado gentil para acomodar-se às idéias brutais da guerra. Foi quando resolveu emigrar para a Inglaterra.

Como meio de vida nesse novo ambiente, João de La Flechère aceitou lugar de tutor junto a uma rica família que vivia no campo e que costumava passar os invernos em Londres. Suas ocupações docentes não fizeram diminuir-lhe o interesse pelas coisas do espírito. Uma inquietude profunda por conhecer mais intimamente as coisas de Deus não o deixava completamente em paz. Ouvindo falar dos metodistas, inquiriu a respeito deles. Disseram-lhe: “São gente que ora dia e noite.” A isto replicou: “Então eu os encontrarei, se eles estão a meu alcance.” Durante uma de suas permanências em Londres pôde entrar em contacto com os metodistas e renasceu-lhe o zelo religioso, desejando servir ao Senhor assim como o anelara em seus anos mais juvenis. João Wesley aconselhou-o a buscar ordens eclesiásticas no seio da Igreja Anglicana, que ele fez e obteve.

Depois de ser ordenado ministro, o rico senhor em cuja casa servira de tutor ofereceu-lhe a capelania de sua capela particular, em Dunham, onde lhe disseram que havia “pouco trabalho e bom salário.” Pouco antes de ser-lhe feito esse oferecimento havia visitado o povo de Madeley, lugar não muito grande, mas onde prosperavam algumas indústrias e minas. Notou no povo muita miséria e perdição. A Igreja Anglicana do local vivia deserta e a gente não manifestava nenhum interesse pelas coisas do espírito. Observou, também, a abundância do comércio de bebidas. Quando seu antigo amo lhe ofereceu aquela capelania, teve uma idéia: aceitá-la para permutá-la com o pároco de Madeley. Mui gostosamente este aceitou a troca e pouco depois La Flechère estava em seu novo posto de trabalho. Foi mirrada a colheita que obteve ali no princípio de seu ministério. A gente se levantava tarde nos dias de culto e por isso não assistia aos serviços religiosos. Davam, porém, como desculpa, que o lavar e aprontar as crianças lhes tomava muito tempo para que estivessem prontos na hora em que começavam os exercícios divinos. Então ele resolveu o problema lançando mão do expediente de ir cedo pelas ruas tocando campainha para que se levantassem a tempo. Além disso, se propôs visitar assiduamente, de casa em casa, indo o melhor que pôde ao encontro das muitas necessidades dessa gente, que por longo tempo havia vivido ao abandono.

Nessa época ele já falava bem a língua inglesa e a usava maravilhosamente. Não era homem de alta eloqüência, mas imprimia tal espírito de piedade e tal sentimento de candura no que dizia, que suas palavras chegavam fundo no coração dos ouvintes. Um de seus contemporâneos deu este testemunho: “Sua palavra viva remontava-se como vôo de águia.” A grande custo os ouvintes podiam reter as lágrimas, e suas mensagens eram recordadas por muito tempo, pois deixavam impressão indelével nas almas. Extremava-se no cuidado dos pobres, que encontravam nele não só a mão caritativa, mas também o coração compreensivo. Uma vez e outra chegou a vender os móveis de sua casa para fazer face a alguma necessidade premente dos paroquianos pobres. Atendia com carinho as crianças, às quais instruía no catecismo e as cercava com conselhos paternais. Consta que chegava a reunir até trezentas delas.

Sua saúde nunca foi muito boa. Estava sujeito a achaques e, ao que parece, sofria de tuberculose. Mas, apesar disso, entre enfermidade e enfermidade, levava adiante seu ministério com dedicação e carinho. Não passariam muitas semanas em sua paróquia antes que viesse o prêmio de seus esforços. A igreja se encheu de gente e muitos encontraram o caminho da salvação e o sabor de uma nova vida em Cristo. Não somente melhorou as condições de muitas famílias, mas também o povo sentiu a influência de sua piedade e consagração. Tornou-se conhecido em toda a Inglaterra como “o Vigário de Madeley.” Aqueles que o conheciam diziam que só o seu aspecto já infundia ânimo e que toda sua maneira de ser convidava a uma vida mais santa.

João Guilherme de La Flechère, apesar de pertencer como eclesiástico à Igreja da Inglaterra, nunca perdeu o fervor metodista, e como já o notamos, foi um dos companheiros mais achegados e fiéis de João Wesley. Pela citação de Wesley que transcrevemos antes, vemos que ele apareceu quase providencialmente numa época de premente necessidade. Wesley, em sua anotação, esqueceu-se de dizer que nesse mesmo dia La Flechère recebeu sua ordenação de presbítero. O historiador Stevens nos faz uma clara avaliação a respeito de sua contribuição ao movimento metodista: 

“De ali em diante, dentre o clero da Igreja Anglicana, foi o coadjutor mais ardente de Wesley, seu conselheiro e companheiro de viagem na itinerância evangelizadora, assistente em suas Conferências, campeão de seus pontos teológicos e, sobretudo, exemplo santo de vida e do poder do cristianismo, assim como o ensinava o metodismo. Era lido e conhecido, admirado e amado pelos metodistas em todo o mundo, tanto assim que Madeley, sua paróquia, lhes é tão familiar e tanto a estimam como a própria Epworth.

Wesley sentiu muito que ele resistisse em aceitar o convite para substituí-lo no caso de vir a faltar. E por dois motivos não aceitou: por sua má saúde e por sua modéstia.Apesar de exercer o ministério entre a gente humilde, pobre e viciada, nunca perdeu contacto com os mais ilustres de sua época, e gozava da mesma admiração e prestígio tanto entre ignorantes como entre sábios.

Quase até ao fim da vida se manteve solteiro. Em 1770 fez sua primeira visita de regresso à Suíça. Nessa viagem passou pela Itália e empenhou-se em visitar a via Ápia, e ali estando se descobriu e se ajoelhou em homenagem aos cristãos primitivos que por ela haviam passado e dado a vida em testemunho do Evangelho. Voltou à sua paróquia mais animado no espírito e mais forte no corpo, mas no verão de 1777 a saúde piora novamente, perdendo ele a esperança de curar-se. Ao fim desse verão voltou de novo à Suíça e ali permaneceu até 1781. Novamente os ares da terra natal lhe devolveram parte da saúde, já que nunca chegou a curar-se por completo. Nesse mesmo ano voltou à Inglaterra e no mês de novembro contraiu matrimônio com Maria Bosanquet, que havia sido excelente cooperadora de João Wesley e uma das poucas mulheres a quem concedera permissão para dirigir a palavra nas reuniões metodistas.

Maria nasceu de pais opulentos, em 1739, e desde tenra idade mostrou pronunciado pendor pela religião. Quando tinha apenas oito anos de idade já meditava acerca de sua salvação eterna, perguntando-se: “Que história é essa de se perdoar os pecados de alguém e que devemos ter fé em Jesus?” Sua família estava relacionada com círculos da alta sociedade, e assim teve ocasião de conhecer a vida prazerosa e os centros aristocráticos das cidades de Bath e de Londres, bem como os salões de baile e casa de ópera, todavia seu espírito religioso não desfaleceu. Em sua casa trabalhava uma jovem criada que foi alcançada pelo movimento metodista. Essa criada exerceu grande influência sobre Maria e sua irmã, e merece grande crédito pela resolução que Maria tomara de aderir ao metodismo.

Depois, em Londres, no inicio de sua juventude, entrou em contacto com alguns elementos femininos metodistas que influíram em sua maneira de viver. Os pais se alarmaram com a religiosidade da filha e quiseram levá-la a um lugar de veraneio, tratando de alijar de sua mente o que, na opinião deles, eram “idéias exóticas e extravagantes.” Todavia ela lhes suplicou que não a levassem, e ficou com alguns amigos em Londres, que alimentavam sentimentos mais afins com os seus. No seio dessa família, firmou-se mais e mais a determinação de dedicar-se a uma vida religiosa. Um dia seu pai impacientou-se com ela e lhe disse: “Tenho de exigir-te que prometas expressamente que nunca, em qualquer oportunidade, seja agora ou mais tarde, tentes fazer de tuas irmãs o que chamas um cristão.”

A isso respondeu (ela mesma o relata): “De acordo com o que considero ser a vontade do Senhor, não ouso consentir em tal coisa.” Então o pai lhe replicou: “Em tal caso me obrigas a que te ponha fora de minha casa.” A isso ela respondeu: “Está bem, senhor, e de acordo com sua maneira de ver as coisas, entendo sua atitude. De minha parte me guardarei de provocar ambiente desagradável.” E quando alcançou a maioridade, estando de posse de uma pequena fortuna, por direito de herança, abandonou o lar. Com o consentimento dos pais estabeleceu-se em companhia de sua criada, num local um tanto afastado de sua morada anterior. Dedicou-se ali à vida religiosa que tanto almejava e, exceto o que reservava para seu modesto sustento, distribuía todas as rendas entre algumas viúvas pobres.

Dessa época em diante passou a vida em simplicidade, aprofundando-se na piedade e extremando-se em atividade benevolente. Pôs-se à disposição das “Sociedades Metodistas” de Londres e foi alto expoente da maneira de viver, pensar e crer dos Wesley. Muitas haviam sido, já, as atividades que exercera, quando se casou com João de La Flechère. Os historiadores dizem que nunca antes duas almas tão gêmeas viveram sob um mesmo teto. O poeta Roberto Southey dá o seguinte parecer: “É mulher profundamente apropriada para ele em idade, temperamento e talentos.”[4]Foi constante companheira do esposo em todos os misteres pastorais, secundando-o em todos os giros evangelizantes e sustentando-o em sua débil saúde. Escrevendo a Carlos Wesley sobre seu casamento, depois de pouco mais de um ano de casados, diz João de La Flechère:

“Eu tinha medo, a princípio, de dizer muito sobre este particular, porque os recém-casados não se conhecem devidamente um ao outro, mas havendo vivido em meu novo estado por esses quatorze meses, posso dizer-lhe que a Providência me reservou um prêmio, e que minha esposa é muito melhor para mim que a Igreja para Cristo, de tal maneira que se o paralelismo falha, será por minha causa.”

Com a publicação das Atas da Conferência Anual reunida em Londres, em 1770, surge uma nova controvérsia com os elementos calvinistas. Estes haviam interpretado algumas asserções ali contidas como se advogassem “a salvação por meio das obras,” e não pela fé somente, bradando aos céus e dizendo que se haviam apartado por completo da sã doutrina. Na realidade, o que a Conferência quis salientar era a necessidade de a fé ser confirmada por uma vida pura, dedicada ao bem. Deste incidente, que a princípio parecia ser coisa sem importância, desencadeou-se uma controvérsia que durou longo tempo, e João Guilherme de La Flechère se converteu no defensor da tese doutrinária do metodismo arminiano. Fê-lo com altura e profundidade em cartas e folhetos que depois foram reunidos em volumes chamados “Checks to Antinomianism,” nos quais se esforçou por expor o que considerava ser a essência do Evangelho, sem ferir suscetibilidades. A respeito dessas publicações, João Wesley faz o seguinte comentário:

“Não se sabe o que admirar mais: se a pureza de linguagem, ou a força e clareza do argumento, ou a gentileza e doçura de espírito que se desprende de tudo isto.”

Como resultado desta controvérsia, a Condessa Huntingdong despediu o metodista arminiano José Benson da direção do colégio Trevecca, em virtude de sua negativa em aceitar a doutrina da predestinação absoluta. Ante essa atitude da Condessa, que havia sido também responsável por chamar a atenção ao conteúdo das Atas de 1770, La Flechère, eleito na época presidente da Instituição, enviou-lhe a renúncia de seu cargo, dizendo-lhe entre outras coisas que:  

“O Sr. Benson fez uma defesa muito justa quando disse que comigo sustentava a possibilidade de salvação para todos os homens e que a misericórdia é oferecida a todos, embora possa ser recebida ou rejeitada. Se isto é o que sua senhoria identifica como opinião do Sr. Wesley, livre arbítrio ou arminianismo, e se qualquer arminiano tem de deixar o colégio, de fato estou igualmente despedido. Diante de meu atual ponto de vista nesta questão, vejo-me obrigado a manter este sentimento, se em verdade a Bíblia é verdadeira e Deus é Amor.”

Antes de sua renúncia, ele se manteve no cargo de diretor do colégio Trevecca por dois anos, e depois da renúncia, de quando em quando visitava a escola para ali ficar alguns dias e estar em contacto com os alunos. Dessas visitas temos este testemunho de Benson:

“O leitor me perdoará se pensa que estou exagerando, mas meu coração se ilumina enquanto escrevo. Isto é o que eu via: que direi? Um anjo em carne humana? Não me excederia muito da verdade se assim o dissesse. Em verdade eu via diante de mim um descendente do caído Adão tão completamente restaurado das conseqüências da queda, que embora o corpo estivesse atado à terra, sem dúvida sua conservação era dos céus e sua vida estava dia após dia escondida com Cristo em Deus. Oração, louvor, amor e consagração, tudo isso ardente e elevado muito acima do que comumente julgamos ser possível alcançar neste nosso estado de fraqueza, eram os elementos pelos quais vivia constantemente. As línguas, as artes, a ciência, a gramática, a lógica e mesmo as próprias matérias teológicas eram postas de lado quando ele aparecia em aula entre os estudantes. Estes raramente o ouviam por muito tempo sem que brotassem lágrimas de seus olhos e sem que cada coração se incendiasse com a chama que ardia em sua alma”.

Talvez seja conveniente dizer que depois de seis anos de controvérsia, os dois grupos se reconciliaram, reconhecendo que, apesar de seus diferentes pontos de vistas teológicos, estavam trabalhando para a mesma causa e que decerto se haviam excedido em zelo e expressões. Em conexão com este fato é reconfortante recordar ainda que Fletcher possuía um estranho espírito ecumênico, para quem o mais importante não era pertencer a esta ou àquela denominação, e sim ter o espírito de Cristo na vida e na alma. Uma declaração sua, a respeito da atitude que tinha para com os colegas de outras denominações, revela-nos esse espírito:

“Não permita Deus que eu exclua de meu afeto fraternal e de minha assistência ocasional, a qualquer dos verdadeiros ministros de Cristo, porque ele lance as redes do Evangelho com os presbiterianos, ou os independentes, ou os quaqueres ou os batistas! Se eles não me desejam boa sorte no Senhor, eu a desejarei a eles. Podem eles excomungar-se se seus preconceitos os compelem a isso, podem levantar, se quiserem, muros de separação entre mim e eles, mas pelo poder de meu Senhor, cujo amor é tão ilimitado como sua imensidade, saltarei por cima de seus muros.”

A morte o surpreendeu no dia 14 de agosto de 1785, apenas quatro anos após seu enlace matrimonial. Sua saída deste mundo foi tão gloriosa e luminosa como sua própria vida. A esposa o acompanhou carinhosamente em seu leito de morte, vigiando-o minuto após minuto e bebendo de seus lábios as últimas palavras, até que já não pôde falar mais. Durante os últimos dias, em meio à dor, ouviam-se, de quando em quando, estas exclamações: “Deus é amor! Proclamai-o, proclamai-o com força! Oh! que uma onda de louvor se estenda até aos confins da terra!” Seu espírito arminiano, segundo o qual o amor de Deus está sempre permanente e ativo, acompanhou-o até aos últimos momentos de vida. No último dia, quando estava agonizando, os pobres que ele havia socorrido vieram de toda parte desejando vê-lo pela última vez, e deixaram que passassem diante da porta do quarto onde jazia para que dessem uma última olhadela em seu rosto.

Não podendo falar mais, a esposa se inclinou sobre ele e lhe disse: “Conheço tua alma, mas por amor aos demais, se Jesus está mui perto de ti, levanta tua mão direita.” Imediatamente a levantou. Outra vez ela lhe disse: “Se as perspectivas de glória se abrem amplamente sobre ti, repete o sinal.” Instantaneamente a levantou outra vez e passado meio minuto, uma vez mais. Ato contínuo levantou-a tão alto como se quisesse alcançar a cabeceira da cama. Depois disso as mãos não se moveram mais, e como se estivesse dormindo, morreu. João Wesley deixou este comentário a respeito de sua vida:

“Muitos homens exemplares, santos na vida e no coração, tenho conhecido durante oitenta anos de vida, mas igual a ele não conheci nenhum tão consagrado a Deus, tanto interior como exteriormente, caráter tão sem jaça em todo sentido. Não tenho encontrado nem na Europa, nem na América, nem espero encontrar outro igual neste lado da eternidade.”

 

[1] Citado por Schofield, C.E., “La Iglesia Metodista,” pág. 131.[2] Stevens, A., Op. Cit., Vol. I, pág. 365.[3] Stevens, A., Op. Cit., Vol I, pág. 367.[4] Soutley, R., citado por Stevens, A., Op. Cit. Vol II.[5] Wesley, C., citado por Stevens, A., Vol II, págs 270-271.[6] Wesley, citado em “A New History of Methodism”, Vol I, págs 319-320.[7] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol II, pág. 37.[8] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol I, pág. 425.[9] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol II, pág. 272.[10] Citado por Stevens, A., Vol. II, pág. 274.  

 

                                       Arminianismo Wesleyano              

  

Em 28 de junho de 1703 nascia em Lincolnshire, na Inglaterra, John Wesley, cuja mãe chamava-se Susanna, era o 12º dos dezenove filhos do reverendo Samuel Wesley, um pároco de Epworth.

Quando completava seis anos, quase perdeu a vida num incêndio à noite, provocado por um grupo de malfeitores. O fogo se alastrava no teto de palha da paróquia onde eles moravam, começando a estilhaçar brasas sobre as camas. Subitamente, Hetty Wesley, um dos irmãos menores, acordou assustado e correu até o quarto de sua mãe. E logo todo mundo estava em pé, tentando conter o domínio das chamas, enquanto a pequena criada, agarrando o bebê Charles nos braços, chamava as crianças para um lugar mais seguro. A essa altura, Twice Susanna Wesley forçava a porta contra as costas, numa tentativa desenfreada de proteger-se.

A família finalmente conseguiu sair de casa e, apavorada, reuniu-se no jardim, pois descobrira que o pequeno Jackie havia ficado lá dentro dormindo. Voltaram correndo, mas era tarde: a escada estava em cinzas e tornava impossível resgatá-lo. O rapaz chegou até aparecer na janela, porém não podiam segurá-lo, visto que a casa ficava no segundo piso. Todavia, um pequeno homem pulou sobre os largos ombros do pai de Wesley e, num esforço desmedido, conseguiu salvar a criança. 

 

Um Estudante de Cristo 

Conseqüentemente, uma profunda ternura passou a residir no coração de Jackie que, mesmo depois de homem, considerava que havia escapado aquela noite porque Deus tinha um propósito muito especial em sua vida. Várias vezes ele chegou a comemorar este dia em seu diário secreto que escreveu: “Arrancado das Chamas.”

Seis anos depois, em Charter House School, Jackie matriculou-se na Universidade em Oxford, tornando-se um estudante da igreja de Cristo. Quatro anos mais tarde graduou-se em bacharel de artes e em 1726 foi eleito acadêmico do Colégio Lincoln.

Enquanto John Wesley era ordenado ao ministério e ajudava o pai em casa, Charles, o irmão mais novo, organizava em Oxford um pequeno grupo de estudantes para orações regulares, estudos bíblicos e outros serviços cristãos. O Clube Santo, como era chamado, incluía vários integrantes, que, mais tarde, tornaram-se pioneiros de um avivamento, ocorrido no século XVIII, destacando-se, entre outros, George Whitfield.

Obedecendo ao Senhor, John Wesley viajou para colônia em Georgia, como capelão, em 1736. Charles nesta época era secretário do governador e o piedoso trabalho em Georgia, embora com muitas lutas, teve sucesso mais tarde. O reverendo George Whitfield, depois de visitar a sede do movimento, escreveu: “O eficiente trabalho de John Wesley na América é impressionante. Seu nome é muito precioso entre o povo, pois tem edificado as fundações que, espero, nem homens nem demônios a abalem.”

 

Aprendendo a Confiar

 

Em contato com German Moravian Christians na América, Wesley questionava sobre as verdades cristãs. Sabia muito bem que o êxito de seus trabalhos estava nas mãos de Deus e, por isso, começou a buscá-lo em oração. Não demorou muito tempo e, em 24 de maio de 1738, acabou encontrando a resposta quando, de volta para a Inglaterra, resolveu registrar tudo quanto acontecera naquele dia: “À tarde, visitando a sociedade em Aldersgate Street, li o ‘Prefácio da epístola aos Romanos’ na versão de Lutero, cujas palavras tocaram-me profundamente. Senti meu coração bater fortemente. E, desde aquele momento, aprendi a confiar em Cristo como meu Salvador. Estou seguro de que os meus pecados estão perdoados. Me salvei da lei do pecado e da morte.” Esta experiência mudou o rumo da vida de Wesley que, a partir daquele momento, passou a ser uma nova criatura, sendo consagrado o maior apóstolo da Inglaterra.

John Wesley começou o trabalho de pregação ao ar livre quando viajava para Bristol a fim de ajudar George Whitfield, que na época era conhecido como o mais eloquente pregador da Inglaterra. Wesley, a princípio, rejeitou a idéia, mas uma vez convencido da vontade de Deus, acabou se tornando mais famoso que Whitfield. Viajava 11 quilômetros por ano. Experimentou os mais cruéis sofrimentos e oposições em toda sua vida. Estava frequentemente em perigo.

Embora fosse sábio e proeminente, o itinerante evangelista era um homem simples e executou muitas obras sociais. As suas poderosas mensagens muito influenciaram a igreja que, no ano de 1739, adquiriu uma sede para o movimento protestante, que crescia vertigiosamente. Comprou uma casa de fundição em ruínas, na cidade de Moofield, e transformou-a num templo. O prédio passou por uma rigorosa reforma que custou, na época, 800 libras (quantia superior ao da compra que foi de 115 libras), mas valeu a pena. Depois de pronta, a capela passou a comportar cerca de mil e quinhentas pessoas.

Era o primeiro edifício metodista em Londres, onde a verdadeira doutrina de Cristo era proclamada. Pessoas sedentas por ouvir a gloriosa mensagem do evangelho cruzavam todos os domingos a escuridão das estradas de Moorfield com lanternas, para ouvir os ensinamentos de Wesley. O prédio dispunha de sala de reuniões, com capacidade para 300 pessoas, sala de aula e biblioteca.

Mais tarde, John Wesley instalou a sua própria casa na parte superior da capela, onde passou a morar com a sua família. Em 1746, abriu um centro de atendimento médico e escola gratuitos, com capacidade para 60 estudantes, contratou farmacêutico, cirurgião e dois professores e, em 1748, alugou uma casa conjugada para refugiar viúvas e crianças.

Muitos foram os patrimônios conseguidos pela igreja durante os 40 anos do movimento metodista em Moorfield, organizada por John Wesley. Entretanto, devido a expiração do contrato imobiliário, a sede teve de mudar-se para um outro lugar.

Próximo dali, em City House, encontrava-se um vasto campo onde jaziam os túmulos de Bunhill Field e o de sua esposa Susana Wesley. Um lugar de pântanos, recentemente aterrado, onde foi construída a catedral de Saint Paul. Havia também no local algumas pedras de moinho, utilizadas para moer milho trazido do Thames, que era transformado em trigo.John Wesley alugou quatro mil metros quadrados destas terras em 1777 para construir a nova capela. E, finalmente, em 21 de abril do mesmo ano, sob forte chuva, lançou a pedra fundamental, com a seguinte gravação: “Provavelmente, esta pedra não será vista por algum olho humano, mas permanecerá até que a terra e o trabalho sejam consumados.” Naquele dia, Wesley improvisou um púlpito sobre a pedra e pregou em Nm 23.23.

 

A Recompensa

 

Em 1º de novembro de 1778, dezoito meses depois, no Dia de Todos os Santos, a capela estava próxima de ser aberta para a adoração pública. Apesar dos ventos das dificuldades (além de ter contraído muitas dívidas, os trabalhadores tiveram as ferramentas roubadas), Deus recompensou grandemente o esforço de Wesley, levantando voluntários dentre os membros. O rei George III, por exemplo, doou mastros de navios de guerra para o suporte das galerias.

Conta a história que um certo dia Wesley ficou de um lado do templo e Taylor, um dos cooperadores do outro, com os chapéus nas mãos, e conseguiram arrecadar 7 libras; o suficiente para a conclusão das obras. Toda a galeria foi coberta com gesso e os bancos de madeira de carvalho, doadas pelas igrejas da América, Canadá, Sul da África, Austrália, Oeste da Índia e Irlanda. As janelas vitrificadas, as impressões no teto foram trabalhados no estilo Adams (réplica antiga), e a casa de Wesley construída num pátio em frente à capela. Estas raridades, depois de reformadas em 1880, no centenário da morte de Wesley, memorizam as epopéias deste bravo soldado de Cristo.

Mesmo depois de velho, quase cego e paralítico, John Wesley continuava pregando em City Road e Latherhead. E, quando percebeu que sua vida estava chegando ao fim, sentou-se numa cama, bebeu um chá e cantou:“Quando alegre eu deitar este corpo e minha vida for coroada de bênção, quão triunfante será o meu fim! Eu glorificarei a meu Criador enquanto tenho fôlego; E, quando a minha voz se perder na morte, empregarei minhas forças; em meus dias o glorificarei enquanto tiver fôlego até o fim de minha existência.”

Wesley foi enterrado no Jardim-túmulo, em frente à capela em City Road, sob as luzes das lanternas, na manhã de 2 de março de 1791. Morreu com os olhos abertos e balbuciando a seguinte palavra: “Farwell” (adeus). Cerca de 10 mil pessoas acompanharam o funeral. E a lápide até hoje indica o significado histórico: “À memória do venerável John Wesley: o último companheiro do Lincoln College, Oxford…” 

Fonte: Revista Obreiro Aprovado (Fev/Mar 1996 -  Fonte: Arminianismo.com

                 Charles Wesley arminiano-(Irmão de Jhon Wesley) 

 

Charles Wesley, que compôs mais de seis mil hinos, não só acompanhou seu irmão John Wesley nas cruzadas, como também é considerado o maior compositor do reavivamento Wesleyano.

É certo que o talento não é hereditário, mas é fato que sempre existiram vários casos de irmãos que se tornaram famosos graças aos dons incomuns nas áreas mais variadas. Eles brilham na mesma época e até em profissões semelhantes. Na História da Igreja, uma dupla de irmãos, John e Charles Wesley, não fez por menos. Escolhidos por Deus para a missão de pregar Sua Palavra como evangelistas, eles fundaram o metodismo no século 18. Aquela semente deu frutos – atualmente (2002) os metodistas formam uma comunidade de, aproximadamente, 80 milhões de pessoas em todo o mundo, embora a maior parcela concentre-se nos Estados Unidos.  

John Wesley tornou-se o mais famoso dos pregadores por falar e escrever com rara eloqüência. No entanto, Charles Wesley (1707-1788), seu irmão mais novo, não apenas deu suporte àquele ministério, apoiando e criticando John quando necessário, como também fez das partituras seu principal púlpito. Charles Wesley é considerado o grande compositor do reavivamento wesleyano: compôs mais de seis mil hinos, que eram cantados em cruzadas evangelísticas. Muitos deles causaram estranheza por terem influência dos ritmos populares, comuns nas tavernas e casas de ópera da Inglaterra.

Não foi à toa que, certa vez, alguém escreveu que, se George Whitefield ficou conhecido como o orador do metodismo, e John Wesley seu organizador, podia-se afirmar que Charles Wesley foi seu poeta.Vida o obra – O poeta Charles nasceu em 18 de dezembro de 1707, na cidade de Epworth, no condado de Lincolnshire, na Inglaterra. Filho de Samuel, reitor da Faculdade de Epworth, e de Susanna Wesley, Charles foi marcado por Deus para uma obra muito específica desde cedo. Tinha apenas um ano e três meses de vida quando o prédio da reitoria da faculdade foi totalmente destruído pelo fogo. Charles, assim como John, foi resgatado do verdadeiro inferno em que se transformou o edifício tomado pelas chamas.

Na adolescência, enquanto John estudava na Escola de Charterhouse, Charles foi estudar na Escola de Westminster, mesmo colégio do irmão Samuel. Lá, provou ser um excelente aluno. Criado sob rígida educação familiar evangélica, Charles fora ensinado a defender a justiça e, por isso, logo se envolveu em diversas causas na escola.

Não houve, entretanto, alguém que pudesse duvidar do impacto da experiência de sua conversão, em 1738, aos 31 anos. Sua vida espiritual logo se voltou para a compaixão pelos homens perdidos. Assim, pregou de improviso pela primeira vez na Igreja de Saint Antholin, em Bristol.

No ano seguinte, tornou-se publicamente defensor do ministério do grande pregador George Whitefield, que, embora tivesse grande impacto, era alvo de críticas ferozes em Londres e em Bristol. Charles Wesley juntou-se a Whitefield quando este falou a uma enorme multidão na cidade de Blackheath sob o título: “O que Satanás tem ganhado ao manter você fora das igrejas?” Charles Wesley repetiria o feito ao lado de seu irmão John, à frente de multidões nas vilas da região inglesa de Essex.“Sua pregação era como um trovão e um relâmpago”, diziam os primeiros metodistas a respeito da retórica de Charles Wesley. Mas sua força não estava apenas na pregação: sua música tornou-se, de fato, sua melhor ‘retórica’. Em 1739, a primeira seleção de seus hinos foi publicada e tornou-se logo muito popular.

Seus hinos – Os hinos de Charles possuíam uma mensagem fundamentada na piedade cristã, própria para as reuniões devocionais e também para os grandes agrupamentos ao ar livre. Eles destacavam o fervor da fé e tornavam a mensagem inesquecível.Suas composições eram inspiradas nas melodias seculares de Purcell e de Haendel e, embora destinadas a congregações, eram editadas como solos. Eram melodias populares ou adaptadas da música das óperas que abundavam na época. A contextualização da música dos hinos de Wesley chocou muitos elementos conservadores da Igreja, mas foi bem aceita pelo povo.Seus hinos também eram fundamentados no lema da Reforma Protestante – Sola Scriptura (Só as Escrituras) – ou seja, enfatizavam que a Bíblia é a única regra de fé do cristão. Charles Wesley também escreveu hinos para combater a concepção calvinista da predestinação, como Redenção universal, e ainda chegou a pregar um sermão intitulado Graça gratuita.

Escreveu hinos para as grandes festas da igreja, como os conhecidíssimos Cantam anjos harmonias e Cristo já ressuscitou, aleluia. Preocupou-se também com um acervo de hinos para os sacramentos da igreja, como a Santa Ceia, e com a koinonia (a comunhão cristã), à época, principal base do crescimento da Igreja Metodista.  

Paralelamente à música, Charles Wesley investiu todo o seu tempo para salvar os homens distantes de Deus. Charles, assim como seu irmão John, não deu importância nem mesmo às pressões eclesiásticas e viajou muito, especialmente para a Irlanda, a Escócia e o País de Gales. Ao lado do irmão, Charles pregou contra o consumo de bebidas alcoólicas, a guerra e a escravidão, e incentivou a medicina humanitária, a abertura de novas escolas e uma reforma penitenciária. Mesmo com a “agenda” tão cheia, Charles arrumou tempo para casar-se, em abril de 1749, com Sarah Gwynne. O casal se estabeleceu em Bristol, mas sempre que podia Sarah acompanhava Charles em suas excursões de pregação da Palavra.

Seus contemporâneos ficavam espantados ao ver seu ministério itinerante, que também incluiu os Estados Unidos, onde, em 1760, fundou com John as primeiras missões metodistas. Naquele tempo, o metodismo era um fenômeno. Lição do vida – Em 1771, depois de centenas de idas e vindas, Charles e Sarah, então, mudaram-se para Londres. O ministério de Charles continuou, embora mais voltado para o âmbito local. Em Londres, eles também puderam ver muito mais de perto o crescimento dos dois filhos, Charles e Samuel, músicos excepcionais que se tornaram “alvos” de muitos convites para concertos.

Em 1786, já com 79 anos, Charles Wesley, que já percorrera 365 mil quilômetros em seu ministério e havia participado de 46 mil cultos, cruzadas e reuniões evangelísticas, assumia novas responsabilidades na igreja. Foi ele quem enviou, naquele ano, os primeiros missionários metodistas para a Índia. Quase dois anos depois, Charles Wesley faleceu. O dia 29 de março de 1788, data de sua morte, tornou-se, entretanto, apenas mais um fato dentro de uma história de vitórias e de milhares de hinos cantados até hoje. Ele também deixou para todos os cristãos uma lição de vida e amor ao Evangelho, além de uma marca pessoal indelével. Dizia-se dele: “Se houve um ser humano que repugnou o poder, a proeminência e encolhia-se ao elogio, esse foi Charles Wesley”. Um verdadeiro herói da fé.

Fonte: Revista Graça, Ano 03 nº 35   -  Fonte: Arminianismo.com

 


John Wesley foi historicamente o advogado mais influente dos ensinos da soterologia arminiana. Wesley concordou com a vasta maioria daquilo que o próprio Armínio defendeu, mantendo doutrinas fortes, tais como as do pecado original, depravação total, eleição condicional, graça preveniente, expiação ilimitada e possibilidade de apostasia.

Wesley, porém, afastou-se do Arminianismo Clássico em três questões:

* Expiação – A expiação para Wesley é um híbrido da teoria da substituição penal e da teoria governamental de Hugo Grócio, advogado e um dos Remonstrantes. Steven Harper expõe: "Wesley não colocou o elemento substitucionário dentro de uma armação legal …Preferencialmente [sua doutrina busca] trazer para dentro do próprio relacionamento a 'justiça' entre o amor de Deus pelas pessoas e a aversão de Deus ao pecado …isso não é a satisfação de uma demanda legal por justiça; assim, muito disso é um ato de reconciliação imediato."

* Possibilidade de apostasia – Wesley aceitou completamente a visão arminiana de que cristãos genuínos podem apostatar e perder sua salvação. Seu famoso sermão "A Call to Backsliders" demonstra claramente isso. Harper resume da seguinte forma: "o ato de cometer pecado não é ele mesmo fundamento para perda da salvação … a perda da salvação está muito mais relacionada a experiências que são profundas e prolongadas. Wesley via dois caminhos principais que resultam em uma definitiva queda da graça: pecado não confessado e a atitude de apostasia." Wesley discorda de Armínio, contudo, ao sustentar que tal apostasia não é final. Quando menciona aqueles que naufragaram em sua fé (1 Tim 1:19), Wesley argumenta que "não apenas um, ou cem, mas, estou convencido, muitos milhares … incontáveis são os exemplos … daqueles que tinham caído, mas que agora estão de pé"


* Perfeição cristã – Conforme o ensino de Wesley, cristãos podem alcançar um estado de perfeição prática. Isso significa uma falta de todo pecado voluntário, mediante a capacitação do Espírito Santo em sua vida. Perfeição cristã (ou santificação inteira), conforme Wesley, é "pureza de intenção; toda vida dedicada à Deus" e "a mente que estava em Cristo, nos capacita a andar como Cristo andou." Isso é "amar a Deus de todo o seu coração, e os outros como você mesmo". Isso é 'uma restauração não apenas para favor, mas também para a imagem de Deus," nosso ser "encheu-se com a plenitude de Deus".

Wesley esclareceu que a perfeição cristã não implica em perfeição física ou em uma infabilidade de julgamento. Para ele, significa que não devemos violar a longanimidade da vontade de Deus, por permanecer em transgressões involuntárias. A perfeição cristã coloca o sujeito sob a tentação, e por isso há a necessidade contínua de oração pelo perdão e santidade. Isso não é uma perfeição absoluta mas uma perfeição em amor. Além disso, Wesley nunca ensinou uma salvação pela perfeição, mas preferiu dizer que "santidade perfeita é aceitável a Deus somente através de Jesus Cristo."


A Essência Teológica do Arminianismo do Coração (Clássico)  Os Cinco Pontos do Arminianismo


No Sínodo de Dort, os remonstrantes apresentaram a doutrina arminiana clássica na forma dos cinco pontos seguintes:

Eleição Condicional


Deus, por um eterno e imutável decreto em Cristo, antes da criação do mundo, determinou eleger, dentre a raça humana caída e pecadora, aqueles que pela graça creem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência. Contrariamente, Deus resolveu rejeitar os não convertidos e descrentes, reservando-lhes o sofrimento eterno (João 3:36).

Expiação Universal


Em conseqüência do decreto divino, Cristo, o salvador do mundo, morreu por todos os homens, de modo a garantir, pela morte na cruz, reconciliação e perdão para o pecado de todos os homens. Entretanto, essa salvação só é desfrutada pelos fiéis (João 3:16; I João 2:2).

Fé Salvadora


O homem não pode obter a fé salvadora por si mesmo ou pela força do seu livre-arbítrio, mas necessita da graça de Deus por meio de Cristo para ter sua vontade e seu pensamento renovados (João 15:5).

Graça Resistível


A graça é a causa do começo, do progresso e da completude da salvação do homem. Ninguém poderia crer ou perseverar na fé sem esta graça cooperante. Conseqüentemente, todas as boas obras devem ser creditadas à graça de Deus em Cristo. Com relação à operação desta graça, contudo, não é irresistível (Atos 7:51)

Indefinição Quanto à Perseverança


Os verdadeiros crentes têm força suficiente, por meio da graça divina, para lutar contra Satanás, contra o pecado e contra sua própria carne, e para vencê-los. Mas, se eles, em razão da negligência, podem ou não apostatar da fé verdadeira e vir a perder a alegria de uma boa consciência, caindo da graça, é uma questão que precisa ser melhor examinada à luz das Sagradas Escrituras.

Interpretação dos Cinco Pontos


O terceiro ponto sepulta qualquer pretensão de associar o arminianismo ao pelagianismo ou ao semipelagianismo. De fato, a doutrina de Armínio é perfeitamente compatível com a Depravação Total calvinista. Ou seja, em seu estado original o homem é herdeiro da natureza pecaminosa de Adão e totalmente incapaz, até mesmo, de desejar se aproximar de Deus. Nenhum homem nasce com o "livre-arbítrio", ou seja, com a capacidade de não resistir a Deus.

O quarto ponto demonstra claramente que é a graça preveniente que restaura no homem a sua capacidade de não resistir à Deus. Portanto, para Armínio, a salvação é pela graça somente e por meio da fé somente. Nesse sentido, os arminianos do coração concordam com os calvinistas no sentido de que a capacitação, por meio da graça, precede a fé, e que até mesmo a fé salvadora seja um dom de Deus. A diferença está na compreensão da operação dessa graça. Para os calvinistas, a graça é concedida apenas aos eleitos, que a ela não podem resistir. Para os arminianos, a expiação por meio de Jesus Cristo é universal e comunica essa graça preveniente a todos os homens; mas ela pode ser resistida.

Assim como o pecado entrou no mundo pelo primeiro Adão, a graça foi concedida ao mundo por meio de Cristo, o segundo Adão (conforme Romanos 5:18, João 1:9 etc.). Nesse sentido, os arminianos entendem que I Timóteo 4:10 aponta para duas salvações em Cristo: uma universal e uma especial para os que creem. A primeira corresponde à graça preveniente, concedida a todos os homens, que lhes restaura o arbítrio, ou seja, a capacidade de não resistir a Deus. Ela é distribuída a todos os homens porque Deus é amor (I João 4:8, João 3:16) e deseja que todos os homens se salvem (I Timóteo 2:4, II Pedro 3:9 etc.), conforme defendido no segundo ponto do arminianismo. A segunda é alcançada apenas pelos que não resistem à graça salvadora e creem em Cristo. Estes são os predestinados, segundo a visão arminiana de predestinação.

Portanto, embora a expressão "livre-arbítrio" seja comumente associada ao arminianismo, ela deve ser entendida como "arbítrio liberto" ou "vontade liberta" pela graça preveniente, convencedora, iluminadora e capacitante que torna possíveis o arrependimento e a fé. Sem a atuação da graça, nenhum homem teria livre-arbítrio.
Ao contrário dos calvinistas, os arminianos creem que essa graça preveniente, concedida a todos os homens, não é uma força irresistível, que leva o homem necessariamente à salvação. Para Armínio, tal graça irresistível violaria o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem. Assim, todos os homens continuam a ter a capacidade de resistir à Deus, que já possuíam antes da operação da graça (conforme Atos 7:51, Lucas 7:30, Mateus 23:37 etc.). Portanto, a responsabilidade do homem em sua salvação consiste em não resistir ao Espírito Santo. Este é o coração do sinergismo arminiano, o qual difere radicalmente dos sinergismos pelagiano e semipelagiano.
No que tange à perseverança dos santos, os remonstrantes não se posicionaram, já que deixaram a questão em aberto.


                                Citação nas Obras de Armínio


Os textos a seguir transcritos, escritos pelo próprio Armínio, são úteis para demonstrar algumas de suas idéias.

…Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar, ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da Graça Divina.

Com referência à Graça Divina, creio, (1.) É uma afeição imerecida pela qual Deus é amavelmente afetado em direção a um pecador miserável, e de acordo com a qual ele, em primeiro lugar, doa seu Filho, "para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna," e, depois, ele o justifica em Cristo Jesus e por sua causa, e o admite no direito de filhos, para salvação. (2.) É uma infusão (tanto no entendimento humano quanto na vontade e afeições,) de todos aqueles dons do Espírito Santo que pertencem à regeneração e renovação do homem - tais como a fé, a esperança, a caridade, etc.; pois, sem estes dons graciosos, o homem não é capaz de pensar, desejar, ou fazer qualquer coisa que seja boa. (3.) É aquela perpétua assistência e contínua ajuda do Espírito Santo, de acordo com a qual Ele age sobre o homem que já foi renovado e o excita ao bem, infundindo-lhe pensamentos salutares, inspirando-lhe com bons desejos, para que ele possa dessa forma verdadeiramente desejar tudo que seja bom; e de acordo com a qual Deus pode então desejar trabalhar junto com o homem, para que o homem possa executar o que ele deseja.

Desta maneira, eu atribuo à graça O COMEÇO, A CONTINUIDADE E A CONSUMAÇÃO DE TODO BEM, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e excitante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que de maneira nenhuma eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, "a graça de Deus é uma certa força irresistível"? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um,) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. A respeito da qual, creio, de acordo com as escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.

Extraído de As Obras de James Arminius Vol. I



                                  Comparação com o Calvinismo


Posteriormente ao Sínodo, quando os arminianos apresentaram os cinco pontos do arminianismo, os calvinistas responderam com os cinco pontos do calvinismo, que são os seguintes:
Total depravação: não existe no homem após a queda de Adão força ou vontade do ser humano para buscar a salvação. Todos os homens herdam, de Adão, a natureza pecaminosa, decaída.
Eleição Incondicional: a salvação não está condicionada a vontade ou ações humanas, mas ao soberano decreto de Deus que decide salvar alguns, os eleitos, deixando que os demais sofram o castigo eterno.
Expiação Limitada: a salvação e o sacrifício de Cristo foram realizados apenas para o grupo dos eleitos.
Graça Irresistível: a graça, enquanto ação e vontade de Deus, não pode ser resistida pela vontade ou ações do homem. Assim, uma vez que o homem tenha sido eleito para a salvação, ele não poderá resistir ao chamamento divino.
Perseverança dos Santos: todos aqueles que tiveram sua salvação decretada perseverarão através da vontade e ação de Deus até o fim. Uma vez salvo, o eleito jamais perderá sua salvação.
A análise dos textos arminianos revela que o arminianismo do coração concorda integralmente com a depravação total calvinista. O homem em seu estado natural é totalmente incapaz de desejar ou de buscar Deus. Somente a graça preveniente o capacita a crer na mensagem salvadora. Portanto, a discordância ocorre somente com relação à eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.
No que tange à perseverança dos santos, os arminianos não são unânimes. Há quem acredite que a salvação pode ser definitiva e irremediavelmente perdida.
Com relação à predestinação, o arminianismo crê que é baseada na presciência divina daqueles que, capacitados pela graça preveniente, creem na mensagem de salvação em Jesus Cristo.

Fonte: Wikipédia                   

 

A posição de Jacob Armínio (1560-1609) e seus seguidores – frequentemente conhecidos como remonstrantes – quanto à graça, o livre-arbítrio, à predestinação e à perseverança dos crentes. Armínio era um teólogo calvinista holandês que, em todos aqueles pontos nos quais a tradição reformada diferia da católica ou da luterana, continuou sendo calvinista. É importante recordar isso, visto que frequentemente se diz que o arminianismo é o contrário do calvinisrno, quando na realidade tanto Arrnínio como seus seguidores eram calvinistas em todos os pontos, exceto nos que debatiam. Além disso, é necessário notar que o debate envolvia também o interesse de um dos grupos em sublinhar o calvinismo estrito a fim de salvaguardar a independência recentemente conquistada do país, enquanto que o outro buscava posições que tornassem mais fácil para o país comercializar com outros que não fossem estritamente calvinistas. Em parte, por essa razão, os calvinistas estritos fundamentavam seus argumentos sobre as Escrituras, e o princípio da justificação só pela graça, construindo sobre isso um sistema rigidamente lógico e racional, enquanto seus opositores desenvolveram argumentos igualmente coerentes fundamentados sobre os princípios geralmente aceitos da religião – razão pela qual em certo modo foram precursores do racionalismo.

Armínio envolveu-se em um debate quando resolveu refutar as opiniões daqueles que rejeitavam a doutrina calvinista estrita da predestinação. Mas então se convenceu de que eram eles que tinham razão, e se tornou o principal defensor dessa posição. Os calvinistas estritos que se opuseram a ele e que mais tarde condenaram seus ensinamentos eram supralapsarianos. Sustentavam que Deus havia decretado antes de tudo a eleição de alguns e a reprovação de outros, e depois havia decretado a queda e suas consequências, de tal modo que o decreto inicial da eleição e reprovação pudesse ser cumprido.

Também sustentavam que as consequências da queda são tais que toda a natureza humana está totalmente depravada, e que o decreto da predestinação é tal que Cristo morreu unicamente pelos eleitos, e não por toda a humanidade. Em princípio, Armínio tratou de responder a essas opiniões adotando uma posição infralapsariana; mas logo se convenceu de que isso não bastava. Criticou então seus adversários argumentando, em primeiro lugar, que sua discussão dos decretos da predestinação não era suficientemente cristocêntrica, visto que o verdadeiro grande decreto da predestinação é aquele “pelo qual Cristo foi destacado por Deus para ser o salvador, a cabeça e o fundamento daqueles que herdarão a salvação”; e, em segundo lugar, que a predestinação dos fiéis por parte de Deus baseia-se em sua presciência de sua fé futura.

Visto que a doutrina da predestinação de seus opositores se fundamenta na primazia da graça, e de uma graça irresistivel, Armínio respondeu propondo uma graça “preveniente” ou “preventiva”, que Deus dá a todos, e que os capacita para aceitar a graça salvadora se assim decidirem. E, visto que a graça não é irresistivel, isso implica que é possível um crente, mesmo depois de haver recebido a graça salvadora, cair dela. Foi contra todas essas propostas dos arminianos que o Sínodo de Dordrecht, ou de Dort (1618-19) afirmou os cinco pontos principais do calvinismo estrito, a depravação total da humanidade, a eleição incondicional, a expiação limitada por parte de Cristo, a graça irresistivel, e perseverança dos fiéis.

As teorias de Armínio foram adotadas por vários teólogos de tradição reformada que não estavam dispostos a levar seu calvinismo às consequências que Dordrecht as havia levado. O mais destacado entre eles foi João Wesley (1703-91). Entre os batistas ingleses, aqueles que aceitaram o arminianismo receberam o nome de “batistas gerais”, porque insistiam que Cristo morreu por todos, enquanto que aqueles que ensinavam a expiação limitada foram chamados “batistas particulares”.

                         “O QUE É UM ARMINIANO?” MAIS NOTAS

 

                               POR UM AMANTE DA GRAÇA LIVRE.

 

1. Dizer “este homem é um arminiano” tem o mesmo efeito sobre muitas pessoas que dizer “este é um cachorro louco.” Elas se assustam imediatamente: elas fogem dele a toda a velocidade e determinação; e dificilmente irão parar, a menos que seja para atirar uma pedra no temeroso e perverso animal.

2. Quanto mais incompreensível a palavra seja, melhor ela responde o propósito. Aqueles em quem ela está colocada não sabem o que fazer: não entendendo o que significa, eles não podem dizer que defesa tomar, ou como se livrar da acusação. E não é fácil remover o preconceito que os outros têm assimilado, que não sabem nada dela a não ser que é “uma coisa muito má,” se não “tudo que é mau!”

 

3. Deixar claro o significado, por essa razão, deste termo ambíguo, pode ser útil a muitos: àqueles que tão livremente alfinetam este nome nos outros, que eles não possam dizer o que não entendem; àqueles que o ouvem, que eles não possam ser mais abusados por homens dizendo o que não sabem; e àqueles sobre quem o nome está colocado, que eles possam saber como responder a eles.

4. Pode ser necessário observar, primeiro, que muitos confundem arminianos com arianos. Mas esta é uma coisa inteiramente diferente; um não se parece com o outro. Um ariano é aquele que nega a Divindade de Cristo; nós nem precisamos afirmar, o supremo, a eterna Divindade; pois não há nenhum Deus senão o supremo, Deus eterno, a menos que façamos dois Deuses, um Deus maior e um Deus menor. Agora, ninguém jamais mais firmemente acreditou, ou mais fortemente afirmou, a Divindade de Cristo, do que muitos dos (assim chamados) arminianos; sim, e até hoje afirmam. O Arminianismo, por isso, (o que quer que seja) é totalmente diferente do Arianismo. 

5. A origem da palavra é: JAMES HARMENS, em latim, Jacobus Arminius, primeiro foi um dos Ministros de Amsterdã, e depois Professor de Teologia em Leyden. Ele foi educado em Genebra; mas no ano de 1591 começou a duvidar dos princípios que ele tinha até então recebido. E estando cada vez mais convencido de que eles estavam errados, quando ele assumiu o cargo de professor, ele publicamente ensinava o que ele cria ser a verdade, até que, no ano de 1609, morreu em paz. Mas poucos anos depois de sua morte, alguns homens zelosos sob o comando do Príncipe de Orange, furiosamente agrediram todos que defendiam o que foram chamadas as opiniões de Arminius; e tendo conseguido condená-los solenemente, no famoso Sínodo de Dort, (não tão numeroso ou culto, mas tão imparcial quanto o Concílio ou Sínodo de Trento,) alguns foram postos à morte, alguns banidos, alguns presos por toda a vida, todos demitidos de seus empregos, e feitos incapazes de manter qualquer ofício, seja na Igreja ou no Estado. 

6. Os erros que eles foram acusados (usualmente chamados arminianos) por seus oponentes, são cinco: (1.) Que eles negam o pecado original; (2.) Que eles negam a justificação pela fé; (3.) Que eles negam a predestinação absoluta; (4.) Que eles negam que a graça de Deus seja irresistível; e, (5.) Que eles afirmam que um crente possa cair da graça. 

Em relação às duas primeiras destas acusações, eles alegaram que não eram culpados. Elas são inteiramente falsas. Nenhum homem que já viveu, nem o próprio João Calvino, jamais expressou o pecado original, ou a justificação pela fé, em termos expressos mais fortes e mais claros, do que Arminius. Estes dois pontos, por isso, estão fora de questão: estes, ambos os partidos concordam. Neste respeito, não há a mínima diferença entre o Sr. Wesley e o Sr. Whitefield. 

7. Mas há uma diferença inegável entre os calvinistas e os arminianos, em consideração às três outras questões. Aqui eles se dividem; o primeiro acredita que a predestinação seja absoluta, o último, condicional. Os calvinistas defendem, primeiro, que Deus absolutamente decretou, desde toda a eternidade, salvar tais e tais pessoas, e ninguém mais; e que Cristo morreu por estes, e ninguém mais. Os arminianos defendem que Deus decretou, desde toda a eternidade, no tocante a tudo que está escrito na Palavra, “aquele que crer será salvo: aquele que não crer será condenado:” e, por isso, “Cristo morreu por todos, todos que estavam mortos em ofensas e pecados;” isto é, por todo filho de Adão, visto que “em Adão todos morrem.”

 

8. Os calvinistas defendem, em segundo lugar, que a graça salvadora de Deus é absolutamente irresistível; que ninguém é capaz de resisti-la, mais do que resistir à ação inesperada do relâmpago. Os arminianos defendem que, embora possa haver alguns momentos em que a graça de Deus aja irresistivelmente, todavia, no geral, qualquer um pode resistir, e isso para sua eterna ruína, a graça segundo a qual foi a vontade de Deus que ele devesse ter sido eternamente salvo. 

9. Os calvinistas defendem, em terceiro lugar, que um verdadeiro crente em Cristo não pode possivelmente cair da graça. Os arminianos defendem que um verdadeiro crente pode “fazer naufrágio da fé e de uma boa consciência;” que ele pode cair, não apenas de modo vil, mas finalmente, de modo a perecer para sempre.

 

10. De fato, os dois últimos pontos, a graça irresistível e a perseverança infalível, são a conseqüência natural do primeiro, do decreto incondicional. Pois se Deus eterna e absolutamente decretou salvar tais e tais pessoas, segue, ambos, que eles não podem resistir sua graça salvadora, (de outra maneira eles podem perder a salvação,) e que eles não podem finalmente cair dessa graça que eles não podem resistir. De forma que, em efeito, as três questões se resumem em uma, “a predestinação é absoluta ou condicional?” Os arminianos acreditam que ela seja condicional; os calvinistas, que ela seja absoluta. 

11. Fora, então, com toda ambigüidade! Fora com todas as expressões que somente confundem a causa! Deixe homens honestos se expressarem, e não brinquem com palavras difíceis que eles não entendem. E como pode saber o que Arminius defendia aquele que nunca leu uma página sequer de seus escritos? Que ninguém grite contra os arminianos, até que ele saiba o que o termo significa; e então ele saberá que arminianos e calvinistas estão justamente em um nível. E os arminianos têm muito direito de estar indignados com os calvinistas, assim como os calvinistas têm de estar indignados com os arminianos. João Calvino era um homem piedoso, instruído, inteligente; e assim era James Harmens. Muitos calvinistas são homens piedosos, instruídos, inteligentes; e assim são muitos arminianos. A diferença é que o primeiro crê que a predestinação é absoluta; o último, que é condicional. 

12. Uma palavra mais: não é o dever de todo pregador arminiano, primeiro, nunca, pública ou privadamente, usar a palavra calvinista como um termo de reprovação; visto que não é melhor nem pior do que apelidar? – uma prática não mais consistente com o bom senso ou as boas maneiras, do que é com o Cristianismo. Em segundo lugar, fazer tudo que estiver ao seu alcance para evitar que seus ouvintes façam isso, mostrando a eles o pecado e estupidez disso? E não é igualmente o dever de todo pregador calvinista, primeiro, nunca em público ou em particular, na pregação ou na conversa, usar a palavra arminiano como um termo de reprovação? Segundo, fazer tudo que estiver ao seu alcance para evitar que seus ouvintes façam isso, mostrando a eles o pecado e estupidez disto; e isto o mais ardente e diligentemente, se eles tivessem sido acostumados a agir dessa forma? Talvez encorajados nisto pelo seu próprio exemplo! 

Tradução: Paulo Cesar Antunes -  Fonte: Arminianismo.com

 

                                    Charles Finney arminiano

 

A Bíblia relata uma infinidade de situações usadas por Deus para manifestar Sua vontade e Sua presença. A conversão de um dos maiores pregadores avivalistas de todos os tempos, o americano Charles Grandison Finney (1792-1875), não chega a ser “estarrecedora” se comparada, por exemplo, ao episódio narrado nas Escrituras, no qual Deus fez falar a mula de Balaão. No entanto, não se pode dizer que seja “natural” alguém entregar-se a Jesus após a leitura exaustiva de livros de Direito, contendo citações bíblicas. Foi exatamente isso que aconteceu com o então advogado Charles Finney.

Daquele momento em diante, tudo em sua vida seria incomum. Conta-se que, após uma de suas pregações em Governeur, no estado de Nova Iorque, não houve baile ou representações teatrais por quase seis anos, tamanha a força das palavras proferidas pelo chamado apóstolo do avivamento. Ao longo de todo seu ministério pela América, calcula-se que cerca de 500 mil pessoas aceitaram ao Senhor.

 

História

 

Finney nasceu em Warren, estado de Connecticut, no dia 29 de agosto de 1792. Dois anos depois, sua família foi para a cidade de Hanover, em Nova Iorque. Seus pais não eram convertidos ao Evangelho, e a única imagem religiosa que tinha na adolescência era a de uma igreja conservadora e fria. Em 1821, após ler muitos livros de Direito, cujas leis eram fundamentadas na Bíblia, ele decidiu conhecer as Escrituras. Em uma tarde fria, Finney saiu para dar um passeio nos bosques. Lembrando-se dos exemplos do Livro Sagrado, procurou estar a sós com Deus. Ajoelhado em oração, Finney entregou-se a Jesus após travar uma batalha interior: Achei-me tomado por uma fraqueza e não consegui ficar em pé. Tive vergonha de que alguém me encontrasse ali, de joelhos, e logo em desespero percebi o que me impedia de entregar meu coração ao Senhor: meu orgulho. Fui vencido pela convicção do pecado. E me arrependi. Durante todo seu processo de aprendizado e mais tarde em seu ministério, Finney manteve os princípios que aprendeu nos anos em que esteve na advocacia.

Ele queria entender a profundidade dos problemas da humanidade, usar sua fantástica oratória para falar de Jesus e estudar a Bíblia com uma visão racional e prática. Por causa disso, Finney teve dificuldades para compreender por que as bênçãos não chegavam ao povo de Deus: Ao ler a Bíblia, ao assistir as reuniões de oração, e ouvir os sermões do pregador, percebi que não me achava pronto a entrar nos céus. Fiquei impressionado especialmente com o ato das orações dos cristãos, semana após semana, não serem respondidas. Li na Bíblia: Pedi e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Li também, que Deus está mais pronto a dar o Espírito Santo aos que Lho pedirem, do que os pais terrestres a darem boas coisas aos filhos. Mas, ao ler mais a Bíblia, vi que as orações dos cristãos não eram respondidas porque não tinham fé, isto é, não esperavam que Deus lhes desse o que pediram. Entretanto, com isso senti um alívio acerca da veracidade do Evangelho, contou ele anos mais tarde em sua autobiografia.

 

Ministro do Evangelho

 

Em 1823, Finney se tornou ministro do Evangelho na Igreja Presbiteriana de Saint Lawrence, e iniciou, no ano seguinte, o processo conhecido nos livros de história como “o fogo dos nove anos,” entre 1824 e 1832. Naquele período, ele administrou reuniões de reavivamento ao longo das chamadas cidades orientais: Gouverneur, Roma, Utica, Ruivo, Troy, Wilmington, Filadélfia, Boston e Nova Iorque. Durante as reuniões, advogados, médicos e homens de negócios se arrependiam de seus pecados e se entregavam a Jesus com lágrimas. Em Rochester, diz-se que o lugar foi estremecido até as suas fundações, e cerca de 1.200 pessoas converteram-se a Cristo. Boa parte delas tornou-se membro da Igreja Presbiteriana daquela cidade. Finney abriu o caminho para evangelistas de massa como Dwight L. Moody, Billy Sunday entre outros.

Finney ficou viúvo duas vezes e teve três esposas. Casou-se com Lydia Raiz Andrews, com quem teve seis filhos. Ela morreu em 1847. Depois, casou-se com Elizabeth Ford Atkinson, que também faleceu, e, por último, Rebecca Allen Rayl. As três compartilharam do trabalho de reavivamento, acompanhando-o nas viagens e nos ministérios paralelos.

 

Obra teológica

 

Em 1832, Finney começou a pastorear uma igreja presbiteriana em Nova Iorque, ao mesmo tempo em que era evangelista em cidades mais distantes. Três anos depois, um comerciante de seda, rico e benfeitor, Arthur Tappan, ofereceu apoio financeiro ao recém fundado Instituto Colegial Oberlin naquela cidade, desde que Finney fosse convidado a montar um departamento teológico. Por influência do abolicionista Theodore Dwight Solda, o pregador aceitou o convite, mas com duas exigências: a de continuar pregando a Palavra de Deus em Nova Iorque e a de que a escola admitisse negros. Assim foi feito.

Mais tarde, o colégio passou a chamar-se Seminário Teológico Oberlin. Naquele estabelecimento, Finney foi professor de teologia sistemática e teologia pastoral. Durante os 40 anos em que atuou como evangelista, escreveu 17 livros, quatro deles impressos até hoje. O mais significativo deles foi, sem dúvida, Teologia Sistemática, considerado por muitos a maior obra sobre Teologia escrita após as Escrituras. Vítima de um problema cardíaco, o professor e apóstolo apaixonado por Jesus faleceu em 1875.

Fonte: Revista Graça, ano 2, nº 22 – maio/2001 - Fonte: Arminianismo.com